quinta-feira, 19 de outubro de 2017

DESAFIO




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A Vida & O Gesto Seguinte



Severo Bastos







Não antecipe o próximo gesto

Imagine-o

Deixe no acontecido

Não o antecipe




Você sabe que estenderá a mão

Você sabe com exatidão

O próximo gesto

O próximo sonho



Não o antecipe



Nem se entenda depois dele

Não o realize




Considere,

considere a possibilidade

de tudo imaginar

Não feche nada

Deixe tudo em aberto

jamais antecipe o gesto ou o sonho



Exercite

e a tudo considere realizado



Faça como os chineses

que produzem nanquim.

Este azul será para o céu

será para o mar

será para as montanhas distantes

será o azul cobrindo tua pele,

pingos de água e de azul

em tua barba em pele moça




Não antecipe nada, nada

Nem mesmo tua

imensa fortuna.






quarta-feira, 18 de outubro de 2017

SER FELIZ





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AGORA & SEMPRE







Aloysio Patiño






A tristeza que assoma sua face,

a tristeza que chega de repente,

aquela tristeza maluca,

sem explicação,

preliminar da derrota de todo ser vivo,



aquela tristeza igual conformidade,

tristeza sem sentido e que todos,

habilmente, compreendem e tiram o corpo fora,





aquela tristeza chegara e ele resistira,

uma resistência, cada vez mais, solitária,

era sua atitude, seu hábito,

não render, não ceder,

não se entregar

e ele não cederia,

não renderia

e não se entregaria jamais.





Era seu hábito, era seu ser

e se tivesse que combater aquela louca e absoluta tristeza,

ele a combateria

com a alegria perdida,

com a alegria infantil que buscaria,

inesgotavelmente,

de dentro da própria vida

e de seus instantes 

múltiplos,

pródigos

vazios.






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terça-feira, 26 de setembro de 2017

A PRISÃO EM MIM




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Como uma crosta


Rodrigo de Olivares Antunes



O que são os sonhos?

Já havia acordado, levantei e voltei a deitar.

Pouco depois das 5h. Amanhecia em um dia frio e chuvoso.

Não mais aquela água forte e permanente dos períodos chuvosos nos trópicos. Sentia-se a umidade. Tempo frio e úmido.

Deitei, cobri-me com três cobertores e o meu corpo estava quente.

De madrugada chegara até a suar, seria da idade, a andropausa.

Sonhei.

Primeiro com os meus filhos, Laura e Heloisa.
Atentos com Isabela, em um lugar que mais parecia um clube. Muita gente. Muitos rapazes e moças. Laura pergunta indignada por Heloisa. Afirma, categoricamente, o nome de um rapaz. Quando nos aproximamos, Heloisa está sentada, forte e segura,  só. Um rosto triste. Triste por causa do seu desempenho. Ela não gostara da apresentação que fizera.

Depois, talvez nesta mesma festa, eu acompanhava uma criança pequena que engatinhava. Ela segue por todos os lados. Toma suas primeiras quedas comigo e é inquieta, quer entrar em todos os lugares e sair, entrar e sair.

Aí, o outro sonho, volto à minha casa.

Na rua, não a encontro. A rua está como sempre vejo estas cidades: em obras. Obras por todos os lugares. Prédios explodindo, onde antes não imaginávamos que prédios poderiam surgir, por todas as razões e pela razão das proibições das posturas municipais.

Os prédios saiam em meio às casas. A nossa casa lá estava. Um tumulto, coisas do lado de fora e a casa dividida, uma parte era uma firma. Ela está, chamo, ela e o seu novo companheiro, velho companheiro, um crioulo baixinho (idêntico ao crioulo de Mariazinha), vem atender. Ela ama e abraça.

Eu controlo o meu corpo e o dela. Não tenho a mesma liberdade que ela. Ela me abraça e choramos.  Sua irmã Deoclésia está na sala.

Choramos e falamos “e os nossos filhos?”

Choramos e choramos. As pessoas sentam, sinto que o crioulo é um homem bom, sinto. Deoclésia levanta, também chora, e sai da sala.

Eu me pergunto sobre o que é o amor, pois eu ainda a amava mesmo com a consciência de tudo, de tudo o que sofremos. Por tudo, por nossas inconsequências, irresponsabilidades.

Eu, eu, o irresponsável, por nunca ter sabido amar, por nunca ter sido capaz de na minha imensa paixão e amor, jamais ter sido capaz de entender, corresponder. Enfim, ser um ser verdadeiro para um outro ser.

Não era verdadeiro nem para mim. Sento na cama com este sonho na cabeça, sem saber se o anotaria agora ou depois. Depois seria o esquecimento certo.

Sento na cama.

Sete horas. Devo levantar para trabalhar. Sentado na cama, só, olho em volta, na janela as grades. É, lá estão elas, embora seja um quarto da casa do meu pai, ali estava eu de volta à prisão. Era um catre, talvez uma cela de um seminário, talvez o quarto da própria casa do meu pai. Uma prisão. Eu mais uma vez, como sempre, irremediavelmente, preso.

Uma prisão que carrego “em meu próprio dorso”.







segunda-feira, 25 de setembro de 2017

SEM DESTINO & A OPÇÃO CERTA






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ITA VÊ O MUNDO



Fabiano A. Fortes



                                               
“... a morte de qualquer homem
me diminui,
porque sou parte do gênero humano.
E, por isso, não me perguntes
por quem os sinos dobram;
eles dobram por ti.”

John Donne




Naquela tarde quase noite de segunda-feira, o Ita caminha pelos morros do bairro Santo Antônio, depois de uma reunião cancelada. Sem direção. Para onde ir? Tinha cinco opções: (1) ligar para Mangaratiba, a Louca, para trepar. Seria uma boa, sairia de lá meia-noite, uma hora e a apanharia cheia de tesão, ainda saindo da menstruação. Bom era trabalhar a trepada antes, esperar Glória, a tia da Louca sair da mesa do jantar e ir para o seu apartamento no prédio ao lado.  

(2) A segunda opção era encontrar com os seus dois filhos, Mikail e Alessandra, 14 e 12 anos, crianças maravilhosas. Ficar lá até quatro horas com eles. Revirando o cotidiano deles. Sabia que eles gostavam daquela pequena hora que sempre tínhamos para improvisar.

(3) A terceira era o meu velho pai, agora com 90 anos, doente, arrastando-se pela casa com dificuldades. Sempre sozinho, numa imensa solidão, doente, doente e dormindo quase sempre. Só, muito só. Ficar lá com ele.

(4) A quarta opção seria sair para conversar fiado com os amigos, Paulo Augusto e Bejani. Falar mal de todos e de nós mesmos, resgatar histórias e falsificá-las, beber, beber, mentir, mentir e voltar desabando para a cama.

(5) A quinta opção era seguir correndo para o esconderijo que nesta noite seria O Esconderijo/Solidão. Seria a minha pura solidão – hoje, como ele se sente.

Apanhou o segundo ônibus em direção a uma destas opções. Na subida da avenida Carandai, viu um homem segurando na grade do parque. O homem parecia passar mal. Ao seu lado um rapaz, mochila nas costas, procurava conversar, oferecendo ajuda e pelos gestos indicava que o Pronto Socorro estava a menos de 150 metros de onde estavam, bem perto, uma subida, atravessar uma única rua e chegar. O homem parecia não ouvir, passava muito mal, de repente o homem, um senhor de mais de 50 anos, gordo, baixo, começou a não se sustentar na grade e, devagar, descia para a calçada, deitou no chão. Via-se que o jovem não sabia o que fazer e olhava desesperado para as pessoas que passavam e passavam muitas pessoas. Pessoas que olhavam para os dois, apenas olhavam. Via-se a indiferença nos gestos de todos, todos com um destino, uma obrigação, um caminho, iam, olhavam, passavam. O jovem se afastou, olhou, olhava para um e para outro, afastou-se e voltou. Conversou com o homem, parecia que não o ouvia. O ônibus ganhou velocidade e subiu.

Ita lembrou de outra cena que também vira da janela de um ônibus circular, dias atrás. Trânsito engarrafado, horário de almoço, ônibus cheio de estudantes e de funcionários públicos indo para o almoço, todos reclamavam do engarrafamento naquela avenida larga, de quatro pistas. Não tinha sentido, era um absurdo, culpa do prefeito, época de eleições e o ônibus se aproximando da razão do engarrafamento. Lá estava, o corpo de um jovem jogado no chão. Um atropelamento. Magro, roupas puídas, como grande parte da nossa população, corpo dobrado de quem caiu sem jeito ou de quem dormia como gosta, um corpo em L, braços lançados ao asfalto como se fosse um colchão, a cabeça deitada docemente sobre uma mancha de sangue vermelha, muito vermelha, asfalto preto. Contraste de cores fortes. O ônibus deslizou lento e lento ia passando. A polícia pede velocidade aos carros para desafogar o engarrafamento. Na frente os carros parados, um deles responsável pelo atropelamento.

Assim como o homem que caia, o rapaz morto no asfalto, ele lembrou-se de outra cena.

Esta na pista de Cooper do Arrudas, oito horas da manhã. Centenas de pessoas andando nas duas direções. Lá na frente um corpo caído e duas pessoas ao lado. Um homem tombara ao fazer sua caminhada matinal e ali morrera de um infarto fulminante fora o que os jornais do dia seguinte explicaram.

Uma mulher reclamava como uma pessoa podia sair sem nenhum documento e sem nenhum endereço no bolso. Foi difícil tomar uma providência mais concreta. A polícia resolveu tudo e recolheu o corpo do asfalto.

Uma senhora observou que ele não portava documentos porque na verdade ele não saíra para morrer.

Ita chegou à casa do seu pai. Encontrou-o, como sempre, com um sorriso largo, discreto, silencioso, feliz e, como sempre também, com alguns recados.


















quarta-feira, 20 de setembro de 2017

PAIXÃO É SÍNTESE



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Amar sem ilusão





Gilberto Mendhelson




Toda a obra de Darcy, toda a sua vida, tem uma palavra síntese. Esta palavra é paixão.

Grande sempre foi sua alegria e sua imensa paixão.

Se na paixão houve uma que se sobressaiu esta foi, sem dúvida, a sua paixão pelo Brasil, isto é, pelo povo brasileiro.

Uma paixão cultivada, uma paixão racional, uma paixão extremamente consciente.

Ele sabia em que terreno pisava.

Nenhuma ilusão.

Para um homem com a sua inteligência e erudição, ele sabia que, entre as muitas razões, que davam sustentação à sua “estranha loucura” estava o Brasil que ele conhecia e que ele odiava, o Brasil falso, o Brasil desigual, o Brasil da elite corrupta e sanguinária, mas estava também um outro Brasil, o verdadeiro Brasil – só que ele sabia que este Brasil era um país sonhado, um país imaginado, uma imagem.

Daquele Brasil falso, daquele Brasil desigual, daquele Brasil que era uma farsa, Darcy extraia o povo e apontava para o seu povo alguns caminhos, como o mais aberto de todos: a educação.

E o seu exemplo, a fé inesgotável nas pessoas, o carinho e a alegria, o continuar, o resistir, a luta permanente e contínua, o nunca desistir.

Um homem imbatível, ele quer o seu povo assim.

Darcy continuaria a criar este país(a imaginar este país) mesmo quando distante dele, vivendo os dias de exílio, proibido de voltar.

De volta, seria exuberante em sua produção e da sua vida brotariam muitas palavras, muitos livros, escolas e inúmeros exemplos para aqueles que queiram algum dia ser homens públicos e que acreditam que é possível forjar as bases de um verdadeiro país e de uma sociedade que elimine, de uma vez por todas, não apenas a desigualdade, mas a mais sórdida das explorações e que se sustenta pela imposição de uma linguagem sofisticada e suja, uma linguagem econômica e embrutecedora, uma linguagem de servos e de marionetes.


Ninguém amou mais o Brasil e ninguém revelou mais o Brasil aos brasileiros do que Darcy Ribeiro.

O Brasil que ele amou não existia, existia apenas em sua imaginação – ele amava e muito o seu povo, o povo brasileiro e odiava a sua elite e todos aqueles que traem, permanentemente, este povo.

O Brasil que ele revelava era o Brasil da injustiça, da desigualdade e da violência, o país real com todos os seus males, o país que não dá certo, que não dará certo e que terá que desaparecer do mapa.

Há um país a ser derrotado e há um país a ser construído.

O que “existe” não vale nada, não vale um tostão furado.







terça-feira, 19 de setembro de 2017

4º DIA DE CAMPANHA

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Brizola Presidente em 1989




-         Cu mela?

Era o Darcy moleque, provocador.

-         Cu mela?

No velho Passat 78 do jornalista Carlos Olavo da Cunha Pereira, íamos de Ipatinga a Belo Horizonte. Carlos Olavo e Darcy na frente; eu e Naná, a secretária, atrás.

Carlos Olavo, do lendário jornal O Combate, de Governador Valadares e escritor, autor do romance Nas Terras do Rio Sem Dono, da mesma idade de Brizola, velho companheiro de Brizola, estivera no exílio na Bolívia e no Uruguai. Carlos Olavo era um velho amigo de Darcy e meu amigo.

O Uruguai era a nossa referência, ponto de convergência e Montevidéu a cidade em que vivêramos o exílio.

Eu, também jornalista, era ali um aprendiz de Brasil e eles minhas referências de coragem, desprendimento e inteligência.

A pergunta de Darcy sobre a umicidade do cu funcionaria como uma pausa na intensa e já imensa discussão também provocada por Darcy sobre a construção de Minas Gerais e o destino dos mineiros. Era uma sinalização para uma guinada de muitos graus na conversa.

Nestes momentos desconcertantes, Carlos Olavo administrava seu aparelho de audição. Desligava. Não respondia, não dava ouvidos para as molecagens do Darcy.

Já fizéramos três cidades: Teófilo Otoni, Governador Valadares e Coronel Fabriciano. 

O fazer Minas o impressionava. Darcy esparramara pelas cidades dos Vales do Mucuri, Rio Doce e Vale do Aço (**) palestras questionando as razões pelas quais o Brasil não dera certo. Para trás, ficara aquele legado de inquietações. Era a campanha presidencial e como podíamos fazê-la.

Ali, o fabuloso destino de Minas e todo o seu aprendizado de fazer mineiros. Fazer, verbo com a cara do antropólogo Darcy Ribeiro. Agir era a sua verdade e, em seu fazimento, fazíamos ali uma pequena guerra, contra as fortes adversidades. Podiam surgir outras. Encararíamos. Competentemente? Íamos felizes. Era a campanha presidencial de 89(*).

Darcy sabia que muito tinha que ser feito em Minas Gerais, o segundo colégio eleitoral do Brasil, para construirmos uma chance para a eleição de Brizola presidente. Entre as adversidades estava o próprio partido, o PDT.

Onde chegávamos já havia um complô contra Darcy, contra cada um de nós. Éramos desautorizados. O partido não dava apoio àquela nossa caminhada. Em cada cidade que chegávamos, não tínhamos o apoio do partido. O apoio seria importante, inegavelmente. Um apoio seria útil para a mobilização, para anunciar a presença de Darcy Ribeiro. Não tínhamos nada disso e seguíamos em frente. O partido, no entanto, era tão insignificante, tão pouco representativo no Estado de Minas Gerais quanto naquelas cidades dos três vales.

Tímidos, alguns representantes do partido, mesmo desautorizados pela direção estadual, aproximavam-se e emprestavam o apoio pessoal. Alguns até nos acompanhavam. Não queriam perder a oportunidade de ouvir uma palestra do professor Darcy Ribeiro, ouvi-lo, vê-lo, estar com aquela figura sempre alegre e descontraída, sempre atenciosa e provocadora.

Um menino no meio do seu povo, seus amigos, seus velhos conhecidos.

Cada um que se aproximava e a todos ele se dirigia. Parecia encontro de velhos conhecidos. Reencontro de parentes. Parecíamos um Exército de Pedaços, íamos montando e transformando em um pequeno e forte grupo, pois continuávamos.

Darcy era o nosso grande trunfo. O povo gostava dele e comparecia.

Muitos conheciam suas obras e muitos o admiravam, principalmente as mulheres. Poderíamos ter feito grandes comícios. Fazíamos, entretanto, grandes reuniões e alguns auditórios lotavam. Uma adversidade pequena aquela história de nos desautorizar. Era, entre outras, no entanto, a que mais nos preocupava, pois tínhamos a informação precisa de que precisávamos conquistar pelo menos 5% dos votos de Minas (*) para Brizola passar para o segundo turno.  Obtivemos os 5%. E ficamos no primeiro turno. Mais um por cento e a história eleitoral seria outra. Com certeza.

A direção estadual do partido, em Minas, garantia para o candidato Brizola que ele já teria, segundo pesquisas, mais de 12%. Era uma informação falsa.  Haveríamos de nos interrogar o porquê daquela informação falsa, o seu uso e se por trás não haveria um complô fundamental contra Brizola. Seria importante saber até que ponto a direção estadual tinha envolvimento com este complô ou se se tratava de algo mais: uma traição ao estilo de um grande negócio.

  
Dados e resultados eleitorais



(*) No Rio, em uma reunião do governador Newton Cardoso com integrantes do brizolismo, questionado sobre as possibilidades da candidatura presidencial de Brizola, Newton afirmou que se Brizola consolidasse uma votação de 5% em Minas Gerais, segundo colégio eleitoral, ele disputaria o 2º turno das eleições em 89. As análises que fundamentavam está afirmativa de Newton Cardoso vinham do seu profundo conhecimento do eleitorado mineiro e do feeling sobre as reais chances de Brizola.



(**) Os três vales ficam situados na região Nordeste do Estado de Minas Gerais caracterizados por uma economia agro-industrial e por uma população de formação recente, sendo o Vale do Mucuri, o último território conquistado pelo homem branco e com o trabalho de colonização comandado por uma empresa privada, a Companhia de Colonização do Vale do Mucuri, empreendimento com ações e liderado pelo empresário e político Theóphilo Benedictus Otoni, na segunda metade do século XVIII. O Vale do Aço é uma denominação de característica econômica, por sediar grandes empresas siderúrgicas, sendo a sua localização geográfica o Vale do Rio Doce, nas margens do afluente, rio Piracicaba, estão duas das três siderúrgicas do Vale do Aço, a Usiminas e a Acesita. A terceira e pioneira na indústria siderúrgica, a Belgo Mineira está localizada na cidade de João Monlevade.




As eleições de 1989 foram as primeiras desde 1960 em que os cidadãos brasileiros aptos a votar escolheram seu presidente da república. Por serem relativamente novos, os partidos políticos estavam pouco mobilizados e vinte e duas candidaturas à presidência foram lançadas. Essa quantidade expressiva de candidatos mantém o recorde de eleição presidencial com mais candidatos - número que passaria a 23 caso o ex-presidente Jânio Quadros, cujo nome foi cogitado para a disputa, não abdicasse de sua pré-candidatura em decorrência de seus problemas de saúde.


Como nenhum candidato obteve a maioria absoluta dos votos válidos, isto é, excluídos os brancos e nulos, a eleição foi realizada em dois turnos, conforme a então nova lei previa.

O primeiro foi realizado em 15 de novembro de 1989, data que marcava o centésimo aniversário da proclamação da República, e o segundo em 17 de dezembro do mesmo ano.

Foram para o segundo turno os candidatos Luiz Inácio Lula da Silva, da coligação encabeçada pelo Partido dos Trabalhadores, e Fernando Collor de Mello, da coligação encabeçada pelo hoje extinto PRN.








20 611 011
30,47%
35 089 998
53,03%
11 622 673
17,18%
31 076 364
46,97%
11 168 228
16,51%
7 790 392
11,51%
5 986 575
8,85%






Diferença Lula / Brizola no primeiro turno de 1989.



11 622 673
11 168 228


17,18%
16,51%









A votação em Minas Gerais foi sempre um bom retrato da votação no Brasil. De 1989 a 2010, o vencedor da eleição presidencial teve vantagem levemente maior em Minas Gerais do que no Brasil como um todo. O sul “paulista” de Minas Gerais foi sempre uma área de rejeição ao PT. O leste “fluminense” de Minas Gerais foi sempre uma área de apoio ao PT. O norte “baiano” de Minas Gerais era a área de maior rejeição ao PT de 1989 a 2002, e passou a ser a área de maior apoio em 2006 e 2010.






Minas Gerais 1989 1º. Turno


Candidato
Partido
Votos 
Participação
Fernando Collor
PRN
2.800.546
36,12%
Luís I. Lula da Silva
PT
1.792.281
23,11%
Leonel Brizola
PDT
418.782
5,40%
Mário Covas
PSDB
798.859
10,30%
Paulo Maluf
PDS
275.593
3,55%
Guilherme Afif
PL
502.804
6,48%
Ulysses Guimarães
PMDB
459.093
5,92%
Roberto Freire
PCB
99.635
1,28%
Aureliano Chaves
PFL
226.974
2,93%
Outros
379.578
4,90%
Total válidos
7.754.145