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quarta-feira, 14 de setembro de 2022

MESTRE DO BRASIL

 





A    ÚLTIMA   AULA 


Tito Guimarães Filho





1.

Para todos aqueles que lutaram ao lado de Darcy Ribeiro, para aqueles que foram condenados (gloriosamente, justamente, condenados) ao lado de Darcy Ribeiro, contemporâneos de um brasileiro, têm a obrigação (a honra) de confessarem: conheci um brasileiro e tenho o orgulho de fazer parte de um time de derrotados com a coragem de cerrar fileiras na batalha de um mestre escola a nos ensinar o valor da solidariedade,da amizade e do amor.

Ele nos mostrou nós mesmos. Indicou caminhos? Mais perguntou a mostrar a raiz (foi exatamente isto, radical) de nossas mazelas, da falta de caráter de nossas elites. Perguntou sempre, exaustivamente, porque queria respostas. Enfim, era sempre a mesma e instigante pergunta.

Por que o Brasil não deu certo? 

Até agora.

As primeiras resposta, ele as alcançaria com a consciência histórica da realidade.

Enfim, não deu certo por que?

"O que está aí está mostrado. É a fome, a pobreza, o analfabetismo, a exploração estúpida com o consumo de vidas, de homens e de gentes pelo capitalismo canibal".

A realidade identificada de olhos bem abertos aponta todas as mazelas que devem, com a urgência do agora, serem extirpadas. É o mestre a dar lições como criador de uma universidade (criou duas) para titular doutores em sabedorias - a dos pajés, por exemplo; a dos mestres seleiros, por exemplo, que levou de Montes Claros para a UNB. Criador de uma escola que alimenta, sabedor de que devia defender o básico, ler, escrever, contar e comer. Saber comer tão fundamental quanto a leituras e a matemática.

 No Senado desta República, dialogou não apenas com os seus pares (destes, ele puxava as orelhas, "indisciplinados, corrompidos pelo triste destino de serem políticos construídos pelo barro da corrupção". Dialogou mais com o seu povo e o nosso senador escrevia cartas ao povo brasileiro ao mesmo tempo em que concluía O Povo Brasileiro.

 

(*) Os seleiros de Montes Claros que foram para a UNB: José Paraíso, casado com Belormes, e João Par ou Ímpar, croupier. Os dois que resgataram Darcy Ribeiro e Waldir Pires, do esconderijo em Brasília e os levaram até o aeroporto rumo ao exílio no Uruguai.

2.

Um furacão passou por Minas (*)

O objetivo aqui  é registrar a passagem do antropólogo e professor Darcy Ribeiro por Minas Gerais, em um período, em que ele foi governo: março a setembro de 87

Período em que criou polêmicas:

1. O caso do Aço x Cimento;

2. O patriarcado mineiro e a UDN;

3. Os intelectuais e o eruditismo: o discurso poético de Luiz Leal e a educação etc.

 

-          Darcy não é mineiro? Não há certeza.

 

-          Darcy não é brasileiro? Não há certeza?

 

-          Foi apenas um menino. Na realidade, um moleque. Um moleque que quis ser gente, metido a besta e que carregou Montes Claros na cagunda a vida inteira. Ele saiu de Montes Claros, mas Montes Claros nunca saiu dele e o perseguiu por todos os cantos do mundo, seguindo-o nos cárceres e nos exílios.

 

Este flagrante é da passagem política por Belo Horizonte por sete meses. Tempo em que conviveu no poder do Estado de Minas Gerais com Alberto Sena Batista e com Carlos Olavo da Cunha Pereira

 

(*) Vulcão não tem em Minas Gerais. Na região de Diamantina, área de intensa pesquisa e exploração mineral, o máximo que se chega na descrição seria de uma área de fundo de mar. Ali teria sido, outrora, um grande mar oceano. Talvez, na região de Araxá se encontre aquilo que seria marcas de um vulcão extinto.

 

Minas não teve um furacão. Jamais ocorreu algo parecido em Minas. Não há registro nestes mais de três séculos. Tufão, totalmente improvável. Não há registros.

Todos os registros da presença de um vulcão e até mesmo de um furacão, fenômenos da natureza, estão todos associados a um homem: Darcy Ribeiro.

Como um furacão, sua passagem foi rápida, violenta, deixou marcas profundas e não há como apagá-la da memória dos mineiros. Os mineiros quase o resgataram para sua Minas, mas Darcy escapou e, como um furacão, desapareceu, mais uma vez, em nossas almas.

No final da década de 80, Carlos Olavo e Alberto Sena trabalharam com Darcy Ribeiro, ali no edifício do BDMG. Uma época de convivência intensa. Darcy morava na rua Espírito Santo e escrevia, ditando, o MIGO, em quem ele resgata o nossos sonhos de “Colosso” e de grandeza numa história de lutas e de muitas derrotas.

Em 1989, com Carlos Olavo, na direção de um velho carro, um Passat (ele tem boa memória e este carro fez história também), Darcy, sua secretária Naná, mulher de um jornalista carioca e ela jornalista também e eu, percorremos o Vale do Aço e o Vale do Rio Doce na campanha de Brizola presidente em 1989, contra o Collor e o Lula.

Este episódio um farto material para reflexões políticas (e eleitorais) daria para o Carlos Olavo escrever, aos 90 anos, “Na saga dos anos 80”.

3.

PAIXÃO É SÍNTESE

Toda a obra de Darcy, toda a sua vida, tem uma palavra síntese. Esta palavra é paixão.

Grande sempre foi sua alegria e sua imensa paixão.

Se na paixão houve uma que se sobressaiu esta foi, sem dúvida, a sua paixão pelo Brasil, isto é, pelo povo brasileiro.

Uma paixão cultivada, uma paixão racional, uma paixão extremamente consciente.

Ele sabia em que terreno pisava.

Nenhuma ilusão.

Para um homem com a sua inteligência e erudição, ele sabia que, entre as muitas razões, que davam sustentação à sua “estranha loucura” estava o Brasil que ele conhecia e que ele odiava, o Brasil falso, o Brasil desigual, o Brasil da elite corrupta e sanguinária, mas estava também um outro Brasil, o verdadeiro Brasil – só que ele sabia que este Brasil era um país sonhado, um país imaginado, uma imagem.

Daquele Brasil falso, daquele Brasil desigual, daquele Brasil que era uma farsa, Darcy extraia o povo e apontava para o seu povo alguns caminhos, como o mais aberto de todos: a educação.

E o seu exemplo, a fé inesgotável nas pessoas, o carinho e a alegria, o continuar, o resistir, a luta permanente e contínua, o nunca desistir.

Um homem imbatível, ele quer o seu povo assim.

Darcy continuaria a criar este país (a imaginar este país) mesmo quando distante dele, vivendo os dias de exílio, proibido de voltar.

De volta, seria exuberante em sua produção e da sua vida brotariam muitas palavras, muitos livros, escolas e inúmeros exemplos para aqueles que queiram algum dia ser homens públicos e que acreditam que é possível forjar as bases de um verdadeiro país e de uma sociedade que elimine, de uma vez por todas, não apenas a desigualdade, mas a mais sórdida das explorações e que se sustenta pela imposição de uma linguagem sofisticada e suja, uma linguagem econômica e embrutecedora, uma linguagem de servos e de marionetes.

Ninguém amou mais o Brasil e ninguém revelou mais o Brasil aos brasileiros do que Darcy Ribeiro.

O Brasil que ele amou não existia, existia apenas em sua imaginação – ele amava e muito o seu povo, o povo brasileiro e odiava a sua elite e todos aqueles que traem, permanentemente, este povo.

O Brasil que ele revelava era o Brasil da injustiça, da desigualdade e da violência, o país real com todos os seus males, o país que não dá certo, que não dará certo e que terá que desaparecer do mapa.

Há um país a ser derrotado e há um país a ser construído.

O que “existe” não vale nada, não vale um tostão furado.

 

4.

O irreverente e o irônico Darcy Ribeiro

Da Prudente de Morais, pegamos a Donato da Fonseca, Darcy Ribeiro iria gravar um programa eleitoral para a campanha de prefeito de Belo Horizonte em apoio ao candidato do Partido Socialista. Darcy já não era mais secretário de Estado de Minas e voltava para cumprir um compromisso com os seus companheiros que  propunham sua candidatura a prefeito como criação de uma base para a campanha presidencial de Leonel Brizola em 1989. Era 1988.

No primeiro quarteirão da Donato da Fonseca, Darcy perguntou para um menino de 11 anos se ele sabia quem era Donato da Fonseca.

A partir daí, Darcy discorreu sobre o político e, conquistada a atenção do menino, desenvolveu uma história sobre as opções de todos os cidadãos que se preocupavam com a vida da cidade e com a vida dos nossos índios.

O menino caminhou até a porta da produtora, continuou conversando com Darcy. Os dois ficaram na porta e nós entramos. Quando chegou, alguém perguntou :

- Darcy, quem foi Donato da Fonseca.

- Não sei. Um bom diálogo começa com uma pergunta e com a nossa ignorância. Donato da Fonseca foi o gancho para a conversa. Funcionou. Falei para ele sobre a importância da pergunta, despertada a curiosidade, ele escarafunchou minha vida com os índios.

-  Donato da Fonseca foi um dos fundadores da Faculdade Livre de Direito, em 1892 - disse Celso Araújo, proprietário da produtora.

 

5.

A última aula

  "Darcy Ribeiro lutou até o fim. Essa luta tem um dado que talvez poucos conheçam. Creio que tenha sido numa sexta-feira, eu telefonei ao Hospital Sarah Kubitschek, onde ele estava, e marcamos para conversar na segunda-feira, na casa dele, de tão otimista que ele estava.

"Naquele dia, uma sexta-feira, Darcy Ribeiro disse a uma grande profissional do Hospital Sarah Kubitschek, a Drª Lúcia, Lucinha, como ele a chamava:

“Eu preciso desesperadamente dar uma aula, mas eu quero dar aula a uma criança, me arranja uma criança”.

E a Lucinha  levou o filho Felipe, que tinha 10 anos, e Darcy Ribeiro deu uma aula de Antropologia para o menino.

"E, nessa aula - ela lembra e o menino nunca vai esquecer -, entre as coisas para mostrar o que é uma sociedade, ele explicou porque é preciso fazer uma universidade e um sambódromo, porque um é a cultura da elite e o outro é a cultura do povo.

"E esse casamento, ele dizia a um menino de 10 anos, é aquilo que é preciso fazer no Brasil.

 "Ele terminou a aula, tomou banho, barbeou-se, como me disseram, colocou perfume - porque era vaidoso, como Vera Brant deve saber -, deitou-se, entrou em coma e morreu poucas horas depois.

"O homem que fez tanta coisa morreu como professor, por opção dele. Morreu como professor de crianças, por opção dele. E o que parece um rebaixamento - professor de criança -, na verdade, é a elevação máxima que ele percebeu, certamente inconsciente, a elevação máxima de quem está na véspera de entrar para a História, porque ele foi um político da História, não do poder."

 

Pronunciamento de Cristovam Buarque em 21/03/2007  Discurso durante a 32ª Sessão Deliberativa Ordinária, no Senado Federal        Homenagem a memória do educador, intelectual e Senador Darcy Ribeiro, pelo transcurso do décimo aniversário de seu falecimento.

https://www25.senado.leg.br/web/atividade/pronunciamentos/-/p/pronunciamento/367328

 


quinta-feira, 28 de outubro de 2021

O CARONA ERA UM ASSASSINO?

   




45 




Rufino Fialho Filho


Era noite. Noite sem lua. Noite de verão. Sem estrelas. Céu escuro. Fardado, com uma sacola, onde carrega a roupa civil, Agnaldo de Almeida Salomão, cabo do Exército, pegou uma carona em Araguari, onde servia no 2º Batalhão Ferroviário - Batalhão Mauá para Monte Carmelo.

O caminhão o deixaria na encruzilhada do diabo. Outra carona e chegaria ao seu destino. Não seria problema. Com a farda e com muitos conhecidos na região. "Tenho muita gente amiga", assim acreditava despreocupar sua mãe ao vê-lo sair atrás de carona.

Essa noite, ainda encontraria com sua mulher, uma puta, sócia da Boate Estrela do Sul. A outra proprietária era muito amiga do soldado Nazaré, da PM. Todos gostavam do cabo Salomão. Um rapaz sério. Nunca arranjou confusão. Não procurava briga. "Era respeitador" e confirmavam isto observando como ele se referia à bela Lindalva, a sua mulher. No Exército trabalha no Batalhão Mauá.  A última obra era a preparação de um caminho para a estrada de ferro. 

A briga, sem final violento com um sargento, não foi registrada em seu boletim. Era já uma indicação de que ele tinha o estopim muito curto. Ele bebia uísque e o sargento, cachaça. A discussão que girou em torno da bebida esquentou porque o sargento falava com rispidez. Era grosseiro, posicionava-se sobre a hierarquia. 

Bêbados, o cabo desafiou o sargento para um duelo. "Como nos filmes de faroeste", ironizou. O sargento recusou. Agnaldo colocou duas facas na mesa. 

O que acabou com a briga foi o silêncio e a rápida intervenção dos amigos.

Ele olhava a estrada e não via a estrada. Com os olhos nas montanhas que corriam ao lado da cabine do caminhão, ele via sua mãe. Seus olhos encheram-se de lágrimas e ele se conteve. Vergonha de chorar ao lado de um motorista que falava sem parar (e ele só via e ouvia sua mãe). Não entendia o porquê disto. Acontecia todas as vezes que via, na sua frente, como se estivesse presente, a figura magra e o rosto pálido da sua mãe. Minha mãezinha. 

Agnaldo nunca vivera com a mãe, educado pelos avós maternos, era filho natural. Seus pais eram os avós a quem chamava de pai e mãe.

A partir do serviço militar, aproximou-se mais da mãe com que esteve em raras férias. 

Assim, soube do primeiro casamento dela, do fracasso. Soube dos amores violentos da mãe e do homem que se tornou o seu pai. Conheceu o terceiro homem com quem ela vivia agora e já há mais de 18 anos.

O caminhão parou. O motorista continuou falando. Agora ouviu que ele contava o caso de uma mulher.

As luzes cruzam a estrada e iluminam o rosto do motorista. Volta e meia, ele olha para o cabo e sorri.

Quando percebia que o cabo não estava atento, pensava em parar de falar. Pensou. Continuou a falar e a ouvir sua voz ressoando dentro da cabine.

Parou no acostamento e de fora do caminhão, disse que o defeito não tomaria o tempo deles, "você chegará a tempo de encontrar sua mulher, amigo cabo".

- Ela acreditou. Até hoje, pensa que voltaria...

Da escuridão, ouviu o motorista

- Não quer mijar?

- Não.

- Puta que pariu, cabo, que escuridão.

- É.

O motorista subiu no caminhão. Assustou-se e perdeu o controle de seus movimentos, pois chegara a pensar em correr ao ver Agnaldo com a 45 apontada para ele.

- O que é isso, moço?

Agnaldo viu no rosto apavorado, as mudanças de cores. De vermelhão, o motorista amarelou.

- Não é nada. Nada. Nada, examinava a arma. Na escuridão, tudo pode acontecer. Um assalto...

- Porra, cabo, vira isso para o inferno.

Fora um impulso para matar. Desta vez, ele controlou como controlara na briga com o sargento. Já o intrigava este impulso homicida. Como de matar fosse fácil. Necessário. Necessário? "Eu precisos matar alguém... só porque tenho uma arma?" Algo o impelia, o comandava. Tremia. Aquela vontade de matar o comandava. Era o seu superior a dar ordem. Mate. Chegou a hora de matar. Inútil. Jamais se submeteria a um instinto assassino. Sempre dominava e tinha o controle. Exercitaria. Controle da mente e dos músculos. Se a mão tirava o revólver do coldre, tinha de matar.


Como ouvira uma vez na aula de catecismo de que houve um bispo, santo da igreja, que dizia que se um crente tirava a espada da bainha, tinha que voltar com sangue de um infiel.


Não se lembrava mais de quantas vezes isto aconteceu. Conseguia controlar como controlou agora e se sentiu aliviado ao despedir do motorista.

 Caminhou na estrada e logo um carro parou. Um fusca. Seus olhos brilharam. Chegaria a tempo para a sua mulher Lindalva, a Linda Dalva.

Quando viu o motorista do Fusca, lembrou do seu pai, professor primário. Seu primeiro e constante professor. Todo o amor que tivera por ele, passou num átimo, sem que ele percebesse, imediatamente, para a mãe, de quem sempre ouvira insinuações, nem sempre claras, de que era uma puta.

Por que a mudança. Gostava do pai ainda. Sabia que era um homem bom. Agora, era para a  mãe que todo o seu amor, atenção e carinho se voltavam. Um amor que anulava tudo e todo o antes.

Ela fora uma mulher muito bonita, "todo mundo gostava dela". Ouvia. Ela foi bela. Ouvia. Ela ainda está nova. Não envelhece. Quanto ela teria sofrido com os seus amores amados e desamados?

Era no pai e na mãe que pensava dentro do Fusca.

- Vamos chegar em menos de meia hora.

- A estrada está boa.

Nem 15 minutos depois, fiz o primeiro disparo contra a nuca do motorista. O outro tiro foi na cabeça do homem que estava sentado ao lado do chofer. Assim, em menos de um minuto, matei o prefeito e o presidente da Câmara de Vereadores de uma cidade vizinha de Patos de Minas. 

Matei.

Disse algo que parecia uma eternidade. Uma única palavra"Matei" e a eternidade.

A primeira decisão que tomei foi procurar meu amigo, o soldado da PM, contar o que fiz, ele não acreditaria. Tentaria explicar que não consegui controlar o assassino que me dominava em mim mesmo e que era eu mesmo. A difícil luta que travara até aquele instante. Enfim, uma luta que eu perdera. A primeira? Tirei os dois cadáveres. Coloquei-os na beira da estrada, arrumei com a terra duas almofadas sobre a cabeça deles (para que isso?). Cruzei as mãos como se faz com os defuntos. Cobri seus corpos com os paletós que encontrara no banco traseiro ao meu lado. Peguei a estrada e, totalmente, sem concentração para dirigir, tombei o carro e capotei, em seguida.  

Desisti de procurar o PM amigo. A única opção agora era fugir.Sai da estrada. Entrei no mato que conhecia muito bem. Área das minhas caçadas, todo um terreno na palma da minha mão. Iria direto para o quartel. 

Agnaldo perdeu-se na mata que conhecia muito bem. Andou até o amanhecer. Chegou até próximo à estrada de Patrocínio. Como não identificou nem o caminho que conhecia de caçadas, percebeu que não conseguiria pensar em nada de positivo. Voltou em direção a Monte Carmelo. Foi à Chapada e seu pai perguntou-lhe se soube do crime. Agnaldo trocara de roupa. Agora a farda estava dentro da sacola.

- Mataram dois homens, gente importante.

Ouvia a voz do pai que repedia a frase a todas as pessoas que chegavam em sua casa.

Zanzou pela casa, parou na copa. Chamou o pai, o tio e o avô. Detalhou como cometera aquele crime em que matara dois homens.

Agora a frase que era repetida era dita por Agnaldo.

- Eu sou o criminoso, eu sou um assassino. Matei dois homens.

O avô encostara na prateleira como Agnaldo o via sempre seguro no tronco da goiabeira.

- Meu deus, tire-me a vida agora.

Ouviu um dos homens dizer.

Percebeu que seu pai e o tio não entendiam nada. Não acreditavam.

A razão e a atitude prática assumiram o comando da copa. 

- O que fariam?

- O que faria o filho? 

- Fugiria? 

Recusou o dinheiro que ajuntaram. 

Não havia suspeitos. Já em segurança, Agnaldo decidiu apresentar-se no quartel. Confessaria os dois crimes. Jamais revelaria a razão. Ninguém acreditaria nele. 

Entregou a farda e o revólver, uma bela 45.

Sua mãe apareceu ainda no primeiro dia de sua prisão. Soube que ela esteve lá. Só puderam encontrar dias depois. 

Para ele confirmou o grande amor, o grande afeto. 

Agnaldo diz que preso, percebeu o quanto cresceu o amor entre os dois.

...

Agnaldo lembra dos instantes de desespero quando andava pelo cerrado, antes de chegar na casa do seu pai. 

"Procurava água para limpar o sangue no braço. Andou com as pernas já sem forças. Queria água, queria limpar o sangue. Desesperado, mijou no lenço e limpou o braço. Foi aí que notei que jamais conseguiria tirar aquele sangue do meu corpo. Por isso, quando cheguei lá na Chapada, já estava decidido a me entregar. Não mataria mais ninguém".







sábado, 23 de outubro de 2021

FOME & CARINHO

 

 




 



Um bravo 


Rufino Fialho Filho



Cauê, um fila, jovem, bravo, faminto. Ele avançou duas, três vezes em Helga sempre por causa de comida. Com ela, Cauê sempre teve uma relação em que ele avançava para tomar algo. E era comida sempre o que ele queria. Uma vez a arrastou da sala até a cozinha. Ela sempre se livrava com um pedaço de pão.

 

 

Nesta relação agressiva, Cauê mordia barriga, seios e braços dela, deixando marcas. 


Uma vez, Helga teve que ir para o hospital, onde ficou claro que ela correra risco de vida. A mordida no braço por poucos milímetros não atingira a veia.

 

 

Com o tempo, Cauê mudou. Já é um animal integrado com as três pessoas da casa.

 

 

Duas pessoas sempre presentes, Helga e eu, na relação direta de alimentá-lo. Hilda, cujo trabalho, a afastava da casa por dias e semanas inteiras.

 

 

Com ela, Cauê reconstituía a memória rapidamente, porque o carinho e a atenção vinham sempre acompanhadas de um pedaço de pão.

 

 

Cauê percebia a minha chegada, identificava o cheiro, o som e algum outro indício.

 

 

Isolado na parte de trás da casa, a mais de 50 metros de distância e a qualquer hora do dia, mesmo com o intenso movimento da rua, ele identificava a minha chegada.

 

 

Só parava de se manifestar depois que eu gritasse o seu nome.

 

 

Depois chorava. Só parava após nós nos encontrarmos ou nos vermos. O seu olhar para mim era intenso e eu admirava sua força e rapidez.

 

 

Ele me obedecia. Nem sempre.

 

 

Ontem, sexta-feira, Helga ligou dizendo que Fernando Coelho chegara para levar Cauê. 


Iria tomar conta de um sítio.

 

 

Seu Fernando queria um cão bravo para substituir um outro que havia morrido.

 

 

Cauê ficaria preso a um arame até se acostumar com as pessoas da casa em Santo Antônio do Monte.

 

 

“Ele deixou que eu colocasse a focinheira. 

Apenas, chorou”.

 

 

 

 

 


quinta-feira, 21 de outubro de 2021

DO COLECIONADOR


Gado Guzerá


SEU JACINTO TEM OS PAPÉIS



Rufino Fialho Filho

- Difícil dar um diagnóstico para o Mathias. Ele não fala.

O Dr. Lucas, com muita paciência, aprendeu isto na cadeia. O médico prescreveu Giarlan. Um comprimido  de 12h/12h.

- Ele não fala mas coça, disse Dr. Lucas.

- Escreve. Mathias escreve, doutor.

- ?

No estacionamento, Seu Jacinto passou para o médico um caderno com as anotações do prisioneiro Mathias Leonardo, condenado a 30 anos de prisão.

- Leia.

- É do Mathias?

- Disse para ele que passaria para o senhor.



500 cabeças


"Aquele dia foi um dia muito triste na minha vida.

"Cheguei da Bahia, tinha 24 anos. Um tempo em que mais gostava dela, lembro de todos os seus gestos. Estava na mesa do jantar. Meu pai na cabeceira. Minha mãe, todos os meus irmãos. Lá via minha irmã coma beleza da mulher de 18 anos. Ela estava na minha frente e fazia graça com um rosto cheio de charme. Época em que havia o medo de rir na frente do meu pai. Nem fumaça. Seria um grande desrespeito. Eu já um homem para tudo, com uma jagunçada sob meu comando. Cerimoniosamente, ele servia vinho em nossas taças. Vestíamos as nossas melhores roupas. Ganharia a noite nos cabarés, dizíamos puteiros, da cidade.

"Bebia o vinho quando ouvi que a fala apressada de pai se dirigia a mim.

"Mat, disse ele, quando usava um só sílaba, já sinalizando uma advertência, algo mais grave.

"Mat, soube que anda de encontros com a Ivanilda e que diz para os seus irmãos que "gosta muito dela". Você sabe também que ela é filha de um meu velho inimigo, de mais de 20 anos. Uma coisa eu te digo e quero dizer agora na frente de todos os seus irmãos e da sua mãe, no dia em que decidir casar com ela, não o considerarei mais meu filho. Nesse dia não será mais filho de José, Zé, Pereira da Silva.

"Mãe tentou conter o velho, contornar aquele clima.

"Para que falar estas coisas agora, Zé? Estamos terminando o jantar.

"Disse num jato também, imitando o modo de falar de pai. E calou frente ao olhar furioso dele.

"Quase dizendo palavra por palavra, sílaba por sílaba, não mais um jato de frases, ele falou

"Qualquer hora, mulher, é hora de dois homens se entenderem ou se desentenderem. Meu inimigo será sempre inimigo dos meus filhos. Sou inimigo daquele sujeito. Nem sei porque ainda não mandei matá-lo"

"Na minha frente sabia estar um homem feroz, uma fera, capaz dos piores crimes, já mandara matar muita gente, principalmente invasores de sua terras sem fim nos sertões do Mucuri.

"Amanheci nos puteiros, amargurado. O pai de Ivanilda, aquele homem de quem meu pai era inimigo, gostava de mim. Confiava em mim e, uma vez, me disse que me queria como seu genro. Não mais dizia meu nome, era sempre um carinhoso "Meu genro".

"Nem sei qual ardil usei que consegui, meses depois, acabar com aquela louca inimizade entre estes dois homens.

"Foi no início de uma transação de compra e venda de gado quando acertaram sua pendência.

"Trocaram suas terras que dera início à velha inimizade e meu pai acertou a compra de 300 reses entre vacas e  novilhas.

"Fui buscar os animais e quase que este negócio acertado poria tudo a perder, Breno, filho de Antônio Tomich, escondeu as cabeceiras, deixou a fazenda e foi para Ataléia "passear".

"Conferi o gado e recusei transportá-lo. Antônio Tomich autorizou que recolhesse todo o gado da fazenda e, na redondeza, todo gado que tivesse o ferro dele. Em três dias, encontrei a cabeceira e recolhemos no pasto mais de 500 cabeças. Estava autorizado pelo meu pai a comprar todo o gado que encontrasse. Compramos. O vaqueiro dos Tomich,  seu Valdir, nos acompanhou na localização e na conferência e revelou que o responsável fora o Breno que dizia que só venderia todo o gado.




quarta-feira, 20 de outubro de 2021

O COLECIONADOR

 






 

 

O enfermeiro que reúne mil histórias

 

Rufino Fialho Filho

 

 

Mudando para Neves, vinte anos antes, seu Jacinto trouxe toda a família. Trabalhara em vários locais, Pronto Socorro, Clínica Pinel e inclusive se arriscando com clínica particular, em várias cidades. Sempre na área da saúde.

 

Diante do prédio, Monumental da penitenciária, dizia ele para a mulher que, a partir de agora, não precisariam mais fazer tantas mudanças, teriam para viver a tranquilidade de uma cadeia. Não mais viveriam de um lugar para o outro, de um emprego para outro.

 

 Chegou para ser o funcionário público, trabalharia no Serviço de Assistência Penitenciária como atendente e teria, dentro dos terrenos da penitenciária, teria uma casa e tudo, luz e água.

 

Acordaria cedo todas as manhãs. Assim seria anos seguidos, apesar da televisão ligada até a madrugada. Gosta do trabalho e o médico responsável assinou um documento, datado de 15/10/71, autorizando-o e ao Seu Machado a prestar assistência de urgência “podendo para isso, lançar mão dos medicamentos existentes na farmácia do SAP, tais como, analgésicos, antiespasmódicos, antibióticos, bronco-dilatadores, antidiarreicos”.

 

Esta clínica do Seu Jacinto forneceu em junho de 73 a seguinte estatística: receitas enviadas por BH: 21; receitas do Dr. Lucas: 100; receitas do Seu Jacinto 600.

 

Ele diz que quer estar a patadas do lado dos presos do que de abraços do lado dos outros, se referindo aos administradores.

 

Sabe que os presos gostam dele, por causa do atendimento rápido de onde saem antibióticos, xaropes e analgésicos. De sua casa à penitenciária não tem mais de 500 metros e tem vezes que leva mais de uma hora para vencê-los.

 

Sua conversa é tensa. As últimas palavras estouram. É baixinho e tirou os dentes há bastante tempo. No lábio superior, uma tira fina de bigodes cultivados às pressas, bigodes pequenos da época da 2a guerra. Careca, todos os dias ao meio dia não deixa de ouvir um programa cômico, da Rádio Tiradentes, onde aparece um personagem chamado Jacinto.

 

O Dr. Lucas chama o Jacaré.

 

Seu Jacinto pede para contar o roubo que fez na mansão da avenida Olegário Maciel.

 

         - Estava perto do campo do Atlético, na Gonçalves Dias. Chamei um amigo para ver um treino do Atlético. Em direção ao campo, vimos um carro parar em frente da mansão. Fiquei atento para ver se dava para roubar alguma coisa. Ouvíamos a conversa animada daquele pessoal. Da mansão apareceu um homem alto, bem vestido, parecia que tinha saído do banheiro daquele jeito, de terno e tudo. Falavam em viagem, atraso, rapidez, correria, telefonar para o aeroporto. Vai sobrar a mansão prá nós, avisei ao meu amigo. Afastamos e de longe acompanhávamos todos os movimentos. Desceram as malas, o pessoal da mansão saiu, o casal e uma mocinha, entraram no carro. Seguimos o carro, de táxi até o aeroporto da Pampulha. Vimos a família embarcar no avião. Fui direto para a mansão e o chapa foi buscar um caminhão. Abri a porta da frente com um pontapé. Tiramos tudo o que vimos de mais valor. Em um sala só ficou poeira. Numa sala nós não mexemos, só tinha livros. Em casa desse povo tem isso, um lugar imenso para os livros, esse lugar tem um nome. Achamos num cofre uma montoeira de dinheiro, dinheiro nosso e dólares. Na divisão, o meu parça quis ficar apenas com os dólares. O motorista do caminhão pegou metade do dinheiro nosso e uma cristaleira, eu fiquei com o resto, dinheiro, móveis, tapetes, cortinas e o diabo. De uma cortina fiz um cobertor. Que cobertor! No frio, basta ele. Os móveis não couberam no barraco, deixei no lote, comprei uma lona e armei uma barraca. Em dois dias fiz muito dinheiro apenas com a venda de duas peças.

 

 

 

  

 

 

 




quarta-feira, 18 de agosto de 2021

Como enfrentar um gigante?

 




A advertência

 

D’après Nelson Rodrigues

 

 

 

- Estou tenso e já estive mais tenso ainda e com muito medo. Não sei onde encontrei coragem, diante de um quase e inevitável suicídio. Sabia quem defrontaria. O cara, além de um gigante, um brutamontes, era famoso pela violência e pelo seu falar autoritário. Gritado.

 

- O fato: eu conheci uma mulher tempos atrás, coisa de dois, três meses. Ela estava dentro do perfil de segurança, mulher que não enche o saco, não pega no pé e que o que quer mesmo é sexo.

 

- Quando nós nos encontramos no consultório, ela é dentista, ela perguntou se eu era casado, disse que não, perguntei se ela era casada, não estava com aliança, como o ambiente e a conversa corria descontraída, solta e com alguma irreverência. Quando ela respondeu que era casada, eu disse que era uma pena, pois eu a convidaria para a gente passar um fim de semana no Rio. Inventei que viajaria a trabalho. Na bucha, sem vacilar, ela disse que sair no fim de semana, não podia. "Meu marido não aceitaria".

 

- Por que não sair no meio da semana ou no meio do dia?

 

A partir daquele mesmo dia, passamos a encontrarmos duas, três e até quatro vezes por semana. Anteontem nós tivemos um desentendimento, ciúmes, ela conferiu as camisinhas e achou que eu estava usando muitas, ela perdeu a compostura, “eu compro as camisinhas, eu não aceito outra mulher aqui”.

 

Ela chorou. Tremia, tive medo de que ela passasse mal, não sabia se ela era uma mulher doente, algum mal psíquico, alguma neura. Controlamos, bagunçando a tarde dela. Dali, ela foi direto para a sua casa.

 

Logo depois, o marido liga, queria uma conversa urgente, não podia ser para outra hora. Consegui dobrá-lo para que o encontro fosse outro dia. Pensei avisar algumas pessoas, arranjar um revólver, tentei, não consegui. Nem mesmo adiar, ganhar tempo.

 

Marcou a hora, o local e queria que fosse imediatamente. Como o encontro seria em um restaurante na praça ABC, fui imaginando como me safar se ele pulasse para cima de mim ou se ele tirasse um revólver.

 

Pela conversa no telefone não pressenti a possibilidade de uma agressão e não imaginava que ele fosse capaz de armar uma emboscada com os seus colegas de polícia.

 

A cabeça perdida, sem condições de concentrar-me, decidi que iria mesmo que fosse para ser baleado ou preso, fui dizendo uma única palavra na tentativa de concentrar-me - um mantra inútil. Tudo inútil. A cabeça virou um tufão, tudo voava a mil, risco de vida, vida passada a limpo.

 

Cheguei primeiro, vasculhei o bar, não vi pistas de emboscada, vi a larga avenida Afonso Pena e a larga avenida Getúlio Vargas, amplidão para largadas em todas as direções, com possibilidade de surgirem inúmeros obstáculos caso ele fosse esvaziar o revólver. Lamentei que não tivesse me cuidado fisicamente nos últimos tempos. Minha corrida seria de poucos metros, correria em direção ao centro, aproveitando a descida.

 

Ali, estava ele na minha frente. Não vi como ele apareceu de repente. Vi apenas que um monte de roupa descia na minha frente, roupa que não acabava mais, um homem imenso. Fiquei calado, ele disse alguma coisa, cumprimentando, não ouvia nada. Sentamos. Percebi que de nada adiantara ter escolhido aquele lugar para uma retirada rápida, avenida abaixo, minhas pernas não mais funcionavam, e ele era o dono da cena.

 

- Fique calmo, fique tranqüilo. Eu só não quero que minha mulher não sofra. Você não tem o direito de fazê-la sofrer ou de magoá-la. Quero apenas que trate bem dela, que a respeite. Não me interessa saber nada. Vou embora, mas quero que fique bem claro, trate-a muito bem, com respeito e por tudo o que há no mundo não a faça sofrer, porque aí a conversa será diferente. Procure também não atrapalhar o trabalho dela.

 

Aquele homem imenso não falou mais nada, levantou. Tão grande era que não parava de levantar gente e roupa. Era, era um nunca acabar. Cumprimentou-me, despediu. Falou alguma coisa. Eu não ouvia nada.

 

Ele saiu. O garçom colocou dois chopes.

 

Eu não me lembrava de ter pedido nada.

 

“Ele pediu”, disse o garçom, “e já pagou”.

 

28 09 17


quinta-feira, 31 de outubro de 2019

MESTRE


Resultado de imagem para André Carvalho escritor, jornalista e editor







Shazan






Conheci o super-homem
E ele se chama André
Todos os dias grita Shazan!
E transforma todos nós!

Para André Carvalho




Os gregos, através dos mitos, contam histórias compactas que, muitas vezes ou quase sempre, nos ajudam a entender as situações mais complexas. Por exemplo, a história do deus marinho Proteu.

Na lenda, quem conseguisse capturá-lo ficaria conhecendo o futuro e seria dono da história, mas o deus se protegia pela metamorfose e escapava, com muita facilidade das mãos dos homens – em suas múltiplas formas, Proteu se defendia.

A construção de um homem e também a definição de um homem são obras complexas. Há quem se arrisca a capturar, pelas palavras, um homem, uma vida, uma personalidade, um destino.

É difícil.

Eu conheço uns tantos André Carvalho. Conheço o André Carvalho da TV Itacolomi. Era o talento. Sabia dizer as coisas e era um polemista raro. Naquela época, na televisão mineira, André sobressaía pelo talento e pela inteligência.

Líder, quando o assunto era criança, educação e programação infantil. Sua estrela brilhou naqueles anos 60 quando brilhou a TV Itacolomi, líder em audiência, até que chegou uma concorrente: a Globo. Ali, diante da televisão, admirávamos a inteligência. Depois conheci os outros.

Aquele homem, metade de homem, era um gigante e haveria de ser maior, todos os dias: era, simplesmente, um grande homem.

Conheci o André, em sua fase, dom Juan. Quantas mulheres belas e apaixonadas! Qual era a lição, que não se poderia perder? Magnânimo, ele teorizava sobre histórias sofridas e vividas, falava de mulheres e de ternuras. Era contundente. Seus segredos e suas receitas ficavam nas entrelinhas dos textos e nos silêncios dos botecos – se for possível este recurso imaginário.

Às vezes, observando atentamente o seu rosto expressivo e a sua palavra de clara pronuncia, imaginava se o grande golpe da conquista e da sedução do André, não estaria naquele gesto, sempre sacana, de tirar os óculos e revelar seus olhos, profundamente, verdes? 

(Arranjaria óculos e lentes verdes.)

Queria, ansiosamente, aprender com André. Ele lia três livros por semana, um romance, pelo menos. Poxa, mas onde arranjava tempo, se arrastando em cima de suas muletas pelas ruas, pelas escadas e em nossos corações?

Ele lia. Ele também escrevia seus livros para crianças, suas peças de teatro, seu jornal semanal Gurilândia, compatibilizando com seu trabalho de copy no Estado de Minas, o jornal, quando a cada debruçada sobre um texto era uma lição e se aprendia, ali, a escrever e a viver. Como era possível?

Mais tarde, conheceria um outro furacão igual: Darcy Ribeiro. Através do Darcy compreendi e conheci um pouco mais André Carvalho: o furor da conquista do outro, independente do ser se feminino ou masculino.

André, assim como Darcy, ao conquistar o outro, hegelianamente, realiza a ânsia (amargura) da conquista da liberdade e do conhecimento. Ou seria liberdade e conhecimento?
Liberdade é conhecimento?
 

Ali, na redação do jornal Estado de Minas, com suas editorias separadas por divisórias de madeiras, na altura de um metro e meio, os currais, André se aproximava, sempre sorrindo, com uma saudação debochada, encostava suas muletas em um canto e debruçava sobre nossas matérias.

Tentava conhecer o André através da suas relação com os companheiros.

André e Wander Piroli. Dois grandes monstros. André, editor do Wander e dono da Editora Comunicação, um marco na história editorial brasileira, quando Minas Gerais abandonava Belo Horizonte como centro editorial e a nossa Itatiaia alçava voos para sua grande aventura paulista.

Wander Piroli explode para o Brasil (André estava ali). Wander é o grande escritor do Brasil que resistia (e André estava ali).

Ser editor é algo que envolve a construção de um personagem que é empresário e talento ao mesmo tempo – aqui, falo de editor de livros, porque, na nossa redação, André era copy, Paulo Lot, o sub-editor. Ou era o contrário? Ou André era o sub e Lot, o copy? Uma dúvida que não resolvi até hoje e nem entendi na estrutura de um jornal.

O fato era que André e Lot eram os dois primeiros leitores de nossas reportagens policiais. Eram os primeiros a nos ensinar a escrever, a cortar palavras, a arriscar a grande aventura de seguir o faro da grande reportagem. André e Paulo Lot dominavam a redação na editoria de Polícia até a chegada do chefe.

O chefe era Wander Piroli. O editor de talento rasgava matérias, dava sonoros esporros e conduzia a empreitada com uma alegria que contagiava o lá distante editor de Geral, Rogério Peres – que um belo dia, nos comanda a todos.

Era cobertura de sexta e sábado, uma santa cobertura da invasão pela polícia militar dos prédios da Faculdade de Medicina, onde estudantes realizavam seu encontro nacional - resistiam à ditadura e nós registrávamos a história dessa resistência. Era uma contribuição do jornal Estado de Minas.

Duvido que algum de nós não tenha se emocionado com o bilhete, afixado no quadro de aviso, pelo Pedro Aguinaldo, jornalista e diretor do jornal, cumprimentando a todos nós.

Aquela segunda-feira marcou para todos nós, uma mudança radical. O “senhor da teoria da omissão” revelava, sinalizando para o mundo, que outra teoria gestaria um novo jornal e um novo tempo. Era ligar as antenas. André atento, copidescando minhas matérias, ordenava, com as cautelas de um bom psicólogo: avance.

André e João Gabriel. A admiração mútua não eliminava os atritos do agressivo Bié. Chegava bravo, lúcido, argumentativo, defendendo a obtenção do alto de página para a sua matéria. André se divertia.

André e Alberto Sena. Talvez fosse com quem André mais se entusiasmava pelo texto, pela sensibilidade e pela audácia em pontificar do alto da sua proximidade geográfica com a Curvelo de André Carvalho.

Homens telúricos, voltados para o pequi e para a beleza das nossas matas – assim, um tempo, André viveu cercado pelos filhos, pela bela Margareth e por mais de 38 mil metros quadrados de matas e lagoas.

Seria do seu aprendizado com o ecologicamente correto Alberto Sena Batista? Herança do menino que deixou Montes Claros? Ou melhor, herança do menino que arrastou Montes Claros, aos trancos e barrancos, pelas garras do seu coração e o expõe, sempre que possível, nas linhas do que escreve? 

André e Marquinhos. Era pau. Marquinhos teve talento e força para segurar aquela barra pesada: André e Wander. Wander era duro com Marquinhos e André pior ainda. Na frente, surgiu Marquinhos, maior do que todos nós. Os dois ferreiros sabiam quem moldavam.

Fui conhecendo o André através de algumas de suas mulheres. Era um outro conhecimento. O mistério confirmava: André como um instrumento de grande ternura e respeito por cada um ou por cada uma. Ele seria um grande conquistador por que era um psicólogo? Quem queria aprender com André, haveria de procurar caminhos. Até que André chegou em Margareth. Outra grande lição do mestre do amor: agora, ele encontrou as razões de tudo aquilo que construiu antes.

O André também provoca inveja, medos e ódios. Aí seria um paralelo com alguns outros que pouco ou quase nada conheço. Eu conheci o André diante deste outro.

Fecham portas para o trabalho de André Carvalho – medo da competência. Fecham portas para a expansão do talento empresarial de André – ele abre outras portas.

(Entro na sala da sua nova editora, Armazém de Ideias, já um sucesso de títulos e de respeitabilidade em todo o Brasil. Ali, sobre a mesa um contrato milionário: André é contratado pelos paulistas, cheios de grandes e bons editores, aqui, em Minas, para editar uma série de novos livros didáticos).

André traz a materialização dos versos de Brecht, que estão também compostos em aço na entrada da sede do Diário do Comércio e que foi feito editar em aço, pelos filhos do José Costa, para sintetizar outro como o André. São homens destemidos e da resistência, da luta de todos os dias e de todas as horas, que jamais se entregam.

...

Conheci estes Andrés, ao longo dos anos, algumas poucas décadas, mas eu conheci André, dono do Jornal de Domingo, com o Humberto Araújo, seu primo lá do Norte, de Januária e do algodão. Conheci seus conflitos e a sua dura construção de um veículo,

(“Não tem a mesma dimensão do Binômio”, André contém os mais afoitos, como eu).

Eu conheci, na década de 80, André Carvalho como homem político (Curvelo não sabe o que perdeu como prefeito). Era um político inteligente e de princípios. Portanto, peixe fora da água. Luta dura e difícil. André era um companheiro e convocado para funções, difíceis e complexas, na área de comunicação, fez profundas marcas na área pública.

Um dia, outros contarão a história dessa fase da imprensa pública mineira: André revolucionou? Revolucionou. 

Melhor: foi um administrador competente e, esta história, quem melhor conta é o bom companheiro, o jornalista Alencar Abujanra.

Assim, eu posso abrir o leque para um outro rumo. Sei também que estes textos funcionarão como um diálogo com André, que não é nenhum bobo e assim poderá nos consertar, sem censurar. 

Desmente, André?

1. A Imprensa Oficial, onde se edita o nosso jornal oficialmente oficial, o Minas Gerais, André, Tião, seu velho escudeiro, deu lucro durante dois anos. Mais ainda, deu resultados, em termos de imprensa, para todos os mineiros com as belas edições do Suplemento Literário, com as edições competentes e oportunas da Revista, editada pelo nosso Ivani Cunha. 

2. A TV Minas, a emissora oficial do Estado de Minas Gerais, que só nos trouxe dores de cabeça. Já imaginaram uma emissora cujos registros de audiência não ultrapassavam traços, de repente equilibrar-se em 1 ou 2 pontos e ter piques de audiência de até 5, 6 pontos? As pressões chegaram de todos os pontos e vieram de avião, desceram na Pampulha e bateram na porta da sala do governador. Osso duro de roer. Para que insistir em fazer uma imprensa competente. 

3. Rádio Rural. De todas as nossas lutas políticas, em que estivemos juntos, a melhor delas foi em torno da rádio Guarani Onda Rural, uma criação vitoriosa de um bando de loucos, sob o comando de Gilberto Menezes e André Carvalho.(Aos incautos, não há linearidade na história). Foi no governo de Francelino Pereira e era secretário da Agricultura o deputado Gerardo Renault.

Na equipe da rádio Guarani Onda Rural, os loucos entraram pelas ondas curtas e descobriram que o campo era o mundo: as cartas chegavam dos nossos agricultores perdidos no Japão, na Coréia, no Afeganistão, nos Estados Unidos e até na Suíça, além, naturalmente do campo que ficava no distante Jequitinhonha, no longínquo Triângulo Mineiro e no outro continente chamado Norte de Minas.

Sucesso medido por pilhas, quilos, volumes, metros de cartas, uma rádio que falava e escrevia. Mas era uma rádio do governo e da iniciativa privada, defendida pelo empreendedor e audacioso, talentoso, Camilo Teixeira da Costa, da direção dos Diários e Emissoras Associados em Minas Gerais. Aí a sua tragédia, seu destino. Era uma rádio da iniciativa privada. Feita no governo de um governador nomeado, um inimigo do povo.

Venceu Tancredo Neves. Da Secretaria da Agricultura, saiu um político eleito pelo voto, Gerardo Renault, e entrou um fazendeiro, líder da ABCZ, Associação Brasileira dos Criadores de Zebu, Arnaldo Rosa Prata, como secretário de Estado da Agricultura.

Saiu Gilberto Menezes e entrou um outro jornalista com uma missão cruel:Chico Brant.
Agora, haveria que acabar com aquela mistura indecente de iniciativa privada e Estado. A rádio não poderia ser Rádio Guarani Onda Rural. Afinal, existia a Rádio Inconfidência, a emissora oficial do governo do Estado de Minas Gerais. André Carvalho ficou em seu canto, comandando 26 companheiros e o sucesso crescendo e dando dores de cabeça para o iniciante governo Tancredo Neves, em uma área sensível.

A ordem foi estatizar – isto é, naquele início da década de 80. Assim, burocraticamente como caberá sempre a um burocrata do jornalismo, a rádio Guarani Onda Rural foi fechada e reaberta na Rádio Inconfidência. Dias depois desapareceu na onda burra da pior das censuras: a censura à competência e ao sucesso.

Minas perdeu sua rádio alegre e cheia de histórias (Wander Piroli escreveu algumas milhares de pequenas histórias – peças a serem "recolhidas e editadas por algum canalha, algum dia", dizia o mestre Wander).

Conheci André Carvalho como político e este foi o Proteu que visualizei por mais tempo. Consegui ver André crescendo nas reuniões do Palácio dos Despachos, onde a comunicação do governo se discutia de portas abertas. Aqui um aprendizado definitivo: política só se faz com diálogo. Embora insistam em silenciá-lo, o diálogo constrói tribunas para falar alto, muito alto.

Com o romance Cuba Libre, André Carvalho conquista o Prêmio Casa das Américas.

Na estante, um prêmio Jabuti, como editor, o maior prêmio do Brasil.

Na Europa, Paris entregou outros cinco prêmios para André Carvalho.

André é um político diferente e foi por isso que o governador Newton Cardoso chamou André para o seu lado e entregou-lhe funções difíceis, naquele momento: Primeiro, a Imprensa Oficial e depois a TV Minas.


(Mestre André, agora vou entrar ainda um pouco na área política. Faça o copy (avalie). Estou seguindo em frente com uma nova retranca. Se você me permitir).