IDADE DA
RAZÃO
O Colegiado e a Carne
Lucília Lopes e Tito Guimarães Filho
A
universidade subia o morro em curvas, como a avenida onde revi Josafá naquele
fim de tarde indeciso. Era mais do que arquitetura: era metáfora. Cada curva
parecia repetir nossos desvios, nossos cruzamentos inevitáveis. Aquela instituição
era o nosso último reduto. Entre um colegiado e outro, discutíamos não apenas
verbas ou métodos pedagógicos, mas o próprio sentido de ainda estarmos vivos
depois de tudo.
Se
no capítulo anterior a Universidade apareceu como território de luta e desejo,
agora ela se revela como o ponto onde esses dois impulsos se enroscam sem
pudor.
Para
Bolívar, a universidade era uma estrutura de poder — um organismo que precisava
de ossatura firme para não colapsar. Ele acreditava na solidez das normas, na
hierarquia bem desenhada, na linguagem precisa dos documentos oficiais. A
ordem, para ele, era a única forma de proteger o sonho.
Para
Cláudia, a universidade era palco e laboratório. Conhecimento e sedução não
eram opostos; eram forças complementares. Ela sabia que o pensamento precisa de
fricção para não virar dogma. Sabia também que sua presença — intelectual e
física — produzia deslocamentos. E nunca fingiu ignorar isso.
Para
nós, os “homens sensíveis” — Josafá, eu e outros sobreviventes das sombras —
aquela universidade era o único lugar onde nosso passado ainda parecia ter
algum brilho. Erguemos aquelas paredes com o mesmo vigor com que amávamos a
mesma mulher: com a urgência de quem sabe que o tempo é um carrasco e que a
vida pode ser interrompida sem aviso.
O
Conselho Universitário era o coração burocrático e político da instituição.
Ali, memória da resistência, projeto acadêmico e desejo carnal se comprimiam
num mesmo ar denso, saturado de fumaça de cigarro e termos técnicos.
O
salão estava impregnado de um silêncio tenso, cortado apenas pelo ventilador de
teto que empurrava o calor de abril de um lado a outro. Bolívar presidia a mesa
com a rigidez de um busto de bronze. Falava sobre “estratificação do saber” e
“estrutura orgânica para a nova faculdade”. Era o discurso da
universidade-instituição, a linguagem que transforma sonho em estatuto.
Sentada
à esquerda dele, Cláudia não tomava notas. Girava uma caneta entre os dedos, os
olhos fixos em um ponto impreciso da parede. Mas era como se ocupasse mais
espaço do que a própria mesa. Sua inteligência era afiada; seu silêncio,
calculado.
Do
outro lado, Carlos — o mesmo das escapadas de final de semana — fingia examinar
um relatório técnico. A postura era impecável. Sob a mesa de jacarandá, porém,
sua perna avançava milímetro por milímetro, testando o limite do espaço de
Cláudia. O gesto não era bruto; era consciente, quase metódico, como quem sabe
exatamente onde pisa.
—
A universidade não pode ser um apêndice do Estado — dizia Bolívar, com a voz
carregada de solenidade. — Deve ser a unidade de pensamento que sobrevive às
crises.
Cláudia
inclinou-se para frente, interrompendo-o sem pedir licença. O vestido de linho
acompanhou o movimento, insinuando curvas que não pediam aprovação. Josafá e
eu, sentados ao fundo, trocamos um olhar rápido — não de escândalo, mas de
reconhecimento. Conhecíamos aquela energia. Era a mesma que enfrentara
interrogadores décadas antes.
—
A unidade que você propõe, Bolívar, é asséptica demais — disse ela, a voz
rouca, firme. — Uma escola só é real se for atravessada pela vida. Se não
houver risco, o que estamos construindo é um museu.
A
palavra risco pairou na sala.
Sob
a mesa, o sapato de Carlos tocou o tornozelo de Cláudia. Subiu devagar,
explorando com precisão um território já mapeado. Ela não recuou. Manteve os
olhos fixos no marido, sustentando o argumento com lucidez impecável. Apenas um
leve tensionar da mandíbula denunciava a corrente elétrica que lhe subia pelas
pernas.
Bolívar
ajustou os óculos. Se percebeu o desafio, escolheu enquadrá-lo como divergência
teórica.
—
Estamos discutindo currículos, Cláudia. Diretrizes objetivas.
Ela
não sorriu.
—
Estamos discutindo corpos, Bolívar. — A palavra saiu sem hesitação. — A
universidade é o lugar onde expropriamos o silêncio que nos impuseram. Se aqui
dentro não pudermos experimentar liberdade — em todos os sentidos — então o que
estamos defendendo é apenas fachada.
Quando
pronunciou o nome de Josafá, evocando os anos de prisão, o ar pareceu
rarefeito. Ele, no fundo da sala, sentiu novamente os passos cadenciados que o
levaram às celas. E viu, naquela mesa, a síntese estranha do nosso projeto: o
marido que dava a institucionalidade, o amante que alimentava o fogo e a mulher
que costurava tudo com sentido político.
Carlos
passou a mão pela testa, o rosto discretamente suado. Havia nele uma fome que
nada tinha de acadêmica. Bolívar retomou a leitura da pauta, falando de
orçamentos e prazos.
Mas
a verdadeira votação acontecia em outro plano.
Ali
estava a nossa Unidade: amor, poder, memória e desejo enlaçados sem pureza. A
universidade era construída naquele exato instante — entre um conceito de
liberdade e um toque clandestino sob a mesa pesada. Entre o discurso que
organizava o mundo e a carne que lembrava que o mundo também pulsa.
E
talvez fosse essa mistura — essa liga de atração entre ideias e corpos — que
tornava tudo tão perigoso e tão vivo.