sábado, 25 de setembro de 2010

A VIDA EDITADA

Como um jogo de xadrez






Esta estranha sensação em que não se consegue ficar mais em lugar nenhum, em todos os lugares em que se chega. É imediata a vontade de sair.



Ele sai por toda a cidade, sonhando em chegar na caverna, no seu esconderijo, onde, ultimamente, se sente melhor, sozinho. E mesmo ali não consegue ficar mais do que alguns minutos.



Sai para a casa paterna, na casa paterna é difícil quase impossível ficar, já pensa em ir para a casa dos filhos. Na casa dos filhos pensa em ir para a casa da Pula, na casa da Pula é pular e sair.



Sair para a rua, onde o que mais faz é caminhar, caminha, caminha e já queres ir para outro lugar, deste outro lugar já pensas em ir para o Tribunal, no Tribunal em ir para a editora, da editora em ir para a caverna, para o esconderijo. Em lugar nenhum sentes bem, não se sentes bem com o ar, com a terra, com o mundo, com este mundo. Sentir bem? Não é bem isto. É a sensação do exílio e só sabe que um dia foi estrangeiro – pode-se ser estrangeiro até em sua cidade natal. É a sensação da prisão, dos limites físicos da cela – de onde dificilmente escapas nem mesmo com a mais fértil imaginação; a não ser pela própria fuga (um direito de todo homem preso).



Então por que não fazes outro mundo? O que o impede? O que o impossibilita?



Fazer um outro mundo exige apenas criatividade - só.



Às vezes ser criativo é cansativo. Se os instrumentos da criatividade se limitarem às palavras, ah!, então, é, como assegura-nos Balzac, “escrever é mais difícil do que conduzir exércitos na mais grandiosa das batalhas de Napoleão”.



Observe as pessoas que escrevem. Observe os escritores de histórias infantis, os poetas, os romancistas que passam pelas editoras.



Chega um senhor, já velho, quase morto, cansado, trazendo um livro pronto, é o seu livro - apanhe este porque ele não é um escritor profissional.



Hoje, temos escritores com 27 anos e 31 livros, alguns de grande vendagem em todo o País.



Este senhor que carrega sua história tem do livro outra dimensão. Se decidiu-se sair de casa, com aquele calhamaço debaixo do braço, chega certo de que tem o livro, o seu livro, concluído.



O que é um livro para ele? Um bem precioso. Suas palavras, com toda a certeza, foram garimpadas, não estão entrando de qualquer jeito nas frases e as frases foram escritas mil vezes, desde que ele muito jovem, anotava, num pedaço de papel, em qualquer pedaço de papel, suas histórias, suas reflexões.



O que está anotado no livro tem vida e é verdade. É a sua verdade, mesmo aqueles casos estranhos, contados a ele por pessoas de credibilidade, às vezes, nem tanto, mas são histórias cheias de vida. A história da sua vida.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

MANHÃ DE SOL

Na portaria











O velho e a velha


todos os dias


descem para caminhar no sol






O espaço onde ela caminha


passos curtos


corpo vergado






O espaço onde ainda


a luz chega amarela


muito forte


agora cedo






O espaço se o há


é o espaço aberto


ensolarado






É o espaço curto


dentro do prédio






É cercado, não há perigo






Ela não escapará


do que lhe resta






Um espaço aberto sobre


esta cidade de um mundo


que amanhece


num domingo


silencioso


como todos eles






Ela silenciosa


como todas elas


caminha






Eles são dois,


o outro está num canto


e observa quem entra e quem sai






Ele caminha até seu lugar


aguardará o porteiro que não chega






Precisa saber notícias


das gentes que não são gentes dele


que contam histórias de dor


e de violências - tudo está lá fora


depois da porta de vidro


no alto do morro e em todo o morro


no boqueirão, onde vivem


aquelas meninas finas, peitos salientes


corpos macios e sedosos


que ele olha, olha, olha,


cujos cheiros são seus sentidos


felicidade, pura felicidade,


grande felicidade, maior felicidade


é a sua pequena caminhada


até a portaria.




Onde hoje só, sem o sol, a cadeira vazia


e um frio sem fim



quarta-feira, 15 de setembro de 2010

NÃO É ESTRELA NÃO É PALMEIRA

Quem é Magnólia?










Magnólia é


estrela


e é


a palmeira










 

Estrela e palmeira


do sítio que se perdeu






Em meio às abelhas


das estrelas de mel






Das palmeiras onde


Magnólia embranquecia






Branca, Magnólia


Alva, estrela






Verde, magnólia


doce, palmeira






Do meu sítio, não mais


Uma cama, não mais






Uma palmeira,


uma estrela, só










E nada mais




Nem flor


Nem árvore


Nada, nada















FOMOS SOMOS

Primatas







O material poético é o que resta

síntese.


Agora, diante de um homem
do século A, do século B

Como sabê-lo?


O homem moderno não é
o homem que nasceu agora


Hoje, na esquina, você cruzará
com Zé de Nehandertal,
com um homem medieval,
vestido como se veste,
cruzará
com outro primatas e/ou com um homem do futuro.

Como identificá-lo?


O primata sequer tem voz,


sequer fala.

É o silêncio.

Trabalha e vive em silêncio.


É um animal.


Ordeiro.





Como todos nós







terça-feira, 14 de setembro de 2010

UMA PALAVRA

s/Manoel Bandeira ou a partir de







A poesia é a maior forma de expressão


É a tensão. Reflexão


É convocação. Precisão


A poesia é o ponto condutor. Palavra pura,


palavra som, ritmo, significado, emoção,


conteúdo, interrogar-se.


Poesia é expressão


contida. Uma única palavra, palavra solta,


som, um mundo, uma história.


A poesia constrói a vida,


revoluciona, firma, fixa.


É a febre e o lenitivo.


A dor e a alegria.


Poesia é

correr mundo, ser audaz, aventureiro,

podre, belo, sujo, limpo, seco, molhado,

áspero, liso, humano sobretudo humano.


A poesia te dá força, te abate, liquida,

renasce, muda, vira fé, vira santo, diabo,

louco, forte, te faz bicho gente, criança,

velho, padre, cego, amante,

amado, solto,

livre.



A poesia é expressão homem do homem.







UM AMOR

Imenso







Meu amor tinha idéias malucas

Não tinha horas, não tinha segundos

Não tinha dia bom e nem dia ruim

Meu amor maior do que o mundo

engolia estrelas devorava galáxias

ultrapassava barreiras de sonhos


Meu amor espalhava-se pelo ar

contaminava a mais profunda das grutas

germinava lábios e o mel brotava


Era o meu amor maior, bem maior

do que o mundo e mais profundo


Espalhava-se quando era alegria

Sei que o céu brilhava mais

Sei que a fruta tinha mais sabor

Meu amor, meu amor chamava-se


E agora?

Agora, meu amor é sonho, 

só um sonho profundo




Maior do que o mundo