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sábado, 9 de outubro de 2021

O GRANDE BENEDITO

 

Edson Luis 



A última madrugada 


em que caminhamos juntos



Roberto de Almeida Melo

 

 

Quer saber mais sobre o Benedito, o jornalista? Nós trabalhamos juntos um bom tempo na Rádio Tiradentes. A rádio foi criada por um amigo do peito de Roberto Marinho.


Eles falavam todos os dias: João Veras e  seu amigo Roberto Marinho.


 Depois a Rádio Tiradentes virou Rádio Globo. Depois virou a CBN. Rodrigo Mineiro, na chefia da sucursal de O Globo, em Belo Horizonte, participou do comando da transformação da rádio, mudanças de estilo de fazer  rádio, elaboradas ao longo de meses em Teresópolis, a partir de exemplos de outras emissoras, principalmente, dos EUA.


Nada disso tem valor. Valor tem o Benedito.


Com ele e o Élson Martins (*) éramos os redatores das três edições de O Seu Redator Chefe, carro chefe do jornalismo do rádio do doutor  Roberto (segundo Veras)


Fazia o de meia noite e adiantava o material do jornal das seis da manhã. A partir daí, saíamos, Benedito e eu, do Edifício Mariana, na avenida Afonso Pena, madrugada, em horário que não tinha mais ônibus. Caminhávamos do centro até o Prado, onde nossas casas ficavam a dois quarteirões uma da outra, nas imediações da igreja Cura D'Ars.


Imagine este percurso, todas as madrugadas. A pé. Conversávamos?


Você conheceu Benedito. Conversávamos? Claro que não.


Eu ouvia o Benedito. E ele tinha muita coisa para falar. Como todo bom locutor, empostava sua voz, gostava de se ouvir. Fique claro, éramos sua audiência, eu e ele ouvíamos ele.


Ele ouvia-se, profissionalmente, para corrigir erros de fala e de pronúncia. Aprimorava-se, como todo locutor que se preza em nosso rádio.


 Agora, minha maior loucura, eu gostava de ouvi-lo. Mais experiente, não por ser mais velho. Repito. Loquaz, tinha prazer em argumentar e, percebi, ele também  tinha prazer em ouvir a própria voz. Confirmava esta impressão ouvindo-o falando alto nas ruas da madrugada.  Uma voz forte, pausada, silabas bem pronunciadas, na madrugada, têm mais força de convencimento do que dita no estúdio da rádio.


Era, verdadeiramente, uma reflexão ambulante sobre 1. a vida (mulheres, principalmente, quase que exclusivamente, "viver é amar" sentenciava),  2. a profissão (crítico sagaz, porque sabia elogiar os patrões)e 3. a política - na rua opositor ferrenho, caustico e sarcástico. No ar, governista. Não, patronal. Valia a orientação/opiniões do doutor Roberto via Veras. 


Ontem, quando ouvi  que "Benedito morreu há mais de 20 anos", retomei o meu Benedito como o conheci, alto, magro, sempre de terno, naquelas caminhadas, tarado (parava o trabalho para namorar pelo telefone). Eu e o Élson escrevíamos, sozinhos,  quase todos os jornais.


Namorando, esquecia de tudo em volta. Isto dentro de uma sala não muito grande em que ouvíamos as falas dele para a moça, sei lá se moça, do outro lado da linha. Coisa muito comum em rádio, ouvintes apaixonadas pela voz masculina - você sabe da sedução de uma boa voz no rádio, você que ouvia rádio e, pelo que vi ontem, seu rádio continua ligado


A madrugada em que parei de caminhar com Benedito, foi quando ele manteve, assustado,  um olhar de pavor na redação da rádio Tiradentes. Percebi nele a expressão de medo. Medo de ser preso. Afinal, era o tempo da ditadura militar.  


Teve o assassinato do estudante Édson Luís, no Rio. E teve um discurso de Lacerda. Estas eram as notícias. O assassinato no Canecão, restaurante popular, no Rio. Do Lacerda, Carlos Lacerda, governador, veio um discurso violento.


E teve também, na sequência,  a invasão da Rádio Tiradentes, pouco depois do meio dia, pela polícia.


Naquele dia,  eu terminara a redação do jornal O Seu Redator Chefe do meio dia. Na fila do elevador,indo embora, os policiais passaram por mim.


Não sabia e nem imaginava onde eles iriam.


E estavam indo para a rádio.


No dia anterior, fora assassinado, no Rio de Janeiro, pela polícia o estudante Edson Luís (*). O governador do Rio, Carlos Lacerda, talentoso jornalista e melhor orador ainda, fizera um discurso condenando o assassinato com várias frases "emocionantes e de efeito".  Características do seu discurso.


Trabalhei uma edição especial do jornal centrada no discurso, cujos trechos mais importantes entrelaçava com registros do episódio no Calabouço com entrevistas, pronunciamentos de autoridades.


Era uma senhora porrada na ditadura militar.


Para eles, os do lado de lá, o grave não era o crime cometido, o assassinato de um estudante em um restaurante popular, grave era o discurso de um ex-aliado dos militares.


Sexta-feira, 29 de março de 1968 foi meu último dia na Rádio Tiradentes.


Segundo Bendito,com cara de pavor:


 "Pô, cara, a polícia me prendeu por sua causa. E eles sabiam que eu não escrevi e nem editei o jornal".


João Veras passou mal. Muito mal mesmo. Não foi por causa da polícia, de quem sempre se disse amigo


Naquele dia, João Veras atendeu um único telefonema de Roberto Marinho... e passou muito mal.


Internado, às pressas, ainda no hospital, revelou-se  o teor do telefonema: Roberto Marinho demitira seu grande amigo,o piauiense João Veras.



 

(*) Com o Elson Martins e João Alberto Capiberibe fomos primeiro para o Pará pela ALN, onde em Castanhal, avaliamos a ação de resistência à ditadura, comandada por posseiros.

 

 (**) Edson Luís de Lima Souto (Belém24 de fevereiro de 1950 — Rio de Janeiro28 de março de 1968, quinta-feiraestudante secundarista brasileiro assassinado por policiais militares, durante um confronto no restaurante Calabouço, centro do Rio de Janeiro. Seu assassinato marcou o início de um ano turbulento de intensas mobilizações contra o regime militar que endureceu até decretar o chamado AI-5. Era aluno do Instituto Cooperativo de Ensino, no qual funcionava o restaurante Calabouço.


https://pt.wikipedia.org/wiki/Edson_Lu%C3%ADs_de_Lima_Souto



 

 

 

 

 


sexta-feira, 11 de outubro de 2019

UM AMIGO SEMPRE




Nossos bons amigos





Hélio Costa,

Itamar de Oliveira,

Zaire Rezende,

Ronan Tito

e Paulo César




A Sombra




Roberto M. M. Felice
1.

Ela sempre atenta às crianças, e eram muitas, uma escadinha. Chegou a sete filhos. Sete degraus. A atitude dela definiu um comportamento que adotei para sempre.

Num resumo, seria: não ser guloso; enfim, não fazer feio na mesa.

Antes de ir a uma festa de crianças, ela preparava todos os doces e guloseimas que seriam servidos também na festa. Já vestidos para a festa, os meninos podiam comer à vontade. Na festa, o nosso comportamento  era elogiado. "Mulher, seu meninos são muito educados".

A lição aplicada.

Quando tinha um encontro programado, em que sairia pela primeira vez com uma menina, ambicionada por todos, se não dava para transar antes com uma profissional, no banho já masturbava. 

Não avançaria o sinal e não seria guloso e, tinha certeza, de que a segunda gozada, seria mais demorada e mais gostosa.

Foi esta lição que acendeu o sinal de alerta.

Ao masturbar, naquele dia, a dor foi tão forte que não insisti em gozar.

De cara: próstata.

Nenhuma dúvida.

Ela, a próstata, não quer liberar a porra. E não teve porra nenhuma

Primeira hipótese, próstata aumentada, o que seria diagnosticado como Hiperplasia Benigna da Próstata.

Urina normal com pouca retensão, a queda na libido seria a preocupação maior.

2.

Ronan Tito já me advertira sobre os cuidados e as cautelas que tínhamos que ter, depois dos 40 anos, com a próstata. Citava o caso do irmão dele, Ismael, que não cuidava e chegou, em BH, já fedendo, sem controle da urina. O urologista resolveu rápido e curado, Ismael voltou para o Triângulo.

Lá estava o remédio. O milagre: Combodart

Tempos depois, em julho, voltamos ao Combodart.

Pedi o nome do remédio e a posologia passada para o Ismael. A certeza, sem exames, era que se tratava da hiperplasia. Ronan contestou, marcaria o exame com o urologista dele e do irmão, o dr. Denilson.

Tinha comigo todos os exames anuais de PSA, além de periodicamente fazer o controle com o dr. Marcelo Martins, no Hospital Felício Rocho, que me acompanha há mais de 10 anos. 

Não havia nenhuma necessidade da consulta. Diante da segurança com a qual o Ronan decidiu marcar a consulta, "eu pago", disse ele, pedi o contato do dr. Denilson. Eu marcaria. Quem, na verdade marcou nossa consulta foi Pedro Tito, filho do Ronan.

Isto foi em julho.

Já a sombra de um diagnóstico barra pesada crescia em torno dos meus passos. Era perseguido por aquela "sombra chata", como dizia Isabella, ao mandar ela se afastar: "Sai sombra chata".

3.

A partir dai foram mais de 60 dias de tensão, de expectativa e aflição diante da perspectiva de um simples exame da próstata. Antes, uma rotina que me dava segurança ano após ano. E tinha a glândula sobre controle.

Foi no dia 28 de julho que havia pedido o nome do remédio.

No dia seguinte, recebo esta mensagem
do Pedro Tito:

"Bom dia. O papai quer falar com você."

Na sequência, outra mensagem no dia seguinte.

Pedro Tito: Seu horário com dr Denilson urologista dia 02/10 às 11,30h

De 28 de julho a 02 de outubro foram 66 dias difíceis em que o diagnóstico pesaria muito forte e que me fez pensar quais seriam as minhas alternativas/opções. Alternativas que teria a enfrentar e as opções disponíveis

Fomos no urologista, Ronan e eu. Pedro nos levou.

A próstata estava aumentada, dr. Denilson pediu exames de ultrassom para calcular o tamanho da glândula, e já definiu o tratamento. Receitou o Combodart e pediu também exames de sangue para certificar do estado dos hormônios do sexo, enfim como eu estava, efetivamente funcionando.

Explicou que o remédio não alteraria a libido e a redução do líquido do sêmen seria temporário.

Minha cabeça já estava à cata da bula, quero saber tudo - não deveria, mais na frente, eu conto.

4.

Naquele final de semana, acampei no Laboratório Hermes Pardini, fiz os exames de sangue e os dois ultrassons no domingo, dia 06/10, às 7h da manhã.

07, segunda-feira, no primeiro horário do consultório do doutor Denilson não conseguia ser atendido para marcar o retorno. A chamada caia numa longa fala sobre o consultório, as especialidades e a localização 

Dia 08 de outubro. Com o número correto consegui falar no consultório. Andréia, a secretária não tinha como agendar o retorno. Agenda lotada até dezembro. Propus deixar os resultado dos exames no consultório. Ele avaliaria e decidiria o atendimento, se fosse urgente, ou me encaixaria numa desistência.

Li os laudos:

"Peso prostático estimado em 38 gramas"

"Parênquima apresentando textura sólida, heterogênea, com corpos amiláceos de permeio".

"Aumento das zonas de transição".

O peso normal seria de 25 gramas. Ali, tinha, aproximadamente, 13 gramas a mais.

Depois:

A parênquima tudo bem, deu para sacar.

E os corpos amiláceos? O que o wikipedia diz:

Corpos amiláceos, conhecidos também como corpora amylacea ou cálculos prostáticos  são massas pequenas e hialinas encontradas na próstata. Eles se originam de células degeneradas ou secreções espessas e aumentam em ocorrência conforme a idade. Apesar de seu significado biológico não ser conhecido, eles podem ser utilizados para identificação do órgão ao microscópio.
Na próstata, sua aparência é comum em glândulas benignas (sem neoplasias), mas sua presença não exclui a possibilidade de haver um câncer.[

A partir daí a sombra cresceu e o pavor chegou " sua presença não exclui a possibilidade de haver um câncer.  "


Pavor mesmo.

Ainda tinha o

"Aumento das zonas de transição".

Não devia ter lido o que não entendo e que nem mesmo a internet pode ajudar. É a linguagem da ciência médica.

5.

 Não entendi e fiquei apavorado - deixei os exames no consultório - com o retorno marcado para 10/12/2019.

Não havia outra data.

A preocupação era ter uma interpretação correta do resultado dos exames - o médico poderia definir a necessidade de antecipar a consulta ou me liberar para aguardar até dezembro

Ainda do dia 08 à noite, uma mensagem no whatsApp marcava o retorno para o dia seguinte às 11h de 09/10,quarta-feira.

A sombra tomou conta de tudo.

Por que a antecipação de dezembro para amanhã?

A certeza e/ou incerteza era de que o médico decidira antecipar uma vez feita a análise  dos exames porque tomara conhecimento e devia agir com urgência.

Já entrava em cena a biopsia. Palavra selvagem, dura, sem alma.

Lembrei de Raquel, entrando no carro, eu a esperava na porta do consultório na rua Manaus.

É câncer.

Ela nunca fará uma ideia do que significou aquelas palavras, o peso e o impacto destas palavras: o verbo e o substantivo.

Ali, na rua Manaus começaria um trajetória de luta da minha filha e do Gustavo, que mais do que um exemplo, seria para mim, um símbolo do amor e da capacidade de vencer obstáculos - a cirurgia, a quimioterapia, a radioterapia e todos os dias, vencidos dia a dia, após cada ida ao Hospital Felício Rocho.

Aos 73 anos, não teria nem a resistência, nem a mesma força de vontade da Raquel, de Rita, do Beto, do Nilberto, do Tiãozito.

Meu tempo seria curto, muito mais curto

Talvez tenha dormido meia hora à noite. Se dormir mais, dormi salteado, acordando de tempo em tempo.

6.

Até o horário, 11h, do dia 9, quarta-feira, a tensão e a insegurança me acompanharam. Ele, doutor Denilson, teria detectado o câncer na próstata ou sinais de uma evolução com o crescimento de 25 para 38 gramas? O que significaria este crescimento? Do consultório para a biopsia?

Como me organizaria caso fosse fazer o tratamento -  pensava em não me submeter a um tratamento que só traria transtorno para quem se dispusesse a me acompanhar e sabia que não teria ninguém, qualquer pessoa que viesse me acompanhar estaria com seus compromissos comprometidos.

Enfim, a realidade, ninguém teria tempo e nem poderia perder tempo comigo. Pensava em quem fez o tratamento e em como foi o dia a dia e as semanas e os meses. Valeria a pena?

Assim, passei a noite.

Ao acordar, o medo, que engatinhou-se ao meu lado a noite toda, desapareceu.

A sombra, antes muito chata, sumiu.

Mudei minha cabeça.

Caso o diagnóstico fosse o câncer, tudo bem, teria uma conversa com o médico em que pediria informações sobre o tempo que teria se não fizesse o tratamento e sobre o próprio tratamento.

Ao me apresentar no consultório, a secretária Andréia, hoje foi o dia das Andréias, devolveu os exames.

Naquele dia, estive com mais duas Andréias.

O médico não viu os exames.

Respirei aliviado.

Saiu da minha cabeça aquela ideia louca de que havia uma urgência na antecipação da consulta de dezembro para o dia seguinte à entrega dos exames.

Segundo Andréia, ele preferia olhá-los na minha frente. Eficiência e organização do trabalho. Assim não teria que repetir a análise duas vezes. O retorno fora antecipado depois de sete desistências.

Uma informação positiva se sucedendo a outra.

Acabou o temor de chegar e ser informado do câncer.

Ainda não era câncer.

Minhas chances aumentaram e confirmaram o diagnóstico de Hiperplagia Benigna da Próstata - próstata aumentada.

Começaria, imediatamente o tratamento com Combodart e o resultado só seria avaliado em maio de 2020.

Na consulta, ele quis saber se já começara a tomar o Combodart. Por outro lado, eu queria saber se tinha a opção de genérico e falei da minha pesquisa de preço. Imediato, mandou Andréia me entregar quatro caixas de amostra grátis e que era para começar, imediatamente, o tratamento.

Teria até maio.

A resistência ao medicamento caia a cada momento. Por que não tentar?

Só que havia pontos positivos:

 Combodart® trata e previne a progressão da Hiperplasia Prostática Benigna (HPB), através do alívio dos sintomas, reduzindo o tamanho (volume) da próstata, melhorando o fluxo urinário e reduzindo o risco de retenção urinária aguda (RUA) e a necessidade de cirurgia relacionada à HPB.

E um ponto negativo:

Câncer de próstata e tumores de alto grau

Em um estudo de quatro anos em mais de 8.000 homens com idade entre 50 e 75 anos, com biópsia anterior negativa de câncer de próstata e PSA basal entre 2,5 ng/mL e 10,0 ng/mL (estudo REDUCE), 1.517 homens tiveram diagnóstico de câncer de próstata. Houve maior incidência de cânceres de próstata (pontuação de Gleason 8-10) no grupo dutasterida (Avodart® ) (n=29, 0,9%) em comparação com o grupo placebo (n=19, 0,6%). Não houve aumento da incidência de câncer de próstata com pontuação de Gleason 5-6 ou 7-10. Não se estabeleceu relação causal entre dutasterida e câncer de próstata de grau elevado. A significância clínica do desequilíbrio numérico é desconhecida. Os homens que usam dutasterida devem ser avaliados regularmente quanto ao risco de câncer de próstata, inclusive com exame do PSA .

7.

Até maio.

Um rio a atravessar, sem medo, mesmo sabendo ser um rio caudaloso, com fortes correntezas. Se neste rio tem cobras, sucuris, jacarés, piranhas, é neste rio que estou. O risco não é a presença de animais ferozes nem na cachoeira lá na frente.

Agora, é atravessar o rio. Não tem saída a não ser chegar à outra margem com data marcada.

Não tem jeito. Você já está no rio.





terça-feira, 24 de setembro de 2019

IL MONDO È POCO

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Assim Como o Migo

Rufino Fialho Filho



Levei para Darcy, o Novo Diário de Eduardo Frieiro (*). Darcy trepava e tomava banho. Duas horas no banheiro. Uma manhã inteira.

 “Ela gosta de tomar banho sentada. Por isso, o banquinho... também funciona como uma cama...”

Ele estava com uma mulher maravilhosa.

Outra não era a sua vida.

Ele folheou o livro de Frieiro e comentou que o banho da mulher era tão demorado que no banheiro deixavam duas cadeiras e o banquinho, ali debaixo do chuveiro passavam duas, três, quatro horas.

Grande fodedor! Imaginei o que era esta sua vida maravilhosa e inimitável. Talvez, imaginava, resultado de sua temporada de mais de 10 anos com os nossos índios nas selvas do Araguaia.

Como ele sabia administrar tão bem e tão competentemente seu tempo.

Ali, exercíamos funções de governo, ele secretário de Estado, eu um seu companheiro na área de comunicação.

Quatro horas de trepada e aquele incrível volume de trabalho e de gestões dentro do Estado.

Além das polêmicas, é claro.

Darcy conheceu Frieiro, já conhecia há um bom tempo. O Novo Diário, editado em 1986, pela Itatiaia, ele recebia agora.

Conta histórias do historiador Iglesias, ri da academia em que o Iglesias se prendeu.

Lembra que Frieiro fez do texto e da ousadia uma marca do gênio.

Começa a ler o Novo Diário. Por que Novo? E o velho, onde está o outro? Por que se referir ao outro?  Darcy começa a questionar.

Ele lê as primeiras páginas.

Frieiro queimou seus diários pelo amor de uma mulher? Ele não podia ter feito isto ainda mais que o velho diário chamava-se “Diário de um Homem Secreto”.

Canalha! O amor seria mais bonito se a mulher conhecesse, quem sabe, aquele homem secreto, aquele homem que se descobriria somente para ela, para ele e ela. Talvez não fosse tão secreto assim.

O que, diabos, Frieiro, fizera? Por que fizera aquilo? Era um homem racional. Iria casar, decidira casar.

Entraria em sua vida uma mulher e um cachorro. Ele sabia que ela jamais teria condições de conviver com um homem que ela conhecesse bem? Uma mulher jamais seria capaz de conhecer um homem? Um homem jamais deveria revelar-se a uma mulher?

E Noêmia, que lera e conhecia o Diário de um Homem Secreto, se referia àquela obra como a "obra-prima" do marido. Ela também tentara convencê-lo a não "suicidar", a não queimar o diário. E Frieiro queimou seu “Diário de um Homem Secreto” com muita segurança.

Convicto de que o que fazia era o certo.

Ao deixar-nos o Novo Diário, ele revelaria o que perdemos. Aí teríamos que ficar putos com ele. Ele não poderia, não teria o direito de subtrair-nos tudo aquilo que o seu talento construiu, anos e anos seguidos, em um dos períodos mais férteis de sua vida. Filha da puta!

A nossa conversa sobre Frieiro não terminou aí. Darcy presenteou-me com uma fita do filme em que ele trabalhou como consultor e roteirista. Um registro e denúncia de um massacre de índios. (**)


Resultado de imagem para darcy ribeiro E OSÍNDIOS
Berta acompanhou Darcy 


À noite, em uma recepção, Darcy arrasta-me em um canto e começa a me contar a história de um colosso, o colosso, o colosso e diz que, depois de ler Frieiro, decidira dar por encerrada a sua história de e em Minas. Aqui ele termina o romance Migo, “migo de comigo, de amigo, migo de inimigo”.

Agora, era trepar, ser secretário, trepar, polemizar, trepar, ler Frieiro, trepar, trepar e acabar de escrever um novo romance.

Estamos em 1987, em 1984 há um registro de Darcy lendo trechos do Migo para o jornalista Paulo Narciso (***).

Disciplinado, no outro dia, ele me estende os primeiros capítulos reecritos do romance, Migo. É uma aventura na alma do mineiro e traz um relato apaixonado da morte de Felipe dos Santos, esquartejado, seu corpo amarrado em quatro cavalos.

Ele apanha suas anotações. Lê e faz pausas observando, rapidamente, o resultado da sua leitura.

“Felipe dos Santos teve a morte mais violenta de todos os nossos heróis, ele foi esquartejado vivo e nós vamos sentir todas as suas dores lacerantes, seu sangue explodindo sobre todos os animais que o rasgavam, ele foi rasgado, a morte mais dolorida, mais violenta, o primeiro jato de sangue explodiu na cara de qual dos tocadores de cavalo? O da direita? O da esquerda? O que tocava o cavalo da perna esquerda? Da direita? Filipe dos Santos morreu a morte horrível e esta morte é a morte que mais contundente fere a alma dos mineiros. Felipe dos Santos é o nosso herói mais odiado pelos nossos inimigos, por todos os nossos opressores”.
Darcy vê uma mulher aproximar-se e, diz, o tempo é curto.

“Il mondo è poco”.

Como? Para ele não.







(*) Novo Diário, Eduardo Frieiro, Editora Itatiaia, 1986



(***) Paulo Narciso:  “No Rio, ele me punha a ler capítulos do Migo, que ele escrevia, isto foi em 84. Eu lia e ele escutava e assim varamos a noite e a madrugada. Ele queria perceber o que as pessoas entendia e o que as pessoas sentiam com aquela história.

“Muitas vezes saíamos juntos, eu e ele, só nós dois. Saíamos por aí. Em Montes Claros, eu o acompanhava para as conferências e íamos falando, conversando e os temas eram variados. Quando chegávamos no local, ele falava aquilo tudo como se fossem fatos, fazia sua conferência a partir daquela conversa. Eu me apanhava assustado e ele, bom provocador, justificava-se, queria era mesmo, simplesmente provocar a todos, inclusive eu, ali, atônito.










sexta-feira, 6 de setembro de 2019

OS ASSASSINOS CONTINUAM SOLTOS



A última madrugada 


que caminhamos juntos




Roberto Melo de Alcântara




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Os estudantes não deixaram a polícia levar o corpo de Edson Luiz



Roberto de Almeida Melo


Quer saber mais sobre o Benedito, o jornalista. Nós trabalhamos juntos um bom tempo na Rádio Tiradentes. A rádio foi criada por um amigo do peito de Roberto Marinho. Eles falavam todos os dias: João Veras e  seu amigo Roberto Marinho.


Depois a rádio virou Rádio Globo,  depois virou a CBN. Rodrigo Mineiro, na chefia da sucursal de O Globo, em Belo Horizonte, comandou a transformação da rádio, mudanças de estilo de fazer  rádio, elaboradas ao longo de meses em Teresópolis.

Nada disso tem valor. Valor tem o Benedito.

Com ele e o Elson Martins (*) éramos os redatores das três edições de O Seu Redator Chefe, carro chefe do jornalismo do rádio do doutor  Roberto (segundo Veras)

Fazia o de meia noite e adiantava o material do jornal das seis da manhã. A partir daí, saíamos, Benedito e eu, do Edifício Mariana, na avenida Afonso Pena, madrugada, em horário que não tinha mais ônibus. Caminhávamos do centro até o Prado, onde nossas casas ficavam a dois quarteirões uma da outra, nas imediações da igreja Cura D'Ars.

Imagine este percurso, todas as madrugadas. A pé. Conversávamos? Você conheceu Benedito. Conversávamos? Claro que não. Eu ouvia o Benedito. E ele tinha muita coisa para falar. Como todo bom locutor, empostava sua voz, gostava de se ouvir. Ouvia-se profissionalmente, para corrigir erros de fala e de pronúncia. Aprimorava-se, como todo locutor que se preza em nosso rádio.

 Agora, a minha loucura: eu gostava de ouvi-lo. Mais experiente, não por ser mais velho. Repito. Loquaz, tinha prazer em argumentar e, percebi, ele também  tinha prazer em ouvir a própria voz. Confirmava esta impressão ouvindo-o falando alto nas ruas da madrugada.  Uma voz forte, pausada, silabas pronunciadas, na madrugada, têm mais força de convencimento do que deita num estúdio de rádio.

Era, verdadeiramente, uma reflexão ambulante sobre 1. a vida (mulheres, principalmente, quase que exclusivamente, "viver é amar" sentenciava),  2. a profissão (crítico sagaz, porque sabia elogiar os patrões)e 3. a política - na rua opositor ferrenho, caustico e sarcástico.

Ontem, quando ouvi  que "Benedito morreu há mais de 20 anos", retomei o meu Benedito como o conheci, alto, magro, sempre de terno, naquelas caminhadas, tarado (parava o trabalho para namorar pelo telefone). 

Eu e o Elson escrevíamos, sozinhos,  quase todos os jornais).

Namorando pelo telefone, Benedito esquecia de tudo em volta. Isto dentro de uma sala não muito grande em que ouvíamos as falas dele para a moça, sei lá se moça, do outro lado da linha. Coisa muito comum em rádio, ouvintes apaixonadas pela voz masculina - você sabe da sedução de uma boa voz no rádio, você que ouvia rádio e, pelo que vi ontem, seu rádio continua ligado.

A madrugada em que parei de caminhar com Benedito, foi quando ele manteve, assustado,  um olhar de pavor.

Teve um assassinato. E teve um discurso de Lacerda. Estas eram as notícias. O assassinato no Canecão, restaurante popular, no Rio. Do Lacerda, Carlos Lacerda, governador, veio um dicurso contundente sobre o assassinato.

E teve também, na sequência,  a invasão da Rádio Tiradentes, pouco depois do meio dia, pela polícia.
Naquele dia eu fui o redator do jornal O Seu Redator Chefe do meio dia. Na fila do elevador, indo embora, os policiais passaram por mim.

Não sabia e nem imaginava onde eles iriam. Estavam indo para a rádio.

No dia anterior, fora assassinado, no Rio de Janeiro, pela polícia o estudante Edson Luís (**). O governador do Rio, Carlos Lacerda, talentoso jornalista e melhor orador ainda, fizera um discurso condenando o assassinato com várias frases "emocionantes e de efeito".  Características do seu discurso.

Trabalhei uma edição especial do jornal centrada no discurso, cujos trechos mais importantes entrelaçava com registros do episódio no Calabouço com entrevistas, pronunciamentos de autoridades diversas.

Era uma senhora porrada na ditadura militar.

Para eles, os do lado de lá, o grave não era o crime cometido, o assassinato de um estudante em um restaurante popular, grave era o discurso de um ex-aliado dos militares.

Sexta-feira, 29 de março de 1968 foi meu último dia na Rádio Tiradentes.

Bendito,com cara de pavor:

 "Pô, cara, a polícia me prendeu por sua causa. E eles sabiam que eu não escrevi e nem editei o jornal".

João Veras passou mal. Muito mal mesmo. Não foi por causa da polícia, de quem sempre se disse amigo.

Naquele dia, João Veras atendeu um único telefonema. Ligação de Roberto Marinho... E passou muito mal.

Internado às pressas, ainda no hospital, revelou-se  o teor do telefonema: 

Roberto Marinho demitira seu grande amigo,o piauiense João Veras.




(*) Com o Elson Martins e João Alberto Capiberibe fomos primeiro para o Pará pela ALN, onde em Castanhal, avaliamos a ação de resistência à ditadura, que comandada por posseiros. 




 (**) Edson Luís de Lima Souto (Belém24 de fevereiro de 1950 — Rio de Janeiro28 de março de 1968, quinta-feiraestudante secundarista brasileiro assassinado por policiais militares, durante um confronto no restaurante Calabouço, centro do Rio de Janeiro. Seu assassinato marcou o início de um ano turbulento de intensas mobilizações contra o regime militar que endureceu até decretar o chamado AI-5. Era aluno do Instituto Cooperativo de Ensino, no qual funcionava o restaurante Calabouço.



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