terça-feira, 22 de novembro de 2016

NA CUCA












O sofrimento de Valéria


Bella Heloísa











Eu sabia que viria.


Não sabia quando.


Exatamente quando,


Havia a certeza


Como a da morte


Que sempre sabemos que virá


Nunca, exatamente, quando e de que forma.







Quatro dias antes eu sabia


Pressentia


E meus nervos tensos


corda de violino.


Sabia que alguma coisa engendrada


Ou que se desenrolava


E não sabia de onde, nem como viria.








Sentia o cheiro no ar


No hálito, no corpo


que recusava, que evitava,


que se queria distante de mim.


Algo paira


O cheiro da casa inteira mudou.






Agressiva, e não digo nada


Impaciente,


Ele, nada


Cada um no seu canto


E ele, tudo bem.






Vejo filme


Ele,  no escritório


Rasga papel,


lê,  como todo o tempo.


Escreve, escreve, escreve


Ouço as palavras digitadas






De repente,  a dor  do punhal.


Ele, doce e gentil:


“Acabou o filme, então vamos caminhar?”


A dor.


Eu, arrumando a cama:


“Não estou afim, já caminhei hoje”


Anuncia que já vai, me deixar dormir.


Como se tudo bem


Como se tudo em ordem.




A dor.


Aviso que deve ser de vez.


Começo a expor e ele volta ao discurso:


“eu tentei...”


Reajo.


Esse discurso é meu!





Ele vai.


É o coitadinho.


A dor.






Até a lixeira.


Minhas mãos no lixo


Colher as folhas rasgada.






Não entendo o que se passa


Junto os pedaços e leio.






A dor


Forte


Muito forte

.
A dor






Não entendo nada.


Iludo-me ainda.


Digo a mim mesma que há séculos me encontra.


Sou eu a mulher de quem fala?







Afasto-me


Vergonha


Abandono os pedaços.


Volto, leio de novo.


Decido colar, emoldurar, ler.


Guardar na estante.







De novo sou impelida.


Volto à estante.


Leio.


Uma, duas vezes.


Enfim, leio devagar,


Palavras, sílabas, pausas












“19...


mil novecentos


mil-novecentos e ...


não posso datar este poema


esta mulher não tem data


- É uma mulher eterna?


Um sentimento, um momento


A ela retorno sempre e sempre a encontro


Eterna


Igual


Momento em que é tudo igual


O mesmo sorriso,


a mesma alegria


O mesmo olhar,


a mesma boca”









sexta-feira, 18 de novembro de 2016

O AMOR & O ÓDIO










A guerra dos roses

Ciro S. Caparaó



“Divórcio civilizado é uma contradição”.

Segundo o advogado de Oliver Roses,




Sobre o conflito entre um homem e uma mulher,
mostrado no filme “A guerra dos roses”


1. A  base desta “guerra” é o divórcio.
Para o advogado de Oliver Roses, “o divórcio civilizado é uma contradição”. Esta é uma reafirmação constante, permanente.


2. A base da contradição é a disputa entre duas pessoas. o filme começa com os dois se conhecendo em um leilão e com a aquisição de uma miniatura chinesa, avaliada em US$ 250 e arrematada por este valor, embora na opinião de Bárbara valesse apenas US$ 50.
Bárbara e Oliver se conhecem na disputa de um bem, no cenário de um leilão e diante de um objeto raro e miniaturizado. Se conhecem na disputa por um bem, uma obra de arte.

Ele conhece o valor da miniatura e ela vence o debate e a disputa pelo bem - em parte porque ele cede, em parte pela sedução: ela leva a peça e ele a conquista.

No final, a miniatura chinesa seria o único objeto a ser preservado e que ela não quebraria, mas que ele destrói com um único golpe, acertando um fragmento na cabeça de Bárbara.


3. Não existem triângulos em nenhuma base. Nem a partir dele. Nem a partir dela. O conflito é profundamente interno, intrínseco ao existir casal.

Nem existem presenças paralelas: exclui a participação da família, sogros, sogras. Os filhos, um casal, passam como elementos a serem descartados, como a empregada, permitindo o crescimento do palco da guerra. As pessoas valem menos que a relação afetiva com os objetos de arte e com os animais.


4. A limpeza da cena para a guerra impermiabilizaria os sentimentos num conflito entre homem e mulher?
Facilitaria o raciocínio?
A guerra é um laboratório, assepticamente tratado, concentrando-se sobre dois seres, humanos e reunidos em torno de sentimentos de preservação da espécie e de suas deformações.
É a ida microscópica ao interior dos dejetos de um casamento e de uma separação.


5. Ainda a limpeza da cena: ficam apenas os dois. Um diante do outro.
Certos do inevitável: o massacre.
Outra certeza: a derrota inevitável do amor.
É o amor um sentimento extinto depois de 20 anos de vidas próximas mas não uma vida parceira, uma vida igual.
A limpeza da cena impõe considerações de ordem técnica e real: a entrada de uma terceira ponderada, por exemplo, da sogra, desequilibraria o jogo de forças e impossibilitaria contar a história via cinema.
Pelo menos, não simplificaria.
Dificultaria, com toda c certeza.


6.  O filme começa com o advogado de Oliver Roses abrindo mão de seus honorários (US$ 450/h) para dissuadir um novo cliente a não insistir na ideia do divórcio.
Assim, seu argumento será a história da guerra, a história de Bárbara e de Oliver Roses - “eles não tiveram chances” de ser felizes.
O advogado, uma mistura de personalidades díspares, ora cômico, ora tarado, ora homem de bom senso, deixou de fumar por 13 anos e voltou, com todo o apetite, depois de uma conversa com Bárbara Roses, em sua sala: no auge da guerra, ela entra sedutora, grande atleta, pronta para o golpe sexual sobre aquele pequeno homem que ela conhecia por suas taras e bolinações.


7. Como definir Oliver? “Rico eu não sou, eu sou brilhante”.
Bárbara se define: Não sou rica, não sou brilhante, “sou formada em educação física, uma ginasta”.
Em vários momentos, ela desce-cai uma escada, lembrando as replicantes de Blade Runner, assim como se expõe na sala do advogado, pronta para um grande gesto teatral e sensual.
Definição da cama: ele têm o pênis vingador; ela, orgasmos múltiplos. Soma que dá, segundo Oliver e Bárbara, pleno entendimento sexual.


8. A história da guerra de Oliver  x  Bárbara é contada no ritmo pontuado pelas idades das crianças, o crescimento e o desenvolvimento dos laços familiares.
As cenas se sucedem: a abertura do advogado (o contador da história), o leilão, a cama, o natal - aqui, os filhos aparecem com 5 anos -, o jantar da conquista dos patrões, a aquisição da grande casa, a fabricante de patês, a contratação da empregada, a expansão dos negócios de Bárbara, o ataque da hérnia e o pedido de divórcio.

Este é o momento de deflagração da guerra dos Roses com as agressões, conquistas, demarcações de áreas, estratégias e ações violentas e fulminantes.

Como em todas as guerras, sempre a primeira vítima é a verdade. É num palco de mentiras e informações estratégicas que a razão assume um caráter instrumental (vale pelo resultado). Tudo pela vitória e pela derrota do adversário que é o homem e a mulher, reunidos em uma convivência institucional, arbitrária, fictícia e hipócrita.


9. Natal. As crianças ganham doces da mãe para que não cresçam carentes e nem se tornem obesos. O marido ganha um Morgan, o primeiro carro da família. A outra festa, o jantar dos cristais Baccarat (agora as crianças tem 15 anos, são enormes e obesas). O clima teria sido de harmonia e construção de uma família típica.


Kathleen Turner e Michael Douglas




10. Anos depois, em um novo jantar contar-se-á a história da aquisição do aparelho de cristal Baccarat.
Aqui o estabelecimento de posições antagônicas, conflituosas, entre o homem e a mulher.
O segundo plano ocupado pela mulher naquela relação (casamento) é realçado no diálogo com as visitas, pela dificuldade da mulher em relatar uma história (a da aquisição do aparelho).
A dificuldade estava no raciocínio, no relato em si, no desconhecimento da língua francesa. A diferença se torna marcante com a intervenção do marido, um excelente contador de história, que faz um resumo final, uma síntese perfeita. A mulher foi atropelada.


11. A posição inferior, a posição menor, a posição bandida da mulher é flagrante. Ela é o diabo. Ela é a ambição. Ela é materialista, só pensa em dinheiro, em questões materiais. Enquanto ela monta a família, monta a casa, não há conflitos.  A guerra era submersa, um vulcão prestes a se manifestar.
A definição materialista da mulher (contraponto com o outro, o espiritualista) é afirmada desde o início, desde o leilão. Ela quer o objeto, ele, o homem, quer ela, o amor e abre mão do material. Explodindo o conflito fica explícito o porquê do maniqueísmo.
É um facilitador do relato e da análise.
Não será nunca a realidade. A vida não é isso, não é a luta do bem contra o mal, de deus contra o diabo, nem do honesto Oliver contra a desonesta Bárbara.
Bárbara é o ser inferior, menor e bandido.
Em Aristóteles, em Maquiavel, no pensar e na ação política, o momento danoso, cruel, da ação feminina é confundida dentro da instituição de relacionamento, onde o casamento é talvez sua  maior evidência.
Esta concepção do ser humano particulariza o que não se particulariza, dá homogeneidade ao que não é homogêneo, limita o que não se limita.


12. A aquisição da casa grande por Bárbara se dá por um acaso. Se dá, exatamente, no momento do enterro da velha proprietária. Dor e alegria, fim e início, é a dor e fim de um e a alegria e início de outro.
O tempero da linguagem passa pelo cômico.
Na linguagem cinematográfica, uma linguagem aberta e visual, a indicação é, em um percentual altíssimo, para o cômico. 
O que é a vida? O que é a morte?

13. É um período de vitórias e de grandes conquistas. Enquanto há vitórias e alegrias, a imagem do conto de fadas é a realidade e prospera porque tudo prospera.
Considere-se, aqui, a definição do advogado sobre as medidas de um homem. Segundo seu pai, afirma o advogado, o homem tem o seu êxito medido pela casa, carro, mulher e sapatos.


14. A casa, imagem da prosperidade e da segurança, é objeto das seguintes considerações de Bárbara, considerações tachativas:

                                  “É isso o que somos.
                                   Eu sou ela”.

Este “ela” é a casa.


15. Dentro da casa, montada metro a metro, a cena focaliza o advogado.
São os preparativos para a guerra.
Ele analisa a luta dos dois, sob a ótica do marido e esposa, e garante: 
         
                                  “Eles davam duro de verdade”.

Ela trabalhou na casa, detalhe por detalhe. Um ângulo tomou dela seis meses, outro quatro meses e assim Bárbara-decoradora construiu e reconstruiu cada canto da casa. Ela vira as costas e surge a pergunta crucial, na opinião do advogado, depois de todas as conquistas da prosperidade alcançadas:
                                 
                                   - E agora? O que fazer?

São perguntas de (para?) Bárbara Roses. É como se nada (a vida) tivesse sentido. É como se o enfado fosse uma ameaça.
Então, se ela, a mulher dinâmica, interna (para si, para a família e para a casa), se perguntasse sobre o seu destino e sobre a suas potencialidades lá fora?  Do que ela seria capaz?
Agora, ela retoma a força da competitividade. Agora, ela pode e volta a dar um novo lance para a compra da miniatura chinesa no leilão da praia.
Bárbara vende seu primeiro quilo de patê por US$ 35. Esta era uma especialidade sua e em que ela se destaca na família e com os amigos. No mesmo dia, ela compra uma caminhonete da Volvo por US$ 25 mil.
É o seu grande lance em um novo leilão.
Surgia a empresária audaciosa e conquistadora.

Quais são os espaços de reflexão neste momento. Congelando a imagem, o que se teria para discutir é o impacto sobre a vida das pessoas quando uma delas descobre um novo sentido na vida ou descobre as possibilidades da vida e de viver mais e de ser competente. Bárbara revoluciona ao se revolucionar. Ela explode como mulher e abala todas as estruturas próximas. Agora, ela irá crescer como indivíduo. Irá se igualar ao outro lado, o marido, e irá ocupar espaços ou reduzir espaços de outro, o marido. Por que o crescimento de um indivíduo pode em algum momento ameaçar um outro indivíduo e por que isto, ao se dar, dentro de uma relação de emoções estáveis, desestabiliza as emoções?


16. Uma nova expressão do caráter desequilibrado de Bárbara é revelado na cozinha.
Ela prepara uma carne e finge jogar pedaços para o cachorro Bennie. Finge jogar o alimento e alimenta apenas o seu gato. Para ela , neste caso, Bennie é um “cachorro burro”. Na sequência, o cachorro desce as escadas para a sauna, onde Oliver o recebe e abraça com carinho, sem saber o que se passou na cozinha.

Quais os elementos tácitos de linguagem: o desequilíbrio de uma pessoa má, a tortura de um animal, o confronto de entendimentos entre o ser humano e o ser animal. Por que o cachorro deveria entender que jamais ganharia um pedaço de carne? Ele entendia? Ele sofria? Ela, entretanto, objetivamente queria fazer o animal sofrer, para se vingar de outro ser, para ser cruel com outro ser.


17. A contratação da empregada: um trauma.
Para ele, o eficiente, “ela virá para ajudá-la”.
Para ela, a suficiente, “não é necessário, eu sempre fiz tudo sozinha”.
Por outro lado, Bárbara pede o apoio do marido na análise de um contrato para a realização de um almoço em um consulado.
Ele ignora e trata com desdém os interesses empresariais da mulher vitoriosa. Com o contrato, Oliver mata uma mosca.
Esquece de analisá-lo.


18. Crise do contrato. Ele resolve analisá-lo. Ao mesmo tempo, ele luta por uma vitória paralela, um novo cliente deve ser contratado. Durante a “crise do contrato”, Oliver traz ótimas notícias, marcara um almoço com o novo futuro cliente. Vencia suas etapas.
Bárbara já o trata como um “idiota” e ele acredita que ainda é possível dever “desculpas à mulher”.

O troco: à noite, a ginasta mostra sua força no momento em que ele aborda-a e com um golpe perfeito, entre as pernas, deixa-o prostrado e com fortes dores.


19. Nova intervenção hitcokquiana do advogado, diretor de cena - o narrador da histórica guerra entre um homem e uma mulher, depois de dezenas de anos de casados.
Ele entra em cena para ponderar - é o narrador que se prolonga em analisador (sic)  e em conselheiro.
Tudo fica mais difícil, segundo o advogado, quando não se responde à pergunta do marido para a mulher:
                              
                                           - O que há com você?


Daí, segundo ele, Oliver ter se transformado numa presa fácil.
Na sequência,  o almoço e a crise cardíada (falso enfarte) de Oliver Roses.
À morte provável, exposto numa maca, surge expressiva uma nova imagem destacando a crise conjugal.
A maca de Oliver está do lado da maca de um negro gordo esfaqueado pela mulher na barriga.
A cena é tomada de cima, as duas macas em paralelo, lado a lado.
O negrão informa que foi esfaqueado depois de uma briga e que a briga teria ocorrido porque a sua mulher queria ser manicure.
A mulher do negrão está do seu lado e luta para que seu marido seja atendido em primeiro lugar.
Oliver está sozinho. Bárbara não está ao seu lado na maca e nem luta pelo seu atendimento hospitalar.

As crises que atingem corações e abdomens percorrem todos os casais independentemente da cor.

As mulheres não atacam porque odeiam, atacam, sempre, porque amam.

O depois da violência, em muitas pessoas, redimensiona a consciência: por que fiz isto? A mulher jamais saberá porque esfaqueou o marido por mais sagaz e inteligente que seja. Ela poderá ser capaz de reconstituir a cena, minuto por minuto, recompor todos os diálogos e agressões verbais e físicas, mas jamais encontrará uma explicação. Uma luz brilhará: talvez porque a faca fora deixada fora do lugar por alguém mal intencionado. Ela descobrirá.
Com relação ao enfarte de Oliver. Não houve enfarte nenhum. Na verdade se tratava de uma hérnia no esfôfaco, com todos os sintomas de um enfarte ou de uma angina.

Antes, porém, da verdade das suas dores, Oliver estava certo de que não escaparia, de que a morte era iminente.

Assim, ele escreve seu último bilhete à mulher.

Considera que teve uma vida divertida, “uma vida completa”, além dos sonhos e conclui o bilhete afirmando que tudo o que ele tem e tudo o que conseguiu, “devo a você”.

Com relação a tê-la como mulher, Oliver assegura, apaixonado, que isto ele deve à deus.


20. Bárbara não aparece no hospital. Oliver espera, em vão, o aparecimento da mulher. Desiste de esperá-la. Sofre, pela primeira vez, o impacto do descaso e da solidão. Volta para casa acompanhado por um amigo. No trem, olha pela janela e vê, lá fora; vê que são muitas as vidas que existem do outro lado do vidro da janela do trem; do outro lado de si, lá fora, existe vida, muita vida, muita alegria, muita solidariedade. Neste momento deveria chegar até si as imagens da mulher do negrão. Ela fez pior do que Bárbara, a negra foi direto, mais fundo, atravessou a barriga do negrão com uma faca. Bárbara não chegou a tanto, mas foi além. O desprezo, o descaso, a desconsideração, mais do que uma lâmina, reduzia Oliver a pedaços esfarelados de gente.


21. a) Ele chega em casa. Logo depois chega Bárbara.
O tempo entre as duas chegadas, para Oliver, fora uma eternidade dentro da sua solidão.
Ele queria entender porque ela não apareceu. Bárbara não tergiversará, não apresentará desculpas e esclarecerá, efetivamente, porque desistiu de ir até o hospital e porque fizera pouco caso da solidariedade humana.

                                  Fala Bárbara:

- Eu senti como seria viver sozinha nesta casa. Fiquei assustada por me sentir feliz. Sua morte, Oliver,  significaria, para mim, estar livre”.



Ela pede o divórcio.

Aqui, começa A guerra dos Roses.


21. b) Oliver considera esta situação nova e acredita, piamente, que “ela sempre o fez de bobo”.
Ele busca argumento para garantir que merece uma razão, principalmente, depois de tantos anos de casados. Ela o agride e diz que sempre quis quebra-lhe a cara e ela bate forte para quebrar-lhe a cara. Não se esqueça de que Oliver voltava de um hospital, onde estivera internado por causa de uma hérnia.  Ela quebra - um golpe violento de uma atleta.

Em um e outro momento, Bárbara é excessivamente má, mas se revela também como vítima. Assim também Oliver, sempre vítima e algoz.

Este fato introduz à percepção de que a trama da guerra não se dá entre um homem e uma mulher - seria redução simplista. Mas parte da trama se dá entre de um lado, o homem e a mulher, vítimas sempre, e do outro lado o casamento ( a relação revelada, criada e transformada em monstruosidade, independente do homem e da mulher).

É o homem e a mulher contra o casamento. É o homem e a mulher, sozinhos, diante das deformações introduzidas na natureza viva. É o homem e a mulher vítima das instituições criadas para a preservação da espécie.

Não há força contra as deformações à natureza que introduz as relações matrimoniais: a posse, a disputa por prestígio e sabedoria, os bens (como uma casa) e o passado captado até em antiguidades não vividas    -  e a vida vivida sedimentada em objeto e tão obsoleta ou não ou tão valiosa ou não quanto uma antiquidade.

22. O território e a sua demarcação.
A guerra se concentra na disputa do território inimigo (dentro da casa). A casa é assim o palco principal da guerra, o território a ser demarcado. Na planta da casa são estabelecidas as áreas dos dois países (homem e mulher) inimigos, suas fronteiras, limites, áreas de ação e áreas de disputas.

É a guerra da conquista do espaço e da destruição total.

A frase da declaração da guerra surge neste diálogo, que poderia ser proferido tanto por um quanto pelo outro polo.

Bárbara  - Eu quero a casa. A casa é minha.
Oliver - Jamais terá a casa.

ou

Oliver  - Eu quero a casa. A casa é minha.
Bárbara - Jamais terá a casa.


22. O advogado contador do caso exalta as posições contrárias à mulher, ao advertir para o risco de um confronto total:

                                - Em se tratando de mulher, tudo é possível.


24. Oliver concentra sua luta pela defesa da posse da casa, “ as preciosidades da casa, suas antiguidades etc.”

No natal em que a árvore é destruída pelo fogo, Oliver consegue, comicamente, debelá-lo, lembrando a importância da sua presença:

                              
                                - Foi uma sorte eu estar aqui, agora!  

25. Mais uma vez, o advogado define o perfil das mulheres.
           
                               - O homem não supera as mulheres nem no amor e nem no ódio.


Foi um acidente. O gato morreu debaixo do pneu do carro de Oliver Roses. Ele não teve a intenção de matar. Foi um claro acidente. Inquestionável. A reação primária de Bárbara é a vingança. Ela prende Oliver na saúna, mas depois solta-o. Ele sofre alguns momentos de terror e medo da morte. Cresce o clima de atrito. Oliver, agora, serra os saltos dos sapatos de Bárbara, serra todos os sapatos de uma grande coleção que ficavam guardados em uma parede inteira do quarto. Ela começa a se abalar com o clima: deixa de acordar soluçando, passa a acordar gritando.
Ele destrói um jantar de negócios de Bárbara. Ela destrói o Morgan.


26. O advogado de novo: agora, contra o amor em duas perguntas.
                                  
                                          - Você já fez amor com raiva?

Seu interlocutos nunca diz nada. Também não responde sequer com gestos e o advogado completa:
                                  
                                          - Há outro jeito?

O advogado considera em sua análise da evolução da guerra, o que aconteceu até aqui como conflitos normais, comuns nas brigas de casais. Difícil, na sua opinião, seria decidir o ficar e o partir.

Ficar significaria a guerra, estar no inferno, ter a chance de sair e recusá-la; embora conhecendo o inferno, todas as suas maldades e sofrimentos, ficar e ficar consciente. Ficar para lutar e lutar  sabendo que não há nenhuma possibilidade de vitória. Nenhuma chance.

A cena em que Bárbara se revelaria em toda a sua maldade potencial realizada se dará no jantar de conciliação e de negociação. Oliver propõe a reconciliação e, mais uma vez, revela todo o seu amor por Bárbara. Ela o surpreende mais uma vez.
 
- Excelente patê - Oliver quer agradá-la.
- É de au-au.
O choque.
- Bennie? grita e pergunta Oliver
Ela balança a cabeça afirmativamente.
Ele joga a mesa no chão.
Com o barulho, o cachorro Bennie acorda, lá fora, assustado.

Outra queda da escada e Bárbara mostra sua agilidade de ginasta e de replicante. Ela está em forma.

Outra surpresa estava reservada a Oliver. O pênis vingador teria mais uma vez. Os dois fazem sexo no forro da casa, quando o vingador é surpreendido por uma monumental mordida. Contorcendo-se em dores, Oliver é jogado fora do forro pelo alçapão.

27. Cena de ligação, princípio e fim: a miniatura de porcela chinesa.
Bárbara aproxima-se do corrimão. No centro da sala, bebendo vinho, Oliver a focaliza com a lanterna e guia o foco para a miniatura. Ela tenta salvar a miniatura. É o único ser ao qual se pode identificar uma manifestação verdadeira de afeto a partir de Bárbara. Amarrada por um barbante, Oliver comanda a miniatura. Bárbara treme a cada movimento.

Ele - Diga que esta miniatura é minha e você poderá ficar com tudo.

Ela - É minha.

Oliver destrói a miniatura com violência. É o final. A luta transforma-os em grandes gladiadores modernos. Acabam dependurados no lustre central da casa, a quatro metros de altura. Oliver observa que “nesta altura, sempre te amei”. “Eu sei”, concorda Bárbara. O lustre desaba. Eles concluem que os dois haviam enlouquecido. Poucos instantes lhes restavam de vida. Destruídos no chão, em meio à ferragem do lustre, Oliver estica o braço, buscando segurar Bárbara pelo ombro. Ela afasta a sua mão e joga o braço de Oliver para trás. Poucas forças lhes restam. Assim morrem.


28. Conclusão do advogado

- Quem gosta de cão não casa com quem gosta de gato. Evite sempre o divórcio. Divórcio civilizado é uma contradição (insiste). Se você quer acabar seu casamento, acabe de uma só vez para que possa ter a oportunidade de reconstruir a sua vida. Caso contrário, volte para casa e procure encontrar em sua mulher aquilo que, na sua juventude, o levou a amá-la.




A guerra concentra todo o esforço do escritor, do diretor e dos atores para revelar o que seria uma faceta menor da sociedade norte-americana dos anos 80, com o papel competitivo do casamento, secundário da mulher e destruidor da relação matrimonial. A mulher será sempre destruída como personagem humano. Ela jamais será gente. O homem é a ignorância total. Jamais perceberá a hora de entrar e a hora de sair. O homem é o apaixonado medíocre, descobre o amor depois que já o perdeu. Na busca da manutenção/conservação e da conquista, destrói tudo.










quinta-feira, 17 de novembro de 2016

RESTOS DA DEMOLIÇÃO

  



Amar não basta


Paulo André Moreira

I.

Volto com mais dúvidas.

Afastei-me para te atender e para trazer as respostas que, intensamente, insistentemente, me cobra (com razão):

O que eu quero?

Compromisso?

Lealdade?

Volto sem saber o que quero, porque quero (sempre quis) muita coisa e muito mais do que, sei, posso alcançar ou ter – mas que também insisto em querer.

Se fosse resumir o que quero: quero ser feliz. Só. Apenas.

Persigo isto de forma feroz e sem jamais pensar em desistir.

Como ser feliz ao lado de alguém que duvida de vc?

Pior e se vc também duvida de vc mesmo?

Como ser feliz ao lado de quem sofre por vc – isto é, de quem vc não consegue fazer feliz, simplesmente estando ao lado, sendo companheiro, amando?

E que diz que “amar não basta”.

Qual compromisso me cobra tanto que não posso assumir? Não teria assumido todos os compromissos que cumpri?

Os que não cumpri, não os cumpri porque ainda tenho tempo de honrá-los. Não sou tão desonesto assim. Ou sou desonesto com a que amo?

Se cobra lealdade é porque não sou um homem leal. Para que cobrar, então?

Jamais quis uma relação de submissão e jamais me submeterei a ninguém.

Assim, como não aceito, nem admito, qualquer submissão de quem quer que seja.




I I.



Confesso, busquei certezas e voltei com muito mais dúvidas.

Se tinha certeza de te amar, confirmei esta certeza.

E, nesta certeza, a primeira dúvida: por que continuar se sofre, sempre, ao meu lado, se sempre estamos nos desentendendo, se não confiamos um no outro?

Se confirmei a certeza do amor por você, tive dúvidas se devíamos viver juntos por mais tempo? Haveria sempre, no meio de nós, uma ave misteriosa com uma vida misteriosa. Uma ave cujo destino seria uma gaiola?

O que quero para mim é o que sempre sonhei para você, para nós dois: uma vida feliz.

Agora.

Repetindo o pássaro do mundo admirável e sempre novo:

Aqui. Agora.

Não há espaço e nem tempo para a gente inventar tristezas, sofrimento e prisões: só uma pessoa livre é capaz de amar.

Eu te amo porque sou um homem que constrói sua liberdade a duras penas, a cada segundo.


Sabe o quanto te respeito e te admiro.


Sua vida, suas palavras sempre foram importantes.


Eu te ouço. Sempre te ouvi.


Paulo André




Terça-feira, 3 de novembro de 2000











(Ana Paula e Paulo André moraram naquela casa até 2003. Demolida a casa, a biblioteca do casal foi vendida. Entre os livros, Jonhatas Fagundes, dono do sebo, encontrou estas anotações de um diálogo escrito por Paulo André. Não era uma carta) 










segunda-feira, 14 de novembro de 2016

O SOBREVIVENTE















Urubu carniceiro


Cecílio Antunes, Araguaia, 1973



Houve o combate, depois da queda do avião.

Os soldados eliminavam vestígios de vida e executavam os combatentes adversários feridos.

Na hora do tiro de misericórdia – da execução e da necessária certeza de que não deixaram sobreviventes, ali ao lado dos destroços  – ao armar o gatilho, algumas aves levantaram voo e o barulho, na selva, assustou o soldado.

A bala raspou o couro cabeludo e a cabeça de André encheu de sangue.

Estava executado, o soldado não tinha dúvidas. Um urubu pousou perto. Logo aquilo estaria limpo. Ele chegou a acionar outra bala, era mais para o caso das aves avançarem sobre ele.

Por economia de munição, não teria porque dar mais tiros. Tinha que sair daquele campo úmido, em que o cheiro de sangue e de corpos em putrefação misturavam-se com cheiro de óleo e de gases da fuselagem.

As formigas chegavam. Enquanto os urubus esperavam a saída dos homens, as formigas não pediam licença.

Aquele momento, com as aves, as formigas e o tiro de raspão, era a sua última chance?

Sobreviveu ao tiro, sobreviveu à queda do avião, sobreviveria aos animais da selva, à noite que chegava e à umidade.

A febre deixava-o tonto. Ou seria a perda de sangue.

Devia esperar a noite e certificar de que os soldados se afastaram.

Olhou no olho de um urubu e percebeu que as formigas seguiam para os dois cadáveres a dois metros. Iam direto para o ventre aberto de Adelaide, o cabo Adelaide.











quarta-feira, 9 de novembro de 2016

NUNCA O MESMO







A cabeça de Porfírio


Hermes O. Trigueiro



Um maluco. 

Um sábio. 

Um doido. 

Um homem. 

Um desastrado.

Um homem do nosso tempo?




São as opiniões de quem observa, estuda, acompanha, fala sobre e, principalmente, julga o homem Porfírio da Costa.

Natural de um lugar totalmente desconhecido e ignorado, no meio do sertão, no meio mesmo da mata da Restinga, no meio de montanhas altas, cobertas de farta vegetação, e de buracos frios e úmidos, as grotas e os boqueirões,

Porfírio afastava-se aos poucos de pessoas e de lugares.

Primeiro, não mais ia a lugares já idos. Não queria encontrar as mesmas caras de antes e nem de ser reconhecido, nem de ser comparado, não ser o mesmo de antes ou o contrário: ser o mesmo de antes, ser igualzinho ao que era, não ter mudado nada.

Em segundo lugar, conhecer novas pessoas e pessoas novas, assim não mais havia preocupações com reencontros e com lembranças -  as lembranças eram cargas acumuladas, sobre camadas novas, novas camadas.

Porfírio não abusava de comparações e nem de semelhanças. Na sua cabeça não haveria lugar para iguais, ninguém é igual a ninguém. A diferença é que o motivava a continuar.

Era como um rio, mas diferente do rio não corria, infinitamente, sobre o mesmo leito.

Perdia-se em reentrâncias.