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segunda-feira, 10 de janeiro de 2022

O MUNDO DO SUL

 








Da tropa para caixeiro-viajante

Rufino Fialho Filho

I

  

Tirar o café imediatamente. Era a condição dada pelo casal de cafeicultores.

"... o nosso principezinho tem que ir".

Era a minha mãe entusiasmada com o esforço do menino de 12 anos em assumir tarefas.

Fui. Sabia que não era "principezinho".

A tropa era formada por dois lotes, de dez burros cada. Eu ia a cavalo. Quando me cobriam nas curvas, passava o cavalo a um dos nossos tropeiros. Ser tropeiro era o meu grande sonho de criança. Pegava  a taca. Com os estalos tocava o lote de burros. 

Cheguei na casa da fazenda deles tocando assim, a pé, os burros, envolvido numa poeira vermelha gigante. Os burros davam o ritmo e eram rápidos. Era muita poeira que só vendo. A poeira entrava goela abaixo e machucava as nossas gargantas.

Na sequência, preparamos a tropa para receber o café, ensacar e colocar no lombo dos burros.

Eles falaram "primeiro vocês vão tomar um lanche". Era, na verdade, um almoço com muita comida.

Antes, numa grande bica de água, que trazia a água por gravidade, tirei a camisa e me meti ali, a lama corria pelo meu corpo.

Veio a dona Maria, "aí, não, meu príncipe, eu vou lhe dar um banho aqui dentro".

O piso da casa era mais branco do que esse papel das suas anotações, moço. O branco daquelas paredes doíam os olhos. O asseio impressionava como toda a limpeza daquela casa "pobre" da fazenda de pequenos posseiros que não tinham10 alqueires de terra. Produziam de tudo, de tudo mesmo e com abundância.

Não tinham sal e querosene. Nem energia elétrica e nem tecidos.

Produziam muita cana, mandioca e café. Mesmo na terra seca, plantavam café que não correspondia sempre ao esperado. Eram persistentes e aos poucos dominaram "o chão".

Ela quis me dar um banho. Eu, menino de 11 para 12 anos, envergonhado, permiti que aquela senhora me desse banho? "Que isso, meu filho, meu príncipe". Ela insistia. "Eu tomo banho sozinho". Acabei debaixo do chuveiro adaptado feito com tambor de querosene. Aberta a torneira de pau, descia a água limpa, gostosa, água mais puro que se podia imaginar.

Ela me deu uma toalha.

Ela disse

"Agora vocês vão tomar um café"

A mesa era um banquete. Ali, tudo o que se podia pensar de bom, gostoso. Variados tipos e qualidades. Cuscuz, mandioca cosida, batata doce assada, leite, requeijão, queijo, rosca, biscoito de polvilho, rosquinha, bolos, frutas variadas.

Uma coisa fantástica, tudo para nos receber "o príncipe e sua corte de tropeiros".

Não entendia e a surpresa da acolhida se tornou uma memória repetida em várias épocas para dizer de como as pessoas nos recebiam em suas casas simples, modestas sempre com mesas fartas e variadas. Juntava-se ai o carinho e a atenção. O menino registraria outras manifestações em fazendas da nossa região.

Medimos o café para carregar a tropa. Tudo pronto, nos chamaram para o almoço. Exigiram que aquele menino, uma criança, que sou eu, ocupasse a cabeceira da mesa. Meus companheiros, os dois velhos tropeiros, sentaram ao meu lado. Decidiram que eu seria o primeiro a servir. Assados tinham a paca, leitoa, frango, pato e ao lado o tutu, feijão tropeiro. Ela colocou na mesa a porcelana chinesa. Insistiam para que eu servisse. Desconfiado, receoso de quebrar um prato. Estava ali, eles sabiam muito bem, um menino da roça.

"Ah! Meu filho, já sei porque não serve, estes pratos, raramente usamos. Comprei há muitos anos, logo que me casei. Só usamos em ocasiões especiais e vocês são da fazenda do nosso compadre".

O bule que veio com o café também era de porcelana. Ali, na roça, em meio a tantas dificuldades, um simples café da manhã, um simples almoço era o suficiente para revelar a maior riqueza do nosso povo,  a fartura dos alimentos e a recepção calorosa e amiga.

 

II



PALMA DE OURO


Aqui, contarei um pouco da história da minha vida. Você, meu amigo, achará gozado. É a minha realidade. Eu sou um sujeito assim, o seguinte: sempre fui trabalhador. Não sei ficar parado. Comecei do nada. Fui subindo, crescendo em termos de ganho. Trabalho desde pequeno.

Como contei antes, aos 12 anos, meu pai me entregou duas tropas de burros, 10 burros em cada tropa para buscar café, que comprávamos de cafeicultores da região. Chegava a andar dois três dias para buscá-lo. Meu pai tinha uma plantação de marmelo, no sul de Minas.

Antes do café, comecei ajudando a transportar o marmelo que eram plantados no alto dos morros. Não sei porque as plantações eram sempre nestes locais. Nessa época, não tinha estrada para carro, só caminho para os animais, subíamos com as tropas. Você sabe o que é uma tropa de burros. Cada jacá carregava 80 quilos. Cada burro 160 quilos. Entregávamos nas fábricas. Aos 17 anos, já tinha formado uma tropa. Recolhia os marmelos de outras fazendas.No início, apenas um outro menino ajudava a carregar as cangalha, depois consegui dois peões.

Tive que ir para a cidade fazer o serviço militar. Na cidade e com esta nova tropa de gente, meus olhos ganharam um mundo novo. Decidi. Nunca mais voltaria para a roça e pegar o trabalho duro no mato. Na cidade, pegava mulher. Soldado tem muita oportunidade. Namorei pra diabo. Exército  é igual cadeia, ensina muito a gente. Eu aprendi bastante.

Falei com a minha mãe sobre a minha decisão.

- Quer nos deixar?

- Quero viver na cidade.

- Eu converso com seu pai.

Mãe é sempre assim, defende a gente. Toda mãe faz isso. Você deve ter observado, pois sua mãe já deve ter defendido  o seu lado. Quando a gente precisa, tem um problema ou precisa tomar uma decisão, elas ajudam.

Meu pai me chamou.

- Como você decidiu, meu filho, nós amos ajudá-lo. É nossa obrigação.

Comprou um Jeep e me deu dinheiro.

- Veja se segura este dinheiro e se multiplica. Se vier a faltar, volta aqui. Estarei na fazenda. Nunca deixarei de ser o seu pai.

Ele me olhava desviando os olhos, ele era muito sentimental. Também não olhei ele nos olhos, pois seus olhos, sua lágrimas, podiam me abalar ali naquela hora ou depois quando estivesse na estrada.

Ao nosso lado, nos acompanhando, meu tio Sebastião, Tião da Jandira, comerciante em São Paulo. O Jeep compramos do tio. Deveria ir com ele para São Paulo, "lá que é a cidade para trabalhar e ganhar dinheiro". Tio Tião era um homem experiente e sensato.

Compramos 800 contos de panos de vários tipos. Comprou até sutiãs. Na tabela de preços, ele estabeleceu o preço mínimo de venda e o máximo para conquistar o comprador, "assim será um eterno fornecedor destes produtos e abrirá espaço de confiança para encomendas".

Ganhei dinheiro a beça. Em menos de um mês fiz 5 viagens para recompor o estoque. Vendia nas fazendas e para pequenos comerciantes. Com o preço mínimo de 50 e o máximo de 150,00 nunca vendi por mais de 100. Quando vendia à prestação, a entrada já dava lucro. Troquei o Jeep por um Volkswagen  1962. Vi que podia avançar mais, foquei no trabalho, nada de gastar com bebida, mulher ou com qualquer outra coisa. Nada disso. Todo o ganho se voltava para investir em mercadorias.

Você conhece Itanhandu, perto de São Lourenço, e da nascente do rio Verde. Apaixonei pela cidade e na casa de um fazendeiro, cuja família comprava muito e sempre, passei a convite dele a ter ali a minha pousada. O coração não perde tempo, nem os meus olhos. A filha dele era uma estátua de ouro. Controlava para não fazer besteira e perder o meu melhor comprador.

Em Itanhandu, estacionava meu carro em frente ao hotel. Todos da região conheciam aquele carro sempre cheio de pacotes, mais de encomendas. Ela estava perto do carro acompanhada de duas amigas. Sentia-me leve, tomara um banho e um bom café da manhã na terra do melhor café do Brasil. Diziam. Saia para trabalhar. Convidei as moças para à noite irmos ao cinema ver O Pagador de Promessas.

Elas aceitaram o meu convite. Não esperava. Tinha que me reorganizar pois teria que voltar ao hotel. Paguei os ingressos. Foi nesta época que passei a frequentar mais a cidade. Na fazenda, cheguei a passar dois dias seguidos. Comida farta para 4 pessoas. A partir daí, o seu Josias, o fazendeiro começou a me mostrar suas fazendas, nessa época eram duas com muito gado de corte, gado leiteiro, porcos, carneiros e plantios organizados de milho para silo, arroz, feijão e café. Foram quatro meses de namoro. Só.

Comprei uma máquina fotográfica. Queria fotografa-la. Ela sempre foi muito bonita.

Descobri aí a minha queda para a arte fotográfica. Nunca mais larguei a máquina.

 

 

 

 

 

 

 


quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

CROMOVISÃO



Resultado de imagem para cHAPÉU cURY
Chapéu de Feltro Cury



  
      
A menina da casa velha



Gregório Rocha Lima
                                                                 
      


Esta casa de séculos em mil e setecentos. Uma cidade cheia de casas grandes. 
Cidades feitas a partir desta ou daquela construção, desde uma igreja ou de um forte 
ou a partir de uma mina. 
Nossa cidade começou ali. Você pode apontar. Pode indicar a fortaleza. 

Buscar sinais de lutas, bombardeios, dores e alegrias. 
Existem outras cidades feitas de agora. Crescidas em concreto.

Na cidade sem passado, desguarnecida de fortalezas, numa casa velha, com passado, 
desguarnecida de amores, 
nesta casa de ladrilhos na fachada, de corrimão feito por artífice estrangeiro, 
varandas com samambaias.

Neste momento, cada passo do andar, do seu andar, tem uma resposta, 
um eco e rangem as madeiras. 
Parecem, e são, vozes distantes.

Numa cidade de poucas casas velhas, 
perdidas nos sons e ruídos do hoje, uma canção chamou casa calçada, 
casa-da-calçada, casa da calçada, 
com janelas aos montes, uma em série do que é antigo abria-se aos olhos, as flores para a rua.

Aqui, ali, acá surgem as vozes. Naqueles vazios, as paredes falavam. 
Os quartos guardam ecos de silêncios. Registros.

Esta casa velha. Velha, perdida, no asfalto negro.

Fecharam suas portas altas e pesadas.

Quem virá em que tempo abrir estas portas?

Empurrá-las? Afastar o peso do outro século?

Ele penetra na casa velha.

- Pare.

- Pare, espere. Alguma coisa pode acontecer.

Só o silêncio.

Procure, então, uma canção.

A sala. As paredes crescendo, indo ao alto e voltando em tudo. Os quadros.

A seriedade do homem no retrato.

Sério e só, isolado em seu princípio de século e em seu chapéu de feltro Cury.

Quem sou eu? O que interessa para você saber destas coisas? 
Sempre foste ranzinza assim? Saia da frente, atrapalha a paisagem do quarto. 
Saia não pergunte nada.

Quero uma canção. A mulher segue nas sombras. 
Se ela voltar dizendo que minha canção não está lá dentro, 
eu vou abrir todas as janelas.

Verei o que acontecerá.

O ourives vive nesta casa velha. 
Encontrei poucos ourives que não fossem homens velhos, 
que não trabalhassem em casas velhas e salas, 
que não se dobrassem diante do trabalho. 
É de ouro a pedra de Drummond em seu longo caminhar.

Veja o ourives-engenheiro trabalhando no belo. De novo, olha em volta as sombras. 
Crescem, amarelecem, embranquecem e são sombras.

Sombras, sombras.

Veio-voltando, veio-vindo, a mulher, com a sombra.

Sua canção não está aqui. Ela parada. O som, o som.

Repetindo: sua canção não está aqui.

Como? Repetindo. Ela parada.

Incrível, pensei, como não está?

Ainda agora ela estava na janela.

Era menina e era morena.





 




quarta-feira, 6 de julho de 2016

SOLIDÃO X TRISTEZA

















A derrota da tristeza 






Elton B. Americano





a solidão não é triste,

nem é tristeza,

o silêncio não é triste

e nem é total tristeza,

o abandono não é só uma realidade

nem a única,





eu estou apenas dando um dia bom,

bonito,

de sol,

dia quente,

estou dando este dia

de presente para mim,

um dia para mim

um dia para a minha solidão,

esta bela e doce companheira

que toma conta de todos os meus momentos.

Ela merece o sol










No verão de 1920, Maiakóvski desafia o sol e o sol entra na sua sala, senta na sua frente e os dois vivem na poesia A extraordinária aventura vivida por Maiakóvski no verão da Datcha, no monte Akula.


“Brilhar para sempre,

brilhar como um farol,

brilhar com brilho eterno,

gente é para brilhar,

que tudo mais vá pro inferno,

este é o meu slogan

e o do sol.

(tradução de Augusto de Campos, para  Maiakóvski  Poemas, da Editora Perspectiva)









domingo, 8 de maio de 2016

NA COZINHA






MUNDO ENCANTADO


Clóvis Albergaria






Houve uma época em que menino não entrava em conversa de adulto. 

(Mudou: adulto não tem espaço em conversa de criança).

Antes, a seriedade no ar e etiquetas na mesa, na sala de visitas, no clube.

Na cozinha, também. Foi lá que o menino ouviu:

- Ela não veio porque está com gordura emprestada.

O menino ouviu e não entendeu.

“Gordura emprestada”.

Miséria de vida.

O que significaria alguém, uma mulher, trazer consigo um tanto de gordura que tomara emprestado de outra pessoa.

As mulheres, em seus afazeres, todas adultas, conversavam.

Não havia espaço naquela conversa para que o menino esclarecesse o significado da “gordura emprestada”.

Bobagem perguntar. Se elas ouvissem, podiam responder ou considerariam uma pergunta idiota e iam rir.

O negócio, decidiu, era atenção redobrada, ouvido aberto, bem aberto, na expectativa de que uma pista surgisse.

Ela, a ela da conversa, a ela que ausentara, que não viera hoje, esta ela era Maria Nilce.

Ponto de partida e pronto esclarecimento.

Ele tinha diante de si a imagem da Menina Maria Nilce.

Assim, a velha avó sempre a chamou, Menina Marianilce com o a dobrando Mariaalnice.

Fácil, fácil, agora ele entendia aquela expressão.

A menina da velha avó estava grávida. A gravidez  trouxe a gordura emprestada para Maria Alnice.

A gordura não era dela e nem ficaria com ela.

A gordura era de outra pessoa.

Era da criança e iria embora, seria devolvida, depois do parto.




(Das histórias do Seu Wilson, em fins de março, na Chácara).