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terça-feira, 6 de dezembro de 2022

VIDA QUASE MORTE







A INVENÇÃO DO SUICÍDIO 

 

A mãe e os seus três filhos

 

Leandro Tocantins

 


As três crianças correm  

 

em corredores faladores    

 

de livros

 

de ecos   

 

de espelhos    

 

Algazarras de crianças a brincar      

 

de se ouvir   

 

de se ver

 

 

 

Quando a mãe dos três   

 

quando...

 

na loucura   

 

incontida pelo silêncio

 

fechada no ciúme

 

faz o gesto do suicídio

 

 

 

Arma na mão

 

 

 

É a cena da morte

 

 

Ergue-se sobre a cadeira

 

Ergue na mão a arma fatal

 

O menino que eu era fechou os olhos

 

 

 

O que é a morte?

 

 

Três crianças choram   

 

sem pernas para correr da brincadeira

 

que não era brincadeira  

 

querem correr da vida quase morte

 

 

 

A mãe e os seus três filhos são atores

 

Burlam a morte, burlam a vida

 

Riem da morte e do drama    

 

daquele suicídio encenado

 

 

 

A cena se repete

 

Até a exaustão

 

Nas nossas memórias

 

 

 

Até que um filho atire longe

 

Os fardos do amor e do desespero

 

E faça nascer um motivo lúcido  

 

de amar e continuar

 

 



(Restam duas testemunhas desta cena: eu e Helga.

Mãe morreu aos 71 anos e Estela, esta sim, suicidou aos 15 anos)

 






 

 


quinta-feira, 6 de junho de 2019

A INVENÇÃO DO SUICÍDIO


Resultado de imagem para MULHER E TRÊS FILHOS SILHUETA






A mãe e os seus três filhos


Leandro Tocantins


Três filhos correm  

em corredores faladores    

de ecos   

de espelhos    

algazarras faceiras de crianças que brincam      

de se ouvir   

de se ver



Quando a mãe dos três   

quando... na loucura   

incontida pelo silêncio

Fechada no ciúme

Faz o gesto do suicídio

A cena da morte

Ergue-se sobre a cadeira

Ergue-se sobre os braços a face fatal




O que é a morte?

Três crianças choram   

correm da brincadeira para a vida quase morte




A mãe e os seus três filhos como atores

Burlam a morte, burlam a vida

Riem da morte e do drama    

do suicídio encenado



A cena se repete

Até a exaustão


Até que um filho atire longe

Os fardos do amor e do desespero

E faça nascer um motivo lúcido  

de amar e continuar







terça-feira, 19 de junho de 2018

PERDAS E DANOS II




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Seu biscoito de goma era único no amor e no sabor  

 




O dia em que vi 

minha mãe nascer (*)


Guto Wanderley





Eu vou encontrar a minha mãe, em seu apartamento, junto com as suas plantas, suas histórias e seu prazer em nos receber com biscoitos de goma e comidas, sempre com uma surpresa.

Era uma casa com quatro, cinco tipos de doces caseiros sempre prontos, guardados na geladeira, em compoteiras, carregando uns casos de amigos e de suas famílias, que percorriam hoje as terras do mundo.

Mãe abre a porta:

“Meu filho, você não pode deixar de aparecer, você sumiu, seu pai está velhinho, o coração dele é uma casca de nada. Venha mais, ele morrerá a qualquer hora”.

Mãe estende uma toalha na mesa e pai está debaixo do velho relógio de corda, que eu já vi em outras paredes, na casa da fazenda, em Pavão, depois do rio Mucuri, que atravessávamos de balsa na cheia, com os homens amarrando cordas nas árvores, para garantir que não seríamos arrastados pelas águas furiosas e caudalosas do rio, agora, na cheia, com mais de cinquenta metros de largura (setenta, dizia pai).

Mãe sorri. Traz o bule de café, com um prato debaixo, traz o biscoito e diz que ganhou de uma amiga de Joaíma, sua terra, no Vale do Jequitinhonha, alguns beijus.

Ela explica que aqueles beijus eram feitos com grande cuidado: “seu pai não acha gosto em nenhum neles”.

“São umas farinhas duras e sem sabor”.

Eu mordo um pedaço daquela peça branca, dobrada em três, num formato comprido e consistente. Sinto o sabor, um sabor doce distante, em algumas partes.

“Gostei, eu gosto”.

Olho para ela e nos tornamos cúmplices de um sabor, da nossa capacidade em perceber aquele sabor. Cumplicidade de paladar e de histórias, de olhares e emoções, de cheiros e visões.

Tínhamos nossos ritmos. Ela falava e sua conversa tinha a eloquência da alegria que poderia ter sido maior.

Minha mãe me traz uma forma, onde ela moldava as personalidades do seu mundo. Eu havia escapulido, mas ela tentara.

Sua luta comigo foi uma luta perdida. Jamais ela conseguiria me submeter a nada, nem ao seu amor, nem ao seu controle. Ela me conhecia muito bem e, por isso, o cerco a cada encontro tinha novidades. Ela jamais desistiria.

Olho, agora, no CTI, seu corpo branco, onde  pouso a minha mão preta.

Aperto as suas mãos. Beijo seu cabelo seco, com uma faixa de cor branca como se fosse uma fita em volta do seu cabelo vermelho. Ela jamais aceitaria ter cabelos brancos. Mãe, agora, para respirar, precisa de aparelhos.

Dói o meu coração.

A dor que me corta é muito violenta.

Não sairei daqui correndo, porque dentro de mim eu já me afastei bastante de uma segura racionalidade. Não quero entender a vida, não quero me submeter a nada.

Ali, não havia uma luta dela pela sobrevivência. Era uma luta dos aparelhos, da química, da sabedoria do homem.

“Sua mãe pode não estar querendo voltar. Um diagnóstico indica que ela está percebendo tudo, ouvindo, mas ela não consegue se comunicar ou não quer mais se comunicar com ninguém.”

“Por isso, trouxemos o psiquiatra, mas ele disse que dificilmente poderia fazer alguma coisa, esperaria mais um pouco. Ela precisa, primeiro, sair da dependência química, recuperar sua capacidade física.”

“Ela está prisioneira de si mesma. Sua mente pode muito bem estar registrando tudo. Ela pode querer comandar uma fala, mas no estágio atual do coma, ela não conseguirá nada.”

“Seria uma situação diversa do autista, o autista não consegue se comunicar. Ela não quer se comunicar ¾ uma hipótese. Caso queira, por enquanto, ela não pode se comunicar.”

“Sua mãe pode estar querendo morrer, porque não quer mais sentir dores, porque tem medo das dores que a afligiam tanto ou porque, por suas próprias razões, não quer viver.”




(*) Eu vi mamãe nascer. Título dado por Wander Piroli para o livro de Luiz Fernando Emediato












terça-feira, 18 de outubro de 2016

PERDAS E DANOS I



  





O dia em que vi 


minha mãe nascer (*)





Guto Wanderley




1º  Tempo    

1ª. Cena

Estou indo para o necrotério do Hospital São Lucas. Minha mãe morreu.



2º Tempo  

2ª. Cena

Estou indo para o CTI. Minha mãe está internada em estado de coma.




1.

Vou ao hospital uma, duas vezes e trabalho e amo e vou até onde minha mãe está sufocada por tubos.

Eu acompanho a evolução do seu rosto. Descubro que ela está com um aspecto melhor. Falo para o meu pai. Falo para minha irmã. Nós temos guardado um sorriso de confiança. De nenhum de nós o sorriso ganha confiança e sai.

Falamos por abraços, por mãos, até mesmo chegamos a falar daquilo que no dia é  notícia, somos “experts” em nada. Mãe, do silêncio do coma, se introduz entre nós e fala da vida, revela a vida que lhe escapa.

No andar de cima do hospital, onde nascem as crianças, um médico com um menino, que ele chama de Bernardo, empacotado em suas mãos,  orgulhoso fala da morte da minha mãe.

Ela está morrendo, está em coma, tem chances de sobreviver, pode escapar, são mínimas as chances. Pode, sim, sobreviver.

Então, vamos fazer planos para quando ela se recuperar. Não fazemos planos. Eu hesito. Na rua, compro pequi e levo para a casa do meu pai. Eu hesito. Podia dizer para Lurdes: “guarde este pequi para a gente comer com mãe”. Ela gosta. Devora milhares e milhares de pequis. É uma fruta e é uma raiz nossa naquelas terras do cerrado do norte e do nordeste de Minas Gerais.


2.

Mãe morreu.

Véspera do natal. No necrotério, dia 24 de dezembro, ela está sobre uma mesa fria. Tem uma vela acesa. Do seu lado, o xampu e um óleo para o seu cabelo. Não será mais preciso.

3.

Outra Cena

Entro no hospital, minha mãe está viva. Sente dores, dores violentas. Ela discute com o médico. É uma excelente dialética, uma maravilhosa provocadora. Irônica, debochada, ela questiona, agride com sutileza e ferina sabe mostrar com as próprias palavras do doutor os seus equívocos.

Ela e ele não desenvolvem uma relação de médico e paciente, mãe é uma fera e ele um caçador. Pensei se o médico seria, então, necessariamente, um domador.

Teria que mudar a metáfora, ele jamais teria perfil de domador. Mais para devorado.

Então, ali, diante daquela fera, ele só teria uma alternativa: ¾ Abatê-la.



4.


Minha mãe morreu nesta terça-feira. Véspera do natal.

Meu coração já não é mais o mesmo.

Ele não se despedaçou. É duro, sempre foi.

Apenas, não é mais o mesmo.

Talvez, amigo, eu me encontre mais compreensivo para as coisas do mundo e dê grande importância, agora, aos pequenos gestos, ao andar, respirar e, agora, nestes dias, às lembranças de tudo aquilo que eu consiga lembrar sobre aquela mulher pequena, sempre linda, comparada a grandes mulheres belas, com uma elegância mantida às custas de quase nada. Era natural, era o seu porte.



5.


Conhecia, como foi difícil conhecer, suas grandes articulações dialéticas. Assim, quando o doutor afirmou que “bom era o seu marido, por ter conseguido viver tanto tempo com você”, ela rasgou, rápido, o desenho da personalidade de pai, “um fingido, aquilo é uma peste”, para logo em seguida levantar suspeitas sobre as relações complexas no mundo moderno entre homens e mulheres, “não sei é como sua mulher aguenta você”.  O doutor ouviu e não disse mais nada.

- Ela é uma mulher brava, muito brava. Não a largo por nenhuma outra neste mundo. Ela é o diabo e é a mulher que eu gosto. Agora, dona Inês, a senhora é uma mulher mais do que brava.

Ela se voltou para mim. Não era comum a introdução de um terceiro debatedor.

¾ Você me considera uma pessoa má?

Se eu estivesse entendendo o sentido da discussão, eu deveria responder na bucha uma frase afirmativa para levar o debate à frente, mas o doutor entrou, muito rápido:  “a senhora, dona Inês, sabe muito bem quem a senhora é; por isso, eu a aconselho a me obedecer”.

- Primeiro, precisa me convencer. Antes, eu quero me livrar destas dores terríveis que sinto nas costas e nas pernas.

- Então, não fique aí deitada o dia inteiro, levante, caminhe.

- Mudou? Você me deu ordens para ficar de repouso.

- Olhe na ficha, veja se eu escrevi, em algum lugar, um pedido de repouso completo. Escrevi “repouso” e é importante para a sua recuperação que a senhora force seu corpo a ficar em posições variadas na cama, a andar, nem que seja um pouco. Procure ficar sentada na cadeira.

O doutor foi embora.

Ela retomou a discussão. Para ela, seu afilhado havia feito a cabeça do médico, comparando-a com pai. Negamos que fosse esse o raciocínio, pois estava claro nas suas relações com pai o papel de cada um. Ela sempre exigiu. Ele sempre a atendeu e orgulhoso dizia: “eu sempre satisfiz as vontades da sua mãe”.

Eu me despedi e já próximo da porta ouvi de novo a pergunta. Agora, direto para o terceiro debatedor.

- Você me considera uma pessoa má?

- Sim, mãe, você é uma pessoa má.

Ela estava sentando na cama e segurava os braços de minha irmã. Notei que ela tomou, pela primeira vez, como dialética, um grande choque. Não seria para acontecer isso. Ela jamais concordaria comigo se eu fugisse da polêmica, “não, mãe, você não é uma pessoa má, você é uma pessoa ótima, boa, boa mãe, boa esposa”, encerrando a discussão sem nenhum pega de contradição. Ela queria que eu lhe devolvesse a peteca com uma bela colocação, quase inalcançável. Assim, joguei-lhe na cara, com toda a violência de uma frase ditada sílaba por sílaba.

- Sim, mãe, você é uma pessoa má.

Minha irmã estava segurando-a pelas costas, riu entendendo o jogo, mas não percebia o olhar dela. O olhar da minha mãe era de puro desespero, como se ela, ali, estivesse sendo condenada a uma morte infame.

Dei-lhe adeus, dei-lhe um sorriso.


6.


Perdi o jogo desta vez. Perdi, feio.

Ela não queria mais polemizar, provocar, ironizar. Ela não estava mais preparada para o debate.

Eu tinha mais era que ir.

Na rua, senti um grande sono, uma vontade irresistível de dormir. Eu não poderia perder esta oportunidade, ainda mais por volta das oito e meia da noite.

Corri para iniciar uma série de grandes dormidas, coisa que eu não conseguia há mais de trinta anos. 

Dormindo duas, três horas por noite, a oportunidade de dormir mais cedo poderia significar um grande e bom sono. 

Dito e feito. 

Custei a acordar no horário de levar minha filha para a escola.






(*) Eu vi mamãe nascer. Título dado por Wander Piroli para o livro de Luiz Fernando Emediato