quarta-feira, 9 de maio de 2018

Errata pensante


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                     A queda do general






“- Mas, dirás tu, como é que podes assim
discernir a verdade daquele tempo, e exprimi-la depois de tantos anos?

“Ah! Indiscreta! Ah! Ignorotona! Mas é isso mesmo
que nos faz senhores da terra, é esse poder de restaurar o passado,
para tocar a instabilidade das nossas impressões e a vaidade dos
nossos afetos. Deixa lá dizer Pascal que o homem é um caniço pensante.
Não; é uma errata pensante, isso sim.
Cada estação da vida é uma edição que corrige a anterior,
e que será corrigida também, até a edição definitiva,
que o editor dá de graça aos vermes”.


(Memórias Póstumas de Brás Cubas, 
Machado de Assis, pg 63, Círculo do Livro)






Roberto Melo



"Vamos para o meu escritório", brinquei com meu amigo e ex-guerrilheiro, na época da ditadura militar, combatida por ele e seus companheiros. Eram guerrilheiros e não terroristas, como foram rotulados pelos militares e assim ficaram conhecidos.

Meu "escritório" fica numa praça com frondosas árvores, perto de minha casa. Exatamente em um banco de cimento, sob a sombra da copa de um dos vegetais lenhosos, que compõem e refrescam o local. Depois que meu amigo concordou, fomos para lá.

Sentados no banco da praça, conversávamos sobre política. Principalmente sobre  a falta de opção em relação a nomes de pessoas realmente preocupadas em servir à causa pública.  E, claro, sobre os nossos políticos que se transformaram em bandidos. Com honrosas exceções.

Papo vai, papo vem. De repente, desperta  a nosssa atenção a chegada de um senhor, de uns 80 a 90 anos de idade, acompanhado de um garoto de uns 9 anos, que mais tarde soubemos que era o seu neto. Enquanto o neto brincava, o avô o acompanhava.

Era um homem de quase dois metros de altura e de porte físico atlético, apesar da idade. Não era para menos. Tratava-se um general do Exército, hoje aposentado e que mora no bairro  onde moro. Sabia que ele era general e contei para o meu amigo guerrilheiro. Ele apenas  o olhou de soslaio e com desprezo.

Papo vem, papo vai. Numa ironia do destino, acontece o inesperado. A passar perto de nós, o general, que seguia seu neto, tropeçou numa saliência do cimento quebrado, comum  nas mal cuidadas praças da  cidade. Caiu de bruços para o chão, como uma árvore cortada por uma serra elétrica.

O rosto do general ficou em cima dos pés de meu amigo guerrilheiro. Quase entrei em pânico. E com motivo. Olha a situação: um general, que certamente comandou seções de tortura, estatelado no chão, sob os pés de um guerrilheiro, que foi impiedosamente torturado pelos seus companheiros de farda. Não devia de ter contado que era um general, pensei.

Qual seria a reação do meu amigo? Lembraria das desumanas torturas que sofreu, quando esteve preso; do sofrimento imposto à sua família, quando os militares divulgaram sua morte; ou dos 45 dias em que ficou preso no Sul do País, numa sala sem vaso sanitário  e sem água para tomar banho. Seria  a hora de dar o troco?

Lentamente o general começou a se levantar. Tinha o costume de olhar as pessoas de cima para baixo, principalmente quando torturava jovens de 18, 19 e 20 anos de idade, que lutavam pela liberdade no país. Agora,  olhava de baixo para cima para um ex-guerrilheiro, mesmo sem saber quem era aquele homem, cujo pés serviram para  amortecer o seu rosto na queda que sofrera.

Eu só observando a situação, ainda apreensivo. 

Foi quando o meu amigo guerrilheiro levantou-se do banco de cimento do meu "escritório" e, olhando de cima para baixo para  o general, estendeu-lhe a mão para levantá-lo do chão, numa atitude digna e nobre. E todos viveram felizes para sempre.


quinta-feira, 26 de abril de 2018

MORTAL E TRAIÇOEIRA





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Memória e verdade



Alcebíades de Athaíde





Agora, recuperando datas, encontrei em um caderno, não datado, mas que menciona o ano de 1973 algumas vezes, o meu primeiro diálogo com Débora Lisboa. Do diálogo, registrara só as perguntas que ela e duas de suas colegas estagiárias, ela também uma estagiária, me fizeram.

Eram perguntas relacionadas à vida do preso e à vida na prisão. Joguei para o ano 2000, foram 27 anos a partir daquele diálogo e de suas imediações.

Como não tenho certeza de que tudo o que está naquele caderno reporta mesmo ao ano de 1973, o Caderno Número 1, com capa invertida e com algumas páginas datilografadas, indica uma possibilidade de montagem que remota àquela década.

Esta quase insistência (não chega à obsessão) na datação teria um aspecto de recuperação de memória, de organização de trabalho.

Teria também um pouco de saudade do perdido, não o tempo, o que o tempo possibilitou e que foi vivido. Não perdido propriamente, mas passado e este passado entendido como totalmente vivido, ainda no sentido de que embora vivido não totalmente esgotado e apreendido em sua totalidade.

É esta apreensão, eu que vivi e pensei o vivido, que agora busco, resgato, transformando-me em objeto apaixonado de algo que surpreende e que traz surpresas.

O eu tornado objeto deveria ou suporia, pela distância, um objeto de análise (- Este aí sou eu, fui eu?) a que se deveria trabalhar com rigor, nada mudar, nada alterar e capturar o real... aí a maior de todas as dificuldades, o trabalho com as palavras.

As palavras como ferramentas, instrumentos, a gramática, o léxico, como instrumentos, tudo isto se vê, claro, são limites, instrumentos são limites.

Limites em muitos sentidos, por não serem suficientes na operação, por obliterarem, por não conseguirem navegar com profundidade e, depois, talvez principalmente, por não ter em seu manuseio, em seu uso, a pessoa qualificada, treinada, preparada e com a cultura (pelo valor etimológico das palavras) suficientes para o entendimento, a compreensão e a reelaboração.

Assim, toda memória tem mais de ocultar do que de revelar, tem mais de mentiras do que de verdades, tem mais de sonhos do que de realidade.


A memória é traiçoeira, perigosa e, 

muitas vezes, quase sempre, mortal. 


















NO GUAMÁ E EM MARZAGÃO





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1969
Vinte anos, jovem
Trinta anos, velho

 Rufino Filaho Filho



Estes sãos pequenos episódios e pequenos escritos de dois rapazes metidos a jornalistas e a revolucionários que naqueles anos bateram asas e foram para o calor.

Derrotados no sul maravilha e nas terras de castanhais às margens do rio Guamá, ele foram (escaparam) para o norte, para voltar a lutar e para insistir em escrever.

Ewerton formou em química, mas escrevia e seria jornalista. Primeira função: editar o jornal dos padres.

Tor mudou de nome e se intitulou Riama Oiticica. Riama por drama, Oititicica por amor à luta do linguista, como a dizer, “pois é, você que lutou, a luta continua comigo vestindo tuas palavras”.

Tor tinha alguma experiência dos anos de 65 e 66. Mexeu na história e suas angústias e dúvidas ainda andavam travadas e encalacradas na garganta.

Ewerton mostraria do que era capaz. Era capaz de escrever críticas de cinema e triste com a idade. Formou já velho, segundo ele.

Chegaria de novo no norte, iria até a casa de madeira do velho pai, pai de grande quantidade de filhos. Um pai agora enfezado, parado, mastigado dentro de um quarto, sem pernas para sair, andar e viver. Para ele viver era andar, viver não era ouvir rádio de dia, de tarde e de noite.

Viver era entrar nas matas, cortar pau, tirar borracha, caçar, rasgar o rio com o corpo e os braços. O velho tava lá, não era misterioso.

Vida comum e igual às vidas dos homens que viveram no Acre, que pelas matas trabalharam, que saíram do Acre, que foram desembocar suas vidas antes do mar, nas terras limpas e de sol da cidade de mangues, Macapá.

Ewerton seguiu na frente. Em Macapá, era o editor do jornal semanário. Para Riama reservava-se o lugar de diretor da rádio, repórter e para os dois um faz-tudo na rádio e no jornal. Para eles se reservava a aventura. Sempre.

Os padres tinham força e dinheiro. Tinham boas construções. O prédio imenso do seminário estava vazio. Era uma prova do adeus às vocações. Estava lá, silencioso o bastante para acolher os bandidos. Um labirinto. A cada dia descobria novas coisas.

Quando o táxi parou numa das portas, ficou sem saber por onde entrar. Abriu uma porta, ninguém. Abriu outra, ninguém.

Ouviu vozes,  encostou na janela. Era uma aula de rádio-técnico. Cinco alunos, nenhum professor.

Ali mesmo naquele prédio do antigo seminário sem vocações funcionava a gráfica. Duas linotipos. Uma estragada. A outra, último modelo, vindo da Itália. Doação, como tudo ali. Como os alimentos, tudo do melhor, tudo vindo de fora e doado.

Migalhas fartas. Mas não havia café. Aparecia, mas sempre sumia. E Riama não gostou. Nosso personagem era viciado. De manhã, a boca e o paladar se preparavam para o café e se frustravam.

Outros sabores vinham substituir o café, o açaí vinha à tardinha, depois do sono. Os refrigerantes, doces e um pão imenso com carne às 10 horas.

Dum lado, os padres providenciaram o escritório onde funcionaria a editoria, a redação e tudo o que dissesse respeito ao jornal.

Ao lado, no depósito de papel, colocaram as nossas redes e seus mosquiteiros, que nunca nos livraram dos carapanãs, capazes de vencer mosquiteiros e redes em direção ao sangue, ao nosso sangue.

As janelas eram protegidas dos mosquitos com telas. Riama não gostava das telas e nem dos mosquitos. A proteção das telas era precária. Por onde conseguiam passar tantos mosquitos. Passavam e eram muitos.

No andar de cima ficavam os quartos de padre Antônio, xô padre Gustavo e do padre Bertoldo. Este era o diabo. Seu quarto era como uma guarita, ele ficava de olho em tudo. Suas luzes estavam sempre acesas e o padre vivia ligado em óperas.

No centro da cidade, ao lado da Igreja-matriz de São José, funcionava a impressora da gráfica, uma impressora plana, trabalhava para o jornal de Macapá e o jornal de Belém. Os padres colocaram tudo aquilo nas mãos dos dois. Eles tinham absoluta confiança em Ewerton e com razão. No que se refere à honestidade. Tudo certo. Mas também era esta a única preocupação deles.

Os dois, Elso e Riama, tinham planos ambiciosos. Queriam fazer um bom trabalho profissionalmente. E o fizeram no pouco tempo que ali ficaram.

Ewerton com o seu silêncio ia cavacando as pessoas, ele era baixo, magro de raiva e de fome mesmo, direto em suas palavras e de poucos amigos.

Seu orgulho de sua gente era o orgulho dos infelizes e dos famintos, como se estivessem a dizer, “parem de nos jogar esmolas, somos capazes de construir mil sonhos só para debochar de todos os exploradores do mundo”.

Ali estávamos por uma opção de luta. Saíamos ou escapávamos do fracasso das lutas nas terras dos castanhais e dos posseiros.

E a escassez do café? Isto não entrava nas nossas cabeças de Riama. Não estamos no país do café? Aquela mesma situação se repetiria em Marajó. Cadê o leite, não estava numa região leiteira? Tudo ia pra fora. É trágico você produzir os alimentos e morrer de fome.

Riama sentou na máquina e escreveu um dos seus primeiro artigos, foi sobre sobre o drama do café em Macapá.

I

“Sem café, sem o cafezinho no balcão



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Riama Oiticica

Problema nosso. De manhã passamos sem o cafezinho. À tarde a mesma coisa. Não há uma boca de pito, eu não fumo, mas penso nos que fumam.

O estimulante de 10 centavos sumiu e eu me desestimulo porque sou viciado e dependente da cafeína. No balcão, necas. Não há nada, nem cheiro, nem restos.

No rádio e pelas propagandas sabemos que lá no sul, do outro lado do mundo, tem o café. Lá as coisas são diferentes. Há propaganda e há café. Aqui ouvimos e entendemos a propaganda como uma piada de mau gosto. A gente ouve a propaganda e discute apenas a técnica publicitária. O resto não importa. Será que tão vendendo a imagem? Há por lá escassez de ideias e de técnicas...

A publicidade deve buscar o cômico, o irônico e fazer sempre associações primárias...

Vamos pensar em como viver em nossa amizade sem o produto – cafezinho...

Balcão, não se esqueçam, é também uma questão de saber distribuir.

O líquido preto, estimulante da nossa burocracia e que não falta em nenhuma repartição pública, é o grande regulador da nossa vida. Somos os consumidores. Eis o diabo.
        
Imagino numa tarde brumosa, lá onde fazem estes dias assim, uma sala, toda ela bem mobiliada, onde as peças de madeira são de jacarandá, com toda a sua escura seriedade, homens e poltronas em gestos agasalhados por tapetes e cortinas, discutem.

Discutem o destino do cafezinho e sua colocação no mercado. É um assunto que envolve a segurança nacional, por isso há fios espiões trabalhando na sala por baixo dos tapetes.

De repente a decisão. Na extremidade da mesa, ergue-se a voz pesada, o dirigente de reunião tem que ter voz pesada, moldadas em cursos preparatórios de como liderar e dirigir reuniões.

Voz  taxativa, anuncia que não haverá café em Macapá, mercado pequeno, pouca ou quase nenhuma capacidade aquisitiva. Eu penso nas variações das letras da sigla IBC e penso nos imbecis que como eu mamam na égua.

Somos escravos do 1o produtor mundial de café.

Topo com um cara e conversamos sobre um monte de coisas. Ao pé do ouvido, ele me diz que conseguiu um quilo

-      Roubou?

-    Nada, nada disso.

-      Contrabando?
-    Anh-anh, negativo.

-      Como?

-      Com os funcionários.

O café é um produto tipicamente burocrático. De repartição em repartição.. Passei a frequentar mais assiduamente as repartições. Tai o segredo. Mas a coisa é vexamosa. Embora viciado em cafeína, sou viciado em dignidades.

Passei a estocar sonhos e me diverti.

Pois, estamos diante agora da incrível mentira da verdade.

Saboreio meu uísque cotidiano, pergunto pela capacidade aquisitiva, pelo salário de miséria, pois não ganho nada, mas sonho em dar um tombo e fugir com milhões para ter o meu jipe e as estradas. Quais são os segredos da economia? Dar, sempre dar grandes tombos. Treino para ser um Ford. No nosso pequeno jantar da manhã, introduzi o uísque.

Foi fácil, fácil.

Transferi o balcão para o cais do porto.

                                                                  Julho de 1969




Pausa para o voo


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O pequeno jato da Cruzeiro do Sul sobrevoa a ilha de Marajó. Eu estou num dos primeiros lugares do aparelho e entre os meus livros, eu levava um pequeno revólver calibre 22, de sete tiros. Estava ali ao meu lado, junto com dois livros, numa bolsa a tiracolo e eu pensava no meu atrevimento ou irresponsabilidade em ter entrado no aparelho, numa época de sequestros com aquela arma.

Na alfândega, a moça que fez a revista em minha bolsa, sorriu, levantou os livros, apalpou a camisa em que estava enrolado o revólver – não tremi nem nada – e me mandou seguir.

Passei e aquilo ficou como um teste na segurança dos voos. Agora no aparelho, olhava para aquele avião cheio, com umas quarenta pessoas a bordo.

O avião saiu de Belém às 9 horas. Faria escala em Macapá e depois seguiria para a Guiana Francesa. Voo internacional, daí termos passado pela alfândega em Belém.

Ali ninguém levava contrabando, certamente. O mar era maior e mais seguro. Para mim aquele ambiente era o de um ônibus da linha Teófilo Otoni-Pavão nos tempos da minha meninice. Ônibus lotado, cheio de roupas coloridas. Faltavam os engradados de galinha, os sacos de arroz e as bagagens amontoadas sobre o teto e sobre as pessoas. Pouco para aquele jato tornar-se um ônibus do Mucuri.

Adiante, Macapá. O rio Amazonas dava o seu espetáculo de barro e de penetrações na terra. Era o verde e o barro marrom. Na nossa frente depois de um grande mangue, pintou cheia de sol e colorida a cidade plana e de ruas traçadas. Tudo bem comportadinho.

O prédio maior, moderno era o colégio do território. Eu não tinha dinheiro para voltar. Tinha, portanto, como uma necessidade imperiosa, encontrar o Ewerton. Era uma viagem sem volta. Ninguém joga no escuro. As atividades no Guamá cessaram.

Quem queria ser Che Guevara desistiu. Todas as informações passadas para a frente eram falsas. E eu me entristeci em estar ali checando isto, mas não tinha jeito mesmo. Tudo falso. E agora? O que hacer? Outra forma de luta, outra estratégia e a luta continuaria.



II



Bom dia, senhor Governador




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Riama Oiticica

Décadas passadas, vivendo do garimpo a família Álvaro Campos Mostarda além do chefe e da sua mulher era integrada por alguns animais domésticos, as ferramentas da lavoura, a cartucheira.

Esta cartucheira tinha sua história. Adquirida quando em sua juventude Álvaro planejava ditar a lei e a ordem para tudo o que fosse vivo. Ditar a lei, para ele, era o poder de decidir sobre as vidas, isto é, matar.

Do casamento de Álvaro não nasceu nada. Com o tempo, ele abdicou de seus reais e imperiosos intuitos ditatoriais. No rancho, os pássaros sabiam do gênio do humano.

 Terminado o trabalho do cascalho ou quando vinham as águas da enchente,  os pássaros e seu Álvaro batiam as asas para o seco.

No gênio humano de seu Álvaro,  o cascalho e as enchentes se integravam para todos os afazeres e para todas as suas emoções.

Assim, um dia ele foi surpreendido esperando e sonhado com a enchente. Ele não trabalhava no garimpo e dormia em casa. Sua mulher já acostumou a isso. Sua casa era o outro garimpo a surpreendê-lo com as mais belas joias do corpo feminino.

Com o tempo, a mulher passou a gostar mais do grande e emocionante rio do que do marido.

O rio descansava e tornava o sol um ser fácil de domar. Entre o sol e o rio, ela segredava sua pureza e sensualidade.

Tomava banho com a roupa do corpo, que era pouco e que se lavava no corpo e se secava no corpo, com o calor do sol e do corpo.

O vestido conservava por algum tempo aquela sensação de frio e calor provocados pelo vento e pelo sol, que brincavam com seu pelo.

Com as sua canoa, enquanto o marido dormia na margem, depois da comida, ela perseguia o rio procurando paisagens. Ah, se não fossem estes passeios! Naquela paisagem jamais teria nascido o nosso personagem. E ele veio gordo e bonito, sempre sorrindo, sempre chorando.

Álvaro quis que seu filho estudasse, fosse inteligente e um dia quem sabe fosse o senhor-governador deste imenso rio, que ditasse as leis, com a sua cartucheira, que estava encostada, enferrujada e sem munição.

Na hora do registro, uma mistura de sonho e profecia. Humilhado em seus impulsos ditatoriais perante a figura barbada e careca do escrivão, Álvaro se confundiu, trocou sonho por sonho e registrou seu filho pelo futuro.

Do escrivão para a pia batismal, a confirmação do homem daquele embrulho sujo, sempre sujo e sempre chorão: Senhor-Governador.

Nós dois, eu e o Senhor-Governador nos conhecemos na escola. Amigos, na apresentação.

Em mim,  a birra contra as autoridades estava na alma garimpeira. Ele já era prepotente. Num passeio, ele quis me convocar para seu secretariado e contou-me os seus planos.

Ser autoridade, moralizar o serviço público e servir à nação, conduzindo com ordem e sem divergências o Estado Nacional em direção a um futuro de progresso e trabalho.

Nasceria assim a Nação-operosa. Dias depois, declaramos guerra. Era uma guerra de olhares e vigilância. Ele querendo a todo custo destruir a crítica, que por sinal, mais tarde viria a jogar por terra um pouco do barro e da lama que o sustentavam.

De minha birra era a atenção e a vigilância, pois temos que vigiar dia e noite a ação dos homens que estão no poder, condenar sempre os seus erros. Expulsá-los e cassá-los.

Conhecendo a intimidade do meu amigo o Senhor-Governador, esperei eu ele acordasse hoje para um entendimento.

-      Bom dia, Senhor-Governador. Indiferente e impassível, ele era a própria autoridade. Seu bom dia para mim foi um muxoxo. Meia hora depois, depois do café, dos jornais e do xixi, ele olhou para mim e me disse:

-      Bom dia, senhor Riama. O que queres de mim?

-      Nada.
         
-      Nada?

-      Nada?

-      Apenas, dizer-lhe, bom dia, Senhor-Governador.









A marmita e a menina

O padre Bertoldo passou a ser o nosso vigia. Estava atento par a tudo. Para o eu era escrito e falado. Também estava atento para que ninguém, nenhum de nós, horas mais escuras não seduzisse nenhuma das meninas da cidade.

Sua luz era a proteção da cidade. Nossa chegada deu mais entusiasmo a sua vida, embora nós estivéssemos para ele como os seus mais perigosos inimigos.

Ele nos contratou para sermos seus inimigos e nós não assinamos como parte interessada este contrato. Nem o distrato.

Arranjaram uma marmita. Entre 11 e meio dia, uma menina magra e morena trazia para mim a marmita.

          A marmita e ela







quarta-feira, 25 de abril de 2018

O QUE ENTRA E O QUE SAI




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A mulher que Jayme perdeu

 Mara Duarte


Meu golden  retrievier

Bom demais ter um au au de mentirinha que é a mais pura verdade. 
Veja o que me fez conceber hoje: 

Da porta do céu escorre o mel
de suas doçuras
Vou lavando com devoção e respeito
Vou secando com fé e prazer

Mel dos seus desejos
Mel da minha loucura
Mel do  santo amor

te love ya habib



4 jul 15:09





Guito, meu Jaymiguito      

Eu te amo como nunca amei ninguém, nem nada, antes, na minha vida. Com você, ou por você, descobri o que era afinal esse amor sublime que julgava não existir. Esse amor que altera o metabolismo, os sentidos. Um amor que me fez quase vidente, mil vezes mais sensível, e ao mesmo tempo, vulnerável.
Estudei, exercitei, e levei a sério, durante anos, e muito mais nos 15 últimos anos, até encontrar você, a coisa da energia. Tenho provas concretas, para mim, pois não tenho  intenção, nunca tive, de convencer ninguém, de doutrinar quem quer que fosse. Nem mesmo saberia teorizar sobre isso.
Os efeitos, os benefícios, os malefícios dessas minhas experiências só são importantes pra mim, e se estendem aos outros apenas a partir do momento em que me relaciono melhor com eles e com o mundo.
Eu não vivi praticamente nada do que você viveu. Você diz que sou puro tesão e, no entanto, nunca tive esse tipo de relação com ninguém. Foi tudo tão família, tão alma, tão interesse de um ser humano pelo outro...
Nem consigo me lembrar de um namorado que tenha se referido a mim, assim. Tenho certeza de que amaram primeiro a pessoa e de que o sexo foi um complemento. Muito bom, mas um complemento.
O Nei me ligou duas vezes no domingo. Nunca menciona o sexo. Fala de particularidades minhas, da saudade de coisas que são muito minhas. Da vontade de ficar perto de mim, rindo das minhas bobagens, compartilhando minhas pequenas loucuras, curtindo meu universo, minha família. Então, entendo que ele me ama verdadeiramente.
Todos, sem exceção, se interessavam por mim, e naturalmente havia sexo. Mas o sexo era uma extensão do amor. Nem era sexo, era amor.
 Dia desses, eu disse a você que vivo atormentada. Vivo. Primeiro, fiquei sofrendo calada, escondendo como se fosse um crime, o fato de estar no climatério - ainda não é menopausa. Isto porque seu interesse por mim é tão claramente sexual que tinha medo de que soubesse e perdesse o interesse.
Pode imaginar o quanto isto é sério?
Todas as pessoas que o conhecem, sem exceção, dizem de você, na sua frente, inclusive, tudo o que nós já sabemos. E sabemos que não é mentira.  
Sua relação com as mulheres é completamente sensual. Tem obsessão, fala disso o tempo todo. Seus amigos são praticamente todos desse tipo. A maneira que lida com as mulheres-colegas de trabalho, profissão, qualquer mulher, tem sempre esse componente. Naturalmente, acaba despertando mil e umas ideias por aí.
Você, pelo visto, nunca foi seletivo. Tem ereção por qualquer coisa, qualquer uma em qualquer situação. Tenho medo até de pensar. Chego a suspeitar de que isso seu é tão sério, mas tão  sério, que o leva muito mais longe. 
Sempre gostei do sexo como um ritual. Acho o sexo uma comunhão perfeita de alma e corpo. Estudei isso. Gostei disso. Acredito que ao deitar-me com alguém estou absorvendo a energia desse alguém pelo chakra umbilical, pelo kundalini.
Por isso - disso você não sabia - cheguei a ter namorado com quem nem transei. Por isso transei pouco ao longo da minha vida. Por isso, sempre preferi viver intensamente música, dança, natureza, amigos, viagens, reservando o sexo para momentos, pessoas, relações, profundas e verdadeiras.
Não sei o que sou. Não tenho religião hoje. Acredito piamente nessa coisa da busca de crescimento interior, espiritual. Na lei da causa e efeito, do retorno. Tentei dar aos meus filhos uma educação integral, que inclui essa tal busca de crescimento espiritual, pessoal, moral, como queira. Adotei porque procurei viver assim e me fez muito bem.
 Será que ao  menos percebeu que esse sexo louco explodiu em mim por conta de um amor que me fez ir ao céu e ao inferno?
Como pode não se dar conta de que há alguma coisa muito maior, muito mais forte, importante?  
Por que estou fugindo:
Você ama esse sexo. Você ama o que acontece na cama. No momento em que isto deixar de ser intenso, acabou-se a relação.
Todo esse fogo, todo esse amor que diz sentir, não te fez mudar.
Continua olhando para todos os lados; atento a outras e todas as mulheres; aberto para outras possibilidades; uma aventura. E ainda jogando charme a torto e a direito (tive notícias disso, não queria acreditar, mas depois, tive que parar de fugir disso).
 Por conta de tudo isso, e mais, vivo insegura. Você mente nas pequenas coisas. Descobri que me deito com um estranho.
Você usa de seus filhos para mentir.
 Não te vejo interessado em construir, pensar um futuro comigo. Não assumir compromisso, não ter projetos nem planos de futuro que inclua uma outra pessoa é uma escolha, uma decisão. Mas há de ser verdadeira, assumida.
Ao me dar conta de que prefiro viver sozinha, até a minha morte, não vou me envolver com ninguém com esse discurso de que amo, me encontrando regularmente.
Vou viver descompromissadamente, saindo com um e outro. Mais honesto, mais decente, não acha?
 Meu amor por você nunca esteve centrado nesse sexo fantástico que fazíamos.  Amei por inteiro, aceitando inclusive o fato de que é a personificação de tudo o que mantive distante de mim a vida inteira.
Te amo ainda. 
Não vou dizer que é o homem da minha vida, aquele que esperei desde que nasci. Quero ser completamente verdadeira.
Não vou dizer algo de que não estou 100% certa.  Mas te amo tanto que ficar sem você é como cortar um pedaço do meu próprio coração. 
Te amo tanto que serei metade da metade daqui prá frente. 
Cada vez que tive certeza de que não viria, você me ligava dizendo que tinha  um compromisso com a Quert e, no dia seguinte,  contava uma outra história, me dando elemento para acreditar no que as pessoas me dizem.  
Eu quero e sempre quis acreditar em  você. Tanto que estive até hoje do seu lado. Não entendo porque, não conseguiu ser honesto.
Você sequer me deu um lugar na sua vida! Pra mim, só as noites de sexo. Ou os dias inteiros de sexo.
 Você comentou da amiga que esteve doente e da qual teve pena porque vivia sozinha. Em momento algum o vi preocupado comigo que vivo completamente sozinha, tive sérios problemas de saúde, sofro a ausência dos meus filhos e já passei até dois dia na cama aqui sem ter ninguém para nada. Tenho uma rede de amigos.  Quando precisei ir ao médico, paguei a um "amigo" para ir comigo. Não, não estou cobrando sua presença nessas circunstâncias. Estou é avaliando esse tal de amor que você diz ter por mim.   
Entende agora porque disse que não iria mais conversar? Já te aborreci demais com as minhas queixas, com as idas e vindas. Não posso ficar te crucificando. Você é assim. Minhas queixas, o ir e vir, só nos desgastam.
Morro de tristeza por me afastar de você.
Acho que o fato de ter me enfiado na cama às seis da tarde no dia da festa do Luluciano pode ter te dado uma ideia de que alguma coisa muito séria estava acontecendo, não?
Não deveria estar dizendo isso, mas sinceramente, nem dá mais para continuar vivendo aqui. Pelo menos neste momento, não.
Vou viajar,  voltar e viajar, e viajar. Brasília, Congonhas, Congonhas, Brasília, até me sentir em condição de entrar aqui na boa, terminar o contrato e decidir a vida.
Preciso lavar você, tirar da alma, do coração.  
Por favor, venha pegar suas coisas hoje. Depois não estarei mais aqui.

Mara Duarte  



13 jul 14:21










terça-feira, 24 de abril de 2018

TODAS AS DORES DO MUNDO




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Do que elas são capazes

Para Durval Guimarães


Jerônimo Augusto Torres



Cara, a Dona aprontou um senhor barraco, com direito a 190, acionar a polícia, assistente social judicial e os cambaus.

No dia 29 de dezembro, uma quinta-feira naquele ano, a acompanhei desde cedo porque ela estava mal.

Eram dores em todo o corpo, moleza, fraqueza, cansaço, dores localizadas na nuca etc.

Dizia ela que cansava tomando banho. Ela já não conseguia ficar mais de uma hora debaixo do chuveiro.

“Estou cansada, não estou bem”.

A partir das 15h, hospital. 

Antes, ouvir seu especialista em glândulas.

Depois, sim, o hospital, direto para o pronto socorro. 

De 15h às 3 da manhã de sexta, fiquei ao lado dela, da cama, acompanhei todos os exames.

Como um amigo íntimo, pela primeira vez acompanhei uma mulher até o vaso sanitário para urinar – alguém tinha que carregar o soro.

Ela dava show urinando em pé. Perfeita, a perfeição.

Era a total humilhação para todos nós que erramos sempre o vaso quando saem jatos divididos.  A acompanhei quatro vezes e nas quatro (conferi) ela não errou uma vez sequer. Nada, nadinha, nenhuma gota fora do vaso. Genial. Na besteira do elogio, ela reagiu brava.

“Bobão, todas as mulheres urinam assim. Nunca viu mulher mijar sem sentar no vaso?”

No pronto socorro é um entra e sai de desesperados e sofredores, quase todos com os bons acompanhantes (calados).

Eu me divertia me inspirando nas pessoas que chegavam e no pessoal da enfermaria, enfermeiros e enfermeiras num ritmo alucinante, casos graves e casos estranhos (para o leigo).

Ali, capturei uma bela história de um senhor de mais de 80 anos e há 4 com demência senil e da sua bela e apaixonada filha

- Ele hoje acordou cedo, tomou café sozinho, conversou, xingou, xingou, xingou. 

A filha relata a vida clínica do pai , facilita o trabalho dos plantonistas – ela quer salvá-lo a todo custo, quer que ele viva.

“Nem que seja mais um ano”.

Seu olhar doce de filha revela carinho e cuidado. Os médicos gritam o nome de “seu Alfredo” para identificar suas reações. Ele não ouve os gritos dos médicos e, pelos olhos, olho no olho da filha, ele demonstra que ouve tudo aquilo que ela fala com ele com sua voz doce, meiga e baixa.

Às 3 da manhã, o plantonista, dr. Ricardo com uniforme escrito "cardiologia" disse que não sabia se o que diria para nós, se era "bom ou mau". Tinha em mãos um pacote de exames.

- Diga, doutor

E ele disse sem meias palavras, com uma papelada de exames, sangue, urina, eletro, raio x do torax, raio x dos seios da face, exame de sangue específico para detectar infarto etc:

- Saúde perfeita, você não tem nada, orgânica, fisicamente, tudo funcionando perfeitamente.

Batata, vó Beza:

- Este médico não presta.

O médico dizia, com cautela que não insinuaria nada, mas que ela devia iniciar, imediatamente, um tratamento psiquiátrico.

Disse rodeando, não quis dizer a especialidade, mas ela o atalhou e rasgou as fraldas.

- Há mil anos trato. Minha vida tornou-se um inferno etc. e tal.

Aí datou.

- Desde 2003.

Olhou pro gajo: suspeito, condenado, executado com um olhar de vítima em busca da solidariedade do pessoal do pelotão de fuzilamento (só o médico). 

A minha sorte foi que ele abaixou os olhos. Não fuzilaria um inocente, não seria cúmplice deste assassinato e nem seria solidário com o olhar de milícia daquela justiceira.

As duas palavras do doutor me perseguiriam no resto daquela sexta-feira, 30 de dezembro:

- Bom ou mau.

Seriam bons os resultados de um organismo são e saudável?

Ou seria "mau" ter um organismo bom e saudável?

Todas as dores agora se resumiam à dor de cabeça a partir da nuca. Para atender ao apelo da sofredora, ele lascou mais um soro e dipirona.

De volta para a enfermaria, de volta para o soro e mais um tempo ali ao lado da cama.

Depois do soro e do dipirona, a dor de cabeça continuaria.

Mesmo assim, alta e rua.

Deixamos o pronto socorro, caminhando como se estivéssemos voltando de uma caminhada de 10 quilômetros para maratonistas acostumados a correr 42km e 200 metros.

Naquela sexta, tinha dois compromissos com uma editora e com o meu escritório.

Aquela sexta daquele ano era dia 30, véspera do dia 31, véspera do ano novo.

Voltaria às 18h e a levaria para a casa dela, antes teria que passar no mecânico - carro dela estava com um defeito no alarme.

Suspendi a reunião no meu escritório e voltei mais cedo: 16h

Na casa de Onofre, onde morava, o cenário era de um "assalto".

Bagagens, sacolas e malas espalhadas na sala perto da porta. Ela estava de saída com tudo aquilo.

Tirara tudo dela, limpou todas as gavetas e invadiu a geladeira.

Diante daquele quadro, disse que ela não precisava ter feito o que chamei de saída "sorrateira". 

A casa fedia a merda. Uma diarreia avassaladora acompanhou todas as suas ações. Aquele desequilíbrio intestinal seria resultado da tensão e da certeza de que fazia algo errado.

Pedi para que ela saísse dali o mais rápido possível.

Ela sentou na poltrona. Emburrou. Não sairia.

Disse a ela que aquele comportamento mais se aproximava de um furto - ela catara até mesmo pequenos objetos que me dera ao longo de um tempo.

Queria entender aquele comportamento.

Afinal, ela jamais poderia acreditar em mim que saíra numa sexta, véspera da véspera do dia 1 de janeiro, para duas reuniões, sendo que a reunião da editora eu acertei tudo na frente dela. 

Como eu repetia muito a frase do médico que não sabia se a notícia de que um paciente não tinha nenhuma doença grave, nem infarto, nem inflamações no torax e nem no seio da face, urina e sangue saudáveis etc.... sempre lembrando da minha vó Beza, ela transbordava de raiva, ódio e de tudo o mais que chega com estes dois sentimentos - também saudáveis (?).

Resultado, ela ligou para a polícia porque eu a acusara de furto. 

Duas horas ou mais esperando a polícia.

Lógico, que a polícia não apareceu. Eles ouviram e entenderam perfeitamente o que acontecia.

Na zorra, quando ela quis sair, eu disse

"Não, não, agora vamos esperar a polícia chegar"

Dito isto, raciocínio rápido: caso a polícia mandasse abrir todas aquelas sacolas e mala, se aparecesse, e apareceria, objetos e bens que não fossem dela, caracterizar-se-ia furto e para a polícia também seria o caso de um flagrante e todas as suas consequências.

Eles não poderiam deixar de prendê-la em flagrante. Daí para a frente, seria drama sobre drama.

Então, o melhor a fazer era torcer para que a polícia não botasse a mão em uma ladra inocente.

Ela ligou para uma assistente social do fórum, parente dela.

Veio a mulher Assistente Social do Fórum e aqui pousou duas horas ou mais.

No meio, chuva forte para bloquear a saída.

Passada a chuva, elas foram embora com os alarmes disparando.

Esperei um tempo,meia hora, e fui buscar minha mochila no carro

Lá fora, o meu carro fora arrombado.

"Bom ou mau"? 

Quem arrombou não levou nada, nem mesmo a mochila ao lado da janela arrombada e nem os dois livros que o editor me passara para resenhar.

Bom, bom, bom.

Fiquei sem carro sábado e domingo, 31 de dezembro e 1º. de janeiro, pois não podia deixá-lo dormir na rua.

E, no final de ano, que seria ao lado da minha menina, fui assistir Easy rider, feliz por não ter tido o destino nem de Peter Fonda e nem de Dennis Hopper e nem de Jack Nicholson.

Escapei por pouco. Ela tem péssima pontaria.

Também não gosta da liberdade e de um homem livre.

Ela errou o alvo mais uma vez

Sem mágoa e sem rancor.

Dois anos depois, ela voltou.