sábado, 28 de fevereiro de 2026

UNIDADE CLÁUDIA CAPÍTULO 5

 






IDADE DA RAZÃO


A Universidade como território 

de luta e desejo


LUCÍLIA LOPES E TITO GUIMARÃES FILHO


Se nos anos 60/70 tentaram mudar o Estado, enfrentando a brutalidade da repressão,

 nos anos 80/90 a aposta desloca-se: 

constroem um microcosmo de inteligência e liberdade.

 

Idade da Razão imagem criada por IA/DM

O reencontro não terminou no abraço contido da conferência nem nas conversas atravessadas por fumaça e memórias. Ele encontrou continuidade concreta naquilo que os três haviam começado a erguer: a Universidade.

 

Cláudia surgira no imaginário daqueles homens como corpo soberano e pensamento indomável, mas ela trazia também a realidade das paredes, corredores e salas de aula.

 

A mistura de que a Universidade não é feita apenas de concreto e currículos, mas como a extensão do sonho revolucionário que não pôde ser realizado pelas armas. Se nos anos 60/70 tentaram mudar o Estado, enfrentando a brutalidade da repressão, nos anos 80/90 a aposta desloca-se: constroem um microcosmo de inteligência e liberdade. Não mais a tomada do poder, mas a invenção de um espaço onde o poder pudesse ser criticado, desmontado, reimaginado.

 

A Universidade surge, assim, como território físico e simbólico.

 

Parecia uma dessas instituições de interior ou de vanguarda onde a vida acadêmica e a vida privada se confundem inevitavelmente. Corredores de pedra, salas de portas sempre entreabertas, reuniões que avançam noite adentro. Era a “Aldeia” de onde Cláudia nunca quis sair. Ali todos se observam, todos sabem — ou pensam que sabem — da vida alheia. Os rumores circulam com a mesma velocidade que os artigos científicos.

 

Neste cenário, os escândalos afetivos de Cláudia ecoam com facilidade. Não porque sejam espetaculares, mas porque desafiam o pacto silencioso da respeitabilidade. E é aí que a figura do doutor Bolívar se impõe como contraponto: ele encarna a ordem institucional, o discurso ponderado, a estabilidade necessária para que o projeto não se dissolva. Tenta conter, com elegância, o que chama de excessos — ainda que saiba que boa parte da energia fundadora da Universidade venha justamente desse excesso.

 

Não por acaso, muitos passaram a chamá-la, meio em tom de ironia, meio em reconhecimento, de “A Unidade Cláudia”. A escola nascera da iniciativa e do entusiasmo dela, de sua capacidade de mobilizar, de incendiar debates, de convencer os indecisos. A própria Cláudia personificava a instituição. Ela era a experiência viva de uma escola que se queria nova — menos hierárquica, menos hipócrita, menos temerosa.

 

A construção dessa Universidade é indissociável das relações afetivas que a atravessam. O desejo não acontece à margem; ele pulsa junto com a instituição. Uma entrega apressada no intervalo do almoço, um encontro que começa em discussão teórica e termina em respiração ofegante — tudo isso ocorre enquanto a Universidade respira, cresce, se afirma. Não como vulgaridade, mas como metáfora: a instituição é um organismo vivo, movido por hormônios, ideias ousadas e pela necessidade urgente de reconstruir o humano depois da barbárie da ditadura.

 

É aí que os conflitos de geração e de ideais se tornam visíveis — e quase corporais. Josafá e seus antigos companheiros carregam a Universidade no pensamento, no mesmo sonho e com os mesmos heróis. Para eles, o projeto ainda guarda algo de épico, de romântico. Falam em legado, em memória, em coerência histórica.

 

Cláudia, ao contrário, traz a Universidade para o gesto prático. Sua pesquisa, sua didática, sua presença em sala revelam a firmeza e a segurança de quem sobreviveu ao pior e agora domina o discurso. Ela não mitifica o passado; transforma-o em método. Ensina com a autoridade de quem sabe que teoria sem corpo é abstração confortável.

 

E, no entanto, o contraste persiste: de um lado, a Universidade sonhada — quase sagrada, heroica, redentora; de outro, a Universidade real, onde a vida irrompe sem pedir licença. Enquanto colegas discutem políticas acadêmicas, há mãos que se aproximam demais, corpos que se roçam no espaço estreito de uma sala, o desejo que insiste em lembrar que ninguém é apenas função ou título.

 

O choque entre a sacralidade do projeto educativo e a profanidade inevitável da vida cotidiana não é acidente; é constitutivo. A Universidade que nasceu para libertar não pode fingir pureza. Ela carrega, nas suas fundações, a marca de homens e mulheres que atravessaram extremos — e que agora experimentam, com intensidade semelhante, a reconstrução.

 

O que começa a se delinear, porém, é uma tensão mais profunda. Se a Universidade é território de luta e desejo, até que ponto suportará que ambos caminhem lado a lado? E quando o desejo deixar de ser metáfora e se tornar problema institucional?

 

As fissuras ainda são discretas. Mas, já percorrem os corredores. E, como toda aldeia, a Universidade saberá — antes mesmo de admitir — que algo está prestes a exigir escolhas.

 






UNIDADE CLÁUDIA Capítulo 4







IDADE DA RAZÃO

 

Capítulo 4

 

O Reencontro

 

Lucília Lopes e Tito Guimarães Filho

 



 

Depois das sombras e das cicatrizes que marcaram a existência de Cláudia até agora — a prisão, os interrogatórios, o corpo reduzido à condição de resistência — o reencontro não poderia ser banal. Josafá e Marcos chegaram à conferência carregando a memória daquela Cláudia dos anos 70: magra, elétrica, atravessada por convicções e silêncios forçados. Esperavam encontrar a sobrevivente. Encontraram outra coisa.

 

A mulher que reapareceu diante deles não era apenas uma acadêmica brilhante, citada em mesas-redondas e disputada por departamentos. Era uma que parecia ter pressa. Pressa de viver as vidas que lhe haviam sido suspensas. Se antes seu corpo fora território de dor e resistência política, agora era espaço de afirmação — uma liberdade que beirava o indomável.

 

Havia nela uma intensidade nova, mas reconhecível. O mesmo olhar firme que enfrentara generais agora atravessava auditórios e pessoas com igual destemor. A diferença é que já não se tratava apenas de sobreviver. Tratava-se de experimentar.

 

Bolívar, o marido oficial, compunha a moldura institucional desta nova fase. Era ele quem ancorava a “doutora Cláudia”: congressos, publicações, reuniões estratégicas sobre o futuro da universidade. Ao lado dele, ela parecia sólida, respeitável, incontestável. Mas esta era apenas uma das camadas.

 

Por trás da formalidade acadêmica e do discurso rigoroso, havia uma Cláudia subterrânea — não clandestina, mas íntima. Uma mulher que não confundia estabilidade com pertencimento. Para ela, “unidade” nunca significou exclusividade. A ideia de posse lhe soava como eco das celas estreitas, onde até o próprio corpo parecia ter dono.

 

Sua liberdade afetiva não era descuido nem frivolidade. Era elaboração. Como se cada encontro fosse uma resposta tardia ao confinamento. Não se tratava de escândalo, mas de coerência: o mesmo princípio que a levava a defender autonomia intelectual a impedia de aceitar fronteiras impostas à própria pele.

 

O sexo, para Cláudia, nunca esteve à margem da política. Era sua continuação mais concreta. Não havia discurso emancipatório que sobrevivesse à prática da submissão íntima. Por isso, ela não pertencia a Bolívar, nem a Josafá, nem a Marcos. Pertencia ao próprio desejo — um desejo que não pedia licença à pequena “aldeia” universitária onde todos se conheciam, mas poucos se enxergavam de verdade.

 

Josafá sentiu o impacto primeiro como admiração, depois como vertigem. Ele reconhecia nela a militante que enfrentara o Estado, mas agora havia algo mais expansivo, provocador. Marcos, mais contido, percebeu o deslocamento: a Cláudia que retornava não caberia facilmente nas expectativas de outrora.

 

Foi nesse intervalo — entre uma mesa de debates e o cigarro aceso no fim da noite — que ela começou a me contar como esta liberdade se materializava. Falava sem metáforas desnecessárias, sem pedir absolvição. Como quem narra um gesto de retomada. Cada palavra parecia retirar mais um tijolo das antigas paredes.

 

E é aqui que a Universidade deixa de ser pano de fundo e passa a ocupar o centro da narrativa.

 

Para compreendê-la, é preciso enxergá-la não como geografia, mas como projeto de utopia. Ela nasce do “amor que constrói” — expressão que, entre Cláudia, Josafá e Marcos, nunca foi sentimentalismo. Era o amor como força produtiva, como escolha de mundo. Depois de terem visto o que o autoritarismo faz com corpos e ideias, decidiram criar um espaço onde ambos pudessem respirar.

 

A Universidade era, ao mesmo tempo, continuidade e ruptura. Continuidade da militância por outros meios; ruptura com o passado de silêncio imposto. E, assim como Cláudia, ela nascia marcada pela recusa à domesticação.

 

O reencontro, portanto, não foi apenas entre três pessoas. Foi entre memórias e futuros possíveis. Entre a mulher que resistiu e a mulher que agora se permitia desejar sem culpa, o que era perfeitamente aceitável na nova Cláudia. Entre o sonho coletivo e as tensões que ele inevitavelmente carregaria.

 

No final daquela conferência, quando os aplausos já haviam cessado e os corredores estavam quase vazios, ficou claro que nada voltaria a ser simples. O passado não estava encerrado — apenas transformado. E o projeto que começava a ganhar forma carregaria, desde o início, a mesma pergunta que pulsava no corpo de Cláudia: como construir algo comum sem abdicar da própria liberdade?

 

Essa pergunta ainda não tinha resposta. Mas já exigia consequências.

 

 


UNIDADE CLÁUDIA CAPÍTULO 3

 







IDADE DA RAZÃO

 

Capítulo 3

 

O Arquiteto de Abrigos

A Chegada de Bolívar

 

Lucília Lopes e Tito Guimarães Filho

 

 

 

Bolívar Agustini não pertencia ao mundo das “células” ou dos bancos expropriados. Ele era o homem dos corredores de mármore e dos gabinetes com cheiro de encadernação em couro. Um arquiteto de abrigos — não de trincheiras. Enquanto outros sobreviviam no improviso, ele construía estruturas. Onde havia risco, ele desenhava estabilidade.

 

Quando conheceu Cláudia, ela era uma exilada recém-retornada, uma mulher que ainda olhava por cima do ombro ao atravessar a rua, apesar da anistia. Havia nela um estado de alerta permanente — não fragilidade, mas memória viva. O corpo aprende a sobreviver antes mesmo que a mente consiga descansar.

 

Ele a viu pela primeira vez em um simpósio de saúde pública. O auditório era frio demais, como se a neutralidade científica exigisse temperatura baixa. Enquanto os outros debatedores se escondiam atrás de gráficos, Bolívar observava o que não estava nas lâminas projetadas.

 

A pausa antes de cada resposta.

O cuidado na escolha das palavras.

A respiração que precisava ser domada.

 

Mas foi a maneira como ela segurava o microfone que o atingiu.

 

Os dedos marcados pela pressão, como se aquele objeto fosse uma âncora — algo que a mantinha presente, ali, inteira. Ela falava com firmeza. E a firmeza era conquista, não ornamento.

 

No café após o evento, ele se aproximou sem pressa. Não havia jogo, não havia insinuação. Havia interesse real.

 

— Você fala como quem ainda espera ser interrompida por um grito.

 

Não foi um elogio. Foi reconhecimento.

 

Cláudia não se sentiu exposta; sentiu-se vista. E há uma diferença imensa entre as duas coisas.

 

Ele não tentava decifrá-la para reduzi-la. Queria compreendê-la para dialogar. E isso, para alguém que aprendera a se proteger o tempo inteiro, era quase desconcertante.

 

Bolívar ofereceu a Cláudia algo que nem Josafá, com seu cuidado silencioso, nem Marcos, com sua paixão ardente, haviam conseguido oferecer: um espaço legítimo de reconstrução.

 

Ele falava de projetos, de novos cursos, de políticas públicas, de orçamento aprovado. Falava de futuro com naturalidade — como se o amanhã fosse um território concreto, não uma hipótese frágil.

 

Cortejou-a com convites para colaborar, com a possibilidade de liderar pesquisas, com a confiança pública no trabalho dela. Não a colocou sob sua sombra; ofereceu-lhe uma plataforma.

 

Para Cláudia, Bolívar era o anestesista — não porque apagasse sua dor, mas porque a ajudava a torná-la narrável. Ele não diminuía o que ela havia vivido. Transformava em campo de estudo, em produção de conhecimento, em voz.

 

Onde antes havia um porão escuro, ele ajudava a abrir janelas.

 

Ele lhe ofereceu uma mesa ampla, uma equipe, um cargo que levava sua assinatura. E, quando vieram as alianças, elas não pesavam como contenção, mas como pacto.

 

Ainda assim, pactos também delimitam.

 

Casar-se com Bolívar foi, para ela, o último movimento da fuga — não de si mesma, mas do caos que a perseguia. Ao lado dele, ela não precisava mais ser Maria Berenice, a que tremia no banco de trás de um carro contando postes na estrada para organizar o medo. Ao lado dele, ela era a Doutora Cláudia Agustini. Agora ganhara identidade.

 

Nome completo.

Título conquistado.

Lugar reconhecido.

 

Bolívar sabia que não abarcava toda a complexidade dela. E não pretendia. Ele respeitava a história que o antecedia. Não competia com fantasmas; aceitava que eles existiam.

 

O que ele oferecia era moldura. Estrutura. Continência.

 

Entrava na vida dela como quem organiza um acervo delicado: não para controlar, mas para preservar. Catalogava conquistas, criava arquivos de segurança, estabelecia rotinas que funcionavam como trilhos — não como grades.

 

Na noite do casamento, quando a casa recém-habitada ainda ecoava passos, Cláudia apoiou a testa no peito dele.

 

— Você é o meu porto.

 

Ele respirou fundo antes de responder.

 

— Eu sou o lugar por onde você escolhe atravessar. O mundo continua seu.

 

Não havia frieza ali. Havia consciência de limites. Bolívar não prometia completude. Prometia parceria.

 

E, durante um tempo, isso bastou.

 

Mas até a estabilidade pode cansar quando se transforma em silêncio demais. Não um silêncio opressor — apenas um silêncio liso, contínuo, sem fissuras.

 

A perfeição, quando muito polida, às vezes não deixa espaço para o inesperado.

 

Se Bolívar era o silêncio do mármore, Carlos seria o ruído da carne — não como invasão, mas como lembrança. Lembrança de que o corpo também tem memória, e que nem toda reconstrução acontece na linguagem acadêmica.

 

Carlos não entraria pedindo licença. Surgiria no intervalo. Na fresta quase invisível entre uma reunião e outra, entre uma agenda organizada e um suspiro contido.

 

Não era descuido de Bolívar. Era humanidade de Cláudia.

 

Porque há uma fome que nasce justamente quando tudo está sob controle.

Há um desejo de sentir-se imprevisível quando a vida se torna exemplar.

 

É nesse espaço — entre o reconhecimento e o vazio sutil — que a pele começa a lembrar o que o mármore não alcança.

 

A Doutora Cláudia, sólida, respeitada, inteira.

 

E, sob essa solidez, Maria Berenice.

 

Não frágil.

Não submissa.

Mas viva demais para caber apenas na moldura.

 

E é dessa vida pulsante que a próxima fissura vai nascer.

 

 

 

Unidade Cláudia 1 e 2

 



IDADE DA RAZÃO 


Capítulo 1

O Peso da Pisada

 Lucília Lopes e Tito Guimarães Filho


Josafá vinha em minha direção, atravessando a névoa clara daquela manhã de abril. Ainda marcávamos nossos encontros com a antecedência de quem viveu sob relógios clandestinos — como se a pontualidade fosse o último resquício de disciplina que o tempo não conseguiu apagar.

Seus passos eram firmes, quase geométricos, cortando a avenida vazia. Havia algo de militar naquela cadência, algo de sobrevivente.

— Eu caminho com cuidado — dizia ele, com um sorriso que nunca chegava aos olhos.

Lembrava-me do meu avô Juca, que recusava bengalas como quem recusa a derrota. “Quem pisa firme não precisa de apoio”, repetia. Mas a firmeza de Josafá não era orgulho. Era cálculo. Cada metro do mundo já lhe fora negado por dez anos, em três metros quadrados de cela.

No cruzamento das avenidas, a figura dele tornava-se mais nítida. A figura sempre se revela. A alma, não. A alma prefere o silêncio.

Eu o esperava com uma pergunta antiga, que me corroía: o que levara aquele homem a amar Cláudia daquela maneira — silenciosa e devastadora? Talvez não fosse apenas amor por ela. Talvez fosse amor por uma ideia: aquela da universidade que erguíamos no alto do morro, tijolo por tijolo, entre uma citação acadêmica e um beijo roubado.

Hoje conto isso porque Marcos morreu. E, com ele, caiu a última parede de silêncio. A morte dele abriu um espaço onde o silêncio já não faz sentido. Amávamos a mesma mulher. Nunca disputamos. Nunca confessamos. Carregamos essa verdade como se fosse mais uma disciplina clandestina.

No enterro de Cláudia, não fomos rivais. Fomos dois homens abraçados àquilo que restava.

Talvez ele soubesse. Talvez sempre soubesse. Há amizades que sobrevivem justamente porque escolhem não perguntar.




Capítulo 2 

O Resgate de Maria Berenice

          Lucília Lopes e Tito Guimarães Filho


Ele parou por um instante, como se voltasse a sentir o cheiro do mofo e do medo.
01-02-2026 


— Eu sempre procurei me manter em condições de sair — relatava Josafá, enquanto subíamos a avenida principal em curva. 


Seus passos eram firmes, uma resistência física que desafiava o céu nublado de abril. 


— Precisava estar pronto para recuperar o tempo que me roubaram naqueles três metros quadrados. Uma cela vazia, Marcos. Só uma cama e o eco do meu próprio pensamento.


Ele parou por um instante, como se voltasse a sentir o cheiro do mofo e do medo.


— Conheci o MAR, Movimento Armado Nacionalista, em uma ação de expropriação no Rio de Janeiro. Para os banqueiros, era assalto. Para nós, era o financiamento da liberdade. Emitíamos recibos, entende? O valor exato, assinado. Era nossa dignidade. Minha função naquela manhã era a cobertura. O plano foi perfeito. Nenhum disparo, nenhuma gota de sangue. Mas o verdadeiro teste veio 48 horas depois.


Josafá descreveu o “ponto” de encontro. Marcos apareceu com uma missão: encaminhar uma passageira para fora do Brasil. O nome de código dele era Joãozinho. O dela, Maria Berenice


— Ela não era a Cláudia que você conheceu no conselho universitário — disse Josafá, abaixando o tom. 

— Ela era uma menina de medicina. Destroçada. Tinha sido presa em Goiás, torturada até o limite do humano, e resgatada de um hospital pelo seu grupo Marcos. Lembra? Ela tremia tanto que o carro parecia vibrar junto.


Ele me contou como a observava pelo retrovisor. Maria Berenice — a Cláudia — não era uma mulher naquele momento. Era uma criança ferida, escondida atrás de uma beleza que a dor não conseguira apagar.


— Eu disse a ela que pegasse uns bombons na sacola. Tentávamos ser sensíveis, entende? Tínhamos experiência com o pânico alheio, mas o medo dela era contagioso. Era um medo perigoso, desses que entregam o jogo num estalar de dedos. 


Tivemos que tirá-la da primeira “célula” antes do tempo. Ela era uma ferida aberta cruzando as fronteiras do país.


Décadas depois, aquela mesma menina subia ao palco de uma conferência internacional. Josafá estava lá, no fundo da sala, assistindo à metamorfose. Onde havia tremor, agora havia firmeza. Onde havia silêncio, agora havia convicções que silenciavam a plateia. Ela era outra. Era mais bela, porque agora sua beleza tinha o aço da sobrevivência.


— Ela não nos reconheceu — Josafá sorriu, um sorriso amargo. — Ou fingiu que não reconhecia. Nós fôramos, como ela escreveu depois em seus livros, apenas “uns homens sensíveis”.


Naquela noite, Josafá encontrou Marcos em um bar. Beberam vinho e riram da própria irrelevância histórica.


— Uns homens sensíveis! — disse o Homem Sensível Número 1 para o Homem Sensível Número 2.


A piada era o nosso escudo. Ríamos para não chorar o fato de que a mulher que ajudáramos a reconstruir agora caminhava de braços dados com o Doutor Bolívar Agustini. Ela entrava no restaurante imenso, cercada pela pompa da universidade, e passava por nossa mesa como se fôssemos apenas parte da mobília de um passado que ela decidira exilar longe mesmo do seu exílio na Europa.


A entrada de Bolívar na vida de Cláudia não foi um ato de sedução, mas um ato de curadoria. Ele não a conquistou pelo corpo, mas pela promessa de uma estrutura onde ela pudesse, finalmente, deixar de ser uma fugitiva para se tornar uma instituição.


Aqui está o detalhamento desse momento, onde a segurança institucional de Bolívar se impõe sobre o caos dos “homens sensíveis”.


Lucília Lopes e Tito Guimarães Filho são jornalistas





sábado, 17 de janeiro de 2026

 

Quando o trabalho 


da noite acaba

 



 

 




 Rufino Fialho Filho



As moças passam na praça cheia de gente,

 

São três moças, vestem iguais

 

o mesmo terninho

 

São tão parecidas.

 

Uma fala que os homens são todos iguais.

 

Outra fica para trás e depois é chamada,

 

quando ele se afasta, ela aparece.

 

Gorda, pequena, já com os seus 60 anos,

 

conversam e caminham juntos.

 

Ela coloca algumas coisas no bolso do paletó.

 

Ele alerta.

 

Diz que ali aquelas coisas não poderiam ficar.,

 

É perigoso e alguém poderia roubá-las,

 

é um cartão de crédito, um papel

 

 e um pedaço de plástico que não identifica.

 

Coloca no bolsinho de frente do terno.

 

É mais seguro,

 

Caminham na direção dos hotéis e pensões da zona.

 

Poderiam ir para o apartamento dele ou para o dela,

 

Ela fala baixinho e repete, várias vezes:

 

- Vamos mamar!

 

- Vamos mamar?

 

Seguem em direção ao hotel.

 

Ele lembrou de outra mulher.

 

Transavam, ali mesmo, na zona.

 

 Esperava ela acabar de foder,

 

ganhar a vida, para que eles saíssem

 

e comessem alguma coisa.

 

Papeavam no restaurante,

 

ela bebia cerveja,

 

depois iam para um motel, amar,

 

raramente transavam no quarto da zona

 

local de trabalho.