sábado, 28 de fevereiro de 2026

Unidade Cláudia 1 e 2

 



IDADE DA RAZÃO 


Capítulo 1

O Peso da Pisada

 Lucília Lopes e Tito Guimarães Filho


Josafá vinha em minha direção, atravessando a névoa clara daquela manhã de abril. Ainda marcávamos nossos encontros com a antecedência de quem viveu sob relógios clandestinos — como se a pontualidade fosse o último resquício de disciplina que o tempo não conseguiu apagar.

Seus passos eram firmes, quase geométricos, cortando a avenida vazia. Havia algo de militar naquela cadência, algo de sobrevivente.

— Eu caminho com cuidado — dizia ele, com um sorriso que nunca chegava aos olhos.

Lembrava-me do meu avô Juca, que recusava bengalas como quem recusa a derrota. “Quem pisa firme não precisa de apoio”, repetia. Mas a firmeza de Josafá não era orgulho. Era cálculo. Cada metro do mundo já lhe fora negado por dez anos, em três metros quadrados de cela.

No cruzamento das avenidas, a figura dele tornava-se mais nítida. A figura sempre se revela. A alma, não. A alma prefere o silêncio.

Eu o esperava com uma pergunta antiga, que me corroía: o que levara aquele homem a amar Cláudia daquela maneira — silenciosa e devastadora? Talvez não fosse apenas amor por ela. Talvez fosse amor por uma ideia: aquela da universidade que erguíamos no alto do morro, tijolo por tijolo, entre uma citação acadêmica e um beijo roubado.

Hoje conto isso porque Marcos morreu. E, com ele, caiu a última parede de silêncio. A morte dele abriu um espaço onde o silêncio já não faz sentido. Amávamos a mesma mulher. Nunca disputamos. Nunca confessamos. Carregamos essa verdade como se fosse mais uma disciplina clandestina.

No enterro de Cláudia, não fomos rivais. Fomos dois homens abraçados àquilo que restava.

Talvez ele soubesse. Talvez sempre soubesse. Há amizades que sobrevivem justamente porque escolhem não perguntar.




Capítulo 2 

O Resgate de Maria Berenice

          Lucília Lopes e Tito Guimarães Filho


Ele parou por um instante, como se voltasse a sentir o cheiro do mofo e do medo.
01-02-2026 


— Eu sempre procurei me manter em condições de sair — relatava Josafá, enquanto subíamos a avenida principal em curva. 


Seus passos eram firmes, uma resistência física que desafiava o céu nublado de abril. 


— Precisava estar pronto para recuperar o tempo que me roubaram naqueles três metros quadrados. Uma cela vazia, Marcos. Só uma cama e o eco do meu próprio pensamento.


Ele parou por um instante, como se voltasse a sentir o cheiro do mofo e do medo.


— Conheci o MAR, Movimento Armado Nacionalista, em uma ação de expropriação no Rio de Janeiro. Para os banqueiros, era assalto. Para nós, era o financiamento da liberdade. Emitíamos recibos, entende? O valor exato, assinado. Era nossa dignidade. Minha função naquela manhã era a cobertura. O plano foi perfeito. Nenhum disparo, nenhuma gota de sangue. Mas o verdadeiro teste veio 48 horas depois.


Josafá descreveu o “ponto” de encontro. Marcos apareceu com uma missão: encaminhar uma passageira para fora do Brasil. O nome de código dele era Joãozinho. O dela, Maria Berenice


— Ela não era a Cláudia que você conheceu no conselho universitário — disse Josafá, abaixando o tom. 

— Ela era uma menina de medicina. Destroçada. Tinha sido presa em Goiás, torturada até o limite do humano, e resgatada de um hospital pelo seu grupo Marcos. Lembra? Ela tremia tanto que o carro parecia vibrar junto.


Ele me contou como a observava pelo retrovisor. Maria Berenice — a Cláudia — não era uma mulher naquele momento. Era uma criança ferida, escondida atrás de uma beleza que a dor não conseguira apagar.


— Eu disse a ela que pegasse uns bombons na sacola. Tentávamos ser sensíveis, entende? Tínhamos experiência com o pânico alheio, mas o medo dela era contagioso. Era um medo perigoso, desses que entregam o jogo num estalar de dedos. 


Tivemos que tirá-la da primeira “célula” antes do tempo. Ela era uma ferida aberta cruzando as fronteiras do país.


Décadas depois, aquela mesma menina subia ao palco de uma conferência internacional. Josafá estava lá, no fundo da sala, assistindo à metamorfose. Onde havia tremor, agora havia firmeza. Onde havia silêncio, agora havia convicções que silenciavam a plateia. Ela era outra. Era mais bela, porque agora sua beleza tinha o aço da sobrevivência.


— Ela não nos reconheceu — Josafá sorriu, um sorriso amargo. — Ou fingiu que não reconhecia. Nós fôramos, como ela escreveu depois em seus livros, apenas “uns homens sensíveis”.


Naquela noite, Josafá encontrou Marcos em um bar. Beberam vinho e riram da própria irrelevância histórica.


— Uns homens sensíveis! — disse o Homem Sensível Número 1 para o Homem Sensível Número 2.


A piada era o nosso escudo. Ríamos para não chorar o fato de que a mulher que ajudáramos a reconstruir agora caminhava de braços dados com o Doutor Bolívar Agustini. Ela entrava no restaurante imenso, cercada pela pompa da universidade, e passava por nossa mesa como se fôssemos apenas parte da mobília de um passado que ela decidira exilar longe mesmo do seu exílio na Europa.


A entrada de Bolívar na vida de Cláudia não foi um ato de sedução, mas um ato de curadoria. Ele não a conquistou pelo corpo, mas pela promessa de uma estrutura onde ela pudesse, finalmente, deixar de ser uma fugitiva para se tornar uma instituição.


Aqui está o detalhamento desse momento, onde a segurança institucional de Bolívar se impõe sobre o caos dos “homens sensíveis”.


Lucília Lopes e Tito Guimarães Filho são jornalistas