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quarta-feira, 21 de agosto de 2019

ENCONTRO MARCADO






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Os demônios, nossos deuses

Os deuses, nossos demônios


Rufino Fialho Filho




1.

Os gregos tinham seus demônios e seus deuses bons. Foi para o seu demônio a última oferta e a última palavra de Sócrates. Uma palavra bem humorada, que não amoleceu nem o coração do carrasco e nem o coração do demônio. Com seu demônio, Sócrates quis dividir o veneno; só que a cicuta vinha na medida certa. Não foi daquela vez, com Sócrates, que um demônio ou um deus morreria envenenado.

2.

Os demônios têm sido bons parceiros dos homens e os acompanham em seus medos e em suas falcatruas.

3.

Os demônios estão aí como uma face do homem, como a outra face, como a face má, uma face também verdadeira e os demônios são muitos, versáteis como os próprios homens e tão imortais quanto os seus antípodas.

Na crônica de Machado de Assis, A Igreja do Diabo, o final do diálogo de deus com o diabo é a lição da compreensão divina.

O diabo voa até deus "... trêmulo de raiva, ansioso de conhecer a causa secreta de tão singular fenômeno - os homens traem o diabo e escondidos praticam a virtude, mas não abandonam a Igreja do Diabo

 — Que queres tu, meu pobre Diabo? As capas de algodão têm agora franjas de seda, como as de veludo tiveram franjas de algodão. Que queres tu? É a eterna contradição humana."

4.

Os exorcistas conhecem bem mais de homens do que de demônios e falam diretamente à alma dos endemoniados, dos homens.

5.

Demônios são como as cobras, vence quem vê primeiro. Dizem os caçadores de cobras e os seus encantadores, que o perigo está na aproximação: quem se aproximar da cobra e surpreendê-la, vê-la, antes de ser visto por ela, a dominará; quem for visto primeiro pela cobra, será sua vítima e ela virá pela frente, por trás, pelos lados, como por cima. De cima, é fatal. Quem vê primeiro, vence. O homem ou a cobra. Assim, com o demônio. O homem ou o demônio.

6.

Qual o papel do demônio na alma humana? Por que o homem sempre precisou do demônio?

7.

Demônio e punição, demônio e consciência, demônio e pecado, demônio e culpa, enfim, qual o papel do demônio no Tribunal da Razão, na consciência coletiva e individual?

8.

Cérbero, o cachorro com três cabeças e chifres, policia a porta do inferno. Para que? A entrada e a saída é liberada para todos anjos, santos, deuses e demônios.

9.

A única explicação que o povo de Itambacuri, no Vale do Mucuri, tinha para a imensa fortuna de Horácio Luz era que ele tinha um demônio serviçal preso em uma garrafa. Quando Horácio Luz morreu baleado em um conflito de terra, suas propriedade foram viradas de pernas pro ar com o povo à procura do diabo engarrafado.

10.
A Lenda do Diabinho da Garrafa

O Diabinho da Garrafa também é conhecido como Famaliá, Cramulhão, Capeta da Garrafa, entre outros nomes.
Este ser é fruto de um pacto que as pessoas afirmam que se pode fazer com o diabo. Este pacto consiste na maioria das vezes de uma troca, a pessoa pede riqueza e em troca dá sua alma ao diabo.
Depois de feito o pacto, a pessoa tem que conseguir um ovo, que dele nascerá um diabinho de 15 cm a aproximadamente 20 cm. Mas não se trata de um simples ovo de galinha, e sim um ovo especial, fecundado pelo próprio diabo.
O Diabinho da Garrafa tem as seguintes características: Nasce de um ovo (em algumas regiões do Brasil acredita-se que ele pode nascer de uma galinha fecundada pelo diabo, em outras acreditam que ele nasce de um ovo colocado não por galinha e sim por um galo). Este ovo seria do tamanho de um ovo de codorna.
Para conseguir tal ovo, a pessoa deve procurá-lo durante o período da quaresma, e na primeira sexta feira após conseguir o ovo, a pessoa vai até uma encruzilhada, a meia noite, com o ovo debaixo do braço esquerdo. Após passar o horário, retorna para casa e deita-se na cama. No fim de 40 dias aproximadamente, o ovo é chocado e nascerá o diabinho; de posse do diabinho, a pessoa coloca-o logo na garrafa e fecha bem fechado. Com o passar dos anos, o diabinho enriquece o seu dono, e no final da vida leva a pessoa para o inferno.











terça-feira, 29 de janeiro de 2019

TODAS AS MARGENS POSSÍVEIS








Até a mulher, 


até o rio 


e até o amor




 Carlos Duarte de Albuquerque





-         Senti que minha pele se tornou 

um musgo tenso e nervoso

desses que vivem junto às poças


Eu próprio, parede sombria




Para se chegar até mim 

seria preciso deixar o sol

penetrar a umidade

Quem me ama faz analogias 

com um vestido de tafetá

Meu presente da natal para ela





- Eu um lugar no mundo

preciso e identificado

habitante de um espaço

e o próprio espaço habitado




Espaço animado e sombrio

triste e vagabundo, alegre e sem brios

vieram me dialogar, numerar

distribuir-me perigosos para todo o país




Quais são as suas propriedades?

Tudo porque sou um dos poucos



- Senti e percebi ao tocar-me: 

o sol saia de mim

Meu corpo perdido, 

sem espaço, 

luz-objetivo



Eu iria chegar até aquele milharal,

fazê-lo brotar

Restar-me como energia do milho



-  Percebi muito mais

Por exemplo, 

vi por trás

de um sorriso

a grande tristeza bronzeada




-  Veio o mar bater na parede da casa

em que durmo. 

Atreveu-se a aproximar-se

da minha rede, levantei e dei-lhe um

chutão.






O covarde com medo correu

juntou-se aos outros mares.

Com medo do medo do mar,

apanhei minha rede e fui

estender-me mais distante.




Vejamos agora.






-   Deixei a toalha secando na areia,


o mar levou




Deixei a menina queimando na areia


... não, não foi o mar quem levou


(Sei quem foi)





Deixei meus sonhos amontoados 

na barraca na areia,

brisa levou, 

sonho por sonho, 

grão por grão






- Praia de Macapá

pequenininha.

Do tamanho, não maior,

da babaca de Graça



-   No meio do rio

a maresia

joga para o alto

joga para o alto

a canoa/ a gente




de repente a canoa da frente

se alia ao rio, 

traiçoeira, 

joga para o alto

joga gente para o alto

joga para dentro do rio





Pressa,

gritos,

braçadas.

Tirem da água

a mulher aflita

e o filho morto

preso no abraço

amoroso e pavoroso



Sobem a mulher e o desespero



Até hoje, não sei

se a mulher chorou

se eu chorei

se todos choraram




A mulher olhou infinitamente para o rio

(e mergulhou em outras margens)









quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

TUDO VIRA FILME



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Todas as corridas são possíveis




Na memória do menino


Astolfo Soares Dutra



Busco entender o meu pai. Busco com muita angústia entendê-lo e para mim sempre foi difícil. Eu não consigo. Eu não conheço o meu pai. Quando penso na nossa convivência, vou lá na infância e capto-o no seu gabinete dentário, na avenida Getúlio Vargas, a principal avenida da cidade.

Em meio àquela parafernália de equipamentos, sua cadeira de dentista, seu equipamento de raio-x e a pequena e impressionante salinha onde trabalhava com próteses. O cheiro do material químico e a própria prótese atraiam-me a imaginação. Via o que, em meio a toda aquela quantidade de massas, moldes, misturas, saia dali.

Era o meu encanto e mais tarde a história da palavra protético seduziu-me mais ainda. A palavra e o deus, Proteu, todas as possibilidades e mistérios das mudanças e das mutações.

Nunca ser o mesmo e o que foi ser a perfeição – a prótese.

Sempre ouvia as pessoas conversarem sobre as dentaduras feitas pelo meu pai. Elogios ao seu trabalho profissional. Deixavam-me orgulhoso. Suas dentaduras eram perfeitas e duradouras.

No seu mundo, no gabinete dentário, ele era perfeito e competente segundo o povo da cidade.

Muitos exaltavam o seu pioneirismo, contavam a longa e complicada história da vinda do aparelho de raio-x, adquirido na década de 1930 da Alemanha, bem antes da guerra.

A Colônia Alemã de Teófilo Otoni divulgava os feitos industriais e tecnológicos. O equipamento ocupava grande parte da sala. Era a prova real da competência e do pioneirismo do povo alemão, em franca recuperação depois da 1ª. Grande Guerra.

Depois de ter abandonado a sua profissão para se dedicar por algumas décadas à política, ele volta ao consultório.

Uma volta que o fez também retornar aos bancos universitários para atualizar e conhecer os avanços tecnológicos da odontologia.

Outra vez, ali estava ele trabalhando com a mesma desenvoltura e afinco. Era a década de 1960, a política mudara com a chegada dos militares ao poder. 

Antes, dedicou-se como fazendeiro e líder ruralista.

O garimpo o atraiu, mas soube se afastar das catas na hora certa. 

Ora o encontrava, com mais coleções de lances de pioneirismo.

À frente da liderança dos fazendeiros criou a associação rural, cooperativas. Trouxe para a cidade especialistas formados nas universidades agrárias – lembro-me dos primeiros agrônomos e veterinários.

Sua grande obra com o amigo Meusinho Gazinelli: o parque de exposições da Pampulhinha, em Teófilo Otoni.

Em Pavão, onde ficava a nossa fazenda, ele implantou, mais uma vez pioneiro, a luz elétrica com um gerador a querosene.

Na fazenda, construiu seu primeiro laticínio da região. Em Teófilo Otoni, participou da criação do Frimusa, Frigorífico do Mucuri SA. 

Espreitando-o, observava-o nas discussões políticas – e procurava entender as intervenções preocupadas da minha mãe. Por que a política era tão complexa para as pessoas? O que a política tinha de diferente? Era a década de 50 e eu procurava o meu pai. 

Minha mãe também.

“A política é madrasta. É do céu ao inferno, sem purgatório”.

Não entendia a oposição à política e registrava a resistência das famílias.

Hoje, quando me pergunto sobre a paixão daquelas viagens para a fazenda, quando viajávamos de jeep, esqueço do meu tormento, do meu grande sofrimento e desespero.

Viagens sofridas, para mim. Muitas vezes não acreditava que chegaria ao seu fim vivo, tão mal passava. Vomitava tudo. Todos os cheiros eram insuportáveis, principalmente os cheiros do jeep, da gasolina, do óleo, o cheiro da poeira, das roupas.

Todos os cheiros provocavam o mal estar e, mesmo assim, era uma grande aventura.

Um passeio para meus pais e minhas irmãs. Uma grande batalha para mim. Uma batalha para superar-me, uma luta e só resistência. Uma aventura no estômago e na memória dos cheiros. Até mesmo o cheiro do vômito provocava-me vômito. Ficava feliz quando passava a vomitar bílis. Agora não tinha mais nada para vomitar, pensava. 

Engano, o estado de angústia e de sofrimento continuava. Buscava na imaginação uma saída para tão poderoso mal estar, buscava na paisagem. De repente, a paisagem provocava o vômito. Deveria olhar sempre para a frente. Era a opinião de todos que não vomitavam:  Nunca, jamais, olhar para os lados ou para trás.

- Olhe sempre para frente, menino.

Verdadeiras empreitadas, viagens de 80 quilômetros eram feitas, em condições normais, em torno de 10/12 horas. Na época de chuva duravam três dias. A travessia de rios e riachos eram lutas travadas com cordas, amarrações e balsas.

Meu pai alegre e animado, em conversas demoradas, curtia cada minuto e não se incomodava com a demora. Nem demonstrava cansaço.

Era o doutor Tito. 

Alegre, observava como as pessoas gostavam de conversar e ouvir o doutor Tito.

Mais tarde, ao ser chamado a atenção por Bá, um amigo de infância, sobre o tratamento que eu dava ao meu pai, o que mais me impressionou na sua argumentação foi a segurança e o tom da afirmativa categórica com que ele disse:

-         Seu pai é um homem bom.

Um homem bom.

Eu não o olhava por aí. Ser bom, na minha cabeça, estaria na mesma ordem do que ser honesto, ser verdadeiro. Ninguém deveria procurar ser bom. Ser bom, honesto, verdadeiro deveria ser o natural da pessoa.

Ele era um homem bom, sim. Isto deveria ser o natural seu, atributo inerente ao ser e ao viver, eu jamais me questionei se deveria ou não ser bom, ser uma pessoa boa, solidária, amiga. Para mim, todos os homens são bons,

Bá era um homem bom. Seu pai, um homem que eu admirava e que vivia viajando no trabalho para sustentar a família, para mim também era um homem bom.

Quem era mesmo o meu pai?

Descobria assim uma e outra faceta dele e o menino sempre de atalaia observando, provocando. A minha grande aventura foi quando nós dois fomos sozinhos para a fazenda e tive o meu primeiro choque: a galinha.

Chegáramos esfomeados e vínhamos falando (todos eles falavam)  da galinha preparada pela dona Jandira, a cozinheira. O tempero de dona Jandira pontuava os assuntos.

Naquele dia, a viagem foi rápida. Chegamos à tarde, dia de sol, céu azul. Jandira trouxe a galinha. Comi a galinha quase toda.

Quando pai chegou para jantar foi aquela bronca, uma senhora bronca. Dona Jandira ria e serviu uma galinhada para mais dez homens.

- Fiz maldade com o menino.

Dona Jandira explicava.A minha fome não fora saciada. Não acabaria

- Veja a cara dele. Fome para devorar um boi.

Dona Jandira ria e repetia... um boi.

Este episódio marcou-me, pois nossa mesa sempre fora farta. Principalmente na fazenda. Jamais se discutira por causa de comida e sempre comêramos à vontade e com fartura... ainda mais galinha.

Ainda nesta fase, outra surpresa com o pai brincalhão e debochado.

Procurava informações sobre cinema e uma das correspondências sobre um curso de cinema acabou entregue pelo correio na sede da associação rural e caiu na mão do presidente da Associação Rural de Teófilo Otoni.

Pai estendeu-me a correspondência e debochou.

“Quer fazer cinema?”  

Fiquei triste. Será que ele não gostava de cinema? Não conseguia entender isto e não acreditava que fosse possível.

Na paixão pelo cinema, acompanhava a programação das três casas da cidade, o Cine Metrópole, o Cine Vitória e o Cine Poeira.

Para assistir às sessões do Poeira contava com a proteção e a cumplicidade de Durvalina, a ajudante de cozinha.

Ela também sabia da minha fome.

- Conte a história.

Durvalina, escondida da minha mãe, me deixava no cinema. Esperava do lado de fora. Depois, gostava de ouvir contar os filmes. E em seus olhos, ela assistia mais uma sessão de cinema ouvindo o menino, um apaixonado para uma apaixonada.












quinta-feira, 26 de abril de 2018

NO GUAMÁ E EM MARZAGÃO





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1969
Vinte anos, jovem
Trinta anos, velho

 Rufino Filaho Filho



Estes sãos pequenos episódios e pequenos escritos de dois rapazes metidos a jornalistas e a revolucionários que naqueles anos bateram asas e foram para o calor do Norte Maravilha.

Derrotados no sul maravilha e nas terras de castanhais às margens do rio Guamá, eles foram (escaparam) para o norte, para voltar a lutar e para insistir em escrever.

Ewerton formou em química, mas escrevia e seria jornalista. Primeira função: editar o jornal dos padres.

Tor mudou de nome e se intitulou Riama Oiticica. Riama por drama, Oititicica por amor à luta do linguista, como a dizer, “pois é, você que lutou, a luta continua comigo vestindo tuas palavras”.

Tor tinha alguma experiência dos anos de 65 e 66. Mexeu na história e suas angústias e dúvidas ainda andavam travadas e encalacradas na garganta.

Ewerton mostraria do que era capaz. Era capaz de escrever críticas de cinema e triste com a idade. Formou já velho, segundo ele.

Chegaria de novo no norte, iria até a casa de madeira do velho pai, pai de grande quantidade de filhos. Um pai agora enfezado, parado, mastigado dentro de um quarto, sem pernas para sair, andar e viver. Para ele viver era andar, viver não era ouvir rádio de dia, de tarde e de noite.

Viver era entrar nas matas, cortar pau, tirar borracha, caçar, rasgar o rio com o corpo e os braços. O velho tava lá, não era misterioso.

Vida comum e igual às vidas dos homens que viveram no Acre, que pelas matas trabalharam, que saíram do Acre, que foram desembocar suas vidas antes do mar, nas terras limpas e de sol da cidade de mangues, Macapá.

Ewerton seguiu na frente. Em Macapá, era o editor do jornal semanário. Para Riama reservava-se o lugar de diretor da rádio, repórter e para os dois um faz-tudo na rádio e no jornal. Para eles se reservava a aventura. Sempre.

Os padres tinham força e dinheiro. Tinham boas construções. O prédio imenso do seminário estava vazio. Era uma prova do adeus às vocações. Estava lá, silencioso o bastante para acolher os bandidos. Um labirinto. A cada dia descobria novas coisas.

Quando o táxi parou numa das portas, ficou sem saber por onde entrar. Abriu uma porta, ninguém. Abriu outra, ninguém.

Ouviu vozes,  encostou na janela. Era uma aula de rádio-técnico. Cinco alunos, nenhum professor.

Ali mesmo naquele prédio do antigo seminário sem vocações funcionava a gráfica. Duas linotipos. Uma estragada. A outra, último modelo, vindo da Itália. Doação, como tudo ali. Como os alimentos, tudo do melhor, tudo vindo de fora e doado.

Migalhas fartas. Mas não havia café. Aparecia, mas sempre sumia. E Riama não gostou. Nosso personagem era viciado. De manhã, a boca e o paladar se preparavam para o café e se frustravam.

Outros sabores vinham substituir o café, o açaí vinha à tardinha, depois do sono. Os refrigerantes, doces e um pão imenso com carne às 10 horas.

Dum lado, os padres providenciaram o escritório onde funcionaria a editoria, a redação e tudo o que dissesse respeito ao jornal.

Ao lado, no depósito de papel, colocaram as nossas redes e seus mosquiteiros, que nunca nos livraram dos carapanãs, capazes de vencer mosquiteiros e redes em direção ao sangue, ao nosso sangue.

As janelas eram protegidas dos mosquitos com telas. Riama não gostava das telas e nem dos mosquitos. A proteção das telas era precária. Por onde conseguiam passar tantos mosquitos. Passavam e eram muitos.

No andar de cima ficavam os quartos de padre Antônio, xô padre Gustavo e do padre Bertoldo. Este era o diabo. Seu quarto era como uma guarita, ele ficava de olho em tudo. Suas luzes estavam sempre acesas e o padre vivia ligado em óperas.

No centro da cidade, ao lado da Igreja-matriz de São José, funcionava a impressora da gráfica, uma impressora plana, trabalhava para o jornal de Macapá e o jornal de Belém. Os padres colocaram tudo aquilo nas mãos dos dois. Eles tinham absoluta confiança em Ewerton e com razão. No que se refere à honestidade. Tudo certo. Mas também era esta a única preocupação deles.

Os dois, Elso e Riama, tinham planos ambiciosos. Queriam fazer um bom trabalho profissionalmente. E o fizeram no pouco tempo que ali ficaram.

Ewerton com o seu silêncio ia cavacando as pessoas, ele era baixo, magro de raiva e de fome mesmo, direto em suas palavras e de poucos amigos.

Seu orgulho de sua gente era o orgulho dos infelizes e dos famintos, como se estivessem a dizer, “parem de nos jogar esmolas, somos capazes de construir mil sonhos só para debochar de todos os exploradores do mundo”.

Ali estávamos por uma opção de luta. Saíamos ou escapávamos do fracasso das lutas nas terras dos castanhais e dos posseiros.

E a escassez do café? Isto não entrava nas nossas cabeças de Riama. Não estamos no país do café? Aquela mesma situação se repetiria em Marajó. Cadê o leite, não estava numa região leiteira? Tudo ia pra fora. É trágico você produzir os alimentos e morrer de fome.

Riama sentou na máquina e escreveu um dos seus primeiro artigos, foi sobre sobre o drama do café em Macapá.

I

“Sem café, sem o cafezinho no balcão



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Riama Oiticica

Problema nosso. De manhã passamos sem o cafezinho. À tarde a mesma coisa. Não há uma boca de pito, eu não fumo, mas penso nos que fumam.

O estimulante de 10 centavos sumiu e eu me desestimulo porque sou viciado e dependente da cafeína. No balcão, necas. Não há nada, nem cheiro, nem restos.

No rádio e pelas propagandas sabemos que lá no sul, do outro lado do mundo, tem o café. Lá as coisas são diferentes. Há propaganda e há café. Aqui ouvimos e entendemos a propaganda como uma piada de mau gosto. A gente ouve a propaganda e discute apenas a técnica publicitária. O resto não importa. Será que tão vendendo a imagem? Há por lá escassez de ideias e de técnicas...

A publicidade deve buscar o cômico, o irônico e fazer sempre associações primárias...

Vamos pensar em como viver em nossa amizade sem o produto – cafezinho...

Balcão, não se esqueçam, é também uma questão de saber distribuir.

O líquido preto, estimulante da nossa burocracia e que não falta em nenhuma repartição pública, é o grande regulador da nossa vida. Somos os consumidores. Eis o diabo.
        
Imagino numa tarde brumosa, lá onde fazem estes dias assim, uma sala, toda ela bem mobiliada, onde as peças de madeira são de jacarandá, com toda a sua escura seriedade, homens e poltronas em gestos agasalhados por tapetes e cortinas, discutem.

Discutem o destino do cafezinho e sua colocação no mercado. É um assunto que envolve a segurança nacional, por isso há fios espiões trabalhando na sala por baixo dos tapetes.

De repente a decisão. Na extremidade da mesa, ergue-se a voz pesada, o dirigente de reunião tem que ter voz pesada, moldadas em cursos preparatórios de como liderar e dirigir reuniões.

Voz  taxativa, anuncia que não haverá café em Macapá, mercado pequeno, pouca ou quase nenhuma capacidade aquisitiva. Eu penso nas variações das letras da sigla IBC e penso nos imbecis que como eu mamam na égua.

Somos escravos do 1o produtor mundial de café.

Topo com um cara e conversamos sobre um monte de coisas. Ao pé do ouvido, ele me diz que conseguiu um quilo

-      Roubou?

-    Nada, nada disso.

-      Contrabando?
-    Anh-anh, negativo.

-      Como?

-      Com os funcionários.

O café é um produto tipicamente burocrático. De repartição em repartição.. Passei a frequentar mais assiduamente as repartições. Tai o segredo. Mas a coisa é vexamosa. Embora viciado em cafeína, sou viciado em dignidades.

Passei a estocar sonhos e me diverti.

Pois, estamos diante agora da incrível mentira da verdade.

Saboreio meu uísque cotidiano, pergunto pela capacidade aquisitiva, pelo salário de miséria, pois não ganho nada, mas sonho em dar um tombo e fugir com milhões para ter o meu jipe e as estradas. Quais são os segredos da economia? Dar, sempre dar grandes tombos. Treino para ser um Ford. No nosso pequeno jantar da manhã, introduzi o uísque.

Foi fácil, fácil.

Transferi o balcão para o cais do porto.

                                                                  Julho de 1969




Pausa no voo






O pequeno jato da Cruzeiro do Sul (*) sobrevoa a ilha de Marajó. Eu estou num dos primeiros lugares do aparelho e entre os meus livros, eu levava um pequeno revólver calibre 22, de sete tiros. Estava ali ao meu lado, junto com dois livros, numa bolsa a tiracolo e eu pensava no meu atrevimento ou irresponsabilidade em ter entrado no aparelho, numa época de sequestros com aquela arma.

Na alfândega, a moça que fez a revista em minha bolsa, sorriu, levantou os livros, apalpou a camisa em que estava enrolado o revólver – não tremi nem nada – e me mandou seguir.

Passei e aquilo ficou como um teste na segurança dos voos. Agora no aparelho, olhava para aquele avião cheio, com umas quarenta pessoas a bordo.

O avião saiu de Belém às 9 horas. Faria escala em Macapá e depois seguiria para a Guiana Francesa. Voo internacional, daí termos passado pela alfândega em Belém.

Ali ninguém levava contrabando, certamente. O mar era maior e mais seguro. Para mim aquele ambiente era o de um ônibus da linha Teófilo Otoni-Pavão nos tempos da minha meninice. Ônibus lotado, cheio de roupas coloridas. Faltavam os engradados de galinha, os sacos de arroz e as bagagens amontoadas sobre o teto e sobre as pessoas. Pouco para aquele jato tornar-se um ônibus do Mucuri.

Adiante, Macapá. O rio Amazonas dava o seu espetáculo de barro e de penetrações na terra. Era o verde e o barro marrom. Na nossa frente depois de um grande mangue, pintou cheia de sol e colorida a cidade plana e de ruas traçadas. Tudo bem comportadinho.

O prédio maior, moderno era o colégio do território. Eu não tinha dinheiro para voltar. Tinha, portanto, como uma necessidade imperiosa, encontrar o Ewerton. Era uma viagem sem volta. Ninguém joga no escuro. As atividades no Guamá cessaram.

Quem queria ser Che Guevara, desistiu. Todas as informações passadas para a frente eram falsas. E eu me entristeci em estar ali checando isto, mas não tinha jeito mesmo. Tudo falso. E agora? O que hacer? Outra forma de luta, outra estratégia e a luta continuaria.

Os sequestros com destino a Havana, Cuba

O primeiro sequestro no Norte aconteceu em julho de 1970, com um jato da Cruzeiro do Sul, que transportava 63 pessoas. 

Em Caiena foram liberados 40 passageiros, o restante em Georgetown, depois de várias escalas chegaram em Havana. O sequestrador de 20 anos ameaçou  explodir o avião com uma bomba de nitroglicerina.

50 anos depois, este fato ainda era registrado na primeira página da Folha de São Paulo, edição de domingo 05 de julho de 1970.

(*) Cruzeiro do Sul - Caravelle 6R -  De 1968 a 1972 sete aeronaves deste modelo operaram no Brasil. Caravelle foi o primeiro jato operado pelo Cruzeiro. Este modelo permaneceu em operação até a empresa ser comprada pela Varig que o substituiu pelo Boeing 727.




II



Bom dia, senhor Governador




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Riama Oiticica

Décadas passadas, vivendo do garimpo a família Álvaro Campos Mostarda além do chefe e da sua mulher era integrada por alguns animais domésticos, as ferramentas da lavoura, a cartucheira.

Esta cartucheira tinha sua história. Adquirida quando em sua juventude Álvaro planejava ditar a lei e a ordem para tudo o que fosse vivo. Ditar a lei, para ele, era o poder de decidir sobre as vidas, isto é, matar.

Do casamento de Álvaro não nasceu nada. Com o tempo, ele abdicou de seus reais e imperiosos intuitos ditatoriais. No rancho, os pássaros sabiam do gênio do humano.

 Terminado o trabalho do cascalho ou quando vinham as águas da enchente,  os pássaros e seu Álvaro batiam as asas para o seco.

No gênio humano de seu Álvaro,  o cascalho e as enchentes se integravam para todos os afazeres e para todas as suas emoções.

Assim, um dia ele foi surpreendido esperando e sonhado com a enchente. Ele não trabalhava no garimpo e dormia em casa. Sua mulher já acostumou a isso. Sua casa era o outro garimpo a surpreendê-lo com as mais belas joias do corpo feminino.

Com o tempo, a mulher passou a gostar mais do grande e emocionante rio do que do marido.

O rio descansava e tornava o sol um ser fácil de domar. Entre o sol e o rio, ela segredava sua pureza e sensualidade.

Tomava banho com a roupa do corpo, que era pouco e que se lavava no corpo e se secava no corpo, com o calor do sol e do corpo.

O vestido conservava por algum tempo aquela sensação de frio e calor provocados pelo vento e pelo sol, que brincavam com seu pelo.

Com as sua canoa, enquanto o marido dormia na margem, depois da comida, ela perseguia o rio procurando paisagens. Ah, se não fossem estes passeios! Naquela paisagem jamais teria nascido o nosso personagem. E ele veio gordo e bonito, sempre sorrindo, sempre chorando.

Álvaro quis que seu filho estudasse, fosse inteligente e um dia quem sabe fosse o senhor-governador deste imenso rio, que ditasse as leis, com a sua cartucheira, que estava encostada, enferrujada e sem munição.

Na hora do registro, uma mistura de sonho e profecia. Humilhado em seus impulsos ditatoriais perante a figura barbada e careca do escrivão, Álvaro se confundiu, trocou sonho por sonho e registrou seu filho pelo futuro.

Do escrivão para a pia batismal, a confirmação do homem daquele embrulho sujo, sempre sujo e sempre chorão: Senhor-Governador.

Nós dois, eu e o Senhor-Governador nos conhecemos na escola. Amigos, na apresentação.

Em mim,  a birra contra as autoridades estava na alma garimpeira. Ele já era prepotente. Num passeio, ele quis me convocar para seu secretariado e contou-me os seus planos.

Ser autoridade, moralizar o serviço público e servir à nação, conduzindo com ordem e sem divergências o Estado Nacional em direção a um futuro de progresso e trabalho.

Nasceria assim a Nação-operosa. Dias depois, declaramos guerra. Era uma guerra de olhares e vigilância. Ele querendo a todo custo destruir a crítica, que por sinal, mais tarde viria a jogar por terra um pouco do barro e da lama que o sustentavam.

De minha birra era a atenção e a vigilância, pois temos que vigiar dia e noite a ação dos homens que estão no poder, condenar sempre os seus erros. Expulsá-los e cassá-los.

Conhecendo a intimidade do meu amigo o Senhor-Governador, esperei eu ele acordasse hoje para um entendimento.

-      Bom dia, Senhor-Governador. Indiferente e impassível, ele era a própria autoridade. Seu bom dia para mim foi um muxoxo. Meia hora depois, depois do café, dos jornais e do xixi, ele olhou para mim e me disse:

-      Bom dia, senhor Riama. O que queres de mim?

-      Nada.
         
-      Nada?

-      Nada?

-      Apenas, dizer-lhe, bom dia, Senhor-Governador.









A marmita e a menina


O padre Bertoldo era o nosso vigia. Atento e a par a tudo. Olhos e ouvidos abertos para o que era escrito e falado. 

Assumiu como sua tarefa impedir que, nas horas mais escuras, qualquer um de nós seduzisse e as meninas da cidade. Tinha convicção de que isto aconteceria. Mais certeza ainda de que evitaria.

A luz do seu quarto no andar superior do prédio era a proteção da cidade. 

Nossa chegada deu mais entusiasmo à sua vida. Para ele, éramos os seus mais perigosos inimigos.

Ele nos contratou para sermos seus inimigos. Nós não assinamos como parte interessada este contrato. Nem o distrato.

Arranjaram uma marmita. 

Entre 11 e meio dia, uma menina magra e morena trazia para Ambrósio a marmita.

          A marmita e ela