quinta-feira, 21 de abril de 2011

PELE SOBRE PELE



Memória táctil













Se as minhas mãos perderam 


a memória do teu corpo






Se as minhas mãos não sabem


a macieza da tua pele






Se as minhas mãos não seguram


mais a umidade do teu suor






Podes, Perseguida Dorotéia,


demorar onde estás




Nunca foste minha





Nem teu suor


Nem tua pele

Nem teu corpo


Nem mesmo a memória

das minhas mãos.






Resta na pedra,

imagem da alegria,

registro da beleza,

o suor frio

na pureza da neblina




Imagem para a chuva

Imagem para o sol




Resta na pedra,

exposta,

a perfeição captada

por olhos e mãos,

pelo martelo 


e pela lâmina

aguçada do cinzel

ao rasgar na carne

ao cortar na pedra.







quarta-feira, 20 de abril de 2011

O MAPA DE JORGE LUÍS BORGES












De um relato feito por Robson Scolarique


Chuva fina, às quatro da tarde, na esquina das ruas Major Lopes e Raul Pompéia, cruzamento do nome de um policial com o nome de um romancista, poeta e pensador, um absurdo, confesso que não conheço este militar, imagino-o apenas em sua farda e como um policial que não chegou ao comando da sua tropa.

Compenso minha ignorância, eu conheço o poeta
 e o escritor, avesso ao militarismo.

Estio. A chuva para um pouco. Logo chega uma nova 
levada de chuva fina. Entro e saio do carro. 
A chuva dita o meu espaço e brinco com ela.

Divirto-me ao observar as pessoas. Muita gente, muitas crianças, muitas mulheres bonitas. 
Aguardo a mulher Metáfora e, dentro do caro, 
leio, ao ritmo da chuva, o conto de Borges, 
estilo simples e profundo, uma metáfora da construção literária e da concepção 
do mundo e do homem. 

Uqbar, Uh! que bar!

Escrita simples, correndo leve, tão leve quanto esta chuvinha marota das quatro da tarde, à lás cinco de la tarde. Imagino que jamais escreverei uma página como Borges. Sou apenas um homem pronto para servir às mulheres, transportá-las, guardá-las, acariciá-las, ser motorista, ser companheiro, sempre pronto para todas as utilidades, futilidades e vontades da mulher que amo.

Elas se tornam seres importantes, enormes, às vezes me esmagam, transformam-me em verme e muitas, não entendendo nada do servilismo masculino, ousam pisar, esmagar e cuspir. Quando saio do outro lado da margem, do lado de cá umas choram, outras xingam, outras gritam, muitas se sentem aliviadas. Já estou na outra margem. Então mais adiante - eu não sei nadar nos rios de volta, principalmente no rio Letes.

Fácil, fácil, já estou do outro lado do rio profundo, do Letes. Letes, caro amigo, é aquele rio do inferno de Dante, introduzido pelo poeta como rio protagonista, como o rio do esquecimento.

Não esqueça, já contei esta história, Dante foi vital nos doze primeiros meses de prisão, principalmente na cadeia da Marechal Âncora, no Rio – olha outro milico aí. O Letes é um rio de mergulho profundo, mas não intransponível pelos que verdadeiramente sofrem depois do amor.

A chuva fina para, saio do carro mais uma vez e respiro fundo, ainda às 4 da tarde. Cheiro de terra, o cheiro de plantas molhadas, cheiro da chuva e de repente o perfume, suave e doce, da moça de seios apertados por panos e estética, mas mulher de muitas vontades, quem sabe um dia eu possa ser seu amigo, seu bom amigo. Ela caminha sem olhar para trás, passa e vai em frente. Deixou o perfume e o sonho de um dia encontrarmos de novo. Eu já posso dizer, eu te conheço, não sei de onde, nem de que ar, de que esquina, eu te conheço pelo cheiro do perfume. Ah! é um perfume doce. Ela atravessa a rua e, de muito longe, sorri. 
E fecha a cara. Mulher brava - melhor, 
todas as mulheres são bravas. 

Na esquina, já temos uma geografia: duas ruas que se cortam, um homem estacionado e um perfume desaforado.


Como começar?  Primeiro estabelecer as referências principais, identificar o coronel, que antes chamei de major, e fazer este mapa localizando todos os nossos protagonistas. Captar este instante em um século e em um local. Depois, pesquisar os fatos e buscar as suas expressões mais exatas possíveis. Adolfo Bioy Casares não poderá dialogar comigo, nem ajudar-me nas pesquisas, muito menos Borges. Preciso estabelecer pelo menos o básico desta história. E a mulher do perfume? E como chegar até ela? Não é nenhuma mulher misteriosa e nem mesmo será um complicador qualquer aproximação. Basta abordá-la, identificar-me, esclarecer o porquê da minha pesquisa e obter, se ela o permitir, o maior número de dados sobre ela - um ser no mundo.

Distraio em Uqbar. O perfume aproxima-se. 
Não mais sinto seu cheiro forte.

- Com licença!

Todo o carro, toda a rua, toda a minha vida 
ganhou um novo perfume.


E mudou-se, radicalmente, outras diriam, literalmente, o mapa daquela esquina.

terça-feira, 19 de abril de 2011

AO LADO DO IBITURUNA

A ilha fluvial tem 4, 64 km no percurso para corridas e que faz  todo o seu contorno


  
Jogo de Memória


Ao amigo Ilha Parajara

- Você conhece a ilha?

- Já caminhou lá?

- Quantas voltas já deu?


Caminhar na ilha
é caminhar na própria vida
um percurso em si
dentro da alma
e fora do rio
em cima da montanha
tomado pelo cheiro
da madrugada

Aguardar a passos largos
ou a passos de vento
o dia ou a noite a lua
ou as estrelas ou se vier
que venha! que chegue!
o sol no céu ou no estelho
(ou da outra margem)
do rio

- Você já caminhou na ilha hoje?

- Vá!

Não é só o rio que te espera
Tem aquela namorada
que não é mais sua

Ela mora do outro lado da ilha
Tem filhos, guardados, e sorri
todas as vezes que sente
pelo vento, seus passos

Ao largo, distantes, persistindo
perseverando em dizer
o banal, o amado eu te amo



Ao caminhar, ame
o seu andar que pode
na lentidão devorar a ilha
que persevera em ilha ser
longe de mim
dentro de mim
para sempre



segunda-feira, 18 de abril de 2011

NA NOITE

      

Nunca as estrelas são as mesmas

"Eu queria fazer eu mesmo a minha vida"
Penitenciária Agrícola de Neves





Para Pimenta em sua última fuga




A sirene anuncia a divisão do tempo. O último toque é do jantar. Servem arroz, feijão, carne e verdura. Farinha à vontade.

- Isto é comida, diz um uniforme. Ele quer ser irônico e repete a frase dando outra pontuação.

- Isto! É comida.


Em cada mesa tem uma vasilha onde jogam o que rejeitam. As vasilhas estão cheias. Aa maioria recusou a carne e a verdura.

- Muito neguinho, aqui, come melhor do que na própria casa.


Os internos foram recolhidos às cinco horas. Uma gravação do capelão que reza duas ave-marias e um padre nosso. Mais de trezentas paredes estão abertas para um céu fantasiado de estrelas.

- Vinte anos. Há vinte anos estou nesta cadeia.

Aquele homem me olha e sabe que eu ainda não tenho vinte anos.

Ele continua.

- Eu conheço este céu como conheço a terra que eu sempre lavrei. O senhor – ele me chama sempre de senhor -  talvez não saiba o que é um homem revoltado. O senhor está diante de um. Vinte anos! Vinte anos saindo e sendo recapturado, cumprindo períodos de dois, três, até de cinco anos sem ver uma cara alegre, uma mulher, sem saber do mundo e dos meus filhos.

Ele fala das grandes distâncias, as distâncias que separam um homem preso de um homem livre; fala das distâncias de muitos dos seus sonhos.

Continua.

- Quando sai de casa, meu filho era um menino com uma pastinha, um merendeira indo para um grupo escolar. Voltei, o meu filho era um homem alto, forte com uma mulher dentro de casa.

Ele olha para suas estrelas.

- Nesses períodos de prisão, parado aqui dentro, eu sempre olhei para o céu. A luz apagava às nove. O céu ficava bem ali. A princípio olhei para o céu para pedir a Deus um milagre. Afinal, eu queria fazer eu mesmo a minha vida. Eu queria fazer eu mesmo a minha vida. Eu queria ser dono da minha vida, da minha história, do meu dia. Eu tinha certeza de que, se cometi algum crime, o meu crime fora perdoado por Ele. Queria, então, que me salvasse. Me salvar era me libertar. A liberdade para mim era tudo e estava disposto a tudo pela minha liberdade, até mesmo negociar com deus.

Os presos passavam por nós dois e riam. Riam porque eu ouvia seu Oswaldo, o Badu, o maior matador do nordeste mineiro.

Ele continua.

- Era um tempo difícil. Eu estava sofrendo. Depois disso, eu esqueci de Deus, passei a não gostar de Deus. Eu acho que quando a gente morre tudo acaba. Deus não existe. Não sei porque, mas entre mim e o céu outras coisas aconteceram. Ganhei todas estas estrelas e, assim, passava horas tranqüilas. Cada vez me sentia um homem diferente, e um homem melhor. Era o céu, eram as estrelas. Acabei descobrindo que as estrelas nem sempre são as mesmas. Que uma estrela chega, fica um pouco e depois leva um tempo para voltar de novo. Esqueci muitas vezes de mim mesmo. Aqui minha vida acabou. O que sou agora? Olhe para mim. Sou um homem, mas não sou nada. Eu, morrer ou não, tudo é a mesma coisa. Não me sinto mais como um homem capaz de viver no mundo, no meio de outros homens. Sei que agora somos de matéria diferente. Eu sou cheio de nada. Ódio? Nem isto. Veja se há em mim sinais humanos?


Ele está vestido com o uniforme azul da penitenciária e com uma blusa vermelha. A calça desbotada, no bolso da camisa tem uma caneta velha, a botina velha e rasgada, suja de terra vermelha.

Voltou as costas, sem se despedir e caminhou com passos firmes em direção a sua cela e às suas estrelas.


domingo, 17 de abril de 2011

UM HOMEM COMUM

 
E a sua prisão


Para todos os Mandela



Esta sombra na montanha
Este ar, esse cheiro, este gosto
Não é ar, nem sombra, 
cheiro ou gosto
para um homem comum,
feito prisioneiro


À tarde subi para a cela.
Pensar no ano que acabou
Planejar o ano que começa


Subi as escadas.
Escapuliram debaixo dos meus pés,
isto acontece sempre 
com todas as escadas


Subi imensas e lógicas referências


No ano passado, passei preso
(Cara, 365 dias dentro de uma cela)
E este ano não sei
Posso pensar, então, em quando sair
 para quando sair?


Brad Bil,
um ano são trezentos e sessenta e nove dias
(anote, tem quatro a mais sempre)


É verdade.
Um ano é isso tudo, esse monte de dias

Vou acabar a carta para Malui
Não sei falar do ano que passou
Ninguém entenderá. Um homem encarcerado
Só, isolado
... e o seu pensamento


Ah! Pensar, isto pensei
(Os pensamentos voam,
não se encarceram pensamentos)


Tive os melhores companheiros e nenhum
amigo e humano como Dante
Em troca não correspondi na amizade,
Nem no paraíso, nem no inferno.
E, assim, me apaixonei por Beatriz.


Fui feliz
Sabendo que todas as paixões são só paixões



Cheguei nesta prisão em um janeiro.
Início da esperança.
Aqui, sem mais nem menos,
o ano acabou


Esse ano que vem aí me ensinará mais coisas
sobre o inferno e o paraíso
(Com toda certeza, caro Dante)


No ano que passou aprendi como se faz um bom licor


Aprendi também a conhecer as pessoas
Aprendi o mundo
Fantástico da nossa gente
Soube quem foi Samível.


Feito num dia de sol
igualzinho pelo brilho
o mapa me ensinou a sonhar
na velocidade dos olhos


A revista me trouxe as mulheres
- a respiração para todo os pulmões -
 e a interjeição fecunda
suspensa no colapso da imperfeição
(na foto)