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domingo, 8 de janeiro de 2023

O BOM MENTIROSO

 


 

 



 

Testamento & Testemunho


 Rufino Fialho Filho

 

 

A vida só me deu alegria,

 

nasci ganhando um sol imenso,

 

manhãs muito felizes,

 

dias de intenso prazer

 

e gratas e grandes surpresas,

 

um menino descalço

 

pisando um solo fervendo,

 

correndo por terras de onde sonhava voar,

 

um rapaz apaixonado por meninas e mulheres

 

próximas e distantes,

 

com poucos, mas bons amigos,

 

com grandes companheiros,

 

um homem imensamente feliz,

 

capaz de discernir,

 

de avaliar e de caminhar,

 

que jamais cedeu à dor

 

e ao sofrimento que,

 

na beleza da metamorfose,

 

tornaram-se mestres da própria beleza

 

e da arte de viver.

 

 

 

 

 

Quando pensei 


em fazer 


um testamento,

 

fiz um testemunho.

 

 

 

 

 

 

 

 



domingo, 31 de janeiro de 2021

Um punhado de palavras


                   Resgate de um quase 


                     poeta em alta vida


Rufino Fialho Filho 








                                                                                                  Rufino Fialho Filho

 

Houve um momento em que descobri  um sentido para a sobrevivência, uma razão para viver.

 

Se fosse poeta ou se imitasse um poeta, se pensasse em versos, através de versos, mesmo de palavras ligadas, sem nexo aparente, para preservar memórias, mesmo sem ser poeta e sem ter ritmo, nem melodia, sem régua,sem compasso, poderia apostar na sobrevivência à tortura, à solidão e aos desafios a que qualquer prisioneiro de consciência está sujeito.

 

Sem ser poeta, a poesia me salvou. Sem avaliar seu outro possível valor entreguei-as por correspondência ao mestre da minha vida, meu pai.

 

Meio século depois, em sua casa, encontrei aquele punhado de palavras, quase como códigos. Algumas indecifráveis. Não era um poeta. Claro. As palavras ficaram ali. Guardadas por quem me amou, me fez viver e salvou a minha vida. Era a garantia de que valia a pena continuar.

 

Sabia que foi a tábua poesia que me resgatou do oceano.

 

Ficaram lá.

 

A tábua voltou para o mar. Poderia resgatar outro náufrago.

 

Assim, estas madrugadas encontraram mais uma razão (a tábua) para ser minha companheira de novo na solidão e no isolamento pela sobrevivência.

 

Mais uma vez. Agora, chegando aos 80 anos quando a poesia nos captura, mais uma vez, com simpatia e bondade.

 

Nos faz, pela imitação, mais uma vez, mais uma vez, a acreditar que aquela tábua está, bem aqui, na nossa frente.

 




 


quinta-feira, 9 de julho de 2020

RESSURREIÇÕES DE UM PASSADO









Exercício de sobrevivência



Rufino Fialho Filho




Análise de um perdido fazer poético

Trinta anos depois...

Pai acabara de morrer e a casa já fora desmontada, as paredes tinham as marcas e as sombras dos móveis retirados.

De um lado e de outro, nos quartos, nos corredores, aquelas eram as marcas da casa desmontada, a casa de pai, a casa do meu pai, a casa onde ele e mãe moraram grande parte dos últimos vinte anos. Antes moraram na rua dos Inconfidentes, na rua Cláudio Manoel, na Savassi e na rua Safira, no Prado.

Ali, naquela rua íngreme do bairro São Lucas, rua Coronel Fulgêncio, com um espaço para um jardim com as plantas de mãe, os dois viveram seus últimos anos.

Um dia mãe sairia para o hospital, onde trataria de dores violentas na coluna. Fato comum. Quando as dores se tornavam insuportáveis, seus médicos a internavam.

Daquela vez, ela sairia de casa e enfrentaria um longo período de coma. Mãe morreu no dia 24 de dezembro de 1996. Seu enterro foi no natal, no dia 25. Chovia.

Mais de trinta anos depois da prisão... todos os cadernos que enviara dos cárceres estavam ali, conservados, em envelopes bem fechados, volumes e volumes de escritos.

Impressões sensíveis como diria Proust. Memórias involuntárias que chegavam naqueles papéis. Experiências intensas e profundas, reminiscências, como pensava Proust, ressurreições do passado, "lembranças mortas, lembranças esquecidas". E agora?

Era muito material que sob a forma poética passava pela censura. Agora chegavam às minhas mãos para se fazer poesia? Para facilitar a memória ou para trabalhar ou para transformar-se mesmo em poesia? Eram mais registros de uma época e de uma sobrevivência.

Não me atrevia a dar àquele material o nome de poesia e, à falta de títulos, ficou a palavra poesia. Era a palavra que garantia a sobrevivência e a parca lucidez.

Nascera a resistência ainda quando aquelas palavras surgiam, palavras juntadas a palavras, escritas e reescritas, reescritas muitas vezes e quase sempre não em busca de um perfeito fazer poético, da métrica, objeto de estudos, naquela ocasião, permanentes, tendo como livro básico e livro mestre a obra de Dante, principalmente a Divina Comédia, uma aventura na história da Itália.

As palavras eram juntadas e as frases golpeadas, lascadas, partidas. Àqueles pedaços de frases, muitas vezes interrompidos, sem qualquer sentido métrico, jamais poderia chamar de versos.

Nem me aventuraria a dizer versos livres, não considerava, objetivamente, aquelas frases montadas como versos. A beleza, nunca alcançada dos sonetos, era o mote. O objetivo: a perseguição contínua.

Um dia, quem sabe, chegaria ao mais belo de todos os fazeres poéticos: o poema. O fato é que se contestava aquelas palavras capturadas como poesia, jamais admitiria o sujeito poeta.

Não tinha sentido e nem havia verdade.

A argumentação reduzida, simplificada, sendo  direto:

Tudo aquilo, peça por peça, linha por linha, palavra por palavra, era um gigantesco exercício de sobrevivência, puro exercício de sobrevivência.

Depois de cinco anos, de longos e traumáticos cinco anos de prisão, a liberdade. Estava livre. Sobrevivera.

Todo aquele material, enviado da prisão, havia, uma parte, sido reunida em cadernos. Outros ficaram dispersos.

Todos chegavam agora às minhas mãos, mais de trinta anos depois, logo após a morte do meu pai. Ele morreu na primeira hora do dia 7 de janeiro de 2002.

Todos tinham ido embora, a casa estava vazia. Voltaria sempre ali e aquele lugar passou a ser mais do que um refúgio, um lugar de um inusitado reencontro. 

A primeira parada estava ali. Desafio.

Quando avaliara o que fazer, nos primeiros dias de liberdade, ao sair da prisão, em janeiro de 1975 (*) decidira que aquele recurso que utilizara para sobreviver (a poesia) e que me permitira sobreviver, seria apenas uma referência, um ponto de referência essencialmente individual. Sem outra pretensão que o resgate, uma memória sentimental.

Memórias sentimentais sem valor? Não olhava sobre este aspecto. Também não tinha esta ideia. O valor não era externo, nem trabalhara neste sentido. Era como um recurso, um meio e limitado ao exercício da sobrevivência. Ao longo do tempo esquecera-o na casa do meu pai e pai guardara tudo.

Havia esquecido daquele material. Foi uma surpresa.  Observei ao manusear alguns papéis que eles ocupavam um espaço de fácil acesso e supus, com muita convicção, que eles eram acessados de quando em vez. Hábito de quem gosta de ler, reler. Perdi as contas de quantas vezes pai relera Brás Cubas.

Alguns estavam numa ordem que teria sido definida muito recentemente e tinham a ver com os fatos políticos internacionais, como a tentativa de síntese da obra de Miguel Angel Astúrias. Algo feito para me lembrar de um dia voltar a reler Astúrias do Wek-end na Guatemala...

O fato concreto: o que fazer com este material?

Não poderia chamar-lhes de poesia e nem de poeta ao seu autor. Editar. Nem cogitava. Já trabalhava para uma editora e vacinara contra a Ilusão Literária.

O que faria voltar-me àquelas reflexões era a atualidade dos caminhos encontrados em uma nova situação para um novo exercício de sobrevivência tão complexo quanto a situação em que se encontra um prisioneiro de consciência, um opositor de ideias.

Agora era a sobrevivência diante daquela realidade de perdas, a perda de filhos e da família com a minha separação, a perda com a morte de mãe e de pai, mais ainda o que foi o trágico e desesperador acompanhar, dia a dia, o fim de um homem. Este homem que se acabava, que se aproximava da morte, um tanto pela idade, quase 90 anos. Um tanto pelas inúmeras doenças que o fragilizava, desde os anos de menino. Este homem, ao meu lado, era o meu pai.

Estávamos ali, eu e o meu pai. Às vezes grandes silêncios nos cercavam. Longos olhares, longos e demorados olhares, longos e dolorosos silêncios, nem sempre dolorosos, muitas vezes ternos, muitas vezes interrogativos, muitas vezes preparatórios de um definitivo quase riso até...

-          Vamos jantar, agora.

E o jantar servido, sua sopa quente, muito quente, gostosa.

-          Sirva mais, meu filho.

Seu olhar carinhoso, seu olhar de ternura. Um alimento abençoado, cheio de verdades e éramos dois homens, adultos. Ele com toda a sua vida, com a sua permanente saudade de mãe e com a sua certeza de que seu fim como homem, como um ser vivo, aconteceria... um momento que ele sabia próximo e para o qual estava preparado. Seus gestos cada vez mais lentos e olhares cada vez mais distantes aparentemente perdidos.

Decidi assumir uma atitude profissional.

Trinta anos depois e diante de todo o material produzido, dezenas de cadernos, quase uma centena e muitas anotações avulsas.

Nestas últimas décadas trabalhei textos jornalísticos, produzia e editava. Acionaria esta experiência para pelo menos agrupar e dar ordem aos textos.

Era o respeito por aquele autor de pouco mais de 20 anos, que, para sobreviver aos tempos de chumbo da ditadura militar, usara como recursos o simular fazer poesia e ser poeta.

Fingira que aquilo era poesia e que também seria um poeta. Por que poesia se duvidávamos em chamar aquelas anotações de poesia? Que vinham misturadas com versos da Divina Comédia e com uma cópia completa de Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto, poeta admirado pelo carcereiro nordestino, cujos olhos enchiam de lágrimas declamando estrofes inteiras - "minha mãe conheceu João Cabral, trabalhou para a família dele e de tanto ela declamar, acabei decorando".

No cárcere da Polícia Federal, na praça Marechal Âncora, ele me emprestou o livro para que copiá-lo.

Na prisão, as alternativas estavam nos trabalhos manuais, nas leituras, nas correspondências e na própria cela, no espaço físico de poucos metros quadrados, onde cabia uma cama, um vaso sanitário e uma torneira.

Um pequeno espaço?

A engenhosidade do homem transformara aquelas limitações físicas em desafios e as celas transformavam-se através de fotos e de audaciosas decorações ou adaptações.

Celas transformavam-se em navios, em belas paisagens ou belas mulheres. Depósito de sonhos. Nas paredes cabiam tudo, registros, diários, sentenças, marcas para a memória. Nas paredes, plantei meus primeiros exercícios poéticos e a sustentação de minha revolta.

Castro Alves. Navio Negreiro.

Seus versos escritos, desenhados na parede, como símbolo, como emblema, como bandeira.

Todos gostavam até mesmo os carcereiros. Até o diretor da prisão, o Belial(**), já em Linhares, Juiz de Fora, parava na cela para ler e recitá-los às visitas.

Não gostei.

Ficaram lá por respeito aos belos versos do baiano.

As outras alternativas? Cartas? Não tinha nenhum talento para cair nesta arapuca. A correspondência era a permanente captura do preso. A censura ia além do simples registro. O risco era total. Podia se tornar a intimidade revelada, o ser revelado e todas as nossas forças ou fraquezas. Jamais usaria a correspondência como uma forma de contato e de sobrevivência.

A carta que vai e a carta que chega entravam na engrenagem da prisão. É um instrumento do Estado policial e é tão forte na moldagem do preso quanto a disciplina, os horários e a voz do carcereiro. Não apenas o que se diz numa carta. Principalmente, para quem vai a carta ou quem manda.

Restou como única alternativa a correspondência comigo mesmo. O escrever para mim mesmo. Este era o mais puro sentido daquelas palavras agrupadas simulando versos e versos simulando poemas, podendo mesmo receber, precariamente, o título de poesias.

Assim, além de cópias de poemas, no meio de tantos versos de Dante, copiei toda a poesia de Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto.

O eu era o destino daquela estranha, esperta e inocente correspondência. Não chegavam a ser cartas e de poemas tinham pouco mais que o esqueleto.

Seguiam os cadernos, lidos e autorizados pelo controle policial, que não tinha nenhuma paciência com poesia.

Exercícios para a sobrevivência.

Acreditava-me capaz de entender o mundo e capaz de libertar-me dentro daquele espaço que me prendia e que limitava os meus passos, limitava meus movimentos e a minha sonhada corrida até a exaustão, até a prostração, até o último fôlego.

Se a sonhada corrida poderia me levar para fora e o exercício de caminhar três quatro passos e tão somente três, quatro passos me davam a certeza de que estaria preparado para correr dez quilômetros todos os dias.

Outro era o desafio.

Agora, a corrida para dentro, para a solidão, o estar comigo. Eu e eu, o conhecer-me e o dialogar intenso, submetendo-me, submeter, sujeito, o adjetivo latino, sub, conhecer o sujeito que eu poderia dominar, crescer, libertar.

Esta era a mais difícil corrida, o desafio de encontrar-me e de não enlouquecer. Aquele fazer supostamente poético foi o maior achado.

A poesia era poesia independente de minha avaliação e leitura cansativa para os meus carcereiros.

A beleza é um dom que entranha todos os homens e é a arma mais consistente para o entendimento.

O que os poetas da música popular fizeram para derrubar a ditadura nenhum partido, movimento político organizado ou guerrilha conseguiram.

A poesia venceu a tortura, o medo e derrotou a ditadura militar. E nos devolveu a liberdade.


(*) Por que a interrogação? A prisão permanecia, acompanhava e libertar-se desta prisão tornou-se um exercício diário na "liberdade" e para a conquista diária da liberdade.

(**) Belial como chamávamos o diretor da Penitenciária,  Waldelar Mendonça Pettersen











terça-feira, 27 de agosto de 2019

AS PISTAS DEIXADAS NA ESTRADA






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Todos os caminhos 

que nos levam 

ao coração selvagem








Não sou nada

Nunca serei nada

Não posso querer ser nada

À parte isso, tenho em mim 

todos os sonhos do mundo...
Fernando Pessoa



Quem sou eu?

Sou mais do que um homem? Sou mais do que um coração dentro de um único peito? Sou mais do que as minhas mãos alcançam? Sou eu o outro também? O outro que conheço? O outro que admiro? O outro que odeio sem querer odiar?

Serei eu aquele menino que fui em uma cidade quente e ensolarada do Vale do Mucuri?

Descendente de misturas de índios, negros e europeus? E este meu nariz? Árabe ou judeu? Este meu nariz? Grego?

Serei aquele menino diante do sexo e do amor? Serei aquele homem diante dos caminhos desenhados para o céu e o inferno, querendo saber de outros caminhos e de outros continentes?

Com medo das figuras tornadas feias e ditas demoníacas? Quem sou eu a procura de espaços no céu, sempre no céu em todas as horas? Aqueles olhos armados a procura de estrelas e de nuvens, de caminhos além dos céus?

Serei aquele perguntador, insatisfeito com a admiração, insatisfeito com a resposta?

Serei sempre uma pergunta. Uma dúvida?


Nome

Um dia me deram um nome. Eu o esqueci em meio a todos os outros nomes que tive e de todos os nomes que adquiri.

Um dia chamaram-me de Tito e era fácil entender. Era o nome do meu pai e o nome do meu pai fora tirado de uma folhinha católica no dia em que ele nascera.

Depois fui Juca, fui Tadeu armado até os dentes e pronto para libertar uma nação e um povo enxovalhado. Fui derrotado e preso.

Fui Carlos na guerra sem fim e que até hoje me persegue e que nunca acaba.

Fui Guima para aquela mulher que sabe amar.

Fui “Bem” e não fui apenas amado, não soube amar.

Com o nome dito com todas as letras, Tito Guimarães Filho, aquela mulher queria mais e tudo de mim.

“Eu te amo rapaz” ela dizia e também cantava como Rita Lee.

Ela me chamou de “meu amor” e quase me arrebentou todo. Arregaçou minha vida. Bêbada e louca, ela me amou como uma louca e eu soube acompanhá-la quando ela me chamava de “Meu Amor”.


Data em que costumo apagar velas

Apago as velas todos os dias. Nasci em todos os signos. Nascer e renascer tornou-se para mim uma obsessão.

Faço questão de todos os dias nascer de novo e de recriar-me, refazer-me, multiplicar-me, esqueço muitas vezes de quem fui e até da data do aniversário daquele menino que amou Maria.

Nasci antes de todos os tempos e, em muitos séculos, sequer cheguei a existir. Era só olho, era só olhar e extasiado não acreditava no que via, nem na beleza e nem nas tragédias.

Via tudo, apenas via, apenas tinha olhos e meus olhos iam registrar até mesmo sonhos, até mesmo pesadelos. Das coisas vivas registrava gestos e obras.

Houve dias de nascer especiais e que não se repetiram.

Um destes dias, eu nasci quando já estava com 58 anos, foi no dia 05 de novembro, quando na BR 040, perto de Barbacena, final da tarde, ainda dia claro,depois de fortes chuvas, fui colhido por um raio, que transformou o carro em uma bola de fogo.

Bola de fogo descrita pelo motorista e pela mulher que vinham no carro logo atrás.

Perplexos, abobalhados, olhavam-me assustados quando paramos na lanchonete Rose Lanche.

- Tome meu cartão. Quando contar que um raio te atingiu e a pessoa não acreditar, dê o meu telefone.

Nasci das torturas, em chãos de cimento, em terrenos baldios e leitos de hospitais militares.

Olhava sempre para as nuvens e para as estrelas. Elas foram sempre, nestes momentos de muita solidão, minhas verdadeiras armas de resistência.

Nem sei, cara, se existe “muita” solidão.

Sei que era uma solidão tão grande que chegava do distante ponto do universo que percebia de dia e de noite.


Nasci

Em mãos e em peitos amorosos, em colos e em cantos quentes e doces. Escutei palavras, sons e alegrias, feliz de ter ao meu lado homens e mulheres que via sempre com um gostoso sorriso em seus rostos.

Nasci numa cidade quente, onde descalço e menino corria de sombra em sombra.

Nasci numa fazenda de frente para uma serra, onde em um boqueirão escondiam-se minhas fantasias e meus sonhos de menino e aventureiro.

Nasci em um colégio, onde as crianças usavam roupas limpas, que eles chamavam de “uniformes”. Era uma escola para nos disciplinar, nos colocar dentro de uniformes. Dentro das salas de aulas, em carteiras iguais e em ordem, aprendíamos a ler uniformizados.

Nasci nas prisões, ao lado de muitos homens torturados, assassinos e ladrões. Ao lado de homens que vigiavam outros homens para impedi-los de fugir.

Nasci ao lado de homens condenados, todos cumprindo penas a que foram condenados pelos seus crimes ou pelas suas inconsequências e inocências.

Nasci também nos olhos de uma menina que descobriu-me prisioneiros de suas mãos e de seus lábios.


Onde moro

Em um planeta meio tonto, meio bobo, muito solitário e incapaz de ser apenas um meu lugar, misturando todos nós, girando sem parar, sempre fazendo, todos os anos, o mesmo caminho, bobo, incapaz de transgredir, incapaz de desviar-se de sua rota, um mundo de mares e de terras, de florestas e de alegrias.

Moro aqui e moro ali. Como não dizer que moro em Niterói, em Tribobó, e que como jambo na árvore maior do sítio do Coronel Nicoll.

Moro em Montevidéu, percorrendo da praia de Ramirez à praia de Pocitos, andando pelo Parque Rodó.

Moro nos igarapés da Amazônia, em Marzagão.

Colho frutas em Castanhal, moro na gráfica da igreja em São José de Macapá, atrás das ondas da rádio São José de Macapá, onde mora meu filho, Tito Neto, que vi apenas menino, dependurado na grade do parlatório da Penitenciária de Linhares, em Juiz de Fora, e que nunca mais vi a não ser em fotos.

Ele, a mulher e os filhos, meus netos, crianças que nunca tive em meus braços e que nunca falaram comigo e com quem eu nunca falei, de quem ignoro tudo. Isto é dor.

Isto é sonho e pensar. Eu penso neles quando estou só e eu gosto de estar só para pensar nestas crianças e na criança que ficou lá atrás, dependurada na grade do parlatório, distante de mim e eu com medo de que ele se soltasse e caísse no chão.

Ele não caiu. Ele não se soltou.










terça-feira, 25 de junho de 2019

DIREÇÃO CERTEIRA




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Só se ama o outro


Rufino Fialho Filho



A cada momento, uma música, uma frase musical, um verso domina o imaginário poético.


Todos cantam aquela canção. A imaginação gira em torno de temas da relação entre o homem e a mulher.


É o amor, o desejo, o sonho, a distância, a procura, a separação e, quase sempre, a decepção, que está no desconforto, na traição, na aceitação de que se é mais um quando se trata de sentimentos.


Hoje, a música de todo o tempo canta o amor inesquecível, em que não se aprende a esquecer.


Onde dentro do jogo verbal, fala-se em ser o outro para poder, fingir, encontrarem-se.


O outro é percebido na distância, na separação, na dor.


Por que o compositor popular tematiza o amor perdido ou o amor impossível, como o amor inviável, não realizado?


Ao captar a alma poética popular, esta é a linguagem direta.


Fala-se de algo que se vive em todos os momentos, em todos os tempos, por todos.


Eu entendo o que está sendo cantado. Você entende. Todos entendem e todos nós vivemos,  de alguma forma, experiências similares.


É o amor.


E o amor é de uma igualdade que se reproduz nos séculos e, mesmo quando ganha a roupagem romântica, ele não perde sua essência: o outro.









terça-feira, 11 de junho de 2019

A GOROROBA ENCANTADA





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Vale a pena vencer barreiras




Ibrahim Mullah


Cortar a cebola,


descascar o alho,


lavar o arroz,


lavar e cortar a couve,


preparar o seu próprio alimento,


o sal do tamanho exato,


o tempero e o aroma do seu gosto,


preparar sua comida,


todos os dias,


cativar o céu e a manhã,


dar atenção ao dia que amanhece,


ganhar sua vida,


desfrutar a sua vida,


estar só,


sem mais ninguém,


descobrir no calor da comida


uma alegria que sempre esteve escondida


atrás de barreiras que a ignorância


e a convenção nos mergulhou,


só agora, aos 60 anos,


temperei a vida


foi bom descobrir,


deu tempo de libertar


o olhar e as mãos,


conquistar um espaço


que só a estupidez te tira e esconde.


Vale a pena quebrar barreiras.


Sempre.


Como inventar


 o novo 


sempre









22.12.05