quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

TUDO VIRA FILME



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Todas as corridas são possíveis




Na memória do menino


Astolfo Soares Dutra



Busco entender o meu pai. Busco com muita angústia entendê-lo e para mim sempre foi difícil. Eu não consigo. Eu não conheço o meu pai. Quando penso na nossa convivência, vou lá na infância e capto-o no seu gabinete dentário, na avenida Getúlio Vargas, a principal avenida da cidade.

Em meio àquela parafernália de equipamentos, sua cadeira de dentista, seu equipamento de raio-x e a pequena e impressionante salinha onde trabalhava com próteses. O cheiro do material químico e a própria prótese atraiam-me a imaginação. Via o que, em meio a toda aquela quantidade de massas, moldes, misturas, saia dali.

Era o meu encanto e mais tarde a história da palavra protético seduziu-me mais ainda. A palavra e o deus, Proteu, todas as possibilidades e mistérios das mudanças e das mutações.

Nunca ser o mesmo e o que foi ser a perfeição – a prótese.

Sempre ouvia as pessoas conversarem sobre as dentaduras feitas pelo meu pai. Elogios ao seu trabalho profissional. Deixavam-me orgulhoso. Suas dentaduras eram perfeitas e duradouras.

No seu mundo, no gabinete dentário, ele era perfeito e competente segundo o povo da cidade.

Muitos exaltavam o seu pioneirismo, contavam a longa e complicada história da vinda do aparelho de raio-x, adquirido na década de 1930 da Alemanha, bem antes da guerra.

A Colônia Alemã de Teófilo Otoni divulgava os feitos industriais e tecnológicos. O equipamento ocupava grande parte da sala. Era a prova real da competência e do pioneirismo do povo alemão, em franca recuperação depois da 1ª. Grande Guerra.

Depois de ter abandonado a sua profissão para se dedicar por algumas décadas à política, ele volta ao consultório.

Uma volta que o fez também retornar aos bancos universitários para atualizar e conhecer os avanços tecnológicos da odontologia.

Outra vez, ali estava ele trabalhando com a mesma desenvoltura e afinco. Era a década de 1960, a política mudara com a chegada dos militares ao poder. 

Antes, dedicou-se como fazendeiro e líder ruralista.

O garimpo o atraiu, mas soube se afastar das catas na hora certa. 

Ora o encontrava, com mais coleções de lances de pioneirismo.

À frente da liderança dos fazendeiros criou a associação rural, cooperativas. Trouxe para a cidade especialistas formados nas universidades agrárias – lembro-me dos primeiros agrônomos e veterinários.

Sua grande obra com o amigo Meusinho Gazinelli: o parque de exposições da Pampulhinha, em Teófilo Otoni.

Em Pavão, onde ficava a nossa fazenda, ele implantou, mais uma vez pioneiro, a luz elétrica com um gerador a querosene.

Na fazenda, construiu seu primeiro laticínio da região. Em Teófilo Otoni, participou da criação do Frimusa, Frigorífico do Mucuri SA. 

Espreitando-o, observava-o nas discussões políticas – e procurava entender as intervenções preocupadas da minha mãe. Por que a política era tão complexa para as pessoas? O que a política tinha de diferente? Era a década de 50 e eu procurava o meu pai. Minha mãe também.

“A política é madrasta. É do céu ao inferno, sem purgatório”.

Não entendia a oposição à política e registrava a resistência das famílias.

Hoje, quando me pergunto sobre a paixão daquelas viagens para a fazenda, quando viajávamos de jeep, esqueço do meu tormento, do meu grande sofrimento e desespero.

Viagens sofridas, para mim. Muitas vezes não acreditava que chegaria ao seu fim vivo, tão mal passava vomitava tudo. Todos os cheiros eram insuportáveis, principalmente os cheiros do jeep, da gasolina, do óleo, o cheiro da poeira, das roupas.

Todos os cheiros provocavam o mal estar e, mesmo assim, era uma grande aventura.

Um passeio para meus pais e minhas irmãs. Uma grande batalha para mim. Uma batalha para superar-me, uma luta e só resistência. Uma aventura no estômago e na memória dos cheiros. Até mesmo o cheiro do vômito provocava-me vômito. Ficava feliz quando passava a vomitar bílis. Agora não tinha mais nada para vomitar, pensava. Engano, o estado de angústia e de sofrimento continuava. Buscava na imaginação uma saída para tão poderoso mal estar, buscava na paisagem. De repente, a paisagem provocava o vômito. Deveria olhar sempre para a frente. Era a opinião de todos que não vomitavam:  Nunca, jamais, olhar para os lados ou para trás.

- Olhe sempre para frente, menino.

Verdadeiras empreitadas, viagens de 80 quilômetros eram feitas, em condições normais, em torno de 10/12 horas. Na época de chuva duravam três dias. A travessia de rios e riachos eram lutas travadas com cordas, amarrações e balsas.

Meu pai alegre e animado, em conversas demoradas, curtia cada minuto e não se incomodava com a demora. Nem demonstrava cansaço.

Era o doutor Tito. Alegre, observava como as pessoas gostavam de conversar e ouvir o doutor Tito.

Mais tarde, ao ser chamado a atenção por Bá, um amigo de infância, sobre o tratamento que eu dava ao meu pai, o que mais me impressionou na sua argumentação foi a segurança e o tom da afirmativa categórica com que ele disse:

-         Seu pai é um homem bom.

Um homem bom.

Eu não o olhava por aí. Ser bom, na minha cabeça, estaria na mesma ordem do que ser honesto, ser verdadeiro. Ninguém deveria procurar ser bom. Ser bom, honesto, verdadeiro deveria ser o natural da pessoa.

Ele era um homem bom, sim. Isto deveria ser o natural seu, atributo inerente ao ser e ao viver, eu jamais me questionei se deveria ou não ser bom, ser uma pessoa boa, solidária, amiga. Para mim, todos os homens são bons,

Bá era um homem bom. Seu pai, um homem que eu admirava e que vivia viajando no trabalho para sustentar a família, para mim também era um homem bom.

Mas quem era mesmo o meu pai?

Descobria assim uma e outra faceta dele e o menino sempre de atalaia observando, provocando. A minha grande aventura foi quando nós dois fomos sozinhos para a fazenda e tive o meu primeiro choque: a galinha.

Chegáramos esfomeados e vínhamos falando (todos eles falavam)  da galinha preparada pela dona Jandira, a cozinheira. O tempero de dons Jandira pontuava os assuntos.

Naquele dia, a viagem foi rápida, chegamos à tarde, dia de sol, céu azul. Jandira trouxe a galinha. Comi a galinha quase toda.

Quando pai chegou para jantar foi aquela bronca, uma senhora bronca. Dona Jandira ria e serviu uma galinhada para mais dez homens.

- Fiz maldade com o menino.

Para dona Jandira, a minha fome não acabara. Não acabaria

- Na cara dele, a fome era para devorar um boi.

Dona Jandira ria e repetia... um boi.

Este episódio marcou-me, pois nossa mesa sempre fora farta. Principalmente na fazenda. Jamais se discutira por causa de comida e sempre comêramos à vontade e com fartura... ainda mais galinha.

Ainda nesta fase, outra surpresa com o pai brincalhão e debochado.

Procurava informações sobre cinema e uma das correspondências sobre um curso de cinema acabou entregue pelo correio na sede da associação rural e caiu na mão do presidente da Associação Rural de Teófilo Otoni.

Pai estendeu-me a correspondência.

“Quer fazer cinema?”  

Fiquei triste. Ele não gostava de cinema? Não conseguia entender isto e não acreditava que fosse possível.

Na paixão pelo cinema, acompanhava a programação das três casas da cidade, o Cine Metrópole, o Cine Vitória e o Cine Poeira.

Para assistir às sessões do Poeira contava com a proteção e a cumplicidade de Durvalina, a ajudante de cozinha.

Ela também sabia da minha fome.

- Conte a história.

Durvalina gostava de me ouvir contar os filmes. E em seus olhos, ela assistia mais uma sessão de cinema ouvindo o que era contado pelo menino.












quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

NASCE A DITADURA


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No dia da mentira

Fábio de Araújo Martins 





Nasce a ditadura. Na avenida tropas do exército, notícias de prisões e de grupos civis armados em ações para-militares.

Prendem, perseguem e matam.

O golpe militar acontecido no final de março princípio de abril de 1964, na realidade foi no dia 1o de abril, dia da mentira.

Para evitar a galhofa, recuaram um dia na data do golpe para denominá-lo de revolução, a Revolução de 31 de Março e o este dia tornou-se a data oficial para as comemorações da “Revolução de Março de 64”.

Duas eram as questões fundamentais para a imagem do que havia acontecido: a primeira escapar do dia da mentira e a segunda jamais admitir que o golpe de Estado fora um golpe mas dar-lhe a definição de uma revolução.

Por que estas estranhas preocupações e o que elas geraram no curso do próprio acontecimento político.

Golpe? Não. Uma revolução.

Estranha esta preocupação dos militares golpistas, pois haveria a suspeita de não coincidência da data.

Era um momento delicado, onde o desencontro das informações contava dentro das concepções golpistas como atividade diversionista básica, necessária para confundir adversários e inimigos.

Um de seus teóricos afirmava que a função da comunicação era 

desinformar, 

confundir 

e mentir...






Em 2018, Golbery renasce no WhatsApp 




terça-feira, 8 de janeiro de 2019

VENHA ROLANDO

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A canção da areia

(Junto de Margarida)


Paco Morales (*)




Por que devo falar baixo?

Não fale

Ora... por que?

Não fale... podem acordar

Aqui é bem longe

Eu sei. Esquecia





Venha... que mais queres?

Venha... rolando   

rolando na areia  

rolando na noite  

rolando...dançando    

no ventre... nua  

venha... no vento   

sussurrando     

a canção da areia



(*) Paco Morales é de Andaluzia


terça-feira, 20 de novembro de 2018

VER É AMAR


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Fogo aceso, brasa


Otto de Albuquerque



Tanto de meu estado me acho incerto,
Que em vivo ardor tremendo estou de frio;

Sem causa, juntamente choro e rio,
O mundo todo abarco, e nada aperto.

É tudo quanto sinto um desconcerto:
Da alma um fogo me sai, da vista um rio;

Agora espero, agora desconfio;
Agora desvario, agora acerto.

Estando em terra, chego ao Céu voando;
Num'hora acho mil anos, e é de jeito
Que em mil anos não posso achar um'hora.

Se me pergunta alguém porque assi ando,
Respondo que não sei, porém suspeito
Que só porque vos vi, minha Senhora

(Camões)



Otto
Lendo com mais calma e profundidade, me permito ousar e pensar que vc mandou este poema pra mim com dupla intenção. Ou seja, devo decorá-lo para melhorar minha memória sim, mas também é para ser entendido como um recado, uma declaração. Tenho razão, ou é fruto de um querer meu?

Todo ele é a sua cara. Aliás, a cara dos grandes e lindos/pobres/tristes poetas: um revelar-se se escondendo de si mesmo o tempo todo. Um medo de dizer o que sente claramente, de ver seu próprio rosto refletido no rosto do outro, de não ser ouvido, nem sentido, nem percebido.

Um medo de não ser nada, enquanto se é tanto! Uma dissimulação sem fim de gestos, palavras, olhares que não sejam apenas aqueles que a gente pode ver, ouvir, tocar, mas nunca ter certeza deles.

Essa sutileza em você me encanta.

Esse seu jeito de observar e não querer se deixar observar, me intriga.

Mas eu encontro você, por mais que tente se esconder de mim. Te encontro num olhar, numa pergunta, numa fala. 

Você receia me provocar uma possível reação e assim se esconde atrás de brincadeiras para tentar desviar-me do foco (fogo aceso, brasa) do sentimento que ainda faz doer meu coração. Pouco, com certeza. Não porque o amor é menor hoje. Acho que não.

Por ter certeza de que não conseguirei nunca que você deixe de ser apenas o poeta dissimulado, fumaça, cheiro, para cair nos meus braços, antes que esse ambiente da única verdade que conhecemos aqui - a vida da forma que ela nos mostra - se deteriore, se esvaia.

Beijo,

Arlete





Ainda Camões, uma nota biográfica:



Camões, Violante, Joana, Antônio e Francisco.

Camões amou Violente, mulher de Francisco.

Camões amou Joana, filha de Violante e de Francisco e irmã de Antônio.

Antônio morreu com 17 anos.

Camões, a ele, Antônio, dedicou muitos poemas.

Francisco era um nobre português e corria em seu sangue o sangue de mais de 90 reis.

Segundo Conde de Linhares, Francisco era um diplomata.

Violante amou Camões e amou muitos outros serviçais e não serviçais.

Camões morria de ciúmes.

Violante descobriu que Camões e Joana se amavam.

Faria e Souza, biógrafo de Camões, décadas depois da morte de todos os personagens do romance múltiplo, mesmo morando em Madri, foi penalizado por tratar do romance entre Camões e Violante.

Os costumes, costrumes, estrumes,

A evolução dos costumes...







sexta-feira, 26 de outubro de 2018

CONSCIÊNCIA POLÍTICA





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Aos indecisos, aos que se anulam, aos que preferem não

O maior delírio vivido 

hoje no Brasil 

é o da “normalidade”






 “Distopia simulada”. Esta foi a expressão usada por Luis Felipe Salomão, ministro do Superior Tribunal Eleitoral, para justificar a proibição do programa de Fernando Haddad em que era mostrada a apologia de Jair Bolsonaro à tortura e aos torturadores. O programa de Haddad, ao mostrar o que Bolsonaro diz e faz, nas palavras do ministro, “pode criar, na opinião pública, estados passionais com potencial para incitar comportamentos violentos”. A questão, para o ministro, não é o que Bolsonaro diz e faz, mas que as pessoas possam escutar o que ele diz e ver o que ele faz. E se posicionar a partir do que ele efetivamente diz e faz. Ou seja, se posicionar a partir da realidade dos fatos.

O problema do ministro é que o eleitor possa pensar algo lógico como: “Não posso votar num homem que defende a tortura e tem como herói um torturador que colocava fios desencapados na vagina das mulheres e depois chamava seus filhos pequenos para ver a mãe nua, urinada e vomitada”. Não, o ministro entendeu que precisava vetar a realidade factual para que o eleitor, ao conhecer os fatos, não tenha a estranha reação de pensar sobre eles.

O risco da violência, para o ministro, estaria naqueles que sentem medo, não nos que provocam medo. Pensar que o Brasil quase certamente vai eleger um homem que defende a tortura e tem como herói Carlos Alberto Brilhante Ustrapoderia assustar a população. E o ministro acha que não há motivo para a população se assustar.
Vale a autoverdade do ministro, o que ele escolheu que é real e o que ele escolheu que é “simulado”. A verdade, assim como a realidade, tornou-se uma escolha pessoal.

Esta é uma eleição em que um candidato tem um projeto democrático e o outro nega a própria democracia

Estamos ferrados. Não apenas porque um ministro do TSE diz que é simulado aquilo que é real, mas porque este tem sido o comportamento de uma grande parcela das instituições e também da imprensa. Simula-se no Brasil que a distopia não é real. E se faz isso simulando que esta é uma eleição “normal”, uma eleição entre dois projetos distintos, mas igualmente legítimos.

Não é.

Esta é uma eleição em que um candidato, Fernando Haddad, por mais ressalvas que se possa ter a ele e ao seu partido, tem um projeto democrático, e o outro candidato, Jair Bolsonaro, nega a democracia.

É estranho disputar uma eleição e ao mesmo tempo negar a democracia? É estranho. Esta é uma das contradições da democracia, e ela se expressou diversas vezes ao longo da história e se expressa com muita força nos dias atuais, com exemplos como Rodrigo Duterte, nas Filipinas, e Recep Tayyip Erdogan, na Turquia.

No Brasil, uma grande parcela daqueles que deveriam servir de referência, tanto instituições como indivíduos, por várias razões não têm se mostrado à altura do momento de extrema gravidade vivido pelo Brasil. Outros preferem não se arriscar à fúria dos apoiadores de Bolsonaro hoje, à perseguição do homem que terá toda a máquina do Estado em suas mãos amanhã. Só o farão quando for impossível não fazê-lo, e com o menor custo possível.

Isso significa que você, nós, estamos por nossa própria conta neste momento. Por conta das alianças que conseguirmos fazer para resistir ao que virá e seguir a luta pela democracia. Bolsonaro já disse, no último domingo, que aqueles que não vivem segundo seus preceitos, “vão pra fora (do Brasil) ou vão pra cadeia”. Exatamente o que aconteceu na ditadura civil-militar (1964-1985) que ele tanto exalta.

Bolsonaro chama gente como eu e você, que lutamos pelos direitos humanos, pela igualdade e pelo meio ambiente, de “comunistas”. Como as palavras se esvaziaram de sentido no Brasil, qualquer coisa, até o meu abajur, pode ser chamada de “comunista”. O comunismo, que não tem mais nenhuma relevância no mundo, só sobrevive na boca de gente como Bolsonaro.

No governo autoritário anunciado por Bolsonaro, quem tem o poder e terá o aparato de repressão na mão pode dizer o que somos eu e você

Mas, assim como o ministro pode dizer o que é real e o que é simulado, Bolsonaro também pode dizer que eu e você somos “comunistas”. Quem tem o poder e terá o aparato de repressão na mão poderá também dizer o que somos eu e você. A verdade, num governo autoritário, passa a ser a daquele que tem a arma na mão e o pau de arara no porão para impô-la. E, então, como Bolsonaro já anunciou no último domingo: “Esses marginais vermelhos serão banidos de nossa pátria”. E acrescentou: “Será uma limpeza nunca vista no Brasil”.

Esta é a candidatura que tem sido tratada como opção democrática —e a eleição que tem sido tratada como “normal”.

É a história se repetindo? É. E também não é.

Porque é a história se repetindo sem precisar botar os tanques na rua, é a história se repetindo pelo voto da maioria dos eleitores brasileiros. E, sim, é preciso dizer, pela omissão daqueles que votam nulo, branco ou se abstêm de votar. Assim, é a história se repetindo de um jeito muito pior.

A única coisa que está sendo simulada, neste momento, pela maior parte das instituições e da imprensa, é a normalidade

Quero dizer claramente que, sim, é preciso ter muito medo. É mentalmente saudável ter medo quando um homem como Bolsonaro quase certamente terá o poder no Brasil. A única coisa que está sendo simulada, neste momento, pela maior parte das instituições e da imprensa, é a normalidade. Não há nada de normalidade democrática no que estamos vivendo. Nada. Bolsonaro não é um democrata. Não é preciso que eu ou outros tantos digam mais uma vez quem ele é. Ele mesmo diz. O tempo todo. Basta que você escute.
Além do delírio coletivo da normalidade, também é enlouquecedora a frase recorrente de alguns: “Ah, mas ele não vai fazer isso”. E o “isso” são todas as atrocidades que ele vem proferindo há anos e também nesta campanha. Todas as atrocidades que ele disse no último domingo. Por que Bolsonaro não faria o que diz que fará e não seria o que é? Há alguma razão lógica para isso? Há algum fragmento de sentido em duvidar do que ele já avisou que fará, como essa “faxina” no país, tratando uma parte da população como lixo que deverá ir para o exílio ou será presa?

Entre os tantos absurdos que Bolsonaro falou no último domingo, está o seguinte: “O Brasil será respeitado lá fora. O Brasil não será mais motivo de chacota junto ao mundo”. Bolsonaro delira porque sabe que pode delirar à vontade. Ele sabe que pode criar sua própria verdade.

Bolsonaro já tornou o Brasil uma vergonha planetária

A imprensa internacional trata Bolsonaro como o horror que ele efetivamente é. O Brasil se tornou o espanto do mundo. Em qualquer país onde se vá as pessoas perguntam como os brasileiros são capazes de eleger um homem como Bolsonaro. Nos tornamos uma vergonha planetária. E, se alguém acha que a crise econômica vai ser resolvida por um homem com as credenciais de Bolsonaro, não está prestando atenção nos sinais. Bolsonaro é um constrangimento de proporções continentais.

Não é de hoje que o Brasil parece viver em permanente delírio. Mas, neste momento, o delírio alcançou uma dimensão sem precedentes. Pessoas afirmando e escrevendo que não há risco de um governo autoritário? Colunistas dizendo que as instituições no Brasil são fortes e que o sistema de pesos e contrapesos vai funcionar? Em que país essas pessoas vivem?

Não no meu ou no seu. Não no país em que Bolsonaro faz apologia à tortura e aos torturadores, que diz que vai prender, expulsar e “limpar”, e nenhuma instituição o impede. Não no país em que Marielle Franco foi assassinada e onde nenhuma instituição tem força suficiente para nomear os assassinos e mandantes e julgá-los. Não no país em que o presidente do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli, já se submete aos militares por vontade própria, ao fraudar a história dizendo que a ditadura não foi ditadura, mas um “movimento”.

A vida do país não se passa em salas protegidas. Apenas a probabilidade de Bolsonaro se eleger já faz vítimas pelo Brasil. Negros, mulheres, LGBTQ. As minorias, que Bolsonaro diz que tem que se “se curvar às maiorias ou desaparecer”, têm sido ameaçadas nos espaços públicos. “Você vai ver depois do dia 28” se vai poder andar assim, se vestir assim, ser assim... é o tom das ameaças verbais, quando elas não se tornam também físicas. Há muita gente, neste momento, sem saber como colocar seu corpo nas ruas do Brasil depois de uma vitória de Bolsonaro. Com medo. Saudavelmente com medo.

O horror já se infiltrou nos ossos do Brasil porque as instituições são fracas, as autoridades incapazes e parte das elites acredita no delírio da “normalidade”

Na Amazônia, onde tudo acontece primeiro, a violência recrudesceu. Carros dos fiscais do IBAMA foram queimados, e a ponte da única estrada de acesso por onde funcionários do ICMBio passariam, durante uma ação de combate ao desmatamento, foi incendiada. A violência contra os órgãos governamentais ecoa a declaração de Bolsonaro de que acabaria com “a indústria de multas”. “Vamos botar um ponto final em todos os ativismos do Brasil. Vamos tirar o Estado do cangote de quem produz”, prometeu, referindo-se aos órgãos que protegem o meio ambiente. Intimamente ligado à bancada ruralista, Bolsonaro já deixou claro que quer abrir a Amazônia, incluindo as áreas protegidas, para a soja, o boi e a mineração. Ele tem ainda uma rixa particular com o Ibama, porque foi multado pescando em área proibida, dentro de uma unidade de conservação. E nunca pagou a multa aos cofres públicos.

Não existe risco de horror? O horror já se infiltrou nos ossos do Brasil. Já estamos vivendo sob o horror, exatamente porque as instituições são fracas, as autoridades incapazes e a parcela supostamente mais esclarecida das elites têm preferido acreditar num delírio de normalidade.

Não é que vai acontecer. Ou que pode acontecer. Já está acontecendo.

A reação da maioria dos candidatos derrotados no primeiro turno é mais uma mostra da fragilidade da democracia brasileira. Ciro Gomes, Marina Silva e Geraldo Alckmin envergonharam a si mesmos e traíram a confiança de seus eleitores. Apoiar o único projeto democrático do segundo turno deveria ser imperativo ético, não opção. Como políticos e cidadãos, deveriam estar fazendo campanha desde o dia seguinte ao primeiro turno, lado a lado. Mágoas, disputas, cálculos, tudo isso deveria estar adiado diante do risco de Bolsonaro ser eleito no domingo.

Os principais políticos do país, que poderiam e deveriam mostrar grandeza, se revelaram tragicamente aquém do momento histórico. Fernando Henrique Cardoso despencou da própria biografia. O Brasil descobriu-se à beira do abismo sem um único estadista. Não há nem mesmo um político de expressão capaz de botar as necessidades do país acima das suas. Parecem todos adultos infantilizados, fantasiando seu rancor e suas picuinhas com palavras sofisticadas.

Jair Bolsonaro será o valentão da escola com um exército e todo o aparato de repressão, em especial as PMs dos estados, cultuando-o como um “mito”

O Brasil está vivendo um dos mais graves momentos da sua história. Jair Bolsonaro é tudo que sabemos que ele é e também um homem incapaz de se controlar. Este homem que não se controla quase certamente estará no comando do país. Jair Bolsonaro não consegue se controlar e fingir ser um democrata nem mesmo na confortável posição de liderar as pesquisas. É fácil imaginar o que fará com poder presidencial. O próximo presidente poderá ser um descontrolado cheio de ódio num país já devastado por várias crises. Jair Bolsonaro será o valentão da escola com um exército e todo o aparato de repressão, em especial as PMs dos estados, cultuando-o como um “mito”.

Há algo que o Brasil já perdeu. E que vai custar muito para recuperar. Com Bolsonaro ou sem Bolsonaro, descobrimos que vivemos num país em que a maioria dos brasileiros acha possível votar num homem como Bolsonaro. Sem nenhum drama de consciência, compactuam com todo o ódio que ele produz, são cúmplices do desejo de exterminar aqueles que são diferentes, apreciam as ameaças e os arrotos de poder, exaltam a ignorância e a brutalidade.

É pelo que o Brasil já perdeu que a gravidade deste momento talvez seja maior do que a que se desenhava no golpe de 1964 e, com o AI-5, em 1968. Desta vez, há um apoio explícito de uma parcela significativa dos brasileiros ao projeto autoritário. Um apoio explícito pelo voto. Uma parcela dos seguidores de Bolsonaro já decidiu agradar ao “mito” perpetrando a violência nas ruas. Claramente estimulados e incitados pelos seus discursos de ódio e de expulsão de uma parcela da população, na qual estamos eu e talvez você, decidiram eles mesmos arrebentar e oprimir. Assim, desta vez, a violência pode vir de qualquer lugar. Até mesmo do vizinho.

Há algo que o Brasil já perdeu. Mas a eleição ainda não está totalmente perdida.
Quem acompanha meus artigos de opinião sabe o quanto sou crítica ao governo do PT. Critico o PT desde antes de a maioria criticar o PT. Sem deixar de reconhecer os acertos, critico o PT por várias razões e porque cubro, como repórter, o processo da construção da hidrelétrica de Belo Monte, no rio Xingu, um crime que manchará para sempre as biografias de Lula e de Dilma Rousseff. E que seguirei documentando. Posso afirmar que fiz algumas das mais duras críticas ao partido, a Lula e à Dilma Rousseff, críticas que considero justas e baseadas em fatos checados e apurados. Tudo o que escrevi nos últimos anos está na internet para quem quiser ler.

Para mim não é fácil votar no PT. Para mim também não é fácil expor o meu voto. É a primeira vez que eu o faço publicamente. E o faço porque compreendo a gravidade deste momento histórico. Faço porque entendo que este não é um voto para um candidato ou para um partido. Mas sim um voto contra a opressão, um voto em defesa de tudo aquilo pelo qual lutei a minha vida inteira, um voto em defesa de todos os princípios que fizeram de mim uma jornalista.

Em momentos-limite como o que vivemos, cada um de nós precisa fazer escolhas difíceis, escolhas em que sempre se perde muito. Nasci e cresci na ditadura que Bolsonaro exalta e iniciei no jornalismo já com a retomada da democracia. Sempre me perguntei se eu seria capaz de sustentar os meus princípios, a despeito de todos os riscos, caso o país pudesse, mais uma vez, ser oprimido por um regime de exceção. Fazia isso como um exercício mental, mas nunca supus que chegaríamos a este ponto novamente, e com ainda mais gravidade. Acredito que o fato de ter conquistado uma voz durante 30 anos de jornalismo me confere uma responsabilidade. E espero estar à altura desta responsabilidade.

Quem acompanha esta coluna de opinião sabe também que eu costumo defender que votar em branco, anular o voto ou se abster é posição. Acredito que o “voto útil” ou o “voto crítico” também nos trouxe até este momento dramático. Sigo acreditando que anular o voto, votar em branco ou não votar é posição política legítima quando se trata de dois projetos dentro da democracia.

Votar em branco, anular o voto ou deixar de votar não é posição neste momento, mas omissão. E omissão é um tipo de ação

Mas tenho convicção de que, neste momento, quando o que está em jogo é a própria democracia, porque o projeto de Jair Bolsonaro nega os fundamentos democráticos, votar em branco, anular o voto ou não votar está fora do campo das possibilidades. Votar em branco, anular o voto ou deixar de votar não é posição neste momento, mas omissão. E omissão é um tipo de ação. Neste momento, o pior tipo de ação possível.

Não tenho mais o que dizer a alguém que vota num homem que faz apologia à tortura e aos torturadores, que incita o ódio e que quer acabar com uma parte da população brasileira. Minhas palavras nunca chegarão àqueles que acham possível ter um presidente como Jair Bolsonaro. Mas talvez minhas palavras possam chegar àqueles que odeiam o PT. E possam compreender, como eu mesma precisei compreender, que este não é um voto no PT. E que este voto, mesmo não sendo no candidato e no partido que desejaríamos, seja talvez o voto mais importante desde que recuperamos o direito de votar. É um voto pelos princípios da humanidade, é um voto pela vida dos mais frágeis, é um voto por seguir existindo neste país.

Eu aprendo com as pessoas que escuto. E escolhi escutar como repórter as pessoas mais frágeis. E também as pessoas mais frágeis que resistem. Se para mim era extremamente difícil votar no PT, e não votei no PT no primeiro turno, como seria para aqueles que tiveram a vida destruída pela política do PT para a Amazônia?

Perguntei então a três ribeirinhos do Xingu que foram expulsos por Belo Monte como votariam e como se sentiam a respeito do seu voto. Os três tiveram suas ilhas ou terras afogadas, dois deles adoeceram seriamente, um deles teve a casa queimada com tudo dentro, outro não conseguiu nem mesmo impedir que os ossos do pai fossem submersos e para sempre desaparecidos, todos perderam a vida que conheciam e amavam, assim como a própria possibilidade de sobrevivência. De homens e mulheres da floresta se tornaram pobres urbanos em uma das cidades mais violentas do Brasil. Tornaram-se refugiados em seu próprio país, destituídos de tudo, até mesmo da própria identidade.

Se eles são capazes de superar todo o sofrimento para fazer o que é certo, eu e você também podemos

Os três me disseram, sem hesitação, que votariam contra Bolsonaro. Eles compreendem que algo maior que a sua própria vida está em jogo. Se estas pessoas, que perderam tudo por uma obra de Lula e de Dilma, são capazes de compreender o momento histórico vivido pelo Brasil e superar todo o seu sofrimento e sua justa revolta para fazer o que é certo, entendo que eu também posso. E acredito que você também.

É de um deles a frase que me inspira:

— Eu vou votar no PT para que resolvam a merda que fizeram!


Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora dos livros de não ficção Coluna Prestes - o Avesso da Lenda, A Vida Que Ninguém vê, O Olho da Rua, A Menina Quebrada, Meus Desacontecimentos, e do romance Uma Duas. Site: desacontecimentos.com Email: elianebrum.coluna@gmail.com Twitter: @brumelianebrum/ Facebook: @brumelianebrum