sexta-feira, 28 de outubro de 2011

UMA HISTÓRIA REAL

A aventura na carambola




Para quem ouviu esta história. Aqui ou em Vizeu  



Seu Wilson, menino, olhava sempre a menina moça tomar banho. Banhos longos. A cada dia, dos banhos dela, ele extraia uma nova conclusão.

A primeirona quando constatou que quando ele não estava por perto, ela aguardava sua chegada para entrar no banheiro.

Todos os banheiros de fazenda eram, naquela época, construídos fora de casa.

Aquele tinha duas divisões, uma onde ficava o chuveiro. 


No outro cômodo, o do vaso sanitário, era possível, por uma fresta na madeira, observar a pessoa que tomava banho e vê-la “inteira, inteirinha, inteirona”.

Outra conclusão, recente, a segunda conclusão, quando ele não aparecia, os banhos eram mais rápidos.

Terceira e definitiva, ela sabia que era observada, comida com os olhos e gostava daquele observador que a colhia silencioso em sua respiração ofegante.

Daí, a sua decisão. 


Entraria no banheiro por cima da divisão. Como o vaso sanitário era baixo, levaria um pedaço de madeira que serviria como suporte e escalaria a parede. Da parede a um pulo, olha ele dentro do banheiro junto com ela, nua, nuazinha, nuazona.



Para que ela não assustasse, um dia antes simulou uma escalada. Assim, ela sabendo da iniciativa, não se assustaria.

No dia exato, que era o dia seguinte, ele pulou.

E ele foi o surpreendido.

Ela reagiu com ferocidade e deu-lhe uma surra com a vassoura. Seu corpo ficou marcado, lanhado, rasgado, machucado.

- Vai lá e conta para o seu pai porque você apanhou – e deu a última vassourada na cabeça dele.

Ela dizia e repetia a mesma frase, dizia e repetia.

Seu corpo de rapaz, ainda menino, estava todo marcado. Todos iriam ver aquelas marcas. Como explicar? Como não ser humilhado?

- Cai do pé de carambola!

- Wilson, não é a primeira vez que toma essas quedas horrorosas. Escolha uma árvore mais fácil para você trepar, meu filho. Mais fácil, menor e mais segura...

-...E menos brava, menos violenta, meu filho.

Ele ouviu o conselho paterno. Entendeu. Em seguida, olhou fixo no rosto da mãe. Nenhum traço de que ela não estivesse segura de que sabia de tudo. Ela não sabia fingir que não sabia de nada. 

....

Seu Wilson, mais de oitenta anos, magro, muito magro, anda e arrasta os pés, a cabeça dependurada no peito, quase pulando para o chão. Mas sempre ágil, no levantar.

Como não ouve direito, fala.

Como não olha no rosto do outro na sua frente, fala sem parar até terminar de contar sua história.

.....

Depois de um curto silêncio, a filha pergunta

- Quantos anos o senhor tinha, pai?

- 15 anos, com certeza.

Se Wilson não tem mais o que esconder, afinal são mais de oitenta anos.

- Eu já conhecia da fruta, fazia doce e me lambuzava todo, minha filha. A reação dela foi de susto, por mais cautela, por mais ensaio que fizera, por mais que ela sabia que eu iria dar aquele pulo dentro dela, dentro do banho dela.

Ele olha lá para 65 anos antes

- Um dia, percebi que ela deixara a porta do banheiro destrancada. Bati devagar antes de entrar e ela me receber. E de novo, veio o susto e a nova surra.

Moral da história deste homem que admira o salto de um gato para o telhado na sua frente:

- Mulher, menina ou moça, depois que começa a bater, nunca para.






terça-feira, 25 de outubro de 2011

MINHA MENINA




Uma realidade


Para Beloca, remember 2003, em BH




Uma menina de 16 anos,
uma moça de 16 anos,
uma mulher de 16 anos,
três possibilidades 
uma só idade.


Uma única idade,
três etapas da vida.


Para a menina, 
ainda há o quarto decorado
e todas as suas histórias, 
os irmãos, o pai e a mãe.


A moça guarda as amigas
 e do lado de fora, a escola
e a ginástica, os filmes, 
as músicas e os sonhos.


A mulher vê o amor 
em seu começo,
a vida que se torna madura 
na vontade e na alegria.


Ela vê o céu 
ora escuro, 
ora claro.

Sente que o amor é a felicidade, 
a alegria, 
o sonho, o prazer,


E que também às vezes é a dor, 
pois é o sentir a falta
e a ansiosa ânsia da espera 
e da dúvida.


Vejo que ela sofre e é feliz também


Não entendo o sofrimento
na mistura de  tantas coisas boas
 e de tanta beleza.


E ela é bela, muito bela







segunda-feira, 24 de outubro de 2011

RELATO DE NUVENS






Nuvens feitas de ilusões
onde passa o jato
Onde deixo a tarde...

E aí Soljenitzyne falou:
- Pode um homem ser sempre prudente
e continuar a ser homem?

A bacia em que a mulher dá banho
no menino.

As nuvens são como fórmulas
 estendidas pelos ventos.

Alguém escreve sinais com as nuvens
(na linguagem dos ventos)

 Nada fica, nada permanece
(nem eu)

Nuvens cheias de caretas

- Você acredita no trabalho?

É a filosofia de Cândido

Se ela soubesse pensar
Não faria tanta estupidez
Finge amar, desprezando-se

- Veja aquela nuvem

- Qual?

- Ali


- Não distraia minha atenção,
os viets estão perto de Na Loc


Paro o trabalho na seção de teletipo
com nojo das covardias dos sams



Toda guerra é nojenta e fede

O pior é que fede sempre

A propaganda de quem não tem razão
é escandalosa,
feita de gritos,
muitos mais morreram do seu lado
minha cifra de mortes é segredo
quem grita mais
nem sempre pode mais
Nem sempre
Quase sempre


Um dia ainda vou fazer um poema
sobre estas nuvens

- Por que precisamente sobre estas?

- São nuvens vistas do pátio da prisão 
em Linhares iguais a tantas outras, 
vistas de tantos outros pátios

- Sim, de outras prisões, de outros claustros

As nuvens são belas

- Todo dia, converso com as nuvens

(Rsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrs)

- Elas amedrontam

(Rsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrs)


- Insistem em dizer-me que tudo passa

- Sério?

- Sério.


(Silêncio e os dois olham para o céu. Sem nuvens)






.......


CÉU & Cia








As nuvens no pátio



Nuvens que trago para a cela

Nuvens que largo no chão





Nuvens nos meus olhos
de onde arranco-as
(são meus)
nervos tensos





Nuvens dependuradas
nos meus ombros




Nuvens fixas na cela
única forma
na magia dos contornos





Nuvens caindo


despencando


desprendendo do alto


estatelando no chão



(inquebráveis)





domingo, 23 de outubro de 2011

É UM SONHO


A REAL REALIDADE





 É o amor simples como o existir

Amor igual à vida

Amor igual aos romances






Vivi um sonho?

Ou foi realidade

tudo o que se passou

entre nós e o mundo?







quinta-feira, 20 de outubro de 2011

UM DIA NO VERÃO













Pernas que eles tinham





presas, na certeza





pernas, as quatro pernas





do animal deitado





que não caminha





e é veloz





que balança, voa, navega







Cavalga e não sai do plano





Pernas presas





na certeza





Entrelaçadas, amarradas, soltas





Engatadas, pernas,





As quatro pernas





do bicho que se auto-devora





dilacera, rasga, penetra





Pernas abertas, pernas fechadas







Pernas que balançam





Trêmulas





Saciadas







































ANTES DE ULYSSES DE JOYCE


Era assim que ele via aquela torcida do lado de fora,
do outro lado da rua e todos gritavam Pule! Pule! Pule!



Sete semanas antes da fuga 


para o sul



e antes da prisão


Para um leitor especial em Atlanta, Eua






Carolyne, uma mulher, uma mãe e duas filhas pequenas. Ela era ainda uma mulher exuberante e estarrecedora.


Tinha tudo, inteirona. Além da beleza, uma bunda corrigida e com peitos minúsculos, ela atraía pelo rosto, muito mais e sempre pelo sorriso cheio de dentes brancos. No pega pra ver, na cama, trazia para a cena as pernas “mais perigosas do que as curvas do rio Mucuri”.


Para Elton, nos seus primeiros dias de liberdade, aquela visão o extasiava. Uma mulher, a sua primeira mulher depois da prisão, era um monumento. Não acreditava e. para ter certeza de que aquilo tudo era verdade, não sabia se esfregava o rosto, se dava tapas na cara (Acorda, cara!) ou se fechava os olhos e ficava apenas no sonho. Tudo parecia um sonho como nas lições de La Barca.


- Ela é casada.


Era Marla e o seu alerta para as dificuldades que ele teria. Ela era casada. O marido, um médico alcoólatra, possessivo e, como todos eles, violento. Carolyne somente disse o seu nome quando voltavam do hotel para aquele encontro com Clóvis e Marla num bar em frente à Escola Técnica Federal. Um bar com mesas e reservados para casais.


Carolyne falava tão pouco que, naquelas semanas em que estiveram juntos, descobriria que ela tinha na cozinha o seu melhor recurso de comunicação. Pegue o sal. Pegue o óleo. Pegue o orégano. No final, pratos saborosos e o mais belo sorriso de alegria.


Não era a “sua mulher”. Não seria também. Nunca seria.


Tudo começa quando Clóvis soube que Elton, seu irmão, precisava de um despiste para reduzir a vigilância da polícia política e dos agentes do Exército e que permitisse sua fuga e volta, em segurança, para o Uruguai. Clóvis sugeriu um namoro firme.


- Porra, cara, com uma mulher casada?


- É uma mulher. Basta. Solteira poderia ser pior. E se essa mulher “solteira” pegasse no seu pé, estava triturado, irmão. E, não esqueça, você é um homem comprometido, tem uma mulher em Montevidéu.


O tempo era curto. Duas, três saídas com uma mulher, bastariam. A polícia não ficaria seguindo ninguém em hotéis, motéis, cinemas, bares e boates. Não tinham como saber, mas, com certeza, a vigilância diminuiria em pouco tempo.


A polícia seguia Elton. Sabiam que levava uma comunicação do professor Bayard Demarie Boiteaux a alguém. Estavam dando corda para o bote certo. A polícia se organizava para prender os dois, Elton seria a isca.


Elton e o professor, por sua vez, suspeitavam disso: que a polícia sabia e que ele seria uma isca. Não havia outra saída, tinham que correr o risco. A mensagem, codificada, seria transcrita para um papel e repassada, em Montevidéu para quem se incumbiria de, voltar ao Brasil, entrar em contato com um oficial do Exército, destinatário da mensagem.


O inesperado aconteceu, Elton e Carolyne não largavam um do outro. O namoro que seria de uma semana, duas no máximo já estava no final da terceira semana. Transavam o dia inteiro e a noite toda. Ela decidiu enfrentar o marido e se separar. Não falou nada para Elton.


Em um dos plantões do doutor, no apartamento da rua Guajajaras, o marido entrou pela porta da frente e Elton saiu pela porta da cozinha.


O risco de um marido violento era o caminho mais rápido para um crime passional e não havia porque colocar mais este ingrediente na sua passagem pelo Brasil. Assim, quando soube que Carolyne e as duas filhas sairiam do apartamento e se mudariam para outro na esquina da avenida Amazonas com a rua da Bahia, decidiu acompanhá-la na mudança. Tinha que ajudar aquela mulher, agora uma mulher frágil. E duas meninas, uma de seis e outra de 4 anos.


Quem definiu e bancou a mudança foi o pai de Carolyne. Até, então, Elton não sabia que apareceria um risco muito maior do que um marido e um médico bêbado. O pai de Carolyne, além de banqueiro, rico, poderoso, figura dominadora, valente, estava mais abalado com a separação da filha do que o marido. Mais, isto é que seria importante, andava sempre armado. Ela alertou para os riscos e controlava os horários do pai. Duas horas antes, com total margem de segurança, Elton saia.


Havia um outro detalhe que eles não sabiam, a neta contara ao avô sobre o tal do tio Elton.


Quando a campainha tocou em um horário diferente, Elton viu pelo olho mágico a cara vermelha do pai da Carolyne. Já estava bravo!


No novo apartamento, as portas da sala e da cozinha eram uma ao lado da outra. Não dava para sincronizar a entrada do pai e a sua saída. Não daria tempo. O recurso foi sair pela janela do quarto, ficar no balaústre. Dependurado no parapeito do lado de fora da janela, depois que Corol levasse o pai para o quarto das meninas, ele passaria para a sala e sairia.


Não contavam com a rua da Bahia e os seus edifícios de apartamento. Do lado de fora da janela, Elton descobriu o que eram aqueles quatro andares. Com as lojas e as sobre-lojas, mais a garagem, os quatro andares se transformam em oito andares. Descobriria também, tremendo, que jamais sobreviveria como equilibrista. E começou a tremer.


Descobriria, mais ainda, que a solidariedade pode ser desvantajosa. Apareceu o primeiro vizinho a apontar para ele do lado de fora da janela. “Não pule!” Outro: “Louco!” Não soube o que ouviu primeiro se foi “Cuidado” “Não pule” Ou se foi já, quase de imediato, a maior torcida da sua vida, e os gritos sacanas “Pule! Pule! Pule!” Pareciam centenas, centenas de caras a olhar, a gritar e a apontar. Um Mineirão na sua frente. Uma grande arquibancada de torcedores e quase que de um time só, o time que queria ver a tragédia e um corpo estatelado no chão.


Certo de que o pai de Carolyne chegaria na janela, não vacilou, pulou para a sala e conseguiu sair do apartamento pela escada. Não esperou nem o elevador. E antes de descer ainda teve a inteligência de subir dois andares. Dar um tempo e descer pelo elevador ao lado de um menino que perguntava para a mãe porque “um homem tinha suicidado”.


No táxi, ficou sabendo que um rapaz tentara suicidar e que o Corpo de Bombeiros já fora acionado.


- Carolyne não dá.


Isto era o que martelava na sua cabeça.


- Carolyne não dá.


No dia seguinte, um telefonema do hospital de pronto socorro.


- Sua mulher tentou suicídio.


Era Marla e ele via o rosto da Marla convicto “Não avisei?”


Com os dois pulsos enfaixados, ele a levou para a casa da sua mãe no Prado e depois para o hotel.


Debaixo do chuveiro, sem as faixas, ela ria do que fizera.


Depois, virou as costas para ensaboá-la. Ali ficaram, sentados debaixo da água até ela adormecer.










....

terça-feira, 18 de outubro de 2011

DO OUTRO LADO DA CIDADE

“Você não me ensinou

 a te esquecer”



Peninha


Engano.



Aprendi com o tempo e a vida.


E foi mais rápido do que imaginava.


O tempo me deu saídas

para a rua e para a cidade.


A vida me mostrou a alegria

do outro lado da ponte.


Agora aprendi a olhar

outros lugares,

conheci outras pessoas,

mais alegres,

mais cheias de vida,

sorri e brinquei.


Brinquei muito.


Em um brincar diferente,

como criança

surpreso feliz com as novidades.


Não imaginava quanta vida existia

além de você.


Assim, aprendi a esquecer.





























sexta-feira, 7 de outubro de 2011

DE TODAS AS NOITES


O VAZIO


Para o menino Pablito, em Hermosillo, México











A cama em que eu durmo


nem sempre é a cama


em que eu acordo










Larga, estreita


A cama em que eu durmo


é cama e companhia


suada, panos molhados


quente, confortável














A cama em que eu durmo


macia, macia


rola o corpo


rolam os corpos


deita, espicha,










Cama brinquedo


do meu corpo


de seu corpo


















A cama em que eu durmo


nem sempre tem


lençóis brancos



Largas, muitas largas


é cama abrigo


das noites, dos dias e das tardes


em que eu me faço largo e farto










A cama em que eu durmo


madeira de madeira,


tubo de tubos, espalhada


no chão de todo o quarto


formato indefinido












porque

a cama em que eu durmo

não se repete

nem mesmo na mesma noite