terça-feira, 25 de maio de 2010

ATÉ O ALTO DA SERRA DO CAPARAÓ




Poema Velho



(Recolhido do Caderno Lichtenberg,



provavelmente do final dos anos 60)







I



Antes fui um aventureiro



que abandonou a montanha



andando pouco a pouco



seus olhos pelos vales e vida.







II



Ouço passos lá fora



Ouço passos no meu coração



São passos de quem corre



Até um abraço de quem



nunca mais se esperava ver.











III



Deram-me uma máscara



Era um sorriso de felicidade



Tudo pareceu tão natural



Que o espelho convenceu-me.



Eu era alegre



Ri e despertei em outros a alegria



Mas antes que a festa acabasse



Vieram me tirar a máscara



Arrancaram-me o coração.







IV



Rasgo minhas entranhas



Procurando meu destino



Entre meus dedos escapam



minhas entranhas e minha vida.







V



Entram na escuridão



Meu sangue e meu corpo que lateja



Entram em seguida



Os braços cortados



minhas mãos separadas



uma calça cinza



Entram na escuridão



Dois olhos que ninguém



diz se são de tigre



ou de anjo.







VI



Não sou um homem livre



Antes de ser qualquer coisa



serei livre ou não serei nada.







VII



Não há ironia em meu olhar



Você enganou-se desta vez.



Há cansaço



Não há dor em meu olhar



Há uma pequenina



história de amor.







VIII



Não acompanho ninguém



Se erguem bandeiras



Desafiam-me a rebeldia



Se erguem palavras-de-ordem



Dão-me vigilância



Somente acompanho até o monte



dali volto de novo



para meu canto



de atalaia,



sempre disposto a largar tudo de novo



todas as vezes em quem for necessário



ir com alguém até o monte.






















quinta-feira, 13 de maio de 2010

A ALEGRIA DE VIVER

A maratona de um sobrevivente







Pelo Miranda, sobrevivente de 35 e de 1971








- O que vier, agora, é lucro!






Esta frase, ele a repetiu tanto que, mais tarde, ao relembrar aqueles momentos, depois que despertou no chão cinzento da cela, acreditou que ela era a sua mantra, sua memória, sua oração, sua vida resgatada em meio a corpos que vira saírem carregados, empapados de sangue, corpos no chão do pátio, corpos no corredor, em que os torturados encapuzados tropeçavam.






- O que vier, agora, é lucro!






Como ele podia concordar com aquela frase? Lucro, um ganho a mais. Mais valia? Leitura deformada. O que vivera, então, tivera preço justo. Agora, ele tinha direito a jogar tudo para o alto, sem temer a lei da gravidade. Nada era mais leve do que o sobreviver. Nada mais aéreo do que a vida conquistada, além da resistência.










Todo o corpo, imenso hematoma. Partes em carne viva. Queimaduras entre as pernas. Dores dentro e fora do corpo. Agora, era agora e ele estava vivo. Também não precisava debochar da sorte. Nem ironizar a vida ganha. Lucro? A sobrevivência como lucro? Que visão mais chinfrim e capitalista! Linguagem imperdoável. Era por onde, descobrira mais tarde, ganhara forças para encarar aquela oportunidade de sobreviver. Como descobriria mais tarde a importância de Treinar o Esquecimento – sem academia, sem personal, sem invenções. Como encararia, por exemplo, décadas depois a vida com Elisa? Seria um desastre total, homicídios generalizados, sem o Esquecimento Aquecido.


















Talvez, não passasse da próxima etapa quando o jogaram na cela da PE da Barão de Mesquita. Vencera, isto é, sobrevivera às sessões de tortura da PCA, da Biblioteca, do Túnel - estas três ele vencera. Todas elas, PCA, Biblioteca e Túnel eram locais e níveis de tortura organizados no Aeroporto do Galeão pelo grupo de torturadores dentro da Aeronáutica. A cada pouso de um jato no era como se a terra desabasse sobre suas cabeças. A sala de tortura do Túnel, a mais violenta delas, se houvesse possibilidade de uma ser mais violenta do que a outra, era debaixo ou nas proximidades da pista de pouso do aeroporto. Chegava-se encapuzado. Um avião atrás do outro. Uma loucura. Dali poucos saiam vivos e os que saiam vivos traziam sua marca. Agora, ele respirava mais uma vez, enchendo os pulmões.






- O que vier, agora, é lucro!






Tempos depois, sentiu fome. Não sabia quanto tempo passara. Ali, raramente serviam qualquer coisa, além de pancadas toda hora, sem qualquer razão, sem qualquer pretexto. Sentiu a chegada da fome como mais um sinal de sobrevivência. Não preocupou-se em passar fome, tão certo de que sobrevivera. Mexeu a perna e sentiu como se sua calça fosse uma madeira, dura. Uma madeira que machucava, pois arranhava a carne viva. A calça dura, agora madeira, era o sangue que secara e deixara sua calça como as roupas engomadas que vestia nos dias de desfile cívico lá na sua distante Jampruca, no Vale do Mucuri.






- Se tudo o que vier é lucro, o mais a fazer é sustentar esta hipótese de sobrevivência. Ele tinha certeza absoluta de que sobrevivera. Lógico, não era um jogo de azar e nem o regime militar terminara. Resistir não é prova de força e nem pode ser parâmetro de medida de força. Não há explicação plausível para este fenômeno, pois muitos, muitos mais fortes do que ele, muito mais resistentes do que ele, não agüentaram. Quantos somos?






- O que vier, agora, é lucro!






Por que aquela frase batera em sua cabeça e não mais saíra?






- Era às vezes como uma provocação a mim mesmo e aos meus agressores. Havia agora a vida, depois desta loucura, que deveria ser vivida, sobrevivida.










- O que vier, agora, é lucro!


- O que vier, agora, é lucro!










O mundo mudou, muita coisa passou, muitas etapas foram percorridas. Às vezes, ele se surpreendia ouvindo distante, longínqua, a frase maluca.






- O que vier, agora, é lucro!






- Vinha como se chamasse a minha atenção, como uma voz tímida e baixinha, a alertar-me de que talvez eu tivesse esquecido algo fundamental. Outras vezes sobrevivera.






Aos 12 anos, em suas aventuras de menino, mergulhara para retirar um homem afogado, e voltara abraçado em um porco inchado, desmanchando. Dias e dias de febre. Fizera um pacto com a vida. Optara por sobreviver. Ninguém jamais soube explicar sua recuperação, nem a mãe, desesperada, e nem o médico, que já preparara os familiares para o desfecho final. A febre desapareceu.










Outra vez, depois de dois meses amarrado em uma cama no Palácio do Catete, no Rio de Janeiro, fora retirado para a “execução”, colocado no chão de um automóvel, com os pés dos policiais sobre o corpo, pés no pescoço e nos rins. Horas e horas rodando pelas ruas e avenidas molhadas do Rio de Janeiro, numa noite de chuva fina, até chegar ao local da execução. O seu corpo já encharcado de gasolina. “Não vou morrer, sem lutar”. A pouca chance que teve foi o bastante para despertar na cama de um hospital. Ao abrir os olhos, viu o rosto amigo do general amigo da família. Viu que o general tinha os olhos úmidos e viu uma lágrima escapulindo. Mais uma vez sobrevivera.










Agora, quando despertou na cela da PE da Barão de Mesquita, teve a certeza de que o jogo continuaria e que ainda estava a seu favor.






- O que vier, agora, é lucro!






Ele tinha certeza. Mais do que isto, ele tinha uma linguagem com o que ele não entendia, em que um diálogo inexplicável, fora do entendimento, se passava e, por mais fraco que estivesse, a vida venceria sempre.






Era profundo. Nunca fora místico. Não tinha raízes para isto e nem formação adequada. Era preguiçoso. Nunca fora o melhor em nada, não tinha motivações para qualquer tipo de disputa, nem tesão para ser vencedor de competições e nem saco para comemorações.






- O que vier, agora, é lucro!


- O que vier, agora, é lucro!


- O que vier, agora, é lucro!










Nunca cedera em nada do que acreditava, só que acreditava em tão poucas coisas, que sempre era visto como inadequado na convivência. Incrédulo? Nem tanto, porque nem ao não havia sim.























Nota:



1. A lição de tortura na ilustração era uma prática do século da igreja da inquisição (inquirir, perguntar) e se refere a um Clube da Tortura, a que foram submetidos Camões (porque amou e disse em poesia que amou a mulher de um homem do Reino português) e Nicolau Maquiavel (porque comeu o cu de uma tal Lucrecia, que ficou registrada na história por ter dado o cu para Maquiavel). Hoje, o Clube da Tortura funciona em várias partes do mundo e tem até patrocinador oficial em Guantanamo, Iraque e Afeganistão.



2. As torturas sofridas por Miranda, em 1935, estão registradas nas Memórias do Cárcere de Graciliano Ramos e as torturas de 1971 em depoimentos de seus companheiros de prisão nos cárceres da Praça Marechal Âncora, no Rio de Janeiro.


3. Na ilustração, observe que é uma mulher a vítima. Há uma certa solenidade na presença dos dois homens que seriam os juízes. A mulher depois da confissão, registrada pelos juízes - eles já existiam naquela época - seria queimada.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

LAVRAS E PEDRAS

Arcabouço











Os túneis das indiferenças percorrem


toda vastidão






do simples existir








Reduz a arcabouços a vastidão e a



simplifica







Como o velho Juca, quando garimpeiro,






e a sua terra




arreganhada








Ele simplificaria a vida num lote de pedras







comercializáveis











Lote de palavras assimiladas pelo peso e



colorido






Daí saem arcabouços simétricos


para romper paredes








são novos e gigantescos túneis






e novas e arregaçadas catas.





terça-feira, 11 de maio de 2010

TODOS OS SONHOS SÃO SONHOS







Há uma mulher que me ama























Uma mulher interessante



 

Ela diz que me ama





E que a sua vida é a minha vida









O tempo passou









Eu era o peixe





Ela, o aquário


sexta-feira, 7 de maio de 2010

A TROCA


Coração antigo


Rufino Fialho Filho e Frederico Garcia Lorca










"Aqui, Senhor, te deixo



meu coração antigo,



vou pedir emprestado



outro novo a um amigo."



Frederico Garcia Lorca, Prólogo, 1920





Sem olhos, sem mãos e sem coração. Perdido o coração, arrancado por mãos felizes, onde encontrar um outro coração que caiba dentro do mesmo peito?



É felicidade, então, entrar na poesia de Lorca. Conhecer as rimas e seu universo de sol e de verde!



Universo deslumbrado, que embriaga, digno de um sonhador, um ser feliz.



Fora uma pequena viagem, Sete Lagoas a Belo Horizonte. Eram mais de meia noite. Eu e Isabella. Vínhamos calados. Ele pôs a mão na minha perna como fazem pessoas carinhosas quando a viagem é pura felicidade. Era um gesto de carinho e de amor.



Isabella cantou e, feliz, contava do show do conjunto Tia Nastácia, de Belo Horizonte. Ela já fora a vários shows, conhecia os cantores. Ganhou um anel, uma garrafa de água, vasilha que ela guarda agora como um troféu e duas palhetas, uma deu para Gracie. 

Cantava e estava feliz com o fim de semana. Um belo passeio que terminou no domingo no degradado cine Rivelo, onde tentamos assistir e não ouvimos o Auto da Compadecida.



Agora, mais uma vez só e sem sono, na tv ouvi pedaços da entrevista de um velho político que acabara de publicar um livro de memórias, velho jurista, dizia da justiça brasileira e de sua experiência, um senhor envelhecido, um senhor extremamente categórico, triste e envelhecido no envelhecer degradado. Mal ouvia enquanto tomava o meu uísque.


Apanhei meu volume de poemas de Lorca e fui ler o poema Prólogo 24 de julho de 1920 (Vega de Zuzaira).









"Meu coração está aqui,


Deus meu,


Senhor, fica nele o teu cetro.


É um marmeleiro


demais outonal


e já apodrecido.


Arranca os esqueletos


dos gaviões líricos


que tanto o feriram,


e se acaso tens bico


picota-lhe a casca


de tédio."





Seguia até o fim, tomado de tremenda felicidade. Percebi, naquele momento, que o grande caminho aberto pelos poetas era o caminho do futuro e do entendimento entre os homens.



Eu lia Lorca, cara. Conseguia, 90 anos depois de escrito o poema, abrir na sua poesia um caminho. Agora, era o meu caminho.



"Mas se não queres fazê-lo


é para mim o mesmo,


guarda teu céu azul


tão tedioso,


o rigodão dos astros.


E teu infinito


que emprestado pedirei


o coração a um amigo.


Um coração com arroios


e pinheiros,


e um rouxinol de ferro


que resista


ao martelo


dos séculos."





O que acontece com os poetas que os fazem homens especiais de fala e de linguagem? São profundamente homens de falares e de compreensão, homens como os atores, como os dramaturgos entranhados na alma, na humanidade, na essência, no ser do homem. São os puros homens políticos, seres especiais, por isso Lorca era um risco, um perigo, um ser revolucionário, uma ameaça, ele ia para o futuro. Leio e entendo a sua fala. Lorca me abre um novo caminho. 








"Satã, inda por cima, me quer muito,


foi companheiro meu


em um exame de


luxúria, e o pícaro


buscará Margarida


- já mo ofereceu –


sobre um fundo de velhas oliveiras,


com duas tranças de noite


de estio,


para que eu separe


suas coxas limpas.


E então, ó Senhor,


serei tão rico


ou mais que tu,


porque o vazio,


não pode comparar-se


ao vinho


que Satã oferta


a seus bons amigos.


Licor feito de pranto.


Quem mais dá!


É o mesmo


que teu licor composto


de trinos.






Dize-me, Senhor,


Deus meu!


Afundas-nos na sombra


Do abismo?


somos pássaros cegos


sem ninhos?"



Entro na madrugada de segunda-feira, manhã de compromissos e meu grande compromisso é com a minha filha Raquel.



Sinto que o desafio do homem moderno não está mais na intriga espiritual, em deuses que possam nos atender. 

Está na grande construção do coração, mesmo de um coração tomado de empréstimo, desde que nos afastemos deste nosso coração vegetal, outonal e já apodrecido.




"Vai-se apagando a lua.


E o azeite divino?


As ondas agonizam.


Tens querido


brincar como se fôssemos


soldadinhos?


Dize-me, Senhor,


Deus meu!


Não chega a nossa dor


a teus ouvidos?


Não fizeram as blasfêmias


Babéis sem ladrilhos


para ferir-te, ou gostas


dos gritos?


Estás surdo? Estás cego?


Ou és vesgo


de espírito


e vês a alma humana


com tons invertidos?










Oh! Senhor sonolento!


Olha meu coração


Frio


Como um marmeleiro


Demais outonal


E já apodrecido!










Se tua luz vai chegar,


os olhos vivos abre;


porém se continuas


adormecido,


vem, Satanás errante,


sangrento peregrino,


depõe-me a Margarida


morena nas olivas


com as tranças de noite


de estio,


que saberei acender-lhe


os olhos pensativos


com meus beijos manchados


de lírios.


E ouvirei numa tarde cega


meu “Henrique!” “Henrique!”,


lírico,


enquanto todos meus sonhos


enchem-se de rocio.


Aqui, Senhor, te deixo


meu coração antigo,


vou pedir emprestado


outro novo a um amigo.


Coração com arroios,


e pinheiros,


coração sem serpentes


nem lírios.


Robusto, com a graça


de um jovem campesino


que atravessa dum salto


o rio."





A poesia de Lorca nos acompanha há 38 anos. Nestas leituras/releituras há sempre surpresas. Sou de repente, como ontem à noite, surpreendido pela leitura do mesmo poema e em que se revelam seus novos significados.

Ontem, era um dia em que pude entender um olhar possível daquele poema. É o mistério do poetar que é o fazer, o criar, o inventar. 

Como é possível ter a singeleza da bela façanha de se construir, de se criar uma imagem cheia de ternura e sensualidade como



"...buscará Margarida


- já mo ofereceu –


sobre um fundo de velhas oliveiras,


com duas tranças de noite


de estio,


para que eu separe


suas coxas limpas."





Para que eu separe suas coxas limpas, afirma o poeta no momento em que ele cria, em meio a um debate entre deus e satã, uma personagem feminina de contrapeso, expondo a vida humana em toda a sua dimensão e possibilidades, dizendo direto em que mundo vivem estas imagens tão marcadas na memória coletiva e que dispersam o essencial, a troca de corações, um coração outonal e apodrecido por um coração novo



"Coração com arroios,


e pinheiros,


coração sem serpentes


nem lírios.


Robusto, com a graça


de um jovem campesino


que atravessa dum salto


o rio."



Um cinema com história

https://setelagoas.com.br/noticias/cidade/70134-mostra-cine-rivello-presta-
homenagem-ao-cinema-que-marcou-a-historia-de-sete-lagoas











quarta-feira, 5 de maio de 2010

FIM DA ALEGRIA

Sem olhos, sem mãos














Ela saiu da minha vida


saindo,


simplesmente saindo






Se antes chorou muito,


na saída sorriu






Saiu e eu nem percebi


que se afastava uma mulher linda


perdidamente linda e feliz


Eu não soube dizer sim






Vi que a beleza desaparece






Vi que a felicidade escapa






O momento da certeza de já não ter


é hora maldita


O certo vira errado


O feio vira belo


O belo torna-se medonho






Há desespero, sim.


Há muito desespero






É o do homem com o painel da vida


Instante final do afogado


Instante final do suicida






Passos de um condenado


Ranger da escada da forca






A mulher se afasta


As mãos já não mais nas suas mãos

Nas suas mãos,

o coração de quem também saiu






É dor demais para um homem


perdidamente apaixonado


pela só paixão






Triste tristeza do cálculo


malfadado






Tudo certo, tudo errado.






Não há frieza na hora

em que mãos se desfazem






Olhares que jamais se olharão


em busca de sonhos e ternuras


divididas, multiplicadas,


enlouquecidas.






Triste quando no balanço final,


como uma criança, um homem chora.
































terça-feira, 4 de maio de 2010

ESCULTURA OU FOTOGRAFIA

Linha do Tempo









Qual a idade desta mulher?


Seus cabelos ainda fartos.


Seu rosto, massa de rugas,


papel amassado


Ainda cheio






Nariz grande, liso






Sobrancelhas?


Ainda as têm






Vestiria um vestido


colorido, certamente






Em uma foto preto e branco


teria um vestido cheio de flores


De cores?


De cores






Peitos lá em baixo


caídos


Volumosos


Quando empinados?


Então?






Traria, nas mãos


Um bule, na direita






- É cadê? Está quente






Na esquerda uma bandeja, três copos


e um prato com biscoitos






Variedades de biscoitos


Vejo pelo formato


pelas cores






Biscoitos variados






Ela está preste a ofertar






Uma oferta de boa gente






Café quente, biscoitos do forno


saindo do forno


biscoitos, doces,


salgados






Uma mulher de vida


indefinida






Hoje, peitos caídos.


uma massa que se avoluma perto da cintura






Ontem,


ah! ontem!






O café. Uma delícia!


Os biscoitos. Uma delícia!


Como ontem.







VERSO, INÚTIL TORTURA

Lígia, da elegia












A partir de Dante Milano









Não é o nome


a impregnar o corpo






Nem o verso


domina ou viola






Não há magia














Corpos permanecem


de amor


dotados para o toque


de todos os amantes


para todas as volúpias










A forma é a mesma


O prazer sempre eterno


Não disciplina,


Não exemplifica,


Não ensina


Ensina, exemplifica e disciplina










Ninguém possui


ninguém


em palavras


possui em sons, murmúrios, gemidos


em tão inteiros poemas


sagrados, profanos, verdadeiros






















Agora, o poema de Dante Milano










Elegia a Lígia





Lígia, teu nome de elegia

Te dar ao corpo moço um ar antigo

E cria em meu ouvido lento ritmo

Que me arrasta o absorto espírito

Para o verso e sua inútil tortura.

























Quem é Dante Milano



"Trata-se essencialmente de um poeta antilírico. A palavra lirismo é equívoca e exige uma conceituação pessoal. André Gide afirmava que sem religião não poderia haver lirismo. Preferia eu dizer que sem o jogo-do-faz-de-conta, sem o sentimento ilusório de que a vida tem um sentido, não pode haver lirismo. Dante Milano é o poeta antipoético, o poeta do desespero. Também este, o desespero, pode ser lírico, mas não o desespero seco, sem lágrimas como um soluço. Em todos os poemas deste livro, “Dante Milano. Poesia e prosa”, encontramos o mesmo timbre árido: em vez de sonho, o pesadelo; em vez da fantasia, a angústia; em vez de amor, um arremedo de posse bruta. O próprio poeta se espantou há muitos anos, quando lhe disse, com admiração, que a sua poesia me parecia sinistra. Releio agora os poemas, procuro cuidadosamente uma fresta lírica, um respiradouro, e chego à antiga conclusão: esta poesia é sinistra, nua, desértica."

Campos, Paulo Mendes [29 jan. 1972]. O antilirismo de um grande poeta brasileiro. In: Milano, Dante. Poesia e prosa. p.345-346.



Mais informações sobre o poeta: http://pt.wikipedia.org/wiki/Dante_Milano