quinta-feira, 25 de março de 2010

VIDA CELULAR

















Não me pergunte onde eu estou

e nem para onde eu vou.




Se você me pergunta onde estou,




digo sempre que estarei onde não estou




que estou na Cochichina, no Japão,


ou na pequena




WiWiBa, no Sri Lanka,

antes, Cei Lá, sei lá,

talvez estivesse mesmo é no Barreiro





Para onde vou,


vou para todos os lugares onde não estou




onde já estive









Não tente me controlar à distância




Monitorar-me





Não sou capaz de submeter-me mais





Cansei da possessão




Desse olhar dividido




entre o amor e a loucura




Nunca amor por mim




Amor só pelo domínio





Seus objetivos primeiros e permanentes




Já que não sabe amar




Senão com o controle no remoto amor




EM UM CÉU COALHADO

As estrelas descansam ao amanhecer?



De Arnold de São Mateus, o diagramador







Ela olhava o céu coalhado de estrelas


Toda a luz vinha das estrelas


E nós tomávamos banho de estrelas, nus





Ela preocupava-se com tantas estrelas

E com o destino de tantas estrelas

Ela me interrogava como se eu, que apenas aprendia a amar,

conhecesse o destino das estrelas





Ela me interroga e fecha os olhos

Olho para a clara escuridão





Lá está a estrela de todos os dias





E nós dois estamos a bordo da terra


Navegando através de nossos corpos


E, diz ela, em meu corpo, diz que cultiva


Os campos do senhor, um corpo e o prazer






terça-feira, 23 de março de 2010

A ORAÇÃO DO ATEU


É só um nome de mulher



Para João Cabral






Ouço falarem do poeta que morreu



Dizem que agora o poeta será lido



Dizem que é o maior de todos



O poeta morto aparece



Nariz imenso



Olhos tristes



Dizem que o poeta morto



não mais enxergava



Dizem que deprimido,



triste,



o poeta morto sofria



sofria muito



Não mais podia ler



Não mais podia escrever




Cinco anos



na prisão de si



Uma triste sina



a sina do poeta morto




Cinco anos sem ler e sem escrever



(A terrível prisão)



O poeta sofreu cinco anos



uma longa e triste depressão





Um dia, uma manhã, sentado,



ao lado da mulher,



a sua última mulher,



dizem que também poeta,



o poeta morreu





Morreu rezando



(revelou a mulher



que se diz poeta)



O poeta era ateu



O que rezava o poeta?



- Ateu também reza



Reza?



Reza, certamente,



a oração poema



(Todo poema é



um poema, uma oração.



É, pois é,



é também oração)





O poeta morto



reza ao lado da mulher



que só sabe rezar.



Reza o nome da mulher



o poeta que ama,


que somente ama


(e um nome de mulher é,



muitas vezes,


uma só oração)





A mulher em cujo lado se senta



cuja mão segura a mão do poeta



que não mais escreve versos



que não mais passa páginas



dos versos que o poeta escreve



Escreve e escreve,



limpa, reescreve, lapida, arquiteta


 Dizem que



aquele poeta era



um poeta matemático



porque o poeta dizia



que fazia poesia como engenheiro



Era construtor



fazia poesia como pedreiro



pedra sobre pedra



seus versos teriam assim



a consistência da terra



tornada tijolo



pedra terra tijolo








Pedra




Pedra



Nada mais,



never more.



Nunca mais poeta


segunda-feira, 22 de março de 2010

OUTRA PROSA EM TRÊS PARTES





Terceira Parte




                                revistaepoca







Era só um sonho

Para LUA







Hoje, eu comprei um sonho

jamais sonhado

ele era todo dourado

tanto brilho

tanto fulgor

que cegava teus olhos



Você não conseguia vê-lo



Era um sonho embrulhado


todo surpresa



Era o meu melhor presente



Não paguei caro



Não imaginei


este sonho




Era sonho de outro

cansado de sonhar



Era sonhar já perdido


Que eu jamais sonharia




Comprei barato



Paguei muito pouco por ele






Era um sonho enorme


que dominava todo o quarteirão



Reclamaram na minha casa



de que meu sonho transformaria



toda a cidade e que invadiria todos os cantos





Embrenhar-se -ia em sonhos outros

transformar-se-ia num sonho tão grande, tão grande



E eu comprei este sonho


tão barato






em um canto de rua



um canto de rua, onde um menino dormia

pés sujos, boca suja

babado de cola



Ele não gostava mais de seus sonhos

e precisava de dinheiro



Comprei o seu sonho

e ele foi comprar cola





OUTRA PROSA EM TRÊS PARTES

Segunda Parte









Sempre à margem




Para LUA




Babo, babo, babo

a cola cheira

me sufoca



O primeiro dia


desta via?


Não!



O último dia, com certeza

deste eu me lembro



Lá na segunda-água






- Hoje, minha vó mora


entre a segunda e a terceira água






Dia, noite,

frio, calor

tempo, gentes

meses, tempos inteiros





dormindo no chão duro puro


sentido o cheiro quente do asfalto






pneus desviam do meu pé






meu peito dolorido


deitado agora de banda


até o braço endurecer






Rodando, rodando


Quem caminha por aqui


caminha indiferente.


É indiferente





OUTRA PROSA EM TRÊS PARTES

Primeira Parte





Todos os vícios



Para LUA





O fio fino líquido



dos lábios



até a camisa



branca pura líquida



O fio fino líquido


agarrado em seus lábios


sustentados pelas pernas


trôpegas


também bases de um corpo de ossos


só de ossos



O fio fino líquido


escorre suspenso


eternamente preso


em seus olhos esbugalhados



Sua vida



um fio fino líquido







O nome deste menino é Luciano. Ele morava até seis anos atrás na casa da sua avó na favela da Serra, entre a 2a. e a 3a. água.






Agora, seis anos depois, sua vida é cola, cola que cheira pela boca, engole goela a dentro.






Seis anos depois do vício, só do vício que é também uma margem de rio, onde também um povo atleta, ali, todos os dias, nestes seis anos, homens e mulheres, para lá e para cá, no chão, marcados, numerados, os 5 quilômetros de caminhadas, também homens e mulheres em seus vícios, suas dores e suas obsessões.






Seis anos, eu e ele, ele na cola e eu no vício de caminhar, caminhar, caminhar, todos os dias, cinco quilômetros... e babar, babar, sempre?

sexta-feira, 12 de março de 2010

A MÁQUINA MARAVILHOSA


Ai de ti e de todos que levam a vida


A querer inventar a máquina de fazer

felicidade!...”



Manoel Bandeira

Poemas Inconjuntos (1913-1915)





A máquina de fazer felicidade não usa luz elétrica


e não faz barulho




A máquina de fazer felicidade não é visível


e nem transparente




A máquina de fazer felicidade não está no mercado


e não é fabricada




A máquina de fazer felicidade não faz amor


nem cansa




A máquina de fazer felicidade não é máquina


nem estraga






o homem não é máquina

NA CASA VAZIA

O ÚNICO QUE VOLTOU




Para Benedictus Rocha, o Vozeirão







- Pensei que tivesse sido o fim da tragédia. Parece fomos marcados para que a tragédia nos persiga... até o que respiramos é parte daqueles fatos. Um nada.



- Amigo... sei que você é meu amigo. Você foi, será sempre.



- A cada momento tudo torna-se mais distante. Em muitas ocasiões senti que se ficasse aqui sozinho; louco, já estaria dominado pela tragédia.



-...



- Foi quando eu voltei. Entrei em nossa casa. Não deveria fazer aquele percurso. Não devia voltar. Ninguém havia me preparado. Levava uma vida normal e o sucesso você conhece. Eu era um fraco. Isto eu insistia para mim mesmo. Era um fraco porque voltava. E, estúpido. Eu seria o primeiro a voltar.



- “Você será o primeiro a voltar”, ela dissera. Não sei se ela o disse aos gritos. Nunca a ouvi falar mais alto. Hoje, escuto sua voz como um grito. “Você não tem coragem, nunca me abandonará” e ela apontava para as meninas Marta e Maria Clara. Elas tão pequenas. “Olha, filhinha, eu dizia, eu gosto de minhas filhas”.



- Entrei no apartamento que fora nosso. Não havia ninguém. Eu era o primeiro a voltar. Cortinas fechadas. Nesta sala, eu e Maria Célia, minha mulher, brincávamos como crianças. Os jornais, que noticiaram a tragédia, eu os conservei até um ano atrás, mas eles desapareceram de minha memória assim como aqueles fatos que explodiram em nossas vidas com mais poder do que uma colisão de coisas muito pesadas. Fora um grande susto, embora, nada daquilo parecera inesperado... absorver tudo fora fácil? Não. Parece que as tragédias violentas em si mesmas atuam como um achado, indicando o depois em um futuro que dura muito tempo, que nunca acaba, que não se esgota e como um futuro nos amedronta. Temos o conhecimento da tragédia, como uma marca do humano.



- Lá estavam amontoadas as casas de bonecas, as casas partidas, as camas viradas, as bonecas perdidas. Quarto, corredor, o quarto das meninas, o quarto de trabalho, tudo igual à ultima vez. As cortinas fechadas. A pequena Marta quebrou esta boneca por causa do aparelho que faz as bonecas chorarem. Dei-lhe outra boneca, aquela de olhos negros, com uma risca aqui na barriga. A boneca de olhos negros ria, piscava e dizia mamãe. Até agora...quantos dias passaram? Anos? Quantos? Por que ninguém passou por aqui?



Aquela decisão fora sua. Ele a entendia como um compromisso que assumira com a volta. E bastou que o olhássemos para que ele compreendesse a inutilidade da pergunta.



- Veja, alguém passou por aqui. Há rastros na poeira. São nítidos. Foram duas pessoas. Duas mulheres. Olha os pés pequenos. Segui aqueles rastros, antes de você chegar. Os rastros se confundiam e se separavam dos meus, estes mais recentes. Antes, eu não os percebera apesar de ameaçadoramente visíveis. Ameaçadores? Eram passos feitos para mim, como uma estrada de ferro. Por baixo do pó, raspado, encerado, brilhando. No quarto das meninas, os rastros desviaram-se, respeitaram a mancha escura e grande. Pensei em abrir todas as cortinas, ligar o som, a televisão, ter barulho, barulho, dar vida àquilo. Estes são momentos em que o silêncio mete medo, meu amigo. É mais ensurdecedor do que o mais intolerante de todos os barulhos. Conseguiria? Pensei mais um pouco e esqueci do que havia pensado. Sentei-me na cadeira de balanço e ali fiquei.



Seus olhos estavam inchados, porém posso dizer com certeza que ele não chorará e eu o conheço. Sei que ele, de repente, se erguerá e tornará a ser o mesmo senhor elegante e alegre que todos na vida sempre admiraram. Sempre jovial, alegre e inatingível pelas tragédias pessoais.



- Estas janelas um dia estiveram abertas. Minha mulher chorava no quarto. Convulsões sem fim. Acabáramos mais uma cena de ciúmes. Nervos à flor da pele com os exageros e a imaginação dela. Pela primeira vez a espanquei. Era um monstro. E pior, um monstro que não podia dar o braço a torcer. Ela rasgara todos os ternos. A pequenina



- Marta veio. “Papai, não bata nunca mais em mamãe”. Vá filhinha, fique quieta, não faça seu pai ficar mais triste ainda.



- Marta conteve as lágrimas e eu a puxei para os meus braços.



- Filhinha, fiquei com raiva, briguei, foi só, e mais: papai garante não repetir isto que você viu hoje, não vai repetir porque ele gosta de sua mãe. Muito, muito mais do que ela possa imaginar.



- Então, papai não bate mais?



- Não. Vá ficar com sua mãe e fale isto que eu falei. Diga que papai está arrependido, que papai manda beijo para mamãe.



- Vou. Não saia, papai. Fique, aqui.



- Fico.



- Por tudo?



- Por tudo.



- A frágil e pequena Marta fugiu de meus olhos. Escapou dos meus olhos. Eram finos e lindos, seu corpo e seus gestos. Meu olho bom poderia tê-la retido junto comigo. Meu olho poderia salvá-la.



- Lá, no quarto, elas ficaram em silêncio. Os pianos de um orquestra alemã, em gravação, enchiam todas as partes da casa. Os sons vinham do apartamento de baixo. De repente um piano solitário abandonou uma nota aguda. Despertei-me com o sentimento da tragédia. Pressentimento, uma sensação sempre desagradável.



- A pequena menina Marta não voltara. Minha mulher e minhas filhas, Maria Clara não desgrudava da mãe que temiam tanto as loucas ameaças de nos separarmos. Elas aprenderam tão fácil a gostar do nosso pequeno mundo de fantasias e de felicidade, da sala, das manhãs tão nossas, elas estavam ali no chão. Uma mancha negra, escura, brilhando, as envolvia como uma auréola. E eu? Olhei o rosto de da pequena e doce Marta, minha filha. Meu olho não a segurou. Fechei todas as cortinas. Telefonei. Saí.



- Agora, volto. Já estou preparado. Ela tinha razão. Eu fui o primeiro a voltar. Eu fui o único a voltar. Ela tinha razão, eu seria o primeiro a voltar...

segunda-feira, 8 de março de 2010

NO MUNDO


O encontro






Meus filhos andam pelo mundo

catam em seus sonhos os meus sonhos



Meus filhos são muitos


São muitos os meus filhos



Eles se espalham e se encontram,

procuram, saem sem medo





Meus filhos perderam-se de mim


e eu me encontro em todos



Eu me perdi dos meus filhos

e eles não se encontram em mim



Não quis limites, odiei limites

todos os limites, todas as barreiras



Quis os homens livres

quis meus filhos seres livres



Melhores do que eu, sem a minha


necessária revolta, sem eu



Meus filhos andam pelo mundo

e são livres e despojados de mim



Não fui nem carrasco, nem libertador


Meus filhos dispensam tutores



Meus filhos andam pela vida

felizes, livres, olhos erguidos



Veem o que eu já não vejo

sonham o que sempre sonhei

(e o que eu jamais sonhei sonhar)



- Meus filhos são melhores do que eu.

Isto todos os pais dizem em todas as épocas



- Meus filhos, melhores do que eu,

serão sempre mais felizes do que eu!



Poucos pais podem dizê-lo, frente a frente,

olhos nos olhos.



Eu posso.