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quinta-feira, 19 de agosto de 2021

DUBLIN É PORTO ALEGRE

 



Ulysses

A aventura do homem de Königsberg, Prússia Oriental

 

 

De P. J. Salitre

 

 

 

James Joyce provou, no início do século XX, com seu romance, que a histórica odisseia de Ulysses, na Ilíada, de Homero, também pode ser vivida, em um único dia, por um cidadão comum.

 

Este o resumo e o roteiro: Leopold Bloom, de Dublin, Irlanda, é o novo Ulysses. Sua Odisseia dura menos do que um dia.

 

Agora, o escritor P.J. Salitre, no final do século XX, conta a histórica odisseia vivida por um homem preso, na cela de isolamento da Polícia do Exército, em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil. (*)

 

Esta histórica nova aventura durou 45 dias.

 

Neste período de 45 dias, ele viveu a aventura de ler o Ulysses de Joyce, que não se lê em um dia, ciceroneado pelo seu carcereiro, o Pequeno General Ataualpa de Mendonça, Inimigo Mortal de Leonel Brizola.

 

 

 

 

 

Capítulo I

 

Os antecedentes da prisão. Como o jornalista Horácio Pascal liberado por um habeas corpus da prisão militar em Juiz de Fora, Estado de Minas Gerais, no sudeste do Brasil e, depois de uma dramática passagem por Belo Horizonte, empreende uma fuga em direção à fronteira sul do Brasil.

 

A fuga em direção ao Uruguai, planejada na prisão do Quartel do Regimento de Obuses, em Juiz de Fora, enquanto os militares vigiavam todos os movimentos dos presos.

 

Celas monitoradas. Conversas gravadas.

 

Acreditavam que, permitindo a fuga de Horácio Pascal, monitorando seus deslocamentos, colocariam a mão em um dos mais misteriosos e procurados dos comandantes da resistência armada à ditadura militar brasileira – e que sequer teria sido ainda identificado.

 

Dentro da cela, vistoriada, até três vezes por dia, estavam os presos políticos Moisés Kuperman, dirigente do Partido Trotkista, o matemático Bayard Demarie Boiteux, secretário geral do Partido Socialista, e o jornalista Horácio Pascal.

 

Os três e mais de 200 pessoas foram presas sob a acusação de organizarem um movimento guerrilheiro na Serra do Caparaó, na divisa dos Estados de Minas Gerais e Espírito Santo.

 

Guerrilha que não aconteceu. Outra batalha de Itararé. Mais tarde, deste episódio – a guerrilha que não houve – cresceu a convicção de que havia uma manipulação, orquestrada, criando fatos inexistentes a sustentar a repressão e o controle do Estado pelos militares e forças externas.

 

Se não tivesse guerrilha, criariam uma. A combateriam ou a manteria sob controle, certos que seriam sempre os vitoriosos.

 

O volume de informações era grande e os militares que instruíam o Inquérito Policial Militar, IPM, perceberam, através da assessoria dos serviços de inteligência do Exército, da Marinha e da Polícia Federal, que estavam próximos da captura de uma alta patente militar, ainda na ativa e que seria o responsável por uma rede de infiltração nas forças armadas.

 

Sabiam ainda que as conexões que os levariam à captura partia daqueles três presos na cela especial do Quartel do Regimento de Obuses, situado no bairro do Palmital, na periferia de Juiz de Fora.

 

As gravações indicavam que o professor Bayard temia pela sobrevivência do oficial das forças armadas e um dos quadros qualificados da resistência à ditadura militar.

 

Bayard não tinha como chegar até o oficial e avisá-lo e, como o jornalista, dos três, era o único que poderia sair da prisão naquele inquérito, ele então seria a isca.

 

Isca na visão dos militares e um aviso de perigo.

 

Monitorando as ações dos advogados de defesa, planejou-se uma troca de documentos, a partir de um pedido de habeas corpus para uma outra pessoa, cujo nome parecia com o do jornalista, para surpreender o pessoal do quartel, com uma ordem de libertação dada pelo Superior Tribunal Militar, STM.

 

O plano da comunicação com o oficial infiltrado no Exército foi elaborado pelo professor Bayard Demarie Boiteux.

 

Uma mensagem seria transmitida para um contato em Montevidéu, o coronel Emmanuel Nicoll, exilado, que, por sua vez, se comunicaria com o militar a ser avisado. 

 

O básico da mensagem cifrada era de que ele se já não foi descoberto, seria descoberto em pouco tempo e que deveria, imediatamente, passar para a clandestinidade.

 

O comando militar da ditadura concentrou seus esforços para a interceptação do militar infiltrado antes da sua fuga de um dos quartéis do Exército, assim aceitou o Plano Borra Azul, elaborado por setores da Polícia Federal, que previa a autorização para a liberação e fuga do jornalista sem suspeitas e para o monitoramento da trajetória de Horácio até o Uruguai.

 

Assim aconteceu.

 

Liberado em Juiz de Fora, ele seguiu para Belo Horizonte, surpreendendo aqueles que esperavam a fuga direto para o Uruguai.

 

Se não fosse cômico seria trágico.

 

Todos os setores da inteligência militar (inteligência? depois vamos discutir esta questão) irreconhecíveis, se engalfinhavam em discussões, tentativas de sequestro de Pascal, aborto do sequestro, garantias da sobrevivência e uma rede de superproteção.

 

Horácio Pascal tinha em seu poder um documento, cifrado, para avisar o Militar Infiltrado (também uma questão e um conceito para se discutir), mas o bilhete caso fosse apreendido agora, não significaria nada, mesmo que a mensagem fosse decifrada – jamais se saberia a identidade do destinatário.

 

Este era o nó da questão.

 

Tinham que seguir as pontes, isto é, os vários destinatários, os contatos, até que o conteúdo do bilhete fosse do conhecimento do principal destinatário, o Militar Infiltrado – aí a identificação e a prisão.

 

Um setor contrário a fuga de Horácio Pascal e que defendia a apreensão do bilhete, sua decifração e a coopção violenta de Pascal entrava em profunda crise de comando, enquanto o Homem Vigiado envolvia-se em aventuras não tão revolucionárias quanto as imaginadas pelos coronéis.

 

Tudo isto aconteceu no mês de junho.

 

Logo, ao sair da prisão, através da falsificação de papéis, Horácio Pascal procurou o seu irmão, Armando Fuentes Pascal. Não fugiria correndo. Nem mesmo sabia quando viajaria para o Uruguai, onde estava a sua mulher.

 

Armando encontrava com uma mulher casada, Marlene, cujo marido vivia bêbado. Este marido era um cara magro, cara emaciada e voz confusa.

 

Foi quando Horácio conheceu Márcia Miranda, mulher de um médico famoso em Belo Horizonte, cuja clínica era a mais concorrida da cidade, o doutor Wanderley Garrido. Outro marido bêbado e drogado, também cara amaciada e voz confusa.

 

Ela, filha de banqueiro.

 

Márcia e Horácio não tinham hora, nem lugar e iam para cima de todos os desafios imaginados. Ia para o apartamento de Márcia, na rua dos Guajajaras esquina de rua da Bahia. Edifício do Rotary Club.

 

Horácio entrava e saia pela porta dos fundos, sob os olhares dos empregados do doutor Wanderley. Deitavam em uma suíte contígua à suíte do casal, com Wanderley escornado na cama, dormindo com as duas filhas.

 

Numa festa de mais de 200 convidados, na casa da socialite Dorothéia Michaelis, transaram no banheiro, provocando uma fila enorme. Cena que se repetiria em Brasília com o deputado que se tornaria presidente.

 

Já próximo de sua viagem, Horácio comunicou a Márcia que desapareceria por uns tempos ou para sempre.

 

Um dia antes do embarque, Márcia desmaia na porta da casa da mãe de Horácio, na rua Safira, no Prado, deixando uma mancha de sangue na parede branca.

 

Susto, correria. Ela cortara os pulsos. Tentativa de suicídio.

 

No hospital Felício Rocho, o médico da família revela para Horácio, que “ela simulara aquele suicídio”. Para o doutor Wanderley, o marido, disseram que “a sua mulher vive uma difícil crise existencial”.

 

Ela propôs a separação e pediu a Horácio para não viajar na transição para a nova residência.

 

Marido bêbado e o pai banqueiro acharam que era uma decisão intempestiva, precipitada, uma loucura. Não dariam apoio à ideia da separação.

 

Para o pai, a bebida não seria motivo suficiente para a separação. Para o marido, sua mulher era uma verdadeira mulher, fiel, carinhosa e responsável.

 

Ela alugou um apartamento na esquina da rua da Bahia com avenida Amazonas, quarto andar que correspondia ao sétimo andar (os três primeiros eram de lojas, escritórios e garagem, em um dos andares funcionava o Tribunal de Justiça Militar da PMMG).

 

O detalhe da altura é importante.  

 

Dias depois da mudança, as duas meninas, filhas do casal, intoxicaram-se ao brincar com uma mala de remédios, lotada de comprimidos.

 

Márcia encontrou as duas contorcendo-se, bocas e faces coloridas. A partir daí o pai banqueiro deu sua decisão. Ou Márcia acabava aquela história com Horácio ou ele mandava matar Horácio.

 

Passou a dar incertas no apartamento, sempre ameaçador e violento.

 

Um dia, quando transavam, ao abrir a porta, para saber quem tocava a campainha, Márcia deu de cara com o pai, com um revólver na mão.

 

“Eu não vou mandar matar, eu vou matar..”

 

Enquanto Márcia tentava segurar a porta e conter o pai, grita para Horácio fugir, ele, de cueca e com a camisa e a calça na mão, decidiu passar por fora da janela do apartamento.

 

Fechou a porta do quarto e foi para a janela. Enquanto arrombava a porta do quarto, teria tempo para pular na sala e correr.

 

Equilibrando-se, perigosamente, sobre a pequena murada da janela, que dava para a rua da Bahia, Horácio esperava o momento de pular para dentro da sala.

 

Na rua, as pessoas paravam. Especulavam sobre o que acontecia e o provável desfecho.

 

Do outro lado, no prédio frontal, um grupo gritava para que ele não pulasse. Outro grupo, para que pulasse.

 

A princípio, Horácio pediu silêncio. Em vão. Percebeu que o pai de Márcia ouviria a gritaria e pararia de bater contra a porta do quarto.

 

Sem saída, Horácio pulou sobre o pai banqueiro. A arma voou longe, e ele saiu correndo.

 

No primeiro andar, uns rapazes deram-lhe abrigo, escondendo-o da fúria criminosa. Assim, ele escapou da morte certa e sem perdão.

 

Em um lugar de Belo Horizonte, escondido e seguro, tendo escapado, no tumulto, da vigilância dos seus protetores, assassinos e torturadores, Horácio Pascal elaborou a rota de fuga em direção ao Uruguai.

 

Passaria por São Paulo. Queria assistir a peça de Shakespeare, Sonhos de uma noite de verão. Dirigida por Haydée Bitencourt para o Teatro Universitário da UFMG. O “Sonhos” fora a sua primeira experiência como estudante de teatro e ator.

 

 

 




quinta-feira, 23 de junho de 2016

AS MINHAS CAMINHADAS



Onde acabou a 15a. fuga






A fuga até Ulysses


Honório Oliveira e Silva





Vivi num tempo em que fugir era, sempre, permanentemente, condição de sobrevivência.

Ou fugia ou morria.

Ou fugir ou ser preso.

E a prisão era a tortura e a morte. Sobrevivência rara, dura, difícil e, quase sempre, impossível.

A arte da fuga era imperativa. Aprender a fugir, estar sempre pronto para escapar, era, naquela época, uma necessidade como o alimento de todo dia.

Entre as muitas fugas, a mais longa foi no percurso Juiz de Fora, Belo Horizonte, São Paulo, Porto Alegre, Santa Maria, Chuí.
Na fronteira, no quintal do Brasil fui preso. Transferido na mesma noite para Santa Maria e depois para Porto Alegre.

Em Porto Alegre, fiquei preso 45 dias, numa cela isolada, vigiado por um soldado suicida da Polícia do Exército.

Foi a fuga em que perdi a parada. Capturado, iniciei uma outra arte para a sobrevivência, a arte da mentira, num jogo de gato e rato, onde teria que ser sempre o perdedor.

Ali, neste jogo, ganhar significaria morrer. Não poderia cometer a burrice da criança que quer ganhar todas, desde jogo de bola de gude, partida de futebol e a menina mais bonita do lugar.

Neste jogo de sobrevivência, a mentira torna-se uma arte. Perder fazia parte essencial do jogo, assim ser capturado na mentira, perder, no jogo da investigação e da inteligência, fazia parte da estratégia.

Eles tinham que ganhar todas. Afinal, poderosos e vitoriosos.

O policial tinha que apanhá-lo mentindo, era a jogada da “Mentira de Pernas-curtas”.

Tinha a mentira de pernas-curtas uma medida, pois não se podia abusar da inteligência do outro no jogo de polícia e bandido, onde além de ser sempre o bandido, o derrotado, você também era um prisioneiro totalmente dominado e submetido ao poder policial do torturador. Este é um poder sem limites, poder sobre a sua própria vida e integridade física.

Ele tanto podia te arrebentar, matá-lo, machucá-lo como podia esquecê-lo, sem água e comida, no fundo de uma micro-cela, sem nada, sem água, sem vaso sanitário, em meio a fezes e urina, suas próprias fezes, sua própria urina, dois, três dias, uma semana, trinta dias sem tomar banho, sem nenhuma higiene.

Era o que acontecia naquela cela.

Na cela da PE de Porto Alegre, da Polícia do Exército, do Exército Brasileiro, em um quartel que, tenho notícia, já foi demolido. O prédio ficava ao lado da escola de engenharia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Na cela de castigo, uma cela dentro de outra cela, eu li um único livro – tive a opção de escolher um livro. O livro que me acompanhou naqueles 45 dias, foi o Ulysses, de James Joyce, uma edição da Civilização Brasileira, tradução de Antônio Houaiss.

Na prisão, na cela de castigo, sem água, sem latrina, na imudície, encontrei a salvação - Ulysses.

Quem quiser ler uma grande obra, como Ulysses, experimente se isolar.

E, se possível, não em uma prisão.

Muito menos numa cela de castigo, no frio infernal do sul.














quinta-feira, 2 de agosto de 2012

A FUGA


A arte da mentira e


 da sobrevivência



Fim da fuga: Chuí, no extremo sul do Brasil



Vivi num tempo em que fugir era, em quase todos os momentos, condição de sobrevivência. Ou fugia ou morria. Ou fugir ou ser preso. E prisão significava tortura e morte. A sobrevivência, dura, difícil e, quase sempre, impossível.


A arte da fuga era imperativa. Aprender a fugir, estar sempre pronto para escapar, uma necessidade como o alimento de todo dia.

Entre as muitas fugas, a mais longa foi feita no percurso Juiz de Fora, Belo Horizonte, São Paulo, Porto Alegre, Santa Maria e Chui, onde a fuga terminou e onde fui preso e transferido na mesma noite para Santa Maria e depois Porto Alegre, no Rio Grande do Sul.

Na capital gaúcha, fiquei preso mais de 30 dias, exatos 45 dias. No quartel da Polícia do Exército, num casarão velho no centro da capital, a carceragem tinha três celas, uma grande e duas de isolamento, castigo, nos fundos da cela maior. As duas celas não tinham latrina e nem água. Ali, isolado, era vigiado por um soldado suicida, preso na cela maior.

Foi a fuga em que perdi a parada. Incompetente para fugir. Capturado, iniciei uma outra arte, a arte para a sobrevivência, a arte da mentira, num jogo de gato e rato, onde teria que ser sempre o perdedor. Ganhar significaria morrer. Não poderia cometer a burrice da criança que quer ganhar todas, desde jogo de bola de gude, partida de futebol e a menina mais bonita do lugar.

Neste jogo de sobrevivência, onde a mentira tornar-se-ia uma arte, perder fazia parte essencial do jogo, assim ser capturado na mentira, perder, no jogo da investigação e da inteligência, também fazia parte da estratégia da sobrevivência no interrogatório. O policial tinha que apanhá-lo mentindo, era a jogada da “Mentira de Pernas-curtas”. A mentira de pernas-curtas tinha uma medida precisa, pois não se podia abusar da inteligência do outro.

No jogo de polícia e bandido, onde além de ser sempre o bandido, o derrotado, você também era um prisioneiro totalmente dominado e submetido ao poder policial do torturador, poder sem limites, poder sobre a sua própria vida e integridade física. Ele tanto podia te arrebentar, matá-lo, machucá-lo como podia esquecê-lo, sem água e comida, no fundo daquela micro-cela, sem nada, sem água, sem vaso sanitário, em meio a fezes e urina, suas próprias fezes, sua própria urina, dois, três dias, uma semana, trinta dias sem tomar banho, sem nenhuma higiene. O cheiro insuportável de si mesmo.


Ali, na cela da PE de Porto Alegre, da Polícia do Exército, do Exército Brasileiro, em um quartel que, tenho notícia, teria sido demolido, ao lado da escola de engenharia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, ali, naquela cela, cela de castigo, dentro de outra cela, ali, eu li um único livro, o livro que escolhi para me acompanhar aqueles 30 dias, o Ulysses, de James Joyce. Naquela cela, encontrei a salvação.

Aconselho, a quem quer ler uma grande obra, volumosa, intrigante, genial, como Ulysses, a experimentar este isolamento. Se possível, não em uma prisão. Muito menos em uma cela de castigo. Nem na da PE de Porto Alegre, no velho casarão. Ele não existe mais.

Ulysses de Joyce jamais será demolido, como não o foi por nenhuma tradução mundo afora, e é uma obra literária eterna.







quinta-feira, 20 de outubro de 2011

ANTES DE ULYSSES DE JOYCE



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Não era um álibi




Sete semanas antes da fuga 


para o sul



e antes da prisão


Para um leitor especial em Atlanta, Eua






Carolyne, uma mulher, uma mãe e duas filhas pequenas. Ela era ainda uma mulher exuberante e estarrecedora.


Tinha tudo, inteirona. Além da beleza, uma bunda corrigida e com peitos minúsculos, ela atraía pelo rosto, muito mais e sempre pelo sorriso cheio de dentes brancos. No pega pra ver, na cama, trazia para a cena as pernas “mais perigosas do que as curvas do rio Mucuri”.


Para Elton, nos seus primeiros dias de liberdade, aquela visão o extasiava. Uma mulher, a sua primeira mulher depois da prisão, era um monumento. Não acreditava e. para ter certeza de que aquilo tudo era verdade, não sabia se esfregava o rosto, se dava tapas na cara (Acorda, cara!) ou se fechava os olhos e ficava apenas no sonho. Tudo parecia um sonho como nas lições de La Barca.


- Ela é casada.


Era Marla e o seu alerta para as dificuldades que ele teria. Ela era casada. O marido, um médico alcoólatra, possessivo e, como todos eles, violento. Carolyne somente disse o seu nome quando voltavam do hotel para aquele encontro com Clóvis e Marla num bar em frente à Escola Técnica Federal. Um bar com mesas e reservados para casais.


Carolyne falava tão pouco que, naquelas semanas em que estiveram juntos, descobriria que ela tinha na cozinha o seu melhor recurso de comunicação. Pegue o sal. Pegue o óleo. Pegue o orégano. No final, pratos saborosos e o mais belo sorriso de alegria.


Não era a “sua mulher”. Não seria também. Nunca seria.


Tudo começa quando Clóvis soube que Elton, seu irmão, precisava de um despiste para reduzir a vigilância da polícia política e dos agentes do Exército e que permitisse sua fuga e volta, em segurança, para o Uruguai. Clóvis sugeriu um namoro firme.


- Porra, cara, com uma mulher casada?


- É uma mulher. Basta. Solteira poderia ser pior. E se essa mulher “solteira” pegasse no seu pé, estava triturado, irmão. E, não esqueça, você é um homem comprometido, tem uma mulher em Montevidéu.


O tempo era curto. Duas, três saídas com uma mulher, bastariam. A polícia não ficaria seguindo ninguém em hotéis, motéis, cinemas, bares e boates. Não tinham como saber, mas, com certeza, a vigilância diminuiria em pouco tempo.


A polícia seguia Elton. Sabiam que levava uma comunicação do professor Bayard Demarie Boiteaux a alguém. Estavam dando corda para o bote certo. A polícia se organizava para prender os dois, Elton seria a isca.


Elton e o professor, por sua vez, suspeitavam disso: que a polícia sabia e que ele seria uma isca. Não havia outra saída, tinham que correr o risco. A mensagem, codificada, seria transcrita para um papel e repassada, em Montevidéu para quem se incumbiria de, voltar ao Brasil, entrar em contato com um oficial do Exército, destinatário da mensagem.


O inesperado aconteceu, Elton e Carolyne não largavam um do outro. O namoro que seria de uma semana, duas no máximo já estava no final da terceira semana. Transavam o dia inteiro e a noite toda. Ela decidiu enfrentar o marido e se separar. Não falou nada para Elton.


Em um dos plantões do doutor, no apartamento da rua Guajajaras, o marido entrou pela porta da frente e Elton saiu pela porta da cozinha.


O risco de um marido violento era o caminho mais rápido para um crime passional e não havia porque colocar mais este ingrediente na sua passagem pelo Brasil. Assim, quando soube que Carolyne e as duas filhas sairiam do apartamento e se mudariam para outro na esquina da avenida Amazonas com a rua da Bahia, decidiu acompanhá-la na mudança. Tinha que ajudar aquela mulher, agora uma mulher frágil. E duas meninas, uma de seis e outra de 4 anos.


Quem definiu e bancou a mudança foi o pai de Carolyne. Até, então, Elton não sabia que apareceria um risco muito maior do que um marido e um médico bêbado. O pai de Carolyne, além de banqueiro, rico, poderoso, figura dominadora, valente, estava mais abalado com a separação da filha do que o marido. Mais, isto é que seria importante, andava sempre armado. Ela alertou para os riscos e controlava os horários do pai. Duas horas antes, com total margem de segurança, Elton saia.


Havia um outro detalhe que eles não sabiam, a neta contara ao avô sobre o tal do tio Elton.


Quando a campainha tocou em um horário diferente, Elton viu pelo olho mágico a cara vermelha do pai da Carolyne. Já estava bravo!


No novo apartamento, as portas da sala e da cozinha eram uma ao lado da outra. Não dava para sincronizar a entrada do pai e a sua saída. Não daria tempo. O recurso foi sair pela janela do quarto, ficar no balaústre. Dependurado no parapeito do lado de fora da janela, depois que Corol levasse o pai para o quarto das meninas, ele passaria para a sala e sairia.


Não contavam com a rua da Bahia e os seus edifícios de apartamento. Do lado de fora da janela, Elton descobriu o que eram aqueles quatro andares. Com as lojas e as sobre-lojas, mais a garagem, os quatro andares se transformam em oito andares. Descobriria também, tremendo, que jamais sobreviveria como equilibrista. E começou a tremer.


Descobriria, mais ainda, que a solidariedade pode ser desvantajosa. Apareceu o primeiro vizinho a apontar para ele do lado de fora da janela. “Não pule!” Outro: “Louco!” Não soube o que ouviu primeiro se foi “Cuidado” “Não pule” Ou se foi já, quase de imediato, a maior torcida da sua vida, e os gritos sacanas “Pule! Pule! Pule!” Pareciam centenas, centenas de caras a olhar, a gritar e a apontar. Um Mineirão na sua frente. Uma grande arquibancada de torcedores e quase que de um time só, o time que queria ver a tragédia e um corpo estatelado no chão.


Certo de que o pai de Carolyne chegaria na janela, não vacilou, pulou para a sala e conseguiu sair do apartamento pela escada. Não esperou nem o elevador. E antes de descer ainda teve a inteligência de subir dois andares. Dar um tempo e descer pelo elevador ao lado de um menino que perguntava para a mãe porque “um homem tinha suicidado”.


No táxi, ficou sabendo que um rapaz tentara suicidar e que o Corpo de Bombeiros já fora acionado.


- Carolyne não dá.


Isto era o que martelava na sua cabeça.


- Carolyne não dá.


No dia seguinte, um telefonema do hospital de pronto socorro.


- Sua mulher tentou suicídio.


Era Marla e ele via o rosto da Marla convicto “Não avisei?”


Com os dois pulsos enfaixados, ele a levou para a casa da sua mãe no Prado e depois para o hotel.


Debaixo do chuveiro, sem as faixas, ela ria do que fizera.


Depois, virou as costas para ensaboá-la. Ali ficaram, sentados debaixo da água até ela adormecer.










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sábado, 10 de setembro de 2011

NO QUARTEL DEMOLIDO

Com Ulysses e o capitão Lamarca


Para o companheiro que em Cruzeiro do Sul, no Acre, nos acompanhou silencioso



QUARTEL DA PE NO CENTRO HISTÓRICO DE PORTO ALEGRE





1.
Elton, 19 anos, estava preso há poucos dias. Do Chuí, na fronteira, para Santa Maria e depois para o quartel da Polícia do Exército, no centro histórico de Porto Alegre, nas proximidades da escola de engenharia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.


Situação delicada. Desde algum tempo, era uma prisão atrás da outra. A última foi no Quartel do Regimento de Obuses, no bairro de Benfica, em Juiz de Fora.


Elton chegou ao quartel em Porto Alegre à noite. O mesmo quartel de onde fugira o coronel Alfredo Daudt (*), em fuga tida como sensacional porque escapara pelo teto. Pelo teto? Ao entrar, uma construção histórica, hoje já demolida, olhei para o teto e o seu forro de madeira. Por ali, teria escapado o coronel, que conhecera em Montevidéu. Fácil? Provavelmente, sim. Com ajuda? Com toda a certeza.


2. Não posso dizer que nada dera certo na jornada de fuga do meu amigo Elton. Ele conseguira escapar de Belo Horizonte, onde era vigiado. Escapara para São Paulo e a fuga fora de ônibus. Até Porto Alegre, a jornada teve poucos momentos de tensão e tudo dera certo. Ia com minhas duas malas, uma cheia de livros, entre eles o Ulysses, de James Joyce.


Folheava o grosso volume entre uma parada e outra. O livro fora editado pela Civilização Brasileira, em tradução de Antônio Houais, que a partir de tantas palavras se tornou um dicionarista – acredito. De qualquer forma sempre se exaltou o mérito do tradutor.


Quando colocaram as suas malas diante dele – as duas apreendidas na rodoviária de Porto Alegre – o general provocou, pois permitiria que ele fosse para a cela com um único livro.


Escolheu o Ulysses.


- Vocês são uns loucos – e ele era louco na seu desejo de vingança contra Brizola e tudo o que pudesse ter relação, mesmo de conflito, com o líder exilado e, no exílio, condenado a viver em Atlântida, uma cidade distante da capital uruguaia.


A loucura que ele apontava em Elton correspondia à escolha do livro. Depois ironizou, “e vocês nos denunciam por torturá-los”.


Talvez, talvez, ele tivesse razão. Não foi assim – um destes talvez corresponderia a uma tendência masoquista de todo leitor, aqueles que deixam de viver para mergulhar em um mundo aberto pela imaginação das palavras. O general poderia, por aí, ter razão.


3.

A cela vazia era dividida em outras duas pequenas celas, estas não tinham nem água e nem privada. Eram as celas de castigo. Caso houvesse outros presos na cela maior, nenhuma comunicação física haveria entre os prisioneiros. A cela grande isolava as duas pequenas celas de dois metros por um metro cada. Celas dentro da cela maior.


Não tinha nenhum preso. Soube pelo general que não havia nenhuma acusação contra ele, Elton Domicano, e que, mesmo assim, fora decretada a prisão provisória por 30 dias, que poderiam ser prorrogada por mais 15 dias. Viria de São Paulo por um oficial para interrogá-lo. O oficial chegaria no dia seguinte.


O que eles queriam saber, eles já sabiam. Elton fugira de BH, depois de ser libertado da prisão em Juiz de Fora. Sabiam que ele tentara despistá-los em Minas, mas que teria, eles suspeitavam, uma missão no Uruguai para onde voltaria, com a desculpa de rever a noiva, também exilada com toda a sua família.


Suspeitavam que o professor Bayard Demarie Boiteaux , que fora secretário nacional do PSB e era apontado como líder do MNR (Movimento Nacionalista Revolucionário), ou o engenheiro Moysés Kupermann, o teriam incumbido de levar uma mensagem que, eles sabiam, que se existisse, seria uma mensagem codificada e poderia estar em alguns daqueles volumes.


“Mandarei o livro de Joyce para você depois dele ter sido examinado pelos nossos peritos”.


Recebi o livro dias depois e o general tinha, mais uma vez, a certeza de que eu seria “torturado”. (Seria a conclusão dos peritos?)

Ele riu. Um homem pequeno e enfezado, mas com humor.


“Pode rasgá-lo depois. Será a sua vingança”.



(*) Duas notas sobre este militar

Descanse em paz, Coronel Daudt


Morreu Alfredo Daudt, o capitão da Legalidade

O líder do PDT, deputado Miro Teixeira(RJ) registrou nesta quarta-feira(14),no plenário da Câmara, o falecimento do Coronel-Brigadeiro da Aeronáutica, Alfredo Daudt. O coronel faleceu hoje(14), aos 85 anos, em Porto Alegre. Como capitão, impediu o bombardeamento de Porto Alegre, durante a rebelião cívico-militar, a Campanha da Legalidade, liderada por Leonel Brizola, para assegurar a posse do Vice-Presidente constitucional João Goulart, em 1961. O Capitão Daudt soube da ordem partida do gabinete do Ministério da Guerra (Exército), assinada pelo então chefe de gabinete general Orlando Geisel ( o Ministro era o marechal Odylo Denys) e organizou um movimento com seus companheiros oficiais e sargentos para esvaziar os pneus dos aviões da Base Aérea de Canoas (próximo a Porto Alegre), de onde partiria a escotilha para promover o que poderia redundar numa carnificina. Na época,o país estava sobressaltado devido ao veto militar à posse de João Goulart, Vice-Presidente da República eleito pelo voto popular, em decorrência da renúncia inesperada do Presidente Jânio Quadros, sete meses depois de assumir o cargo. Leonel Brizola, que era governador do Rio Grande do Sul, liderou a rebelião que contou com a participação de todos os setores da sociedade, incluindo o comandante do III Exército. Alfredo Ribeiro Daudt foi o grande herói da Legalidade, mas pagou um preço alto pela ousadia. Quando ocorreu o golpe militar de 1964, o capitão foi preso e torturado e depois obrigado a exilar-se no Uruguai, onde também se exilara Brizola. Com a anistia, ele foi reintegrado na Aeronáutica, no posto de Coronel-Brigadeiro, mas sua indenização não foi paga até hoje. Ele era casado com Doris Daudt, cuja filha Nereida Daudt casou com José Vicente, filho de Leonel Brizola, de cujo matrimônio nasceu o atual deputado federal Brizola Neto (PDT-RJ).









Pompeo presta homenagem ao Coronel Alfredo Daudt

15/03/2007 ” O deputado Pompeo de Mattos registrou hoje em sessão plenária o pesar pelo falecimentodo do Coronel-Brigadeiro da Aeronáutica, Alfredo Daudt, que entrou para história do Rio Grande do Sul por impedir o bombardeio de Porto Alegre, durante a Campanha da Legalidade, liderada por Leonel Brizola.

Pompeo ressaltou em seu discurso a essencial intervenção do Coronel Daudt para assegurar a posse do Vice-Presidente constitucional João Goulart, em 1961. “O, na época, Capitão Daudt soube da ordem partida do gabinete do Ministério da Guerra (Exército), assinada pelo então chefe de gabinete general Orlando Geisel (o Ministro era o marechal Odylo Denys) e organizou um movimento com seus companheiros oficiais e sargentos para esvaziar os pneus dos aviões da Base Aérea de Canoas (próximo a Porto Alegre), de onde partiria a escotilha para promover o que poderia redundar numa carnificina.”

“Com o golpe militar de 1964, a ousadia do Corone Daudt acabou custando caro, foi obrigado a exilar-se no Uruguai juntamente com Leonel Brizola, e mais tarde com a anistia, foi reintegrado na Aeronáutica, no posto de Coronel-Brigadeiro”, relatou Pompeo.

Mais informações sobre Daudt

http://sul21.com.br/jornal/2011/08/movimento-dos-sargentos-da-fab-foi-reforcado-pela-figura-de-um-capitao/