domingo, 1 de março de 2026
O Canalha
Arnold
| Hoje, Arnold é nome de rua |
O dia em que Arnold foi Roberto
Drummond
Tito
Guimarães Filho e Caio Brandão (*)
“Se houver uma camisa branca e preta pendurada no varal durante
uma tempestade, o Atleticano torce
contra o vento”.
Roberto Drummond
Enorme, grandalhão, cicatrizes de
violências perdidas no rosto e sem memória das brigas e sem um pedaço da
orelha, Arnold Evangelista ia além da diagramação de um jornal. Eu o observava
com orgulho de ser seu amigo. E ele era um amigo de muitos amigos e amigo até
mesmo de nossos inimigos.
Irrelevante.
Arnold era fiel, verdadeiro.
Com as mulheres era mais
verdadeiro que fiel, dizia o que queria e sua vida foi um amar continuado. Ao
seu lado, paravam amigos talentosos, homens brilhantes, o poder. Arnold
trafegava seu corpo e suas paixões. No seu meio, os homens que mais brilhavam e
eram sucesso, como seus amigos, o reconheciam apenas pelo seu talento
complementar. Arnold sabia fazer o que ele precisava fazer. Um artista na
diagramação de jornais.
Aventurava nas artes dos amigos e
se arriscava. Muitas vezes errou, muitas vezes acertou. Foi assim com o seu
amigo o escritor Roberto Drumond, já vitorioso homem de letras, ainda não no
estrelato das novelas e casos especiais nacionais.
Roberto reverenciado como cronista
no maior jornal do Estado, um sucesso. Crônicas saborosas e muito lidas. Um
sucesso.
Sobre Roberto e Arnold conto o que
sei. E o que sei foi, neste caso, um dos sucessos de Arnold. O erro fica pro
final da história.
O escritor quando entrava na
redação percorria, na realidade, o cenário da fama. Não aquele externo, onde os
aplausos são fartos. O cenário interno, a redação, o cenário dos colegas, os
que o admiravam e os que dominavam a inveja.
Arnold o admirava menos pelas qualidades literárias, do que pelas
qualidades junto a uma imensa galera de mulheres apaixonadas. Neste ponto, o Arnold
cedia e era um grande invejoso.
“Jamais me arriscaria a escrever
uma linha, uma palavra sequer, para disputar com o Roberto. Não teria vez. Ele
escreve com a caneta muito melhor do que eu, dos que nós todos. Disputo com ele
na outra caneta, aí eu aposto, eu sei escrever muito bem e ganharia todas, se
as condições não fossem tão desfavoráveis e, para piorar, eu sei que sou muito
feio mesmo”....
Até que um dia, sem mais nem
menos, a ficha caiu.
Absorto no trabalho, em horário de
fechamento do jornal, horário em que ele era mais requisitado, correndo de um
lado para o outro, em diálogos rápidos, o telefone toca.
- É da redação?
-
É da redação.
Aquela voz, Arnold jamais
esqueceria, uma voz suave, leve, uma mudança de som no meio daquela confusão e
daquela fenomenal barulheira da redação.
.
Uma voz feminina, suave e firme.
-
É da redação?
Ele tremeu todo e, imediatamente,
desligou-se do barulho, gritos, ordens e correrias da redação.
-
É, é sim, é da redação.
-
Eu queria falar com Roberto Drumond.
Arnold não hesitou. Não vacilou.
-
É ele que está falando.
-
É o Roberto Drumond?
-
Sim, sou eu, às suas ordens. Como é o seu nome?
-
Angélica. Angélica Almeida. Eu moro aqui, em Belo Horizonte, li
hoje a sua crônica e estou apaixonada. Liguei para dizer que gosto muito de
você, sempre gostei. Hoje, você foi maravilhoso. Está de parabéns e continue
assim.
Arnold buscou sobre a mesa um
exemplar do dia e abriu apressado na página de futebol, onde estava a crônica
de Roberto Drumond. Passou os olhos rapidamente.
-
Obrigado, Angélica, eu escrevi pensando na importância da rosa
para todos nós, para as pessoas. O cheiro da rosa é um cheio mais do que
especial, você não concorda? A memória do cheiro nos traz de volta muitas vezes
uma rosa especial, aquela que levamos para uma namorada, para uma pessoa em um
momento especial. Este cheiro é de uma rosa, mas de uma rosa especial. Foi isto
o que aconteceu depois daquele lance defendido pelo Raul, ele soube, como um
atleta, ir ao coração das mulheres.
-
Era isto, uma boa noite.
-
Boa noite, Angélica. Caso, você queira voltar a ligar, ligue
direto para este número e neste horário. Estou sempre aqui e será um prazer
falar, te ouvir e eu gosto da opinião de quem lê com o coração.
-
Eu voltarei a ligar.
No dia seguinte e nos outros dias,
àquela hora os dois falavam. Arnold montou um esquema para evitar que o
telefone acabasse caindo na mesa do Roberto. Dias depois, conseguiu que ela
desse o seu número e ele ficou mais seguro ligando para ela.
Um mês depois se encontraram,
almoçaram e, no dia seguinte, iniciaram uma série de encontros no apartamento
de Nelson e nos motéis da BR 040. Consolidaram uma relação agradável e prazerosa.
Arnold andava nas nuvens. Apaixonado. Angustiado. A qualquer momento poderia
perder a mulher.
“Ela é a mulher da minha vida, mas
tudo é mentira, eu não sou o Roberto Drumond”.
Porque ele não conversava
claramente com ela. Já tinham ido longe o suficiente para que ela pudesse
avaliar o que acontecera. Ele não perderia, nem ela, disto eu tinha certeza.
“Mas ela é apaixonada pelo
escritor, pelo que o Roberto escreve, pelo talento, pelas histórias, pelas
palavras”.
-
Roberto sabe disto?
-
Não.
Um não grande, retumbante. Um não
sem convicção.
Duas horas da madrugada, na praça
estávamos só nós dois. Ele voltava de um encontro com Angélica e de um fim de
turno.
-
Decidi, ela não vai saber nunca, se depender de mim. Vou viver até
o último momento sem pensar em perdê-la e quando isto acontecer... tudo bem.
Fomos jantar e no restaurante,
Roberto Drumond estava sentado com um grupo, onde duas mulheres linda o
cercavam.
-
Como elas são belas?
Arnold concordou e ao sentar, pôs
as mãos no meu ombro.
-
Meu amigo, eu posso lhe dizer isto, ela, Angélica, é muito mais
bonita do que todas aquelas mulheres que estão na mesa do Roberto.
Roberto nos cumprimentou, pois
olhávamos direto para a sua mesa.
*
Duas semanas depois, Arnold,
nervoso, indeciso, angustiado e sem saber o que faria. Roberto recusara
atender, como sempre fazia, uma sugestão de tema para a sua crônica diária.
-
Porra, este Roberto é um puto, já cansei de dar-lhe uns temas
fodões para escrever. Agora que eu mais preciso dele, mija fora do penico. Não
dá. Desse jeito não dá.
Arnold tenso e agitado era um
perigo. Descemos para tomar um café. Eu tentaria resolver a questão com o
Roberto.
-
Pô, eu prometi para a Angélica que amanhã eu falaria sobre o caso
do garoto que sonhava em jogar com uma bola vermelha.
-
Falaria?
-
Escreveria. Es-cre-ve-ria... Não encha, pô. Esqueceu, eu sou o
Roberto Drumond, será que você esqueceu mesmo. Eu como a mulher que o Roberto
deveria estar comendo e que é uma puta de uma mulher gostosa e que eu não quero
perder por nada deste mundo.
-
Calma!
-
Não posso mais ter calma. Ela já liga a qualquer hora para a
redação e acabará dando de cara com o Roberto. Já imaginou. Alô, quem fala? É o
Roberto... pronto tudo vai por água a baixo.
-
Vamos conversar com o Roberto, ele entenderá e vai te apoiar.
-
Ficou louco?
-
Ele me tomará a mulher. Num... nada. Nem. Nem. Nem. Esqueça,
esqueça.
Tempos depois, Arnold me disse que
engatara outra do Roberto.
-
Mesmo esquema e já está funcionando. Esta chama-se Marta e é uma
professora de literatura e quer que eu vá até a escola.
-
Uma professora de literatura! Você ficou louco, ela conhece o
Roberto, lógico que conhece. Conhece de foto, sabe quem ele é e como ele é.
-
Vou conferir. Desconfio que a Angélica conhecia Roberto Drummond.
Conferirei mais esta – insistiu.
-
Você ficou louco.
-
Roberto não tem tanto pau para tantas mulheres apaixonadas por
ele. Estou apenas dando cobertura a um amigo e à sua fama e talento.
O fato é que, realmente, não deu certo. Marta conhecia Roberto Drumond de foto, tinha fotos dele e
reportagens sobre ele guardadas. Isto, entretanto, não impediu que ela passasse
a se encontrar com Arnold e a pedir para que ele intermediasse a ida do Roberto
à escola.
Angélica continuava com o seu romance com Arnold/Roberto Drumond
ainda sob a corda bamba. Ela chegava a um ponto em que poderia ter um desfecho
e tudo voltaria ao normal.
Até que um dia...
O jornal anunciara que haveria uma
palestra de Roberto Drumond no Instituto de Educação sobre a literatura
brasileira. Angélica anunciou, categórica, eu vou estar na platéia para
ouvi-lo. Arnold tremeu pela primeira vez. A palestra seria na segunda-feira.
Tinha três dias. Foi no jornal e pediu férias.
“Vou viver com tudo o que eu tenho
direito nestes meus três últimos dias com Angélica”.
Passou cedo na casa dela e ficaram
dois dias no motel, depois foram para Tiradentes e voltaram direto para o
Instituto de Educação. Ele a deixou na porta.
-
Tenho que me afastar de você agora. Vou lá para a frente, tenho
que subir no palco. A entrada é pelo outro lado. Ouça-me e depois comente
comigo as coisas que vamos debater lá.
Arnold afastou-se.
Ela entrou e sentou numas das
primeiras filas.
Ele foi para a galeria, de onde a
observava.
As pessoas ocuparam o seu lugar no
palco, entre elas, Roberto Drumond.
A apresentadora falou sobre sua
obra e a importância de sua literatura.
Arnold ouvia confusamente tudo o
que estava sendo dito. Não tirava o olho de Angélica e de todos os seus
movimentos.
Roberto Drumond pegou o microfone
e começou a falar. Ela não se movia. Era uma estátua, branca, transparente.
Arnold chorou. Entrou no banheiro
e chorou chamando a atenção da segurança.
Controlando-se, saiu para uma
longa caminhada na noite.
Subiu a avenida Afonso Pena até
que uma dor no pé esquerdo o obrigou a parar.
Parou, sublimou a dor que, ademais, não era forte, e levantou o
olhar para o sinaleiro, um conjunto de lâmpadas com boné, viradas em diversas
direções, orientando o ir e vir no cruzamento da Afonso Pena com Contorno. As
luzes do semáforo, curiosamente, estavam todas vermelhas e piscantes,
sinalizando orientação confusa que fazia do tráfego algo caótico.
Arnold não era místico, nem temente a Deus, um mero pecador cujos
temores não iam além dos seus próprios erros e sacrifícios. Curioso, ele fixou
o olhar naquelas luzes vermelhas, que piscavam juntas e erráticas e, pela
primeira vez traduziu uma circunstância como mensagem vinda de algum lugar,
quem sabe de outro mundo e concluiu:
"Parei, não dá mais, cheguei no meu limite.".
(*) Tito Guimarães Filho e Caio Brandão são jornalistas
Rua Arnold Evangelista Teixeira - Conjunto Residencial Lagoa Santa - Lagoa Santa, MG
sábado, 28 de fevereiro de 2026
UNIDADE CLÁUDIA CAPÍTULO 6
IDADE DA
RAZÃO
O Colegiado e a Carne
Lucília Lopes e Tito Guimarães Filho
A
universidade subia o morro em curvas, como a avenida onde revi Josafá naquele
fim de tarde indeciso. Era mais do que arquitetura: era metáfora. Cada curva
parecia repetir nossos desvios, nossos cruzamentos inevitáveis. Aquela instituição
era o nosso último reduto. Entre um colegiado e outro, discutíamos não apenas
verbas ou métodos pedagógicos, mas o próprio sentido de ainda estarmos vivos
depois de tudo.
Se
no capítulo anterior a Universidade apareceu como território de luta e desejo,
agora ela se revela como o ponto onde esses dois impulsos se enroscam sem
pudor.
Para
Bolívar, a universidade era uma estrutura de poder — um organismo que precisava
de ossatura firme para não colapsar. Ele acreditava na solidez das normas, na
hierarquia bem desenhada, na linguagem precisa dos documentos oficiais. A
ordem, para ele, era a única forma de proteger o sonho.
Para
Cláudia, a universidade era palco e laboratório. Conhecimento e sedução não
eram opostos; eram forças complementares. Ela sabia que o pensamento precisa de
fricção para não virar dogma. Sabia também que sua presença — intelectual e
física — produzia deslocamentos. E nunca fingiu ignorar isso.
Para
nós, os “homens sensíveis” — Josafá, eu e outros sobreviventes das sombras —
aquela universidade era o único lugar onde nosso passado ainda parecia ter
algum brilho. Erguemos aquelas paredes com o mesmo vigor com que amávamos a
mesma mulher: com a urgência de quem sabe que o tempo é um carrasco e que a
vida pode ser interrompida sem aviso.
O
Conselho Universitário era o coração burocrático e político da instituição.
Ali, memória da resistência, projeto acadêmico e desejo carnal se comprimiam
num mesmo ar denso, saturado de fumaça de cigarro e termos técnicos.
O
salão estava impregnado de um silêncio tenso, cortado apenas pelo ventilador de
teto que empurrava o calor de abril de um lado a outro. Bolívar presidia a mesa
com a rigidez de um busto de bronze. Falava sobre “estratificação do saber” e
“estrutura orgânica para a nova faculdade”. Era o discurso da
universidade-instituição, a linguagem que transforma sonho em estatuto.
Sentada
à esquerda dele, Cláudia não tomava notas. Girava uma caneta entre os dedos, os
olhos fixos em um ponto impreciso da parede. Mas era como se ocupasse mais
espaço do que a própria mesa. Sua inteligência era afiada; seu silêncio,
calculado.
Do
outro lado, Carlos — o mesmo das escapadas de final de semana — fingia examinar
um relatório técnico. A postura era impecável. Sob a mesa de jacarandá, porém,
sua perna avançava milímetro por milímetro, testando o limite do espaço de
Cláudia. O gesto não era bruto; era consciente, quase metódico, como quem sabe
exatamente onde pisa.
—
A universidade não pode ser um apêndice do Estado — dizia Bolívar, com a voz
carregada de solenidade. — Deve ser a unidade de pensamento que sobrevive às
crises.
Cláudia
inclinou-se para frente, interrompendo-o sem pedir licença. O vestido de linho
acompanhou o movimento, insinuando curvas que não pediam aprovação. Josafá e
eu, sentados ao fundo, trocamos um olhar rápido — não de escândalo, mas de
reconhecimento. Conhecíamos aquela energia. Era a mesma que enfrentara
interrogadores décadas antes.
—
A unidade que você propõe, Bolívar, é asséptica demais — disse ela, a voz
rouca, firme. — Uma escola só é real se for atravessada pela vida. Se não
houver risco, o que estamos construindo é um museu.
A
palavra risco pairou na sala.
Sob
a mesa, o sapato de Carlos tocou o tornozelo de Cláudia. Subiu devagar,
explorando com precisão um território já mapeado. Ela não recuou. Manteve os
olhos fixos no marido, sustentando o argumento com lucidez impecável. Apenas um
leve tensionar da mandíbula denunciava a corrente elétrica que lhe subia pelas
pernas.
Bolívar
ajustou os óculos. Se percebeu o desafio, escolheu enquadrá-lo como divergência
teórica.
—
Estamos discutindo currículos, Cláudia. Diretrizes objetivas.
Ela
não sorriu.
—
Estamos discutindo corpos, Bolívar. — A palavra saiu sem hesitação. — A
universidade é o lugar onde expropriamos o silêncio que nos impuseram. Se aqui
dentro não pudermos experimentar liberdade — em todos os sentidos — então o que
estamos defendendo é apenas fachada.
Quando
pronunciou o nome de Josafá, evocando os anos de prisão, o ar pareceu
rarefeito. Ele, no fundo da sala, sentiu novamente os passos cadenciados que o
levaram às celas. E viu, naquela mesa, a síntese estranha do nosso projeto: o
marido que dava a institucionalidade, o amante que alimentava o fogo e a mulher
que costurava tudo com sentido político.
Carlos
passou a mão pela testa, o rosto discretamente suado. Havia nele uma fome que
nada tinha de acadêmica. Bolívar retomou a leitura da pauta, falando de
orçamentos e prazos.
Mas
a verdadeira votação acontecia em outro plano.
Ali
estava a nossa Unidade: amor, poder, memória e desejo enlaçados sem pureza. A
universidade era construída naquele exato instante — entre um conceito de
liberdade e um toque clandestino sob a mesa pesada. Entre o discurso que
organizava o mundo e a carne que lembrava que o mundo também pulsa.
E
talvez fosse essa mistura — essa liga de atração entre ideias e corpos — que
tornava tudo tão perigoso e tão vivo.