quarta-feira, 26 de abril de 2017

VERDADE E MENTIRAS









A criação 

do ser amado





Roberto D. Albuquerque




A mulher que veio da cachoeira



A mulher que voltou da cachoeira



A mulher que saiu da cachoeira





Todas elas cantadas com alegria e humor


Todas amaram o nosso grande escritor


Todas orgulhosas felizes 


nas letras impressas



O escritor famoso e também amado sumiu


Vida misteriosa


Vida do escritor a revelar


a beleza das mulheres


A verdade é que ele nunca viveu o amor


Quem amou foi o Gibi, 


que a seguiu até a Renascença


O Arnold que se fez passar pelo famoso


Tadeu amou a que chegou da foz



Todos conheceram 


as mulheres imortalizadas



Nenhuma surpresa ao saber 


que o escritor não era nenhum deles





Não era o Gibi


Não era o Arnold


Não era o Tadeu


Todas passam pelo escritor petrificado,


tornado bronze,


cimento e aço


num discreto canto da praça,


não atrapalha o trânsito


não incomoda os pedestres























quinta-feira, 13 de abril de 2017

O AMANTE






Resultado de imagem para Dante













 

Da aurora







Rufino Fialho Filho



I.


Titão é o amante da Aurora.

Estava lá no Dante.

Na Divina Comédia.

Por que não?

Quem seria a Aurora?

Será sempre aquela ao amanhecer?

Será sempre a que chega ao amanhecer?



II.



A Divina Comédia me acompanhou na prisão

no Rio, na praça Marechal Âncora.

Uma pequena praça ao lado da praça 15.

A rua Santa Luzia fica ao fundo.

Do lado da cela

E a cela?

Uma adaptação de salas do IML.

Celas para cadáveres

Agora, três celas para prisioneiros de passagem

Esta passagem durou 14 meses.

De lá saiu para outra prisão,

Saiu um pedaço de homem 

Sem pernas para caminhar

Trôpego

Um amante da Aurora

Quase um homem



III.


Quem foi o marechal?

Por que o Âncora?

- Não seria um almirante?






Agosto 2004



quarta-feira, 12 de abril de 2017

A PENSADORA









FALA SEM PARAR





Marcelo Araújo Bicalho




(Ela desfila quase nua na minha frente. Nunca estará nua. Timidez? Nada disso. Ela esconde. Ela mostra. Ela seduz. Preliminares com competência)


Ela fala:


“Nascer. A dor que é mais alguma coisa, que é dor e que, mais rápido, se torna, felicidade.

“Nascer é a primeira dor de todos.

“No parto natural, dor da expulsão, dor do arrebentar, de rasgar, de passar, dor de dois, em qualquer caso, a dor do choque térmico, o encontro com o frio. O primeiro encontro com o frio. Um conhecimento de dependência, alguém terá que garantir o aquecer.

“Qual a intensidade dessa dor e a sua duração? Nela há medo? Se há, como se dá o registro e sua lembrança. Medo sem lembrança, sem marca, sem cicatriz, pode ser tudo, menos medo.

“O frio talvez seja o primeiro grande impacto, a primeira grande dor. O peito não irá apenas alimentar, irá aquecer. Aquecer por dentro e aquecer por fora, pele a pele.


Julho 2004

O Diário de Ouro Preto foi lançado, hoje, na Escola de Minas, antigo Palácio dos Governadores.

Julho 2004 

 

 

(Ela mostra a bunda. Sabe o quando gosto de ver, pegar, acariciar.)




Ela fala:

 

 

 

“O enterro da minha avó foi o fim da minha paixão


“A casa da minha mãe era um barracão. Ajudei a construir. Eu namorava com um professor da escola. Vivi em um lugar que era cercado de córregos e quando chovia, tínhamos que sair para a escola de qualquer jeito. Enrolava as pernas com plásticos. Eu chorava muito por conta das humilhações das minhas colegas.

“ Era “A menina de pé molhado”.  Isto identificava também o lugar onde morava. E eu tinha vergonha de dizer onde morava.

“Um dia, pensei, eu sou a melhor aluna, tenho as melhores notas e sou bonita. Sempre gostei dos desafios. O lugar e os pés molhados não me tolhiam.

“Na rua, jogávamos vôlei e os meninos brigavam comigo, a bola sempre caia do meu lado. Cansei de levar cocão.

“Decidi treinar e decidi que participaria da equipe de vôlei da cidade. Consegui, ia para os treinos entrando no ônibus e saindo correndo pela porta do fundo sem pagar.

“No dia em que a minha avó morreu, meu namorado, meu professor,  foi em minha casa. Entrou e ficou olhando para as telhas de amianto. Ficou olhando para cima.

“Terminei com ele na hora.

“Ele não olhou para mim. Ele não viu a minha dor.


(Ela se afasta, entra na sala)


Ela fala:



“Ontem, rodei o sul de Minas, passei por Lambari e cheguei à noite em São Tomé das Letras, trepei adoidado.

“Trouxe um pré-roteiro para trabalhar. Nesta viagem, várias vezes tive medo de morrer. Primeiro que o homem dirigia mal, pouco prestava atenção na direção e fumava muito. Na volta, voltei com um cara que veio fumando maconha de Varginha até aqui.

(Ela senta no meu colo e me beija)



Ela fala:


“Um dia, ainda serei uma cineasta.


Julho 2004





segunda-feira, 10 de abril de 2017

O SOM E A LETRA





 Resultado de imagem para papeis rasgados











A essência do poetar


Rufino Fialho Filho






“Cada palavra é,

 segundo a sua essência,

um poema”


Guimarães Rosa








O poeta encontrou os versos de um outro poeta


Que é ele mesmo e sorriu e abusou dos versos do outro


(abusou dele mesmo)


Como são tristes os poetas quando são tristes os versos?!


São tristes os poetas ou são tristes os versos?


O escritor encontrou os contos de um outro escritor


Que é ele mesmo e sorriu e abusou dos contos do outro


(abusou dele mesmo)


Os dois decidiram rasgar os velhos papéis


No momento exato surgem os outros dois


Travou-se uma luta que Zeus assistiu de longe  


sem sequer desligar a tv   


Por que os escritores e os poetas rasgam seus velhos escritos?


Eles talvez amem os velhos poemas destruídos,  


soltos, livres com a beleza do erro e da pujança  


versos e textos nascidos do bom nascer


Mas destruíram tudo (?)


Nada sobrou.


Eles lamentam  


E prestam última homenagem aos versos perdidos


E às velhas histórias











terça-feira, 22 de novembro de 2016

NA CUCA












O sofrimento de Valéria


Bella Heloísa











Eu sabia que viria.


Não sabia quando.


Exatamente quando,


Havia a certeza


Como a da morte


Que sempre sabemos que virá


Nunca, exatamente, quando e de que forma.







Quatro dias antes eu sabia


Pressentia


E meus nervos tensos


corda de violino.


Sabia que alguma coisa engendrada


Ou que se desenrolava


E não sabia de onde, nem como viria.








Sentia o cheiro no ar


No hálito, no corpo


que recusava, que evitava,


que se queria distante de mim.


Algo paira


O cheiro da casa inteira mudou.






Agressiva, e não digo nada


Impaciente,


Ele, nada


Cada um no seu canto


E ele, tudo bem.






Vejo filme


Ele,  no escritório


Rasga papel,


lê,  como todo o tempo.


Escreve, escreve, escreve


Ouço as palavras digitadas






De repente,  a dor  do punhal.


Ele, doce e gentil:


“Acabou o filme, então vamos caminhar?”


A dor.


Eu, arrumando a cama:


“Não estou afim, já caminhei hoje”


Anuncia que já vai, me deixar dormir.


Como se tudo bem


Como se tudo em ordem.




A dor.


Aviso que deve ser de vez.


Começo a expor e ele volta ao discurso:


“eu tentei...”


Reajo.


Esse discurso é meu!





Ele vai.


É o coitadinho.


A dor.






Até a lixeira.


Minhas mãos no lixo


Colher as folhas rasgada.






Não entendo o que se passa


Junto os pedaços e leio.






A dor


Forte


Muito forte

.
A dor






Não entendo nada.


Iludo-me ainda.


Digo a mim mesma que há séculos me encontra.


Sou eu a mulher de quem fala?







Afasto-me


Vergonha


Abandono os pedaços.


Volto, leio de novo.


Decido colar, emoldurar, ler.


Guardar na estante.







De novo sou impelida.


Volto à estante.


Leio.


Uma, duas vezes.


Enfim, leio devagar,


Palavras, sílabas, pausas












“19...


mil novecentos


mil-novecentos e ...


não posso datar este poema


esta mulher não tem data


- É uma mulher eterna?


Um sentimento, um momento


A ela retorno sempre e sempre a encontro


Eterna


Igual


Momento em que é tudo igual


O mesmo sorriso,


a mesma alegria


O mesmo olhar,


a mesma boca”









sexta-feira, 18 de novembro de 2016

O AMOR & O ÓDIO










A guerra dos roses

Ciro S. Caparaó



“Divórcio civilizado é uma contradição”.

Segundo o advogado de Oliver Roses,




Sobre o conflito entre um homem e uma mulher,
mostrado no filme “A guerra dos roses”


1. A  base desta “guerra” é o divórcio.
Para o advogado de Oliver Roses, “o divórcio civilizado é uma contradição”. Esta é uma reafirmação constante, permanente.


2. A base da contradição é a disputa entre duas pessoas. o filme começa com os dois se conhecendo em um leilão e com a aquisição de uma miniatura chinesa, avaliada em US$ 250 e arrematada por este valor, embora na opinião de Bárbara valesse apenas US$ 50.
Bárbara e Oliver se conhecem na disputa de um bem, no cenário de um leilão e diante de um objeto raro e miniaturizado. Se conhecem na disputa por um bem, uma obra de arte.

Ele conhece o valor da miniatura e ela vence o debate e a disputa pelo bem - em parte porque ele cede, em parte pela sedução: ela leva a peça e ele a conquista.

No final, a miniatura chinesa seria o único objeto a ser preservado e que ela não quebraria, mas que ele destrói com um único golpe, acertando um fragmento na cabeça de Bárbara.


3. Não existem triângulos em nenhuma base. Nem a partir dele. Nem a partir dela. O conflito é profundamente interno, intrínseco ao existir casal.

Nem existem presenças paralelas: exclui a participação da família, sogros, sogras. Os filhos, um casal, passam como elementos a serem descartados, como a empregada, permitindo o crescimento do palco da guerra. As pessoas valem menos que a relação afetiva com os objetos de arte e com os animais.


4. A limpeza da cena para a guerra impermiabilizaria os sentimentos num conflito entre homem e mulher?
Facilitaria o raciocínio?
A guerra é um laboratório, assepticamente tratado, concentrando-se sobre dois seres, humanos e reunidos em torno de sentimentos de preservação da espécie e de suas deformações.
É a ida microscópica ao interior dos dejetos de um casamento e de uma separação.


5. Ainda a limpeza da cena: ficam apenas os dois. Um diante do outro.
Certos do inevitável: o massacre.
Outra certeza: a derrota inevitável do amor.
É o amor um sentimento extinto depois de 20 anos de vidas próximas mas não uma vida parceira, uma vida igual.
A limpeza da cena impõe considerações de ordem técnica e real: a entrada de uma terceira ponderada, por exemplo, da sogra, desequilibraria o jogo de forças e impossibilitaria contar a história via cinema.
Pelo menos, não simplificaria.
Dificultaria, com toda c certeza.


6.  O filme começa com o advogado de Oliver Roses abrindo mão de seus honorários (US$ 450/h) para dissuadir um novo cliente a não insistir na ideia do divórcio.
Assim, seu argumento será a história da guerra, a história de Bárbara e de Oliver Roses - “eles não tiveram chances” de ser felizes.
O advogado, uma mistura de personalidades díspares, ora cômico, ora tarado, ora homem de bom senso, deixou de fumar por 13 anos e voltou, com todo o apetite, depois de uma conversa com Bárbara Roses, em sua sala: no auge da guerra, ela entra sedutora, grande atleta, pronta para o golpe sexual sobre aquele pequeno homem que ela conhecia por suas taras e bolinações.


7. Como definir Oliver? “Rico eu não sou, eu sou brilhante”.
Bárbara se define: Não sou rica, não sou brilhante, “sou formada em educação física, uma ginasta”.
Em vários momentos, ela desce-cai uma escada, lembrando as replicantes de Blade Runner, assim como se expõe na sala do advogado, pronta para um grande gesto teatral e sensual.
Definição da cama: ele têm o pênis vingador; ela, orgasmos múltiplos. Soma que dá, segundo Oliver e Bárbara, pleno entendimento sexual.


8. A história da guerra de Oliver  x  Bárbara é contada no ritmo pontuado pelas idades das crianças, o crescimento e o desenvolvimento dos laços familiares.
As cenas se sucedem: a abertura do advogado (o contador da história), o leilão, a cama, o natal - aqui, os filhos aparecem com 5 anos -, o jantar da conquista dos patrões, a aquisição da grande casa, a fabricante de patês, a contratação da empregada, a expansão dos negócios de Bárbara, o ataque da hérnia e o pedido de divórcio.

Este é o momento de deflagração da guerra dos Roses com as agressões, conquistas, demarcações de áreas, estratégias e ações violentas e fulminantes.

Como em todas as guerras, sempre a primeira vítima é a verdade. É num palco de mentiras e informações estratégicas que a razão assume um caráter instrumental (vale pelo resultado). Tudo pela vitória e pela derrota do adversário que é o homem e a mulher, reunidos em uma convivência institucional, arbitrária, fictícia e hipócrita.


9. Natal. As crianças ganham doces da mãe para que não cresçam carentes e nem se tornem obesos. O marido ganha um Morgan, o primeiro carro da família. A outra festa, o jantar dos cristais Baccarat (agora as crianças tem 15 anos, são enormes e obesas). O clima teria sido de harmonia e construção de uma família típica.


Kathleen Turner e Michael Douglas




10. Anos depois, em um novo jantar contar-se-á a história da aquisição do aparelho de cristal Baccarat.
Aqui o estabelecimento de posições antagônicas, conflituosas, entre o homem e a mulher.
O segundo plano ocupado pela mulher naquela relação (casamento) é realçado no diálogo com as visitas, pela dificuldade da mulher em relatar uma história (a da aquisição do aparelho).
A dificuldade estava no raciocínio, no relato em si, no desconhecimento da língua francesa. A diferença se torna marcante com a intervenção do marido, um excelente contador de história, que faz um resumo final, uma síntese perfeita. A mulher foi atropelada.


11. A posição inferior, a posição menor, a posição bandida da mulher é flagrante. Ela é o diabo. Ela é a ambição. Ela é materialista, só pensa em dinheiro, em questões materiais. Enquanto ela monta a família, monta a casa, não há conflitos.  A guerra era submersa, um vulcão prestes a se manifestar.
A definição materialista da mulher (contraponto com o outro, o espiritualista) é afirmada desde o início, desde o leilão. Ela quer o objeto, ele, o homem, quer ela, o amor e abre mão do material. Explodindo o conflito fica explícito o porquê do maniqueísmo.
É um facilitador do relato e da análise.
Não será nunca a realidade. A vida não é isso, não é a luta do bem contra o mal, de deus contra o diabo, nem do honesto Oliver contra a desonesta Bárbara.
Bárbara é o ser inferior, menor e bandido.
Em Aristóteles, em Maquiavel, no pensar e na ação política, o momento danoso, cruel, da ação feminina é confundida dentro da instituição de relacionamento, onde o casamento é talvez sua  maior evidência.
Esta concepção do ser humano particulariza o que não se particulariza, dá homogeneidade ao que não é homogêneo, limita o que não se limita.


12. A aquisição da casa grande por Bárbara se dá por um acaso. Se dá, exatamente, no momento do enterro da velha proprietária. Dor e alegria, fim e início, é a dor e fim de um e a alegria e início de outro.
O tempero da linguagem passa pelo cômico.
Na linguagem cinematográfica, uma linguagem aberta e visual, a indicação é, em um percentual altíssimo, para o cômico. 
O que é a vida? O que é a morte?

13. É um período de vitórias e de grandes conquistas. Enquanto há vitórias e alegrias, a imagem do conto de fadas é a realidade e prospera porque tudo prospera.
Considere-se, aqui, a definição do advogado sobre as medidas de um homem. Segundo seu pai, afirma o advogado, o homem tem o seu êxito medido pela casa, carro, mulher e sapatos.


14. A casa, imagem da prosperidade e da segurança, é objeto das seguintes considerações de Bárbara, considerações tachativas:

                                  “É isso o que somos.
                                   Eu sou ela”.

Este “ela” é a casa.


15. Dentro da casa, montada metro a metro, a cena focaliza o advogado.
São os preparativos para a guerra.
Ele analisa a luta dos dois, sob a ótica do marido e esposa, e garante: 
         
                                  “Eles davam duro de verdade”.

Ela trabalhou na casa, detalhe por detalhe. Um ângulo tomou dela seis meses, outro quatro meses e assim Bárbara-decoradora construiu e reconstruiu cada canto da casa. Ela vira as costas e surge a pergunta crucial, na opinião do advogado, depois de todas as conquistas da prosperidade alcançadas:
                                 
                                   - E agora? O que fazer?

São perguntas de (para?) Bárbara Roses. É como se nada (a vida) tivesse sentido. É como se o enfado fosse uma ameaça.
Então, se ela, a mulher dinâmica, interna (para si, para a família e para a casa), se perguntasse sobre o seu destino e sobre a suas potencialidades lá fora?  Do que ela seria capaz?
Agora, ela retoma a força da competitividade. Agora, ela pode e volta a dar um novo lance para a compra da miniatura chinesa no leilão da praia.
Bárbara vende seu primeiro quilo de patê por US$ 35. Esta era uma especialidade sua e em que ela se destaca na família e com os amigos. No mesmo dia, ela compra uma caminhonete da Volvo por US$ 25 mil.
É o seu grande lance em um novo leilão.
Surgia a empresária audaciosa e conquistadora.

Quais são os espaços de reflexão neste momento. Congelando a imagem, o que se teria para discutir é o impacto sobre a vida das pessoas quando uma delas descobre um novo sentido na vida ou descobre as possibilidades da vida e de viver mais e de ser competente. Bárbara revoluciona ao se revolucionar. Ela explode como mulher e abala todas as estruturas próximas. Agora, ela irá crescer como indivíduo. Irá se igualar ao outro lado, o marido, e irá ocupar espaços ou reduzir espaços de outro, o marido. Por que o crescimento de um indivíduo pode em algum momento ameaçar um outro indivíduo e por que isto, ao se dar, dentro de uma relação de emoções estáveis, desestabiliza as emoções?


16. Uma nova expressão do caráter desequilibrado de Bárbara é revelado na cozinha.
Ela prepara uma carne e finge jogar pedaços para o cachorro Bennie. Finge jogar o alimento e alimenta apenas o seu gato. Para ela , neste caso, Bennie é um “cachorro burro”. Na sequência, o cachorro desce as escadas para a sauna, onde Oliver o recebe e abraça com carinho, sem saber o que se passou na cozinha.

Quais os elementos tácitos de linguagem: o desequilíbrio de uma pessoa má, a tortura de um animal, o confronto de entendimentos entre o ser humano e o ser animal. Por que o cachorro deveria entender que jamais ganharia um pedaço de carne? Ele entendia? Ele sofria? Ela, entretanto, objetivamente queria fazer o animal sofrer, para se vingar de outro ser, para ser cruel com outro ser.


17. A contratação da empregada: um trauma.
Para ele, o eficiente, “ela virá para ajudá-la”.
Para ela, a suficiente, “não é necessário, eu sempre fiz tudo sozinha”.
Por outro lado, Bárbara pede o apoio do marido na análise de um contrato para a realização de um almoço em um consulado.
Ele ignora e trata com desdém os interesses empresariais da mulher vitoriosa. Com o contrato, Oliver mata uma mosca.
Esquece de analisá-lo.


18. Crise do contrato. Ele resolve analisá-lo. Ao mesmo tempo, ele luta por uma vitória paralela, um novo cliente deve ser contratado. Durante a “crise do contrato”, Oliver traz ótimas notícias, marcara um almoço com o novo futuro cliente. Vencia suas etapas.
Bárbara já o trata como um “idiota” e ele acredita que ainda é possível dever “desculpas à mulher”.

O troco: à noite, a ginasta mostra sua força no momento em que ele aborda-a e com um golpe perfeito, entre as pernas, deixa-o prostrado e com fortes dores.


19. Nova intervenção hitcokquiana do advogado, diretor de cena - o narrador da histórica guerra entre um homem e uma mulher, depois de dezenas de anos de casados.
Ele entra em cena para ponderar - é o narrador que se prolonga em analisador (sic)  e em conselheiro.
Tudo fica mais difícil, segundo o advogado, quando não se responde à pergunta do marido para a mulher:
                              
                                           - O que há com você?


Daí, segundo ele, Oliver ter se transformado numa presa fácil.
Na sequência,  o almoço e a crise cardíada (falso enfarte) de Oliver Roses.
À morte provável, exposto numa maca, surge expressiva uma nova imagem destacando a crise conjugal.
A maca de Oliver está do lado da maca de um negro gordo esfaqueado pela mulher na barriga.
A cena é tomada de cima, as duas macas em paralelo, lado a lado.
O negrão informa que foi esfaqueado depois de uma briga e que a briga teria ocorrido porque a sua mulher queria ser manicure.
A mulher do negrão está do seu lado e luta para que seu marido seja atendido em primeiro lugar.
Oliver está sozinho. Bárbara não está ao seu lado na maca e nem luta pelo seu atendimento hospitalar.

As crises que atingem corações e abdomens percorrem todos os casais independentemente da cor.

As mulheres não atacam porque odeiam, atacam, sempre, porque amam.

O depois da violência, em muitas pessoas, redimensiona a consciência: por que fiz isto? A mulher jamais saberá porque esfaqueou o marido por mais sagaz e inteligente que seja. Ela poderá ser capaz de reconstituir a cena, minuto por minuto, recompor todos os diálogos e agressões verbais e físicas, mas jamais encontrará uma explicação. Uma luz brilhará: talvez porque a faca fora deixada fora do lugar por alguém mal intencionado. Ela descobrirá.
Com relação ao enfarte de Oliver. Não houve enfarte nenhum. Na verdade se tratava de uma hérnia no esfôfaco, com todos os sintomas de um enfarte ou de uma angina.

Antes, porém, da verdade das suas dores, Oliver estava certo de que não escaparia, de que a morte era iminente.

Assim, ele escreve seu último bilhete à mulher.

Considera que teve uma vida divertida, “uma vida completa”, além dos sonhos e conclui o bilhete afirmando que tudo o que ele tem e tudo o que conseguiu, “devo a você”.

Com relação a tê-la como mulher, Oliver assegura, apaixonado, que isto ele deve à deus.


20. Bárbara não aparece no hospital. Oliver espera, em vão, o aparecimento da mulher. Desiste de esperá-la. Sofre, pela primeira vez, o impacto do descaso e da solidão. Volta para casa acompanhado por um amigo. No trem, olha pela janela e vê, lá fora; vê que são muitas as vidas que existem do outro lado do vidro da janela do trem; do outro lado de si, lá fora, existe vida, muita vida, muita alegria, muita solidariedade. Neste momento deveria chegar até si as imagens da mulher do negrão. Ela fez pior do que Bárbara, a negra foi direto, mais fundo, atravessou a barriga do negrão com uma faca. Bárbara não chegou a tanto, mas foi além. O desprezo, o descaso, a desconsideração, mais do que uma lâmina, reduzia Oliver a pedaços esfarelados de gente.


21. a) Ele chega em casa. Logo depois chega Bárbara.
O tempo entre as duas chegadas, para Oliver, fora uma eternidade dentro da sua solidão.
Ele queria entender porque ela não apareceu. Bárbara não tergiversará, não apresentará desculpas e esclarecerá, efetivamente, porque desistiu de ir até o hospital e porque fizera pouco caso da solidariedade humana.

                                  Fala Bárbara:

- Eu senti como seria viver sozinha nesta casa. Fiquei assustada por me sentir feliz. Sua morte, Oliver,  significaria, para mim, estar livre”.



Ela pede o divórcio.

Aqui, começa A guerra dos Roses.


21. b) Oliver considera esta situação nova e acredita, piamente, que “ela sempre o fez de bobo”.
Ele busca argumento para garantir que merece uma razão, principalmente, depois de tantos anos de casados. Ela o agride e diz que sempre quis quebra-lhe a cara e ela bate forte para quebrar-lhe a cara. Não se esqueça de que Oliver voltava de um hospital, onde estivera internado por causa de uma hérnia.  Ela quebra - um golpe violento de uma atleta.

Em um e outro momento, Bárbara é excessivamente má, mas se revela também como vítima. Assim também Oliver, sempre vítima e algoz.

Este fato introduz à percepção de que a trama da guerra não se dá entre um homem e uma mulher - seria redução simplista. Mas parte da trama se dá entre de um lado, o homem e a mulher, vítimas sempre, e do outro lado o casamento ( a relação revelada, criada e transformada em monstruosidade, independente do homem e da mulher).

É o homem e a mulher contra o casamento. É o homem e a mulher, sozinhos, diante das deformações introduzidas na natureza viva. É o homem e a mulher vítima das instituições criadas para a preservação da espécie.

Não há força contra as deformações à natureza que introduz as relações matrimoniais: a posse, a disputa por prestígio e sabedoria, os bens (como uma casa) e o passado captado até em antiguidades não vividas    -  e a vida vivida sedimentada em objeto e tão obsoleta ou não ou tão valiosa ou não quanto uma antiquidade.

22. O território e a sua demarcação.
A guerra se concentra na disputa do território inimigo (dentro da casa). A casa é assim o palco principal da guerra, o território a ser demarcado. Na planta da casa são estabelecidas as áreas dos dois países (homem e mulher) inimigos, suas fronteiras, limites, áreas de ação e áreas de disputas.

É a guerra da conquista do espaço e da destruição total.

A frase da declaração da guerra surge neste diálogo, que poderia ser proferido tanto por um quanto pelo outro polo.

Bárbara  - Eu quero a casa. A casa é minha.
Oliver - Jamais terá a casa.

ou

Oliver  - Eu quero a casa. A casa é minha.
Bárbara - Jamais terá a casa.


22. O advogado contador do caso exalta as posições contrárias à mulher, ao advertir para o risco de um confronto total:

                                - Em se tratando de mulher, tudo é possível.


24. Oliver concentra sua luta pela defesa da posse da casa, “ as preciosidades da casa, suas antiguidades etc.”

No natal em que a árvore é destruída pelo fogo, Oliver consegue, comicamente, debelá-lo, lembrando a importância da sua presença:

                              
                                - Foi uma sorte eu estar aqui, agora!  

25. Mais uma vez, o advogado define o perfil das mulheres.
           
                               - O homem não supera as mulheres nem no amor e nem no ódio.


Foi um acidente. O gato morreu debaixo do pneu do carro de Oliver Roses. Ele não teve a intenção de matar. Foi um claro acidente. Inquestionável. A reação primária de Bárbara é a vingança. Ela prende Oliver na saúna, mas depois solta-o. Ele sofre alguns momentos de terror e medo da morte. Cresce o clima de atrito. Oliver, agora, serra os saltos dos sapatos de Bárbara, serra todos os sapatos de uma grande coleção que ficavam guardados em uma parede inteira do quarto. Ela começa a se abalar com o clima: deixa de acordar soluçando, passa a acordar gritando.
Ele destrói um jantar de negócios de Bárbara. Ela destrói o Morgan.


26. O advogado de novo: agora, contra o amor em duas perguntas.
                                  
                                          - Você já fez amor com raiva?

Seu interlocutos nunca diz nada. Também não responde sequer com gestos e o advogado completa:
                                  
                                          - Há outro jeito?

O advogado considera em sua análise da evolução da guerra, o que aconteceu até aqui como conflitos normais, comuns nas brigas de casais. Difícil, na sua opinião, seria decidir o ficar e o partir.

Ficar significaria a guerra, estar no inferno, ter a chance de sair e recusá-la; embora conhecendo o inferno, todas as suas maldades e sofrimentos, ficar e ficar consciente. Ficar para lutar e lutar  sabendo que não há nenhuma possibilidade de vitória. Nenhuma chance.

A cena em que Bárbara se revelaria em toda a sua maldade potencial realizada se dará no jantar de conciliação e de negociação. Oliver propõe a reconciliação e, mais uma vez, revela todo o seu amor por Bárbara. Ela o surpreende mais uma vez.
 
- Excelente patê - Oliver quer agradá-la.
- É de au-au.
O choque.
- Bennie? grita e pergunta Oliver
Ela balança a cabeça afirmativamente.
Ele joga a mesa no chão.
Com o barulho, o cachorro Bennie acorda, lá fora, assustado.

Outra queda da escada e Bárbara mostra sua agilidade de ginasta e de replicante. Ela está em forma.

Outra surpresa estava reservada a Oliver. O pênis vingador teria mais uma vez. Os dois fazem sexo no forro da casa, quando o vingador é surpreendido por uma monumental mordida. Contorcendo-se em dores, Oliver é jogado fora do forro pelo alçapão.

27. Cena de ligação, princípio e fim: a miniatura de porcela chinesa.
Bárbara aproxima-se do corrimão. No centro da sala, bebendo vinho, Oliver a focaliza com a lanterna e guia o foco para a miniatura. Ela tenta salvar a miniatura. É o único ser ao qual se pode identificar uma manifestação verdadeira de afeto a partir de Bárbara. Amarrada por um barbante, Oliver comanda a miniatura. Bárbara treme a cada movimento.

Ele - Diga que esta miniatura é minha e você poderá ficar com tudo.

Ela - É minha.

Oliver destrói a miniatura com violência. É o final. A luta transforma-os em grandes gladiadores modernos. Acabam dependurados no lustre central da casa, a quatro metros de altura. Oliver observa que “nesta altura, sempre te amei”. “Eu sei”, concorda Bárbara. O lustre desaba. Eles concluem que os dois haviam enlouquecido. Poucos instantes lhes restavam de vida. Destruídos no chão, em meio à ferragem do lustre, Oliver estica o braço, buscando segurar Bárbara pelo ombro. Ela afasta a sua mão e joga o braço de Oliver para trás. Poucas forças lhes restam. Assim morrem.


28. Conclusão do advogado

- Quem gosta de cão não casa com quem gosta de gato. Evite sempre o divórcio. Divórcio civilizado é uma contradição (insiste). Se você quer acabar seu casamento, acabe de uma só vez para que possa ter a oportunidade de reconstruir a sua vida. Caso contrário, volte para casa e procure encontrar em sua mulher aquilo que, na sua juventude, o levou a amá-la.




A guerra concentra todo o esforço do escritor, do diretor e dos atores para revelar o que seria uma faceta menor da sociedade norte-americana dos anos 80, com o papel competitivo do casamento, secundário da mulher e destruidor da relação matrimonial. A mulher será sempre destruída como personagem humano. Ela jamais será gente. O homem é a ignorância total. Jamais perceberá a hora de entrar e a hora de sair. O homem é o apaixonado medíocre, descobre o amor depois que já o perdeu. Na busca da manutenção/conservação e da conquista, destrói tudo.