segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

BAGATELAS II


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RUMO AO INFINITO PASSADO


Onde Valente amarrou sua égua


Alejandro Paco Hernandez





A duração pura

O homem aprendeu a brincar de esconder, era o esconderijo dos ladrões, depois o homem aprendeu a arte do disfarce. Vestia-se, era a aparência. Depois o homem aprendeu a falar. Nasce o homem que vive de esconder-se. Qualquer bobeira e, o homem deixar-se apanhar, é o fim.

Tudo cai, tudo rui, o homem vira bagaço. Lançam-no no monturo, no meio do lixo que são todos os outros que se deixaram ver totalmente.

Um homem quis viver em cinco anos a vida mais completa que um homem pudesse ter e depois, de ter amada bastante as mulheres e de ter escrito uma frase, podia, então, revelar-se, apagar-se, ser luz um segundo e novamente ser o que é, escuridão. 

Este homem viveu cinco anos como quis e escreve uma frase, uma única frase, tornou-se luz e apagou-se, voltou a ser escuridão.

Na escuridão que era escapou-lhe a duvida...  teria vivido? ...  a vida é regrada pela dúvida, mais ou menos dúvidas e se se pode dizer que a sabedoria de um homem é mensurável.

A palavra é um disfarce, acredita Valente.

Suas lembranças, seu passado instável. Até ontem, acreditava ter agido com precisão no caso de Marisa, sua primeira mulher.

Agora percebia que tinha sido peça de manobra na mão das pessoas imorais, carregadas de preconceitos e de mulheres ridículas como a fresca Heloisa e a astróloga Dois-Maridos.

Valente lembrou das tardes nos morros gramados, acompanhando o voo dos pássaros, dos pardais esquentando sol, dos papagaios de papel de seda vermelhos, amarelos, tricolor, preto e branco, alaranjado, de um verde tirado do chão gramado e oferecido ao azul do céu.

Dos morros onde passava horas vendo a estrada de acesso à cidade. Lá no fundo, as casas das mulheres. O rio dando nós na estrada. A casca de arroz amontoada na margem do rio pela Cia de Beneficiamento, que com festas e discursos passou a ser a Cooperativa do Rio. As brincadeiras sobre as cascas de arroz.

O irmão de Celso, agora com vinte e dois anos, quando era garoto afundou no deposito de casca de arroz. Queimou-se e ficou fisicamente inútil. Nunca em nenhum momento aqueles meninos suspeitaram do perigo em volta. Continuaram arriscando, muitas vezes. Nem sempre iam atrás do perigo sem saber o risco corrido

Iam para o rio nas épocas de enchente, as margens escorregadias, barrancos sendo arrancados no trabalho de erosão feito pelas águas de fevereiro.

Os meninos enfrentavam a água dos rios violentos, as corredeiras, dez, vinte metros de quedas ininterruptas, quedas mortais. Brincando de esconde-esconde você pode conseguir uma menina.

Ruim é quando o homem tem de esconder-se em troca da sobrevivência, viver com um homem que não existe, ser e não ser cidadão, ser um gravador de palavras permitidas.

Ruim quando o homem senta na maquina e escreve.

Escreve para destruir as letras, as palavras, os conceitos, as imagens e a própria vida.

Ali acompanha e é cúmplice das pilantragens de Arthur. Ou, então, seria ele, Valente, o pilantra?

Com o microfone na mão, Valente entrevistava para a rádio PKW o chefe da empresa de minérios. O aeroporto silencioso, a noite clara, Valente e o homem redondo caminham pela pista enquanto se preparam para a entrevista.

Chamaram Arthur. Era um furo. Arthur no aparecera. Chegaria atrasado. Valente o via do outro lado, procurando-o no restaurante do aeroporto. O almoço que Isa oferecera aos seus amigos no dia do aniversário de casamento. Isa bebera tanto que no outro dia não pôde ir trabalhar, e perdera o emprego. Bibinho chorou com medo de mamãe estar doente. 


*


Paco caminhou para a praia e depois começou a contornar o parque Rodo. Pensava. Pensava nela e em Arthur. Em dar uma lição naquele espertinho. Mostrar-lhe quem ele era. Ele, Paco Hernandez. Eu, Paco Hernandez...  vou ao encontro de Arthur, peço-lhe uma conversa reservada, de cara a cara lhe direi o que ele é, um ladrão safado. Seu ladrão safado não quero brigar com você, mas da próxima vez que atravessar meu caminho, eu vou arrebentar-lhe todo, da próxima vez, não lhe darei chance de erguer um ai.

Paco pensava nos detalhes do que tinha vontade de fazer com Arthur. Encher aquela cara de pancada. Esmagar aquele velhaco. Viu a cara de Arthur toda fodida. Viu Arthur estendido no chão. Morto? Não. Estendido no chão.

– Ele está morto, dir-lhe-iam.

Morto? Deve ter batido a cabeça no chão.

– Bateu a cabeça naquela quina. Não devia matar, matar ninguém. Conheci o filho da puta hoje. Hoje. Ele chegou aqui hoje e já correu esse risco. Foi ele quem levou o carro. Poxa, eu também estava dando muito em cima da mulher dele. Ela já era dele. Banquei o idiota. Dar um tiro na cara daquele puto. Agora, um acidente. A mulher dele uma hora dessas está rindo. Que idiota eu sou! Dar um tiro... não! Me foder por tão pouco? Não. Eu espero. Um dia é da caça. Pilantragem com pilantragem se paga. Rotina de negocio.



*


Haviam passado três anos que se conheciam, quando Valente e Isa decidiram casar-se. Roberto, o filho do casal fez um ano dois dias antes do casamento, o aniversário foi mais comemorado do que o casamento, ao qual de conhecidos só tiveram os dois. Bibinho era o apelido que Dona Vera colocou em Roberto.

Isa trabalhava no seu atelier quando entrou o repórter, meia hora antes da hora marcada para a entrevista. Não trouxe fotógrafo. Escutava-se apenas o arrastar dos chinelos de Isabel, a escultora.

Isa viu entrar aquele moço magro de mãos enormes.

Mãos sujas, a escultora voltou-se, tentou sorrir. E sorriu para Valente. A roupa suja. O rosto com algumas riscas na testa. Parecia criança brincando com carvão branco. Valente quis rir, e riu.

Sentou-se em silêncio. Fez um sinal para a escultora.

– Que prosseguisse.

Isa trabalhava com mãos ágeis, o estilete não fazia barulho, cortava a pedra tocando um ritmo musical. Castelnuovo.

Enquanto movimentavam-se, aqueles braços finos e brancos tinham a calma dos escultores das grandes pedras negras. Ela não se incomodava com a presença de estranhos. Até gostava. Agora tinha ali um homem a olhá-la. Era a notícia da próxima exposição. Sentiu-se como quando Meireles estava silencioso ao seu lado.

Irritou-se ao ver o repórter lendo uma revista, mas simpatizou-se com sua face tranquila e comum.

Depois da entrevista, sem saber como, haviam combinado vários encontros. Foram à galeria, acompanharam os trabalhos dos organizadores da exposição, estiveram juntos com os fotógrafos.

À noite pareciam terem sido íntimos em outros instantes. Instantes nebulosos, isolados. Sempre depois do nevoeiro se pode ver com nitidez que não há nenhum morro naquela planície.

Nos três anos seguintes construíram novos momentos, todos estes nítidos pela identificação dos dois, assim viveram três anos.

Apanhava-a para almoçar e passar os fins de semana em seu apartamento ou na casa de praia que Valente não quis deixá-la decorar de maneira nenhuma. A única briga foi por causa da decoração da casa da praia.

Contra a paralisação artificial dos objetos. Os lugares determinados para cada coisa, as visões espaciais, os jogos de cores artificiais.

Um dia, depois destes três anos, separaram-se definitivamente. Ele não queria nada nos seus lugares... De vez em quando Isa aparecia no apartamento e depois de dois, três dias, nunca mais de uma semana, ela arrumava as malas e sumia.

Roberto, o Bibinho,  passava dois meses por ano com Valente. Roberto fizera quatro anos em companhia do pai. Um dia antes rasgara quase toda uma prateleira de papeis brancos e o fichário.

Valente chamou a mulher que tomava conta de Roberto. 

– Dona Vera o que houve? A partir deste momento tome conta do menino, se não estiver em condições contrate uma outra pessoa para ficar apenas com o garoto. Não se preocupa com os papéis, já foram destruídos. Não há lamentações. Não quero é que ocorra novamente. Para o menino aquilo fora uma brincadeira com o paizão.

Dona Vera observava aquele pai. Em cartas para dona Isa insinuiava que ele teria sido cúmplice de Roberto na destruição dos papéis. “Não educava. Não fazia do filho um homem educado, fazia  um monstros orgulhoso e insubordinado”.

Roberto parecia esculpido pela mãe. Ela modelava aquele menino, fazia o retrato dos dois. Roberto era muito mais ela. No rosto tudo era a beleza de Isa, o rosto magro e limpo. Ele agora talvez pudesse avaliar a amizade de Isa. Roberto era ágil e alegre, um pouco reservado, dele nascera uma linguagem familiar. Depois que Roberto voltava para Isa, Valente corria todo o apartamento, examinava cada lugar em que o menino estivera. A máquina de escrever tinha sempre que ser mandada para o conserto. O resto era para o lixo.

*

Valente jogou o telegrama sobre um livro. Que telegrama é este? Perguntou Sheila.

“Roberto morreu ontem... desastre...”

Uma notícia, mulher. Uma noticia igual àquela do Vietnã. Tantos americanos mortos, tantos viets mortos. Sabe o que isto significa?

Morte. A morte de um homem, de um cidadão, uma pessoa que tem pais, que tem irmãos. Não, esta não era do Vietnã. Era uma noticia de casa. Desejam que eu alcance êxito nos negócios, nos próximos trabalhos e perguntam por que eu não entroso com o negócio de importação/exportação?

Eu também me pergunto, mas é porque eu não entendo nada disso, e estou cansado. Acho que vou parar de beber deste conhaque. De quem é a carta? De uma mamãe. Carta, não. Telegrama.

Sheila nua, deitada de bruços. Virou-se. No quarto do lado estavam Arthur e Mary. Eles faziam uma bagunça e muito barulho.

Valente passou. A porta aberta.  Viu Arthur  com o vestido de Mary e os dois choravam de rir.

De manhã cedo, lá fora amanhecera havia duas horas, Lourdes chegou como todos os dias, abriu a porta, apanhou a lata de lixo e entrou. Bateu na porta do quarto de Valente.

– Com licença doutor. Veio a resposta

– Entre.

- Como está escuro isto aqui, a casa parece de pernas para o ar. Quem veio? Teve festa? Posso acender a luz seu Valente? Meu deus... Oh!

A luz iluminou Sheila. Valente cavalgava em Sheila.

- Oh! Repetiu Lourdes com a pressão a zero. Lourdes balbuciava palavras ininteligíveis, ficou vermelha, a pressão voltara ao normal.

- Que vergonha! A porta fechou-se, a luz apagou-se novamente. Sheila disse que era gostoso. Sheila tremia e os seus lábios gelavam-se e dissolviam-se na boca de Valente.


*


A duração pura seria a junção do passado ao presente. Para isto precisar-se-ia de uma nova linguagem.

Valente
Isa
Arthur
Paco
Sheila Mary
Roberto
D Vera

Linhares Juiz de Fora 9/12/72


            Adiante! Em marcha! Desanuviemos nossa fronte; identifiquemo-nos com a vida, com seu tumulto e seus guizos e vejamos o que faz Chichicov.
           
Do poema em prosa de Nicolai V Gogol.




Levantou o olhar e surpreendeu-se com a presença de Gregório. Gestos calmos e um cérebro funcionando interpretam a cena seguinte desenrolada na sala ao lado.

- Vá embora, aqui é perigos – disse Regina.

Um instante fora do tempo

- Hoje, cara Regina, minha presença é perigosa em qualquer lugar. Aqui e ali. O perigo é todo meu. Deixe-me em paz. Eu sei onde piso.

Gregório foge, sua fuga é também uma rebelião como a outra que o levou a tornar-se um perseguido.

Regina, a doce senhora de olhos vazios. Regina, a senhora atenciosa. O destino marca frente aos dois seu fim

O amor é obra do destino?

Regina esperava, Gregório ia falar.

- Regina...

Ninguém mais existe. O mundo é um denso nevoeiro de opala. Compreendem-se os instintos também, pacas!

O táxi para em frente ao numero.

O porteiro reconhece Regina. A casa da outra tia, camas beliche. Uma loura desce da parte superior do beliche como um jacaré.

Os lençóis são cor de rosa.

Numa placa de madeira uma pessoa desenha vários tipos de letras para o cartaz Cuidado quando menos se espera...

Regina e Gregório entram num palco colorido.

José e Antônia tiveram outros filhos.  Muitos foram os anos em que puderam viver felizes.

Eram três os filhos, Paulo, Jane e Andréia.

O autor que escreveu esta historia pela primeira vez quis insinuar um caso de incesto, como ele deixou a história vaga, também passo por cima.

Todos concordam em dizer que Paulo tem os mesmos traços e o mesmo jeito, as mesmas manias e o mesmo pensamento do pai. E isto era verdade. Mudava nos dois apenas o tempo.

Paulo conheceu um amigo, Estevão, com quem se ligou até que médicos comprovaram o estado de loucura de Estevão e o internaram definitivamente em um sanatório.

Vão, Estevão, foge do manicômio. Paulo dá-lhe cobertura contra as decisões do pai. Paulo patrocina a fuga de Estevão. Tempos depois a família leu no jornal a morte de Estevão. Assassinado por um bêbado.

EU SOU A HUMANIDADE

Se caso você coisa, aí plá.


Fazer nova reportagem sobre a morte de Estevão.


Quando dois jovens supõem-se escondidos na sala de visitas, pelo espelho da copa pode ter uma mulher vigiando gestos e abraços e em outro cômodo uma menina ranzinza que quer gravar tudo o que a irmã disser. À noite as duas tentarão ouvir as palavras captadas. O som não estará bom, mas a ranzinza imaginará as palavras verossímeis para aqueles momentos.

A mulher que vigia pelo espelho queria uma maquina fotográfica, aquilo era um absurdo, ora indagarão os mais razoáveis, por que a velha mulher que vigia afirma que um casal beijar é absurdo. Responderei, um pouco com ironia, superior, superior, superior. Lembrando os tempos dela, naqueles tempos em que um beijo não chegava a ser tão libidinoso, veja o casal, a língua da moça parece que está escovando as bochechas do rapaz, e as mãos, onde andam as mãos?

Lógico, naqueles tempos dela, não existiam essas coisas, mas por ela não se pode medir nada.

Trata-se de dona Adélia, nunca casou, nunca teve paixões que não fracassassem antes de qualquer sonho pelas lembranças perturbadoras da vida dos santos e das santas, mulheres e heroínas em defesa da pureza.

A menina que escova os dentes do namorado com a língua chama-se Antonia.

Ela certamente dissera muitas vezes a José declarações caretas como estas de José eu te amo. Com certeza, exclamara “Oh!”  Murmurara o nome dela, quase respirando as silabas, os fonemas explodindo an-tô-nia. Talvez ele tenha completado com uma alusão à posse amorosa, tipo tumepertences.

Mesmo quando o amor começa, mesmo quando o amor é puro, a espécie sempre se faz presente para nos lembrar do importante, contra a parede da sala brincava um grupo de crianças. Mais tarde, elas entrarão nesta mesma sala, beijar-se-ão com mais ou menos calor e  repetirão novamente as emoções, os tatos e as palavras.

A casa era um barracão inacabado e pertencia a uma mulher gorda, e como todas as gordas era uma mulher alegre, dona Sinhá era metódica, quanto a isto eu não sei se todas as gordas são.

Dona Sinhá todas as tardes chegava em casa às 14 horas em ponto, isto com o lotação no horário.

Antonia pergunta à empregada quantas horas eram e a empregada responde como se tivesse alertando o casal para algum perigo.

O caso é que a empregada não conhecia aquele lado folgazão e de cupido da mulher gorda que a redondeza tratava de “A boa dona Sinhá”. A empregada aqui também não conseguia compreender porque chamavam de boa àquela mulher sempre a xingar os humildes.

José não conhecia dona Sinhá, um autor ao se referir àquela mulher havia dito que ela era uma mulher sagaz, provando disto, Dona Sinhá depois das apresentações, buscou um pano e estendeu sobre o banco, dizendo para que tornasse o banco um lugar mais convidativo para o amor. Antônia se delicia com outras brincadeiras eróticas da boa Sinhá.

Antonia repete para José pela décima e uma porção de vezes que Dona Sinhá é amiga de sua, dela, mãe.

- As duas quando moravam em Montes Claros, sempre que se encontravam passavam noites juntas falando da vida dos outros. Nunca conseguirão reunir novamente duas fofoqueiras como elas. Falam até de mim.

O casamento do jovem casal, marcado para o final do ano, a todo momento, salvava qualquer falta de assunto.

Antonia gostava de dizer que o que unia os dois era a compreensão e se referia sem cessar à jovialidade do seu parceiro.

Depois que uma visita se despede, muitas vezes se ela soubesse das observações feitas pelos anfitriões após beijinhos e lembranças às crianças raramente aconteceria esta ligação social tão útil para as pessoas e para as nossas neuroses.

O que aquela empregada comentou com Dona Sinhá?

Vejamos, antes que o casal se despedisse ela saia do seu posto de observação e veio espreitar de perto, caçava sinais invisíveis do mais audacioso carinho, arrepiava-se a cada pedaço de pano amarrotado, fixou os olhos na braguilha do rapaz e quase foi surpreendida ao lançar uma exclamação estúpida de horror.

Várias vezes,  repetira para dona Sinhá “Eu vi tudo, eu vi tudo donha Sinhá”.

Dona Sinh, como qualquer um de nós, ao ouvir uma pessoa dizer, assim superficialmente, uma frase como esta, nunca acertaria com o que se passava no cérebro da empregada. Como são as imagens e os seus significados!
Um escritor romântico vendo o casal se retirando do barracão, ajuntaria algo como isto.

Tinham os jovens o seu destino e eles o seguiram.

Os leitores românticos no prolongamento de um suspiro interpretativo, eles são férteis, imaginarão uma vida.

O que o autor na verdade quis dizer que o destino do casal era se deslocar de um lugar para outro, ir da casa de dona Sinhá para a casa da família de Antônia. No caminho passariam pela praça de árvores frondosas, que o poeta do busto no parque, e também prefeito em seu tempo, chamou de árvores geradas pelas mãos antepassadas.

Não reservo para os meus personagens, a vida aventurosa de um cavaleiro da triste figura, nem a seguir a boemia nas zonas dos trópicos, contudo faço questão de que meus personagens sejam homens inteligentes.

Quem seria capaz de escrever sobre um homem inteligente? Um outro mais inteligente ainda? Concordam comigo? José é filho de boa família, gente ligada à terra. Escreveu um sistema que qualificou de novo. Trata-se de um sistema de interpretação do mundo (pretensão). Eu me orgulho que ele o tenha desenvolvido. Por honra da firma para honra da firma. Sincero com os meus leitores, rigoroso com o José, confesso que diante de umas simples e estúpidas dificuldades, José abandonou seu novo e notabilíssimo sistema ao atingir a oitava parte do nono capitulo.

O fichário preparado com alguma orientação minha, orientação solicitada por ele, um dos motivos de orgulho para mim, mais tarde eu direi aos meus netos, eu indiquei Montaigne e Sócrates, Aristóteles e Marx, para a formação do nosso sábio José Décimo Sexto Alexandrino.

Meu filósofo era um sujeito simples e calado, sua timidez era mais covardia do que qualquer outra coisa. Timidez é que não era.

Como todos os homens ignorantes, no começo, José trazia absolutas afirmações, absolutas convicções bordadas dentro da sua cachola. Era um sábio que sabia demais e que sabia que sabia demais. Mal dos sábios idiotas. Quem sabe demais só pode conversar com um igual. Como não existe um outro igual, a pessoa torna-se casmurra, solitária, finalmente isolada, depois fanática. Num ciclo tumbalístico, volta á estupidez. Atinge a glorificação, torna-se um monstro, um erudito. Assim nasce um erudito, garantia o velho Titão pai do Titinho.

Em certo trecho de suas convictas assertivas, José Alexandrino, assim vamos chamá-lo ao nos referir ao filosofo, escreveu que o pensamento humano sitiado pela sociedade no mundo virtual e físico perdia seus ilimitados espaços de investigação, atrofia-se e torna-se um pensamento marcado por fronteiras. A sociedade hoje torna a mente humana, uma mente escrava. Subjugada pelo volume horroroso de informações.

Seguia-se uma serie de exemplos de comportamento humano demonstrando a todos nós que o homem não tinha o pensamento livre. O pensamento do homem era controlado.

Os rebeldes eram dominados pelas necessidades de sobrevivência.

Em muitas destas mentes não mais existia traços da anterior rebeldia. Outros explicavam a rebeldia como uma fase de integração. 

O casamento atua como o mais; eficaz veiculo de dominação dos rebeldes. Assim pensava José Alexandrino, filósofo, homem inteligente e personagem da nossa historia que pretende tornar agradável à noite dos amigos do escritor.

Outros fatos irão se suceder, novas emoções surgirão, mais daquelas emoções intelectualizadas.

O que sucederá na próxima fase da evolução dos pensamentos no nosso filosofo?

Sem música, sem sensacionalismo, sem surpresas, porque se vocês não soubessem o que iria acontecer, não teria interesse esta aventura intelectual.

Por isso, não dou físico ao personagem. Não é bonito nem feio, seu nariz não é maior do que o nosso, nem suas roupas são feitas por outro costureiro que não o nosso.

José casou com Antônia. Isto há muito tempo, foi logo depois daquela noite.

Noite? Isto não importa. É o que de menos.

Se eu fosse poeta, agora faria um poema, sem rima, sem métrica, tentando a inútil harmonia dos sons escritos e dos sons da memória, para falar de José, um homem trabalhador, preocupado com o bem estar da mulher e do futuro, isto mesmo, do futuro rebento.

Desperto e atento, atarefado e inventivo, José se entregou de unhas e muita imaginação na caça ao seu interesse.

Excelente orador, virtuoso escritor (havia um passado de pensador) defendia com honra – lembrai-vos dos homens honrados amigos de Marco Antônio – os bolsos da grande companhia.

Como todas as esposas nas primícias, Antônia – os bolsos da grande companhia. Como todas as esposas nas primícias, Antônia era grande companhia. Como todas as esposas nas primícias, Antônia era grande companhia. Como todas as esposas nas primícias, Antônia era adorável, amiga, quantos bons conselhos eram despejados por noite nos ouvidos sempre escancarados de José. Companheira, ela não deixava José reclamar nada sobre roupa e alimento, ele tinha tudo nas mãos e os sapatos nos pés.


Escolheram uma cidade á beira mar. Escolheram uma casa que mais parecia uma planta que nunca saiu da mesa do arquiteto. Escolheram uma vista de cartão postal em frente a casa, arrumaram o que tinham que arrumar, amontoaram o que deviam, rasgaram muitos papéis, entre estes seus primeiros pensamentos e escritos filosóficos.

Do jeito sensato dos casais práticos desabaram na cidade eleita. Na praia escolhida.

Os escritos filosóficos ficaram no chão até que uma menina contratada para a limpeza da casa jogou no fogo aqueles pedaços de papel. Assim, José encerrou sua fase de relacionamento com a sabedoria humana e foi ser homem, marido e pai de família.


Seis horas da manhã, o padeiro ouvia a respiração olímpica de José, cumprindo instruções do Atlas, para ter um físico ideal. Às dez horas, José ouvia o diretor da companhia, doutor e deputado. Discutiam (José mais ouvia porque o deputado e doutor sabia tudo e era o dono do negócio) alguns problemas da companhia. Pouco mais de meio dia, Antônia sentava na cadeira de vime e esperava pelo marido.

Do meio da papelada, José surgia com uma surpresa para a esposa, uma rosa ou um doce.

Antônia preferia os doces, principalmente os de chocolate. À tarde José continuava uma interminável pesquisa sob os olhares ignorantes de Antônia.

O que Antonia pensava? Por que eram ignorantes os olhares de Antônia?

Ah! Estas mulheres infelizmente não compreendem os trabalhos intelectuais, ainda nas primeiras fases alegres do casamento.

Um dia aquilo arrebentou, nasceu uma criança incrivelmente feia.

A parteira, os amigos, os compadres, as cunhadas, esta gente que invariavelmente cerca um casal não esqueciam de elogiar a beleza da criança.

José não entendia, o eu também, o que havia de demais em ver a feiura da criança ou reconhecer que uma criança pode nascer feia. Lógico que com o tempo, a meninice, a infância, a adolescência, a criança se transformaria, possivelmente seria uma bela criança, mas por que não dizer que a criança era feia?

Um dia José se surpreendeu dizendo que a criança era a coisa mais linda do mundo.

- Pois? Conforme exclama e interroga o Álvaro filho dos Lemos.

A mãe de José entra em cena. Esteve ao lado da nora naqueles dias e nos outros também.

José tornou-se emotivo ao imaginar as dores do parto. A mãe aconselha-o a dar uma volta. Os amigos ao toparem José, na sala de visitas do hospital, aconselham-no a não abandonar a trincheira ao lado da esposa. E agora?

José seguiu rumo ao mar, ia sozinho e pensava na felicidade sem saber se era feliz. Perdoem-me os intelectuais, abramos as pernas ao romantismo. José caminhava na areia e a areia entrava em seus sapatos. Um incomodo, decerto. Mas os românticos não sentem, melhor sentem tanto que não sentem nada.

Havia necessidade de silencio naquele momento, e de fato fazia silencio, também eram oito horas da noite.

José voltou a ser filósofo, é assim que tratam quem se propõe a pensar. Assim terminaremos com um breve descanso este capitulo. Antes de mais nada, devo dizer sobre o que filosofava o nosso desamparado e ausente, José, pensava do nascer, no mistério do nascimento de um ser humano, da espécie humana, na colossal tragédia humana. Tudo para nada.

Hoje, pensa caminhando aquele que ontem caminhando pensava, assim volta Jose à sua antiga morada: o pensamento. Agora na praia, na areia, frente ao mar oceano. De que adianta aquele azul que vejo, aquele castanho das árvores, aquele branco, aquele céu perdido seu para os homens senti-los.

Necessitam que outros homens, os fitas, mostrem-lhes a poesia do azul e da árvore? José novamente voltou a se preocupar com a liberdade de pensamento. A areia sujou-lhe as barras da calça e foi por isso que ele voltou para casa.

Tendo que nos defrontarmos com um problema, o nosso gênio, quase sempre não nos permite examinar mais de duas opções, radicalizamos, isto ou aquilo e pronto, metemos os beiços.

José não fez outra coisa. Estava ali na praia, tudo era atraente. Teria que optar entre voltar para casa ou continuar na sua caminhada pela areia úmida.

Continuou na areia. Vez ou outra percebia a macieza ou então a atração da areia ao abocanhar os sapatos.

Nosso personagem, o José, conforme pudemos observar atravessou uma crise difícil. Romantismo não se cura com pílulas.

Agora, sabemos que ele está pensando, sonhando. Nosso personagem cria em sua mente um novo personagem - é ele mesmo. As características físicas, mesmo vagas, não parecem com o mesmo José que caminha na areia e aquele que ele coloca voltando para a casa.

José descreve a casa do seu personagem como uma casa grande, colocou-a n mesmo lugar onde está a sua, aumentou os cômodos, à cozinha que era deveras muito pequena, ele ajuntou mais uns três metros quadrados, a casa surgia em sua mente como a casa que ele imaginou comprar, como o dinheiro não deu fez modificações na planta.

O personagem criado por José volta para a sua casa, entra e encontra com um amigo que lhe comunica o seu (dela, o amigo) noivado.

José ficaria surpreso, este José é o José personagem criado por José.

O amigo fala de uma viagem, que a noiva espera-o na estação, fala em não pensar, agradece a hospitalidade.

Depois José encontra com os pais, preocupados, felizes, alegres com o nascimento do primeiro neto. Apareceram, ali, uma semana antes do nascimento.

Falam de outros nascimentos – assunto que pauta estes momentos – lembram também do dia em que nasceu José.

José traz um pacote, nem ele mesmo sabe como este pacote apareceu em sua mão.

É um pacote de doces, chocolates e guloseimas. Isto ele sabe porque o seu personagem sente o peso, porque o seu velho pai se adianta para segurá-lo. 

José agradece.










domingo, 10 de dezembro de 2017

BAGATELAS

    


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TRÊS 

TRISTES 

LEÕEZINHOS


Alejandro Paco Hernandez









Sheila conversa com Valente. Queria conhecer aquele outro homem,  Arthur. Cada vez mais, no entanto, viu-se enlaçada nas malhas, nas armadilhas e ciladas de um suposto valente.

Pressentiu o labirinto. Decidiu avançar. A curiosidade abre ou fecha caminhos. Arriscaria no labirinto.

Se ela tivesse sua maquina, fotografaria aquelas mãos firmes de um homem de mãos firmes. Aquelas mãos segurariam os seios desta mulher volumosa. A timidez dos modelos.

Ele não passara daquele copo de uísque e o copo continuava cheio.

Sheila fotografaria aqueles olhos estranhos, aquela presença sensual. Ela foi ao banheiro ver se chegara a menstruação.

Sheila entendia que deveria levar Valente para adorná-lo com as suas pernas na pose número V e I. É a vontade de apertar o rouxinol em sua mão. Ela ofereceria seu corpo nu aos trabalhos dele.

Sheila nunca antes estivera tão perto de um homem com tamanha lucidez.


Aparentemente lúcido.

Ela enrubescia com olhares rápidos. Ora aqui no ombro ora na bunda.  Enrubesce-se por vergonha e por prazer e era com a sensação de estar sendo possuída que Sheila ruborizava-se.

Ele compreendia os seus desejos... Pensou.

Se ele lesse seus pensamentos, se ele interpretasse estes sinais, era porque o próprio corpo dela a denunciava.

Ela também quer que ele saiba tudo o que ela pensa e que se concretize tudo. Viu novamente as imagens das mãos firmes fotografadas.

O flash.

Ela se sentiu como se fosse o modelo. Sentiu pegada por aquelas mãos...  ali, na frente de todos...  e esporrava-se.

Inquieta levou a mão aos seios. Os mamilos estavam duros. Ela tremeu. Dele veio o sorriso. Cafajeste! Um dos seus rápidos olhares percorre-a para dizer que se reservasse para uma meia hora mais tarde.

Sheila perguntou-se o que naquele homem tanto a interessava. Ele era velho? Era velho. Não, não era. Parecia. Não era.

Se ela colocasse-o ao lado do primeiro marido, batata, preferiria o marido, por mais estulto que o primeiro fosse. Ela esgotou-o. Ele fugiu apavorado. Ela gostava de homens que durante o dia continuassem a noite. O primeiro estourou. Plum. Atônita. Pulverizou-se.

Valente era um dia que carregava a noite dentro de si. Não é que ali naquele restaurante ela se sentia possuída?

Ele é noite e dia.

Ela agora? Ela assustou-se. Ela perderia a fome. Sentir-se-ia saciada. Mas ela cultivava a insaciedade.

Diante de algo desejado, uma noite inteira e assustava-se. Tremia. O medo não tem forma.

Sheila passou as mãos nos lábios, acariciava-oslevemente.

De repente, assustada, atirou as mãos para longe doslábios. Suas mãos eram as mãos de Valente.
Olhou. Eram finas e longas. Sheila havia bebido muito. Ela queria que um homem a abraçasse (Valente).

Dormira duas noites com John, dormiu apenas e ele já se considerava dono. Foi bom Valente aparecer. Afastou John. Afastou John sem queixas. Seus vinte anos eram belos, sua pegada era firme, consistente.

Sheila sentia-se bela com a sua mocidade, a sua pele jovem. Os EUA estavam longe. Estava longe a sua casa, Ilinois,  Adan, o primeiro, Hugh, o segundo, seus pais, a igreja, as quadras de tênis.

Ela não reclamava, nada disso; seus esportes, sua religião, sua família, seus maridos, seus amantes, seu estado, sua pátria era uma cama.

Arthur manjou a jogada de Valente em cima da loura, louríssima, Sheila; agora, aguentasse o saco, aguentar e conversar com seus diplomatas de restaurante, rir das piadas desse cavalo-do-mar, Paco, saco, Paco, e se ele bobeasse, acabaria de mãos no bolso. Fique com o que lhe resta.

O negócio é ficar com essas coxas estruturais Mary, made in, make in, como são amáveis os diplomatas, as diplomatas! Cedem-nos suas bucetas como nos passam cigarros. Campo aberto.

Valente avançou, eles retiraram-se ordenadamente. Ideia de jerico essa de passar na praia, o homem-cavalo-do-mar anda com trapaça, ah! Meu saco, Paco. Valente segurou mesmo aquela buceta. A putinha é toda dele.

Irmãozinho, amanhã chuta essas coxas para mim, chuta?! Um chute de categoria, Sheila! Olhem só aquela cabeça de conhaque! Filha da puta de dengosa vem chupar meu cacete, lourinha. Em que estou pensando? Na lourinha chupando. Não me incomoda, Mary.

Meu pensamento não vale nada, estou pensando nas eleições. Quando é que o homem pensa na vida política, antes, durante ou depois da vida da cama? Escutava suas historias, quer dizer que você conhece o Brasil (um país lindo, lindo, acabou. Tem belas praias também, não), conhece o oriente e o Vietnã, que buceta viajada, nunca pegou uma gonorreia no dedo do pé, Mary is coxas, ah!

Já? Gonorreia nos olhos e no cu, putinha linda, vou fazer umas fotos – nus artísticos, eu sou artista, e distribuir para os centros de FTI (Fodas Telepáticas Internacionais.)

Fodam uma americana e ganhem: três bicicletas, dois rádios de pilha zero quilometro, uma caixa de bombons, uma lata de quitute e uma consulta no psiquiatra.

Mary is coxa. Mary, eu não estou bêbado. Não gosto de desodorante. Prefiro uísque. Molhe uísque no algodão. Coisa linda. Mary, pena você não saber português, Brasil.

Quod Salamanca nom dat, natura non praesta.

Gide diz que a lucidez... Porra esqueci, é algo de lucidez, embriagues, deixa pra lá, façamos nossa própria ideia, quando estou bêbado estou tão lúcido, ou mais, nunca menos, do que quando não estou bêbado.

Estou mentindo? A lucidez não seria um estado de embriagues? Quando o homem se sente lúcido, ele não se sente num estado diferente do estado normal?

Entonces... queridinha, made in lit, lit é, sabe porque o homem chama as mulheres carinhosamente de galinhas?

No Egito antigo... Olha filhinha, eu sou aquela revista, você sabe por que...? patati patatá. Você sabe por que o homem fode e a mulher é fodida?

No seu país também tem disso? Ah é verdade. Os romanos dos séculos vinte. Sabe, filhinha, sou um pai frustrado.

Sabe, filhinha, eu gostaria de viver num período de decadência, ser um homem libre, ser um homem puro, ser um homem bom, período de decadência, por quê?

Poxa, devem ser os momentos de mais criatividade da historia, momentos saborosos, momentos em que os homens são verdadeiramente livres e em que as mulheres se tornam as partes pudendas, partes santas.








*




Os brasileiros são as melhores pessoas que existem. Cavalheiros de uma década de séculos.

Eu, Paco Hernandez, posso dizer isto. Sou argentino e em minhas veias correm sangues judeu, alemão, negro, espanhol, americano e brasileiro. Tudo registrado em anos de aventuras marinhas, a la Jack London.

Eu, Paco Hernandez, posso dizer isto porque conheço um povo que vive do paralelo x ao paralelo y, amando o sol, um povo que sabe rir, um povo que tem humor e dignidade. Um povo com a força da alegria.

Eu, Paco Hernandez, conheço este povo que trabalha nas salinas, nos portos, que anda apressado, eu conheço este povo, eu posso falar que amo os brasileiros, eu conheço tudo o que é bom, e bastante do que é ruim.

Conheço, definitivamente?

Não conheço.

Eu, Paco Hernandez, homem e navio, eu conheço o povo brasileiro, eu sei que ele vive em morros, eu sei que ele morre nas picadas, eu sei que ele é um povo tolerante. Conjunção importantíssima.

E agora? Paco! Ô, Paco! Oi! Você criou um caso internacional. Estas gringas vão sair com o Valente, Valiente, teniente, serpiente, sacana.

Vai levá-las para aquela casa do diabo, vai derrubá-las, sacaneá-las, fodê-las e depois passar cola nelas. Elas vão tornar-se rondantes, viverão em torno daquela casa como mosquitos em volta das luzes. As mulheres de Valente desesperadas, consolam-se facilmente. Vou deixar os dois pegarem estas. Daqui a dois dias eu pego uma na rebarba e a outra na esquina.

Bom é apalpar o terreno. Que bunda, Mary! Que bunda! Como é que você conseguiu tanta carne, gatinha? Mary você não é bobinha.

Essa,  Arthur, vai se foder. Mary você é ronca-couro. Dár, dê uma chave de rins e não deixe o sacana pular fora.

Foda-o depois vem mansa para mim. Mary você é um animal doméstico, não adianta mostrar suas garras. Coloco uma cadeira dentro da sua boca.

Valente escuta as conversas. Ligou todos os microfones do seu gravador. Estava no carro de Paco.

As cores corriam junto com o vento. A tarde esquentava. Os edifícios brancos, as praças limpas, Montevidéu é uma cidade tratada com carinho.

Deixaram os americanos no bar discutindo a educação. Quan-tas-horas? Quatro para acabar a praia. Entonces, vamos a passear. Passeavam de carro pelas praias e agora se dirigiam a Pocitos.

Queria ver o sol e as pessoas nas praias, as cores e o vento nas ondas, a pele queimada e os jogos na areia. Queria ver o sol e as pessoas embaralhadas. Mary fazendo pose. Sheila fotografando.

Paco distraía as americanas com as suas fabulosas-mentirosas aventuras nos mares e terras ao sul. Ao sul de tudo, ao sul do paralelo 20, ao sul do amor, ao sul dos seios, ao sul das lutas, ao sul do frio.

Elas riam e abandonavam o carro pela imaginação exótica/erótica de Paco, alto, equilibrando, cai não cai, no alto duma vigia, no leito de um mar furioso.

Ele viu a natureza brava. A raiva em ondas. O ódio molhado. Ele viu o quanto era fraco.

Valente sentiu as mãos de Sheila, mãos leves, apertando-o chegavam em Pocitos. O carro corria.

Oldsmobile roxo freia.

Descem no começo da praia, próximos de uma pedra que entrava ao lado de muitos fragmentos em frente ao mar. Sobre as pontas muitas cadeiras de pescadores. Naquela extremidade da praia que é deserta.

Os pescadores não aparecem nesta hora.

Um grupo de meninos escondia-se na areia, arrastavam-se no chão, eram caranguejos e corriam para a trincheira de areia, em seus pés chegava a água em ondas, eles não se incomodavam com a água que de momentos em momentos ganhava um pouco de espaço na areia.

Trincheira, areia, água, meninos.

Os meninos abrigavam-se na trincheira para não serem percebidos por um casal de namorados. A namorada deitada. Ela vestia um vestido vermelho. O namorado beijava-a e alisava o corpo mal coberto de menina.


O casal escolheu aquele local perto do muro pensando estarem ao abrigo dos curiosos, para eles além do muro, nada mais existia do que o mar e o muro. Entre o muro e o mar estava o bando de meninos.

Oito, nove meninos silenciosos, cautelosos, de pau duro, tudo na mão. Paco caminhou em direção ao muro, antes que ele saltasse para a areia, Arthur segurou-o e disse baixinho, não, velho do mar, não atrapalhe o amor de areia, nem a imaginação das crianças. Paco viu então a cena dos namorados e dos meninos. Sheila e Mary, antes da curiosidade, pensaram na máquina. Tiraram fotos dos meninos nas trincheiras. Enquanto Sheila procurava ângulos, Valente conta piadas.

Todos entraram descalços na areia. Os três, Paco, Valente e Arthur viram-se de costas para o mar, as mulheres tiraram as meias e Sheila fotografou os três de costas. Ao sul não existia só o mar. O ritmo do mar e das ondas trazia uma suavidade, era a suavidade das musicas dos meninos. Ritmo que nos faz pensar, um pensar triste, um pensar.

Paco tirou a camisa. O sol cobriu-lhe a pele. A praia de Pocito é uma praia pequena, com o sol e gente. Pocitos tão pequena que parecia praia sem areia tantos os panos e tantos os corpos. Valente viu Quitcha e Selva. Manequins desfilando a estação. Duas modelos a qualquer momento. Mulheres que são panos e cosméticos.

Quando noventa e nove por cento de você é roupa. sua personalidade está no pano.

Sua personalidade também pode sair da moda.

- Ele parece que não faz mais barba – observou Quiticha de longe.

- Inútil obrigá-lo a barbear-se.

Selva de olhos verdes, grandona, vive como um moleque,  brinca de todos os jeitos e em todas as posições, brinca com todo mundo, sempre inventa brincadeiras novas.

De vez em quando faz coisas serias para distrair-se. Agora jogava pedrinhas nas pernas das pessoas.




*


Sheila sentiu dor de barriga, teriam de encontrar um restaurante, um banheiro por perto. Sheila olhou a avenida. Sheila peidou e aliviou-se um pouco, um pouquinho, Paco apertou o nariz. Todos apressaram o passo, na avenida. Os carros ainda refletiam o sol. Vamos a um restaurante gente, Sheila sentia o corpo dolorido, a barriga estava inchada e doía, conteve outro peido. Controlou-se. Para que segurar? Soltou-o devagar, silencioso. Suava frio. Direto para o banheiro do restaurante.

A merda caiu na água, ploc e salpicou na bunda. Tamanho foi o alívio que nem se preocupou com as gotas de água. O papel estava longe, ela levantou-se segurando o vestido e de pernas abertas caminhou até o papel, tirou uma porção de folhas, dobrou-as e esfregou. Olhava cada papel para ver o primeiro que saia limpo, aí esfregou o ultimo com força, saiu sujo, um pouco.

*



Mary pediu chá para todos.

- Mais açúcar, senhorita?

Mary respondeu e acompanhou o braço do garçom, as mangas brancas, amarrotadas na junta, limpa, sombras, as tonalidades do branco, o reflexo da luz.

- Quer dizer que você chegou hoje, camarada? – perguntou Paco.

- Desci com sol quente em Carrasco.

- Viajar de avião é muito perigoso.

- Morrer no ar, no mar ou na terra é a mesma coisa.

- As probabilidades de cair são maiores que a de afundar.

Arthur não queria continuar aquela conversa, não havia simpatizado em momento algum com o homem do mar.

- Eu acredito em destino. Quando chegar sua hora de morrer, você morre até debaixo da cama de um corno, por isso eu arrisco.

Arthur olhou-o nos olhos.

- Tenho que elogiar a sua irracionalidade – cortou Valente.

- Eu também creio no destino, só que eu ajudo um pouco o negócio. Não arrisco. Estamos no mundo das probabilidades. Porque então vou arriscar?...

- Destino.

Mary disse a palavra e a pronunciou mentalmente sílaba por silaba dês-ti-no.

- Eu acredito que a gente tenha um destino. O destino que escolhemos. Quanto à morte... se se pudesse evitar, eu a evitaria, gosto de viver. Viver é a minha paixão. Agora que vamos morrer, eu sei disso. Por que? Sei apenas as razões físicas. Não acredito em mais nada além da vida. Além disso meu pensamento é o pensamento de um ateu. Nesse negócio de destino entre o nascer e o morrer, quem manda somos nós mesmos. Temos que saber é se existe mesmo vida antes da morte.

- Concordo. Destino seria a vida programada. Você sabe que com tais e tais atos chega-se aqui e ali, não é mesmo?

Sheila podia ter continuado e sua pergunta ser respondida, o estouro de uma garrafa deixou em cacos seu pensamento, ela queria deitar-se.

Paco chamou o garçom varias vezes, quebrou o bule de chá, o garçom apareceu. Na rua,  Arthur pediu para deixá-lo dirigir.

Quando saíam de Ramirez, Mary, a pedido de Arthur, foi até o Cassino em companhia de Paco. Mary voltou só.

- Entre no carro, Mary – disse sério Arthur.

- E o Paco?

- Entre no carro.

Mary entrou, Arthur acelerou.

Paco continuou a conversar no Cassino, ao chegar na rua estranhou a ausência do carro.

Embriagado, ficou por ali uns cinco minutos, ia e vinha, meditativo, de uma calçada para outra.

O sol de quatro e meia estava quente.

- Paco, homem, como ë? – gritou-lhe o croupier.

- Nada irmão. Levaram-me o carro.

- Roubaram?

Uma gargalhada encheu a quase noite dos ouvidos de Paco.

- É isso, roubaram – carro, mulher, amizade, bagagem, noite, pois é! Outra gargalhada continuou na noite do croupier.

Daí a pouco encostou um carro da polícia metropolitana. Paco sequer cogitou de que estavam ali por perto por causa dele El Paco. Os policiais entraram e saíram do Cassino.

- Senhor Paco, roubaram-lhe o seu carro?

Paco enfureceu-se, olhou para o croupier, examinou o carro dos policiais (não é o meu, não), examinou os policiais (e agora, Antenor?).

- Senhor Paco, fomos chamados porque roubaram o seu carro..
.
- Roubaram, afirmou o policial-chefe, e o senhor podia colaborar com a polícia, precisamos de dados, marca do veículo e placa.

- Posso. Meu carro é um volks-ford, amarelo, azul e preto.

O croupier deixou cair o queixo, barba, cabelos, perucas, nariz, tudo, embasbacou-se.

- Volks-ford?! – estranhou o policial resumido, o que está à direita.

- Volks-ford é um carro brasileiro, esporte, último modelo, lançado no Brasil o ano passado. Vocês não acompanham os lançamentos?

- Acompanhamos... responderam todos como um coral. Vinte e sete minutos discutiram sobre os lançamentos de veículos, esquecendo os policiais a sua missão, esquecendo o croupier as suas cartas e esquecendo Paco a sua embriaguez. Paco erguia os braços, o policial da direita coçava o bigode, o mais alto alisava as pernas e o croupier gesticulava para se expressar. Agora tentam identificar o carro de Paco.

- Eu já vi esse carro na rua.

- Me lembro.      

-   Produção brasileira, volks-ford, Mercedes, não?  
   
- Volks-ford, só.  
    
-Que aliança! Aliança de muçuarama.
     
- Volks-ford? Ano?       

- 1096, aliás 1968, troco as bolas.
      
- Chapa?    
 
- Chapa PQP 10-20-6
       
- Chapa Pê quê pê 10-10?
             
- 10-20-6       

- 10-20-6, obrigado, senhor   
  
- Tome, são trocados.      

- Ah! tinha uma mulher com o senhor?
         
- Tinha.        

- Suspeita dela?
        
- Não. Mas que ela desapareceu, desapareceu.
         
-O Sr. viu os ladrões? 
     
- Não, não os conheço.

O croupier recolheu os cabelos, as barbas,o bigode, a peruca, o nariz, o queixo, as lentes e levou os policiais até o bar.

- Esqueçam este roubo, aconselhou o croupier. Eu acho que precipitei. Os ladrões são amigos dele. Na verdade roubaram-lhe foi a mulher.

- Não entendi?
*