terça-feira, 27 de julho de 2010

UM OUTRO BANQUETE


Para Platão







Pernas que eles tinham




presas, na certeza


pernas, as quatro pernas


do animal deitado


que não caminha


e é veloz - era


balança, voa, navega


- balançava, voava, mergulhava










Cavalga e não sai do chão










Pernas presas,


na certeza


entrelaçadas, amarradas, soltas


engatadas, pernas,


as quatro pernas


do bicho que se auto-devora


dilacera, rasga, penetra


pernas abertas, pernas fechadas


do homem e da mulher


pernas rasgadas


da mulher e do homem punhal






Pernas que balançam


trêmulas no gancho engatado





quarta-feira, 14 de julho de 2010

SÓ A TERNURA FAZ

O invencível











Para o bom Capistrano


- Você é o homem sem angústia


um homem melhor do que todos nós


O que te derrota?



Nada,


nem o sonho interrompido


nem a dor da perda


da mulher amada



Nada. Nada te derrota


Você chega otimista,


pensando alegre em mais um dia










Eu?



Assustado!



Quero mais uma vez









ter a certeza de que você existe


de que eu sou seu amigo e que um dia


poderei te imitar, não fingir alegria


ter da mulher amada que se foi


a boa lembrança dos dias,


dos dias felizes, dos dias alegres


dos grandes momentos de harmonia



Você, diante de mim, me assusta.






Como é possível sair das trevas,



despedaçado, atingido por todos

os bombardeios



um homem que me olha feliz,



que sorri



que diz que a vida pode ser boa



e será



Que diz que não podemos ter medo



E ele não tem



que diz que é possível amar

depois do desamor



e que ama




Um homem que sonha mais uma vez

na ternura do gesto


de uma menina de cinco meses


olhando-o,


apenas gesto e olhar.




Ela, ternura no olhar e no sorriso

Ele sabe, assim, que será

sempre o invencível