domingo, 1 de março de 2026

O Canalha

ÉRAMOS DOZE, AGORA SOMOS QUATRO Alberto Sena (*) Éramos doze na Editoria de Polícia do jornal Estado de Minas, na década de 1970. Acaso fôssemos reunir hoje a turma de excepcionais colegas de equipe chefiada por Wander Piroli, poderíamos contar com a minha presença física e de mais três, Tito Guimarães Filho, Arnaldo Viana e Paulo Narciso. Sete dos doze já não mais estão no meio de nós, mas de alguma maneira certamente estariam presentes: Wander, Paulo Lott, Fialho Pacheco, Vargas Vilaça, André Carvalho, Délio Rocha, Marcos Andrade e desde a noite deste seis do mês junino de fogueiras de São João, João Gabriel da Silva Pinto, intrépido repórter, também fez a passagem, em Itaúna (MG), segundo me informou o jornalista e escritor Tito Guimarães. Grande companheiro João Gabriel! Por esses dias me lembrei e ainda perguntei ao Tito se tinha notícias dele, grande admirador de Ernest Hemingway e Guimarães Rosa. Voltou para a terra natal, Itaúna, onde trabalhava na Prefeitura Municipal. Tinha o número do celular dele na minha agenda antiga, fiz uma ligação, mas uma voz feminina gravada disse “esse número não existe”. Fiz nova tentativa numa incursão virtual, mas não obtive êxito e então me envolvi com outras coisas e vim agora saber ter ele partido e só nos restaram as lembranças. Uma das marcantes coberturas realizadas por João Gabriel, foi o caso do abandono de 90 crianças presas (como se crianças pudessem ser presas) em São Paulo e abandonadas em Camanducaia (MG). João Gabriel foi lá e produziu reportagens de grande conteúdo político e socioeconômico que fez dele um dos melhores repórteres dessa safra, com texto brilhante, que bem demonstrava as suas origens simples. “Wander se referia com orgulho a este trabalho realizado pelo “canalha”, acho que era assim “carinhosamente” que ele se referia ao “João, o “filho do carroceiro”, dono de faro e excelente texto jornalístico”, como lembra Tito e eu também. Essa nossa convivência durou eternos sete anos, quando então fui viver pouco mais de um ano em Viçosa (MG) e Wander foi convidado a criar o Jornal de Shopping, um semanário para concorrer com o Jornal de Casa, do qual fui convidado a participar. Corria o ano de 1980. A exaltada Editoria de Polícia do Estado de Minas se dispersou naturalmente como manda o figurino do destino de cada um. Claro que ainda me encontrei com João Gabriel noutras paragens, como o jornal Hoje em Dia. De uns anos para cá não mais vi João Gabriel. E para lembrar uma das muitas reportagens feitas em parceria, tenho fresquinha na memória a nossa caçada frustrada ao Ramiro Matildes Siqueira, apelidado “Bandido da Cartucheira”. Disse “nossa caçada” porque acompanhávamos a polícia nessa incursão. Os policiais em suas respectivas viaturas e nós em carro de reportagem. Passamos a noite dentro dos carros para surpreendermos Ramiro logo cedo. Ele estaria escondido numa grota. João e eu íamos quase sem respirar para não fazer barulho, em meio à um bananal, quando um beija-flor nos assustou ao passar zunindo por nossos ouvidos. E quando estávamos numa trilha e nos aproximando da grota, um policial acidentalmente fez disparar o rifle. Se Ramiro ali estivesse, teria dado no pé. Um policial fez dois ou três disparos para dentro da grota, só para constar porque por ali não passara nem o espectro do “Bandido da Cartucheira”. Ao companheiro João Gabriel, aplausos, meus respeitos e considerações. Certamente, teve uma boa recepção ao atravessar o túnel e se acha na luz eterna. LUTO NA IMPRENSA Morre João Gabriel da Silva Pinto 08 de junho de 2022 Foi sepultado ontem, em Itaúna, Centro de Minas, sua cidade natal, o corpo do jornalista João Gabriel da Silva Pinto. Com marcante passagem pelo Estado de Minas e Rádio Guarani, ele completaria 73 anos no próximo dia 15. João Gabriel começou a carreira na Folha do Oeste e, depois de passagens pelo Itaunense e Brechor, transferiu-se para Belo Horizonte. Atuou no Diário de Minas antes de ingressar no Grande Jornal dos Mineiros, no qual alcançou o ápice da carreira como repórter e subeditor da Editora de Polícia. Conquistou, em 1977, o Prêmio Esso de Reportagem, em equipe, com a cobertura da morte do operário Jorge Defensor, preso e torturado pela Polícia Civil. Trabalhou ainda nas rádios Guarani e Guarani Rural. Nas emissoras dos Associados, fez importantes coberturas de alcance social e acompanhou a visita do papa João Paulo II à capital mineira. Gabriel foi ainda profissional da Rádio Educadora de Coronel Fabriciano, jornal Hoje em Dia e Rádio Inconfidência Rural. Ele não resistiu a um câncer. (*) Alberto Sena é jornalista

Arnold



 

Hoje, Arnold é nome de rua

 

 

 




O dia em que Arnold foi Roberto Drummond

 

Tito Guimarães Filho e Caio Brandão (*)

 

 

“Se houver uma camisa branca e preta pendurada no varal durante uma tempestade, o Atleticano torce

 contra o vento”.

 

Roberto Drummond

 

 

 

     

Enorme, grandalhão, cicatrizes de violências perdidas no rosto e sem memória das brigas e sem um pedaço da orelha, Arnold Evangelista ia além da diagramação de um jornal. Eu o observava com orgulho de ser seu amigo. E ele era um amigo de muitos amigos e amigo até mesmo de nossos inimigos.

 

 

Irrelevante.

 

 

Arnold era fiel, verdadeiro.

 

 

Com as mulheres era mais verdadeiro que fiel, dizia o que queria e sua vida foi um amar continuado. Ao seu lado, paravam amigos talentosos, homens brilhantes, o poder. Arnold trafegava seu corpo e suas paixões. No seu meio, os homens que mais brilhavam e eram sucesso, como seus amigos, o reconheciam apenas pelo seu talento complementar. Arnold sabia fazer o que ele precisava fazer. Um artista na diagramação de jornais.

 

 

Aventurava nas artes dos amigos e se arriscava. Muitas vezes errou, muitas vezes acertou. Foi assim com o seu amigo o escritor Roberto Drumond, já vitorioso homem de letras, ainda não no estrelato das novelas e casos especiais nacionais.

 

 

Roberto reverenciado como cronista no maior jornal do Estado, um sucesso. Crônicas saborosas e muito lidas. Um sucesso.

 

 

Sobre Roberto e Arnold conto o que sei. E o que sei foi, neste caso, um dos sucessos de Arnold. O erro fica pro final da história.

 

 

O escritor quando entrava na redação percorria, na realidade, o cenário da fama. Não aquele externo, onde os aplausos são fartos. O cenário interno, a redação, o cenário dos colegas, os que o admiravam e os que dominavam a inveja.  Arnold o admirava menos pelas qualidades literárias, do que pelas qualidades junto a uma imensa galera de mulheres apaixonadas. Neste ponto, o Arnold cedia e era um grande invejoso.

 

 

“Jamais me arriscaria a escrever uma linha, uma palavra sequer, para disputar com o Roberto. Não teria vez. Ele escreve com a caneta muito melhor do que eu, dos que nós todos. Disputo com ele na outra caneta, aí eu aposto, eu sei escrever muito bem e ganharia todas, se as condições não fossem tão desfavoráveis e, para piorar, eu sei que sou muito feio mesmo”....

       

 

Até que um dia, sem mais nem menos, a ficha caiu.

 

Absorto no trabalho, em horário de fechamento do jornal, horário em que ele era mais requisitado, correndo de um lado para o outro, em diálogos rápidos, o telefone toca.

 

 

-    É da redação?

 

 

-         É da redação.

 

 

Aquela voz, Arnold jamais esqueceria, uma voz suave, leve, uma mudança de som no meio daquela confusão e daquela fenomenal barulheira da redação.

.

    Uma voz feminina, suave e firme.

 

-         É da redação?

 

     Ele tremeu todo e, imediatamente, desligou-se do barulho, gritos, ordens e correrias da redação.

 

-         É, é sim, é da redação.

 

-         Eu queria falar com Roberto Drumond.

 

 

   Arnold não hesitou. Não vacilou.

 

-         É ele que está falando.

 

-         É o Roberto Drumond?

 

-         Sim, sou eu, às suas ordens. Como é o seu nome?

 

-         Angélica. Angélica Almeida. Eu moro aqui, em Belo Horizonte, li hoje a sua crônica e estou apaixonada. Liguei para dizer que gosto muito de você, sempre gostei. Hoje, você foi maravilhoso. Está de parabéns e continue assim.

 

Arnold buscou sobre a mesa um exemplar do dia e abriu apressado na página de futebol, onde estava a crônica de Roberto Drumond. Passou os olhos rapidamente.

 

-         Obrigado, Angélica, eu escrevi pensando na importância da rosa para todos nós, para as pessoas. O cheiro da rosa é um cheio mais do que especial, você não concorda? A memória do cheiro nos traz de volta muitas vezes uma rosa especial, aquela que levamos para uma namorada, para uma pessoa em um momento especial. Este cheiro é de uma rosa, mas de uma rosa especial. Foi isto o que aconteceu depois daquele lance defendido pelo Raul, ele soube, como um atleta, ir ao coração das mulheres.

 

-         Era isto, uma boa noite.

 

-         Boa noite, Angélica. Caso, você queira voltar a ligar, ligue direto para este número e neste horário. Estou sempre aqui e será um prazer falar, te ouvir e eu gosto da opinião de quem lê com o coração.

 

-         Eu voltarei a ligar.

 

No dia seguinte e nos outros dias, àquela hora os dois falavam. Arnold montou um esquema para evitar que o telefone acabasse caindo na mesa do Roberto. Dias depois, conseguiu que ela desse o seu número e ele ficou mais seguro ligando para ela.

   

Um mês depois se encontraram, almoçaram e, no dia seguinte, iniciaram uma série de encontros no apartamento de Nelson e nos motéis da BR 040. Consolidaram uma relação agradável e prazerosa. Arnold andava nas nuvens. Apaixonado. Angustiado. A qualquer momento poderia perder a mulher.

 

“Ela é a mulher da minha vida, mas tudo é mentira, eu não sou o Roberto Drumond”.

 

Porque ele não conversava claramente com ela. Já tinham ido longe o suficiente para que ela pudesse avaliar o que acontecera. Ele não perderia, nem ela, disto eu tinha certeza.

 

“Mas ela é apaixonada pelo escritor, pelo que o Roberto escreve, pelo talento, pelas histórias, pelas palavras”.

 

-         Roberto sabe disto?

 

-         Não.

 

Um não grande, retumbante. Um não sem convicção.

    

Duas horas da madrugada, na praça estávamos só nós dois. Ele voltava de um encontro com Angélica e de um fim de turno.

 

-         Decidi, ela não vai saber nunca, se depender de mim. Vou viver até o último momento sem pensar em perdê-la e quando isto acontecer... tudo bem.

 

Fomos jantar e no restaurante, Roberto Drumond estava sentado com um grupo, onde duas mulheres linda o cercavam.

 

-         Como elas são belas?

 

Arnold concordou e ao sentar, pôs as mãos no meu ombro.

 

-         Meu amigo, eu posso lhe dizer isto, ela, Angélica, é muito mais bonita do que todas aquelas mulheres que estão na mesa do Roberto.

 

Roberto nos cumprimentou, pois olhávamos direto para a sua mesa.

 

 

                                                          *

 

    

Duas semanas depois, Arnold, nervoso, indeciso, angustiado e sem saber o que faria. Roberto recusara atender, como sempre fazia, uma sugestão de tema para a sua crônica diária.

 

-         Porra, este Roberto é um puto, já cansei de dar-lhe uns temas fodões para escrever. Agora que eu mais preciso dele, mija fora do penico. Não dá. Desse jeito não dá.

 

Arnold tenso e agitado era um perigo. Descemos para tomar um café. Eu tentaria resolver a questão com o Roberto.

 

-         Pô, eu prometi para a Angélica que amanhã eu falaria sobre o caso do garoto que sonhava em jogar com uma bola vermelha.

 

-         Falaria?

 

-         Escreveria. Es-cre-ve-ria... Não encha, pô. Esqueceu, eu sou o Roberto Drumond, será que você esqueceu mesmo. Eu como a mulher que o Roberto deveria estar comendo e que é uma puta de uma mulher gostosa e que eu não quero perder por nada deste mundo.

 

-         Calma!

 

-         Não posso mais ter calma. Ela já liga a qualquer hora para a redação e acabará dando de cara com o Roberto. Já imaginou. Alô, quem fala? É o Roberto... pronto tudo vai por água a baixo.

 

-         Vamos conversar com o Roberto, ele entenderá e vai te apoiar.

 

-         Ficou louco?

 

-         Ele me tomará a mulher. Num... nada. Nem. Nem. Nem. Esqueça, esqueça. 

 

Tempos depois, Arnold me disse que engatara outra do Roberto.

 

-         Mesmo esquema e já está funcionando. Esta chama-se Marta e é uma professora de literatura e quer que eu vá até a escola.

 

-         Uma professora de literatura! Você ficou louco, ela conhece o Roberto, lógico que conhece. Conhece de foto, sabe quem ele é e como ele é.

 

-         Vou conferir. Desconfio que a Angélica conhecia Roberto Drummond. Conferirei mais esta – insistiu.

 

-         Você ficou louco.

 

-         Roberto não tem tanto pau para tantas mulheres apaixonadas por ele. Estou apenas dando cobertura a um amigo e à sua fama e talento.

 

O fato é que, realmente, não deu certo. Marta conhecia  Roberto Drumond de foto, tinha fotos dele e reportagens sobre ele guardadas. Isto, entretanto, não impediu que ela passasse a se encontrar com Arnold e a pedir para que ele intermediasse a ida do Roberto à escola.

 

Angélica continuava com o seu romance com Arnold/Roberto Drumond ainda sob a corda bamba. Ela chegava a um ponto em que poderia ter um desfecho e tudo voltaria ao normal.

 

Até que um dia...

    

O jornal anunciara que haveria uma palestra de Roberto Drumond no Instituto de Educação sobre a literatura brasileira. Angélica anunciou, categórica, eu vou estar na platéia para ouvi-lo. Arnold tremeu pela primeira vez. A palestra seria na segunda-feira. Tinha três dias. Foi no jornal e pediu férias.

 

“Vou viver com tudo o que eu tenho direito nestes meus três últimos dias com Angélica”.

 

Passou cedo na casa dela e ficaram dois dias no motel, depois foram para Tiradentes e voltaram direto para o Instituto de Educação. Ele a deixou na porta.

 

-         Tenho que me afastar de você agora. Vou lá para a frente, tenho que subir no palco. A entrada é pelo outro lado. Ouça-me e depois comente comigo as coisas que vamos debater lá.

 

Arnold afastou-se.

 

Ela entrou e sentou numas das primeiras filas.

 

Ele foi para a galeria, de onde a observava.

 

As pessoas ocuparam o seu lugar no palco, entre elas, Roberto Drumond.  

 

A apresentadora falou sobre sua obra e a importância de sua literatura.

 

Arnold ouvia confusamente tudo o que estava sendo dito. Não tirava o olho de Angélica e de todos os seus movimentos.

 

Roberto Drumond pegou o microfone e começou a falar. Ela não se movia. Era uma estátua, branca, transparente.

 

Arnold chorou. Entrou no banheiro e chorou chamando a atenção da segurança.

 

Controlando-se, saiu para uma longa caminhada na noite.

 

Subiu a avenida Afonso Pena até que uma dor no pé esquerdo o obrigou a parar. 

 

Parou, sublimou a dor que, ademais, não era forte, e levantou o olhar para o sinaleiro, um conjunto de lâmpadas com boné, viradas em diversas direções, orientando o ir e vir no cruzamento da Afonso Pena com Contorno. As luzes do semáforo, curiosamente, estavam todas vermelhas e piscantes, sinalizando orientação confusa que fazia do tráfego algo caótico.

 

Arnold não era místico, nem temente a Deus, um mero pecador cujos temores não iam além dos seus próprios erros e sacrifícios. Curioso, ele fixou o olhar naquelas luzes vermelhas, que piscavam juntas e erráticas e, pela primeira vez traduziu uma circunstância como mensagem vinda de algum lugar, quem sabe de outro mundo e concluiu:

 

"Parei, não dá mais, cheguei no meu limite.".

 

 

 

(*) Tito Guimarães Filho e Caio Brandão são jornalistas

 

 

 Hoje é nome de rua em Lagoa Santa

Rua Arnold Evangelista Teixeira - Conjunto Residencial Lagoa Santa - Lagoa Santa, MG 

 

 

 

sábado, 28 de fevereiro de 2026

UNIDADE CLÁUDIA CAPÍTULO 6









 

IDADE DA RAZÃO


O Colegiado e a Carne


Lucília Lopes e Tito Guimarães Filho

 

 

 

 

 

 

A universidade subia o morro em curvas, como a avenida onde revi Josafá naquele fim de tarde indeciso. Era mais do que arquitetura: era metáfora. Cada curva parecia repetir nossos desvios, nossos cruzamentos inevitáveis. Aquela instituição era o nosso último reduto. Entre um colegiado e outro, discutíamos não apenas verbas ou métodos pedagógicos, mas o próprio sentido de ainda estarmos vivos depois de tudo.

 

Se no capítulo anterior a Universidade apareceu como território de luta e desejo, agora ela se revela como o ponto onde esses dois impulsos se enroscam sem pudor.

 

Para Bolívar, a universidade era uma estrutura de poder — um organismo que precisava de ossatura firme para não colapsar. Ele acreditava na solidez das normas, na hierarquia bem desenhada, na linguagem precisa dos documentos oficiais. A ordem, para ele, era a única forma de proteger o sonho.

 

Para Cláudia, a universidade era palco e laboratório. Conhecimento e sedução não eram opostos; eram forças complementares. Ela sabia que o pensamento precisa de fricção para não virar dogma. Sabia também que sua presença — intelectual e física — produzia deslocamentos. E nunca fingiu ignorar isso.

 

Para nós, os “homens sensíveis” — Josafá, eu e outros sobreviventes das sombras — aquela universidade era o único lugar onde nosso passado ainda parecia ter algum brilho. Erguemos aquelas paredes com o mesmo vigor com que amávamos a mesma mulher: com a urgência de quem sabe que o tempo é um carrasco e que a vida pode ser interrompida sem aviso.

 

O Conselho Universitário era o coração burocrático e político da instituição. Ali, memória da resistência, projeto acadêmico e desejo carnal se comprimiam num mesmo ar denso, saturado de fumaça de cigarro e termos técnicos.

 

O salão estava impregnado de um silêncio tenso, cortado apenas pelo ventilador de teto que empurrava o calor de abril de um lado a outro. Bolívar presidia a mesa com a rigidez de um busto de bronze. Falava sobre “estratificação do saber” e “estrutura orgânica para a nova faculdade”. Era o discurso da universidade-instituição, a linguagem que transforma sonho em estatuto.

 

Sentada à esquerda dele, Cláudia não tomava notas. Girava uma caneta entre os dedos, os olhos fixos em um ponto impreciso da parede. Mas era como se ocupasse mais espaço do que a própria mesa. Sua inteligência era afiada; seu silêncio, calculado.

 

Do outro lado, Carlos — o mesmo das escapadas de final de semana — fingia examinar um relatório técnico. A postura era impecável. Sob a mesa de jacarandá, porém, sua perna avançava milímetro por milímetro, testando o limite do espaço de Cláudia. O gesto não era bruto; era consciente, quase metódico, como quem sabe exatamente onde pisa.

 

— A universidade não pode ser um apêndice do Estado — dizia Bolívar, com a voz carregada de solenidade. — Deve ser a unidade de pensamento que sobrevive às crises.

 

Cláudia inclinou-se para frente, interrompendo-o sem pedir licença. O vestido de linho acompanhou o movimento, insinuando curvas que não pediam aprovação. Josafá e eu, sentados ao fundo, trocamos um olhar rápido — não de escândalo, mas de reconhecimento. Conhecíamos aquela energia. Era a mesma que enfrentara interrogadores décadas antes.

 

— A unidade que você propõe, Bolívar, é asséptica demais — disse ela, a voz rouca, firme. — Uma escola só é real se for atravessada pela vida. Se não houver risco, o que estamos construindo é um museu.

 

A palavra risco pairou na sala.

 

Sob a mesa, o sapato de Carlos tocou o tornozelo de Cláudia. Subiu devagar, explorando com precisão um território já mapeado. Ela não recuou. Manteve os olhos fixos no marido, sustentando o argumento com lucidez impecável. Apenas um leve tensionar da mandíbula denunciava a corrente elétrica que lhe subia pelas pernas.

Bolívar ajustou os óculos. Se percebeu o desafio, escolheu enquadrá-lo como divergência teórica.

 

— Estamos discutindo currículos, Cláudia. Diretrizes objetivas.

 

Ela não sorriu.

 

— Estamos discutindo corpos, Bolívar. — A palavra saiu sem hesitação. — A universidade é o lugar onde expropriamos o silêncio que nos impuseram. Se aqui dentro não pudermos experimentar liberdade — em todos os sentidos — então o que estamos defendendo é apenas fachada.

 

Quando pronunciou o nome de Josafá, evocando os anos de prisão, o ar pareceu rarefeito. Ele, no fundo da sala, sentiu novamente os passos cadenciados que o levaram às celas. E viu, naquela mesa, a síntese estranha do nosso projeto: o marido que dava a institucionalidade, o amante que alimentava o fogo e a mulher que costurava tudo com sentido político.

 

Carlos passou a mão pela testa, o rosto discretamente suado. Havia nele uma fome que nada tinha de acadêmica. Bolívar retomou a leitura da pauta, falando de orçamentos e prazos.

 

Mas a verdadeira votação acontecia em outro plano.

 

Ali estava a nossa Unidade: amor, poder, memória e desejo enlaçados sem pureza. A universidade era construída naquele exato instante — entre um conceito de liberdade e um toque clandestino sob a mesa pesada. Entre o discurso que organizava o mundo e a carne que lembrava que o mundo também pulsa.

 

E talvez fosse essa mistura — essa liga de atração entre ideias e corpos — que tornava tudo tão perigoso e tão vivo.