domingo, 6 de novembro de 2011

VELHAS PROFISSÕES




O Sapateiro João



Pai observa o sapato,
a sola e salto novo

Aos 8 anos, seu tio João,
irmão de dona Zizinha, sapateiro
em Itamarandiba,
inicia-o na profissão.

(Pai queria ser sapateiro?)

Sapateiro não vai além do sapato
(e o seu tio João ia,
Ia até mesmo muito além)

Ele era também músico.
Tocava clarineta muito bem,
(e ia além da clarineta)
até o violão e fazia festas.

Era músico sapateiro
Sapateiro e um músico.

A chamado de seu amigo, Aquiles Reis,
foi para Ladainha,
tornou-se
ali sapateiro, músico e, agora,
funcionário público,
chefe de seção da Estrada
de Ferro Bahia-Minas.

Um diagnostico sonoro:
câncer no pulmão.

A Ferrovia determinou uma Junta
e os médicos decretaram:
nada de câncer, pulmão limpo.

O câncer não ficou sabendo do laudo.
Pior, mesmo assim,
o tio João de pai foi aposentado
e indenizado.

Com sua Dagmar e uma filha adotiva,
mudou para a capital, comprou casa e
tudo o que era deles ficou em cartório
para a filha adotiva.


Na capital, pai visitava o moribundo
todas as semanas.

No final de seus dias,
o sapateiro voltou a ser músico
e dos bons, um excelente músico.

Suas melodias paravam todo um quarteirão.
Era a música que anunciava o dia,
depois dos cantos dos galos.

Dia clareia e chega a música suave
da clarineta saindo de um peito cansado

O cheiro do café, a água do banho, 
o rosto lavado, nas casas
Nas ruas, passa aquele que chega
e aqueles que saem


Carros param, os passos ficam mais lentos 
e, nas ruas pequenas, curtas
daquela Floresta de Belo Horizonte, anos 30,
ainda sem pressa, os meninos atrasam para a escola,
as beatas esquecem de deus, do horário marcado,
todos paravam um pouco
para ouvir os sons daquela clarineta quase
sem fôlego, 
a extrair os últimos movimentos 
de um pulmão apaixonado.


A música chegava mais lenta,
Muito devagar


Ela estranhou,
a letra se arrastava

És tanta felicidade

Que nem a metade
Eu consigo exaltar...



Laurinha parou e cantou mais alto



Se um beija-flor descobrisse

A doçura e a meiguice
Que teus lábios têm



Nelsinho fez coro e a segunda voz


Jamais roçaria, as asas brejeiras

Por entre roseiras
Que são de ninguém...


Já eram quatro cantando,
agora já não mais
acompanhados pela clarineta
(ela calou para sempre)

O motorista saiu do carro,
Carlinhos chorava e cantava

Óh, dona do sonho,

Ilusão concebida
Surpresa que a vida,
Me fez das mulheres,


A pequena multidão
reinicia a música.
No último verso, em silêncio,
afasta-se daquela esquina da Floresta


Há no meu coração

Uma flor em botão
Que abrirás se quiseres








AS MULHERES TOCAM





A lição do mestre


Depois do poetar de Murilo Mendes

Para a jovem Cat, em Pelotas, Rio Grande do Sul




As mulheres tocam os seios

pensam no amado,

no amar,

no prazer,

no sonho puro sonho,

no doce momento de estar só

com o pensamento do prazer,

no leve tocar de seus dedos,

no calor de suas mãos no seio frio

na úmida ternura interna que percebe

nas pernas que arrepiam

no suor que escorre









terça-feira, 1 de novembro de 2011

UM LOUCO NA RUA



-         Bom dia, vovô.

Disse o Louco da Rua, alegre, sorrindo, ao passar por mim, na subida da rua Juiz da Costa Val.

Os loucos têm razão ou melhor, mesmo que não tenham razão, sempre dizem a verdade ou melhor ainda: dizem o que vêem.

Conhecesse minha história, a minha realidade, eu já sou avô há mais de 15 anos, a idade hoje da Tessa, filha do Adroaldo Neto.

Um avô sem alma (diferente de desalmado), sem presença, sem ternura, sem nada, se os netos, pois outros dois netos, Adroaldo Neto deu aos seus pais verdadeiros e à sua mãe.

E não sei se a minha filha, Maria Cláudia, mais velha do que Adroaldo Neto, tem filhos ou se os teve primeiro do que ele.

Não sei de nada, uma vez que de alguma forma há esta evidente, real, clara, distância (não indiferença, não desamor) entre eu e meus filhos – eu os vivo muito próximos, sempre penso neles e penso neles todos os dias, muitas vezes ao dia – e em tudo o que sempre perdi e fiz questão de perder.

A realidade, eu sou um avô, mesmo destemperado. O louco não sabia desta “abuelidade”. Só tinha razão – a razão é uma estranha loucura ou como diz Lutero, a razão é a prostituta do satanaz.

Por sua vez, ele me viu e disse sua afirmativa.

Identificou-me dentro dos padrões da velhice, em que todos os velhos podem ser avós, e ali, estava eu, cabelos grisalhos, subindo a rua, passos medidos, calculados, lentos, cada vez mais lentos.

Um velho.

Medindo as palavras talvez um novo velho ou um velho novo, ainda não totalmente velho, mas velho, como ele, um velho Louco da Rua, como o Louco da Rua que não consegue falar o nome da Cris e sempre a chamou de dona Cristântesmo.

Ele me conhece e, muitas vezes perguntou pela dona Cristântesmo.

Hoje, na subida, ele sorriu, identificou-me, antes de me cumprimentar, e, à sua maneira, carinhoso como os loucos o são, quase sempre.

Sempre verdadeiros no que vêem.


-         Bom dia, vovô.