segunda-feira, 26 de setembro de 2016

MESA PARA DOIS









A arte de preparar 


o chuchu e o amor


 





Horácio de Matos Costa





Primeiro, acho que o chuchu escreve-se melhor, correta e graficamente como xuxu. Cedendo às normas da boa ortografia pátria, (Pátria? Pátria escreve? Pátria fala? Patria vive?) fiquemos com o chuchu correto. Inautêntico, plasticamente.

Ao chuchu e à vida.

Observe as pessoas com as comidas. Como elas fazem as comidas. Como elas preparam o alimento. Como cortam, aí há segredos como o corte correto da carne.

Conheça os temperos e, quando for possível, grave, o mais profundamente em sua mente, as conversas e a sabedoria, a cultura e as histórias fabulosas – jamais as esqueça, são profundas e válidas lições de vida.

A preparação de uma feijoada em minha terra vem com a fazenda, com o leitão, com o abate, chega da mais distante relação produtiva, diferente, não menos importante, quando numa cidade grande, as partes da feijoada, embaladas em sacos, tabeladas, já pesadas, medidas certas para o número certo de pessoas, algumas vezes com muito mais facilidades e uma oferta maior de alternativas e de variados produtos – tudo muito sortido.

Aí seja criativo e resgate a fazenda, desembale, recrie sonhos e fazeres, rituais e princípios.

É o novo espaço e a nova maneira com que a vida se permite recriá-la, embalá-la e desembalá-la.

Assim, há alguns dias tenho conversado com Tezinha sobre o chuchu e o preparo do chuchu. Isto depois que na mesa chegou algumas vezes o chuchu em grandes pedaços e, algumas vezes, frio.

Não sabiam preparar o chuchu, valorizar o chuchu, o seu sabor especial, em que se tem que ter a quantidade certa de gordura e a quantidade certa de fogo.

Havia amargor, dor e ressentimento, quase vingança em quem trazia, fazia e trazia, o chuchu para a mesa.

Assim, como saber o tamanho do corte – é no tamanho que está um dos segredos da preparação do chuchu. Alimento delicado e saboroso que está a magia da pessoa ou o feitiço.

Hoje, foi a segunda vez que nós dois nos debruçamos sobre a preparação do chuchu para o almoço.

Hoje, foi mais uma vez que nós nos amamos mais.

Comer chuchu com... o acompanhamento é outro segredo importantíssimo.




Ela dá como chuchu na cerca – diz-se da mulher ninfomaníaca, as belas senhoras dadivosas na sabedoria da roça. 

Veja, quanta sabedoria e quanta beleza neste alimento tradicional das famílias em todas as épocas e em todos os cantos do mundo. 

Com certeza, onde não tem chuchu tem amor de sobra, também. 

E tem belas mulheres.




















sábado, 24 de setembro de 2016

NENHUM HETERÔNIMO











Se quiser me conhecer não me leia.


Não me leia, apenas.



Everaldo Augusto






Tudo é disfarce.

São armadilhas espalhadas em palavras,

cunhadas em versos,

citações e vírgulas.






Se quiser me conhecer,

não me procure.

Não me encontre.

Não estou onde poderia estar.

Estarei sempre 5 minutos

de qualquer lugar

- Saiu, não tem 5 minutos






Nem minha voz será a minha voz.

Nem meu grito é mais o mesmo.

Meu rosto?

Uma máscara?

Tenho duas máscaras

Três máscaras, mais, mais, mais

Hoje, sou um personagem

Amanhã, outro.

Várias personagens 

cunhadas em décadas vividas





Ainda não me inventei.

As paredes nuas, a casa vazia.

Não tenho abrigo e nem lugar

A vida, toda ela, solitária

em todos os personagens e sonhos.

Despeço-me quando chego.

A distância é a minha aproximação

A mentira, a minha verdade.

Tenho medo da coragem e da audácia.

E do que sou capaz















quinta-feira, 22 de setembro de 2016

SEQUESTRO DO PODER DO VOTO




Respeitem o voto. Respeitem o cidadão




Eleitos pelo concurso contra os eleitos pelo voto



Savonarola 


Os profetas desarmados*




“Todo poder emana do povo e em seu nome será exercido”.

Esta é a base da representação popular e constitui um marco no constitucionalismo dos países que optaram pela prática democrática de eleger os representantes do povo pelo voto.

 Assim, cada cidadão um voto.

Há agora um entendimento perigoso e complexo em que, na evolução das instituições democráticas, em que aquele princípio constitucional foi substituído por uma outro, ainda não totalmente formulado e nem absorvido pelas constituições em que se supõe que “todo poder emana do concurso público e em seu mandato será exercido”.

São os eleitos por concurso público.

Extrai-se esta conclusão quando se compara as atividades dos políticos eleitos e que, periodicamente, se submetem ao mais categórico dos julgamentos, o julgamento das urnas, com a atual performance dos titulares do Ministério Público, profissionais da área do direito e que se tornam detentores de cargos públicos através de concursos.

Nada mais saudável e uma demonstração de que o País caminha para o aperfeiçoamento de suas instituições do que garantir aos promotores, aos fiscais da lei, que possam exerceu sua atividade sem depender de nomeações e apadrinhamentos, como acontecia antes da Constituição Cidadã de 1988. Uma senhora e respeitável evolução.

Vejamos agora a realidade hoje: os promotores se espalham com autoridade por todo o País e, show à parte, dão demonstrações de competência, seriedade e bravura em inúmeros processos. Já se tornam muitos deles, jovens promotores, em razão fundamentada de orgulho nacional.

Os políticos são fiscalizados pelo eleitor (voto).

Responda sem pensar em corregedorias e em outras formas de auto-regulação que gesta o espírito de corpo:

- Quem fiscaliza os promotores?

- Ninguém.

Há quem pensa que, nos moldes dos países mais avançados, os promotores, assim como os representantes do povo, deveriam ser eleitos pelo voto de seus cidadãos.

Os filmes norte-americanos estão cansados de colocar carreira de promotores em risco caso não desempenhem bem suas atividades.

Por que não elegê-los?

Uma emenda constitucional daria fim a muitos desmandos e riscos que já estão fazendo parte do folclore político e jurídico nacional (e internacional, onde somos objeto de chacota)..
Eleição também não significa necessariamente a consagração do processo democrático.

Todos sabem que eleições também são práticas capazes de manipulação, que vão desde a compra de votos, a propaganda desleal e a adulteração de resultados, além de outros golpes contra a vontade popular: como o abuso do poder econômico.

Com todos estes obstáculos, o processo eleitoral ainda é melhor do que o concurso público.

Já imaginaram de nossos deputados e senadores fossem escolhidos por concurso público.
Certamente, não teríamos o Estado dos Melhores, nem dos Mais Capazes. Se assim o fosse, a iniciativa privada já teria de muito aderido ao concurso para a escolha de seus profissionais.

A eficiência e a seriedade, o trabalho e a honestidade de um ator público devem ser objeto de avaliação constante, permanente, dos cidadãos.

E é bom que todos saibam: é o mais democrático dos julgamentos.

Na Florença de Maquiavel, um monge fazia sua luta com discursos violentos contra Roma e seus descalabros.

Savonarola, o monge, comandou uma das mais impressionante resistência aos papas. Era um fiscal das leis cristãs, um promotor duro e com discurso direto, denunciava em seus sermões, a vida desregrada dos bispos de Roma, denunciava a imoralidade dominante, a corrupção desenfreada.

Maquiavel tudo observava e foi um dos florentinos que assistiu à execução de Savonarola na praça dos Doge.

Mais tarde, refletindo sobre aquele episódio, Maquiavel resumiu a situação a que são, dramaticamente condenados todos aqueles que têm apenas o poder da palavra e da lei:  são profetas desarmados.

O concurso público, no fundamental, desarma os nossos promotores. Como profetas desarmados correm o risco calculado pelos oportunistas e falsos moralistas como a maioria dos moralistas.





Eleições para que?



14.9.2001
 




·         * Editorial do Diário de Sete Lagoas em setembro de 2001








MUNDOS PARALELOS











A administração de homens




Alexandre Michkim





-        Homem não presta mesmo. O que ele está fazendo com ela! Ela não merece passar por isto. Homem é cachorro, não presta mesmo. Veja, como ele abusa! Como ele pisa.

-        Por isso que eu nunca gostei de homem. Mesmo em uma ilha deserta, eu não quero um homem nem pela frente e nem pelas costas.

-        Eduardo, compreenda. Não ironize. Não deboche. Tenha paciência e procure compreender este momento de sofrimento por que passa Andréia.

-         Ela é nossa filha. Está sofrendo, ela gosta do Paixão e ele só apronta com ela. Uma atrás da outra.

-        Compreender? Compreendê-la? Temos que também compreender o rapaz, a vida dos jovens, seus desejos, suas vidas, a vida dele e a vida dela. O que ela quer? O que ele quer?

-        Ele abusa, extrapola, humilha, a faz sofrer. Não pode ser assim e não pode continuar.

-        Não entre na vida deles. O sofrimento pode fazer parte da felicidade, pode ser essencial no jogo dos dois se conhecerem. Não vamos inventar regras de vida. A vida se vive. O amor também se vive. O que eles passam só terá beleza, só será sublime se for vivido apenas pelos dois.

-        Ela tem que saber administrar este momento, então?

-        Administrar? É uma proposta. Vamos em frente. Nossa filha vai administrar sua felicidade para obter sempre a felicidade, para graduar a felicidade sempre de menos para cada vez se mais feliz. Na administração da felicidade, ela terá pela frente situações e pessoas. A primeira ação dela hoje será administrar a crise, ela sozinha, sem ajuda de terapeutas, com base no que ela conhece da vida, das experiências já vividas, das histórias de amor ouvidas de amigas, pais e demais aparentados.

-        Não ironize! Os homens partem para o deboche em argumentos. Pare com tanta ironia. Tanto desrrespeito!

-        Engano seu, na administração das relações humanas, as amorosas são as mais complexas. São as que põem grandes empresas e grandes negócios a perder, como jogam no lixo grandes potenciais e grandes possibilidades de vidas. Suponhamos, então, que ela consiga administrar a situação crítica atual e que leve esta relação à frente até que ela possa ter sobre tudo isto o domínio e fique num ponto de equilíbrio afastando a crise. E agora?

-        E agora?

-        É administrar o homem, administrar o outro. Há o homem touro, forte, cheio de força e que se reduz à admiração que todos têm sobre sua beleza selvagem. É admirá-lo, exaltar sua capacidade, seu poder. Há o homem macaco cheio de graça, sempre trepado num pau. Há o homem girafa especulando sobre o mundo, cabeça mais alta e que acredita que vê tudo. Por aí se viu que para administrar um homem há que classificá-lo e uma classificação não pressupõe a metáfora baseada em mamíferos, pode ser em vegetais, o homem samambaia, vistoso, muito verde, sempre na sombra, muito trabalhoso. Haveria, então, o homem flor de jardim público, que se vê ao longe, pois é proibido pisar na grama. O homem orquídea que acontece pouco mas quando acontece é pura beleza e grande satisfação. O homem palmeira, belo sempre à distância, quando perto sequer se o percebe. Exercite a imaginação e continue a classificação. No reino aquático, haverá classificações talvez mais próximas como a do homem sapo, que vive dentro e fora, o homem surucucu, que abraça para comer, o homem traíra, que chega na mesa sem espinho. O homem robalo que você só encontra em supermercado. O homem sardinha sempre bem vestido, sempre de terno, sempre apertadinho e que você sempre encontra em bandos, juntinhos, sempre em volta de uma mesa ou em fila de cinema e de supermercado.

-        Loucura isto! Meu amor, meu homem animal, vegetal e, esqueceste, meu homem mineral, pedra, pedra, toupeira.

-        Cara, minha mulher querida, não há outra forma de conhecer senão classificando e para classificar é necessário partir de uma classificação paralela em que você retiraria do outro ser o essencial em sua observação. Depois da classificação, depois de definido o universo em que você atuaria, escolhido o outro por suas características essenciais, o negócio torna-se mais consistente e é aquele. Como administrar, por exemplo, um homem obcecado por jogo, por qualquer tipo de jogo? Ou um homem religioso, carola, sério, sério demais, honesto, honesto demais, piedoso, bondoso, humilde? Como administrar, enfim, um santo?  Vamos ficar nestes dois tipos.

-        Um jogador apostador e um santo homem? Por que estes dois?

-        Um apostador estaria sempre numa zona de risco e seria capaz de apostar a mulher. Um santo homem seria um ser só de doçura, pureza total.

-        Tem mais.

-     Chega, dr. Ambrósio Pacheco de Almeida Júnior.   














quarta-feira, 31 de agosto de 2016

O POVO DO FUTURO



China, um povo rico e sensível


ITABUONO




Nada mais me assusta



Robert Astman


Quando conheci Dom ItaBuono, ele já passara por todo o medo e o pavor da repressão policial. Seu pai, o escritor doutor, professor e advogado Alfredo Bastos, já havia sido preso duas vezes.

Na primeira vez, os militares do Exército chegaram em sua casa, com uma intimação e uma tropa de choque pronta para uma invasão de um quartel. E a casa do doutor Alfredo era uma casa simples no final da rua Renato Azeredo, em Sete Lagoas.

“Eu ajoelhei e pedi a eles para não matarem meu pai. Não mataram”.

Relata Dom ItaBuono. Agora, arrependido.

Diz ele que o arrependimento não é pelo pedido e pelos militares não terem matado o seu pai.

“Pela humilhação e pela vergonha”

- A outra vez, eu o acompanhei até Juiz de Fora, lá ele deveria depor na Auditoria da 4a. Região Militar. Antes de entrar no prédio, ele tirou o relógio, a carteira e uma caneta.

“Fique com estas coisas, eu não sei se volto e nem sei qual será o meu destino”.

- Não que ele fosse dramático (era também). Naquele momento tínhamos consciência da total vulnerabilidade de todos os cidadãos “suspeitos”.

As tensões e ansiedades vividas pela repressão, logo após o golpe militar de 1964, no Brasil, marcaram profundamente a vida dos dois.

O doutor Alfredo Bastos era suspeito pelas suas simpatias pelos chineses, “o povo do futuro”.

Todas as atividades que envolviam os chineses em Belo Horizonte, algumas no Rio e em São Paulo, contavam sempre com a sua presença.

Era a simpatia pelo povo milenar.

Doutor Alfredo acompanhava as histórias da China atual e guardava toda uma biblioteca (da qual se orgulhava) da China Milenar..

“Um povo, enfatizava sempre, que soube sair de um estado de miserabilidade e de submissão, transformando-se numa nação rica de um povo rico. Uma potência econômica e militar do primeiro mundo”.

Ele aconselhava todo mundo a aprender o chinês, “será tão ou mais importante do que o inglês” e é importante para captar a alma e a sensibilidade de um dos povos “de maior potencialidade em matéria de razão, espírito e inteligência”.

ItaBuono admirava seu pai, submetia-se à sua vontade e era seu fiel seguidor.

Entretanto, para Alfredo Bastos, seu filho, ItaBuono, era um idiota, um doente mental.

“Um esquizofrênico”.

Muitas foram as testemunhas da forma rude e grosseira com que o doutor Alfredo Bastos mandava o filho calar a boca e que “deixasse de falar bobagens”.

Isto aconteceu com ItaBuono menino, aconteceu com ele jovem, estudante de direito, advogado, casado, pai de família.

Doutor Alfredo não perdoava e não deixava por menos.

“É um energúmeno”.

O filho não podia ter opinião e quando se expressava era violentamente contestado pelo pai, com censura sempre detonadora da fragilidade e “imbecilidade” da argumentação.

Assim, dom ItaBuono viveu até os seus 48 anos, quando casou, pela segunda vez, algum tempo depois da morte do pai. Conhecera uma mulher, cuja educação e inteligência, o cativara, e, baseado neste modelo, encontrou o sua Heloisa, “ninguém sabe em que se transformará a mulher amada”.

Depois de determinado tempo e de ter nascido o seu filho único, o Carlos Augusto, “o meu garoto”, a regra de antes voltara a reinar em sua vida.

E mais grave e sofredor. Em Heloisa ressurgira o seu velho pai morto e, algum tempo depois, nova tragédia, no pequeno “meu garoto” surge também outro Alfredo Bastos.

Tragédia das tragédias, seu destino era aquele.

- Estava em plena ascensão profissional e política, quando veio o golpe e eu, que frequentava palácios, me tornara um lixeiro para sobreviver. Minha luta sempre foi dura, depois como professor dava até 15 aulas por dia, mas sempre trabalhava os três horários quando conseguia voltar a lecionar – as interrupções vinham das denúncias de subversão. Meu mundo era este, o trabalho como lixeiro e nas escolas públicas e privadas, tomando conta do meu pai, acompanhando-o em suas empreitadas e em suas fantasias. 

- O que mais me assusta não é a violência de uma pessoa estranha que você encontra na rua, o que mais me estranha é a violência entre pessoas que se conhecem muito bem ou será que, por se conhecerem tão intimamente ou até mesmo por se amarem, ocasionalmente, é que as pessoas passam a se atacar, por razões quase sempre fúteis, mesquinhas, sempre gerando momentos profundamente desagradáveis pelo desequilíbrio e pela crueldade.

ItaBuono, o Dom ItaBuono cultiva uma barbicha à lá Ho Chi Minh. Que ele diz ser uma barbicha chinesa da dinastia Minh.






quarta-feira, 24 de agosto de 2016

A PROSTITUTA DO DIABO









A metáfora infernal


Giuseppe de Salina



É ela quem transa com o diabo.

Ela é a mulher que dá prazer ao diabo, com quem o diabo goza e paga pelo prazer.

Para o diabo ter prazer tem que ir até ela.

Ela encara o diabo e o domina em seus braços.

Primeiro, a mulher.

É uma mulher que estabelece uma relação profissional. Uma relação de igual com quem a procura e que tem o que oferecer a quem a procura.

Ali, o diabo procura e ela vende. Ela oferece, ela é quem aceita o negócio e o realiza, em trocado puro pagamento, do negócio.

Não há espaço para trapaças e nem o diabo vai deixar de pagar, não teria de onde mais tirar prazer em uma mulher, nenhuma mulher transaria com ele, senão ela que é a prostituta do diabo.

Ela é uma mulher e uma mulher diferente.

A diferença está em que nenhuma mulher transaria com o diabo como ele é descrito pelos seus inimigos:

feio,

com chifres,

rabo,

cara de bode,

vermelho,

pequeno,

com um tridente na mão,

mau

e capaz de todas as maldades,

caçador de almas e de destinos.

Ela transa com o diabo.

Ela está segura de que ele não levará sua alma e muito menos seu destino.

Sua alma ele não quer, ela é mais do que ele e ele carece dela. 

Depois, o prazer.

Ela é a mulher que dá prazer ao diabo e que goza com o diabo.

E ele paga.

Ela é mais.

Não há igualdade.

Há diferença.

Ela o espera.

Ele a procura e ele gosta do que encontra com ela, do que tem com ela, o prazer de gozar, de esporrar, de comer uma boceta sem nenhuma outra relação que não a relação comercial, comprar e pagar.

Nada mais.

O pagamento é a etapa mais difícil.

A natureza do diabo o levaria ao golpe, ao não pagamento.

Até ao assassinato da sua prostituta, pois depois do prazer, ela não lhe teria mais serventia.

O dado é que não há outra e é só ela, de quem ele não pode se dispor e com quem o comércio funciona.

Ele tem que pagar, tem que morrer na nota, tem que abrir a mão, meter a mão no bolso e se humilhar (é de sua natureza não pagar nada do que foi combinado, acertado, contratado).

Para o diabo, a humilhação maior está no pagamento.

É o ato final deste encontro entre dois seres poderosos: o diabo e a prostituta.

A relação prostituta e diabo, no polo em que a prostituta é o polo positivo, o polo de atração.

Ele se dirige a ela, ele a procura, ele tem necessidade dela, ele precisa dela, pois é da natureza do diabo satisfazer suas necessidades infernais e uma necessidade é o prazer.

Diabo também quer trepar, diabo também quer gozar, fazer diabinhos.

Neste polo, a prostituta é a referência, a expectativa de prazer para o diabo.

O outro polo tem o diabo como polo positivo, que sustenta a prostituta, que é o freguês da puta e que compra a mercadoria.

Agente do negócio, ele a potencializa, ele a torna realizada no que ela é neste mundo dos negócios, onde tudo se compra, em que o amor e o prazer também são mercadorias que tem seu preços, mercado e cotações.




Quem mais usou a razão em sua luta foi Lutero 





Esta prostituta é a razão.

Usando uma metáfora. Quem identificou a razão como  prostituta do diabo foi Lutero.

Para Lutero, ela foi sua principal aliada na sua luta contra os dogmas religiosos.

Disse Lutero que “a razão é a prostituta do diabo”. E o disse categoricamente.

E ninguém usou mais a razão para detonar o que quis do que Lutero.

Um sábio?


                                                                                                                                   










terça-feira, 23 de agosto de 2016

EU MORO NO AZUL






Mulher feliz  Paul Gauguin 



Romance de Junho


Sérgio Madeira





"O astronauta ao menos
Viu que a Terra é toda azul, amor
Isso é bom saber
Porque é bom morar no azul, amor"

Poética I/ O astronauta, Vinicius de Moraes e Baden Powell







Capítulo 1


(Seria a história de um escritor frustrado)


(Seria a história de muitos livros mal escritos e inacabados)


(Uma crítica de livros e filmes ou uma história em torno de livros e filmes)




Capítulo II

- Eu sou seu personagem?

Henrique, Erique, não para de escrever; são poucas as oportunidades que ele tem para fazer suas anotações e deve juntar o máximo de detalhes. Tem percebido que algumas daquelas anotações perdem-se porque , mais na frente, nem ele mesmo consegue entender nem traduzir os garranchos e descobrir a palavra; principalmente, quando anota apenas, por razões de segurança, apenas uma palavra chave, que ele depois põe na conta de uma-palavra-secreta, uma palavra que nem ele mesmo consegue entender, descobrir seu segredo ou o que ela quis guardar; deixa-a de lado, deixa aquele caso, aquela história de lado com a certeza (e a dúvida também) de que mais tarde conseguirá traduzi-la, interpretá-la e resgatar toda uma história.






A pergunta do Gustavo tinha sentido. Sim, ele era um personagem sim. Não, ele não era um personagem, ele apenas contribuía com algumas de suas características para o Personagem, enfim, que ele um dia resgataria numa história ou num caso.





Aquelas anotações eram feitas em pedaços de papel, cadernos, blocos, papéis soltos, guardanapos, o papel que tinha, que aparecia.


Durante algum tempo, organizado, fazia anotações em cadernos; depois, eram papéis que sempre trazia no bolso, quando trazia, dobrava-os em quatro partes e ali nas colunas fazia suas anotações ligeiras


Era um repórter sempre; não gostava de pensar que estava desempregado, sabia que seria sempre um repórter; algumas vezes produzia suas reportagens e nas pautas livres, não se prendia a nada que não fosse o seu interesse e o seu gosto; não iria simplesmente escrever sobre os outros ou sobre o que o outro pensa; escreveria sobre sua vida e o que via e o que pensava.


Capítulo III

Ele era um personagem sim. Gostava de dizer que se algum dia eu fosse escrever sobre a sua vida eu deveria descrevê-lo como um homem bonito, um artista de cinema, um Brad Pitt e ele se chamava de Brad Pica, por ser e ter segundo ele a melhor pica para todas.

Era um personagem ao lado de um anotador – nem sabia o que faria com todas aquelas anotações.

Um personagem que se impunha por suas ideias malucas, insensatas e prodigiosas, às vezes. Dizia ele que assim como Portugal era uma ficção inventada pelos ingleses, que brincaram durante séculos com a história do mundo, o Brasil não existia.

- O Brasil não existe. Isto que chamam de Brasil não é dos brasileiros. Os brasileiros existem, sim. ele assegura. Não digo que me orgulho de sedr brasileiro. Eu me orgulho de ser homem e um homem da Terra. Sinto-me como um homem de todos os rincões.

Outra análise destramelada era de que Tiradentes, o herói mineiro, não morrera na forca e sequer teve o seu corpo decapitado.

“Tiradentes morreu na França. Não na forca.”

- A transferência de Tiradentes para o Hospício fazia parte dos planos de grupos da Maçonaria, no Rio e em Minas, de trocá-lo por um outro homem, que morreria em seu lugar.

Estes eram seus dois propósitos. Provar com dados atuais a nova ficção – o Brasil - e com documentos que os libertadores de Tiradentes tiveram êxito na empreitada. E que cometeram um único erro: deixaram uma pista.



Capítulo IV


Teoria da Ilha


Se existe é ilha da fantasia. Ideia de navegador. Homens que se perdem na imensidão. Marinheiros medrosos e sonhadores. Invenção humana. Sonho de terras distantes. São estes os homens que descobrem novos mundos. Novos homens. Quando descobrem, quando desembarcam, inventam um outro diante da realidade dos mosquitos e dos canibais.

Nestas ilhas colocam seus sonhos, suas ideias dos homens e das coisas dos homens. Desta forma multiplicam as cartas de viagens, onde misturam descrições e sonhos.

Sempre cita Drummond para confirmar sua teoria: o Brasil não existe.












Hino nacional

(in Alguma poesia)

 

 

Carlos Drummond de Andrade

 

 


Nosso Brasil é no outro mundo. Este não é o Brasil.
Nenhum Brasil existe. E acaso existirão os brasileiros?




Precisamos descobrir o Brasil!
Escondido atrás das florestas,
com a água dos rios no meio,
o Brasil está dormindo, coitado.
Precisamos colonizar o Brasil.

 

O que faremos importando francesas
muito louras, de pele macia,
alemãs gordas, russas nostálgicas para
garçonnettes dos restaurantes noturnos.
E virão sírias fidelíssimas.
Não convém desprezar as japonesas.

 

Precisamos educar o Brasil.
Compraremos professores e livros,
assimilaremos finas culturas,
abriremos dancings e subvencionaremos as elites.

 

Cada brasileiro terá sua casa
com fogão e aquecedor elétricos, piscina,
salão para conferências científicas.
E cuidaremos do Estado Técnico.

 

Precisamos louvar o Brasil.
Não é só um país sem igual.
Nossas revoluções são bem maiores
do que quaisquer outras; nossos erros também.
E nossas virtudes? A terra das sublimes paixões...
os Amazonas inenarráveis... os incríveis João-Pessoas...

 

Precisamos adorar o Brasil.
Se bem que seja difícil caber tanto oceano e tanta solidão
no pobre coração já cheio de compromissos...
se bem que seja difícil compreender o que querem esses homens,
por que motivo eles se ajuntaram e qual a razão de seus sofrimentos.

 

Precisamos, precisamos esquecer o Brasil!
Tão majestoso, tão sem limites, tão despropositado,
ele quer repousar de nossos terríveis carinhos.
O Brasil não nos quer! Está farto de nós!
Nosso Brasil é no outro mundo. Este não é o Brasil.
Nenhum Brasil existe. E acaso existirão os brasileiros?

 

http://www.memoriaviva.com.br/drummond/poema010.htm