quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

DEZ PERGUNTAS AO PÁSSARO


O rei e o mendigo







As perguntas do vereador R. Duarte de Santo Antônio do Leverger


A Linguagem dos Pássaros, de Farid ud-Din Attar,
da Coleção Clássicos do Sufismo
Attar Editorial



“Seria um crime amar aquele que prefere a própria vida ao amado”



Havia no Egito um célebre rei, do qual se enamorou perdidamente um infeliz. Quando esta notícia chegou ao rei, ele fez vir prontamente a sua presença esse homem perdido e lhe disse:


“Uma vez que estás enamorado de mim, deves decidir-te por uma das opções que te vou propor: ou deixar esta cidade e este país ou, por amor a mim, ter a cabeça cortada. Em uma palavra, eis tua situação: morte ou exílio”.


O infeliz não era um homem de ação; fora de si pelo medo, preferiu deixar a cidade e dispôs-se a partir, quando ouviu, surpreso, o rei ordenar que lhe cortassem a cabeça.


Um servo disse então:


“Ele é inocente; por que ordenaste sua morte?”


- Por que este homem não é um verdadeiro amante, respondeu o rei, e não estava de fato na via do amor. Se ele fosse realmente um homem de ação, preferiria ter a cabeça cortada que se ver longe do objeto de seu amor. Seria um crime amar aquele que prefere a própria vida ao amado. Se alguém conserva sua cabeça em detrimento do amor, então deve pagar ao amor a pena do traidor. Ele pediu a minha cabeça, e por sua vontade não haveria mais rei para governar este país. Se, depois de professar o seu amor, ele houvesse renunciado à vida, eu teria apertado meu cinturão para servi-lo e me converteria em seu dervixe. Mas como ele tinha somente pretensão no amor, o melhor era cortar-lhe a cabeça. Aquele que, em meu amor, conserva o amor por sua cabeça não tem o verdadeiro nem o puro amor; é um impostor. Dei esta ordem para que ninguém sem firme resolução venha vangloriar-se falsamente de padecer de amor por mim.

(Página 110)




As dez perguntas


1. Quem se enamora de alguém é um infeliz?


2. Quem ama é um homem perdido?


3. Quem ama é um homem de ação?


4. “Seria um crime amar aquele que prefere a própria vida ao amado?”


5. Se alguém conserva sua cabeça em detrimento do amor, então deve pagar ao amor a pena do traidor?


6. “Mas como ele tinha somente pretensão no amor, o melhor era cortar-lhe a cabeça”.

7. Alguém pode ter somente pretensão ao amor e não amar?

8. O amor contém o ódio?

9. Só existe o amor na destruição?

10. Ninguém sobrevive ao amor que não seja o amor servil?





segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

A RAZÃO RADICAL


A revolução do sonho e a razão radical



I

Todo poeta é um revolucionário



1. A luta política espalha poetas por todos os cantos. São os sonhadores, os utópicos. A tragédia está (ou começa) na consciência, quando o homem assume o destino. Os limites não são o labirinto e nem a realidade. Muito menos a imaginação ou o mistério. O limite é o destino. O limite é o sonho, que não acaba, e é a permanência do sonho que faz o homem revolucionário, o cidadão indignado, além do homem revoltado.




2. O que nos dá a política? Nos dá o sonho. Nos dá a realidade (também sonho?). O que nos dá o romance? Sonho e realidade. Assim a poesia (sonho, realidade e mais ainda: explode os limites, as fronteiras e a própria linguagem). Guimarães Rosa mostra em razões explosivas toda a nossa tragédia contemporânea e joga a consciência e com o que faz a consciência: as palavras.




3. Seria inútil o rio Urucuia? Seria inútil o Riobaldo? Seria inútil o personagem? Quem é mais forte, o criador ou o personagem criado? Assim, Manuelzão escapuliu, saiu das páginas e está por aí, nos rondando, falando sua filosofia, nos versos do seu poetar de todo dia. O personagem está solto, vivo e fazendo política, dizendo que é cidadão também, que vota, que sonha. Cidadão e personagem. Vice versa. Não importa a ordem, o nascer e o ser. A palavra exige pensar, exige filosofar, exige procedência. Quem são Diadorim e Riobaldo?



4. Na chave deste enigma de dupla face, de única razão, está o enredo. Na tradução do filólogo, o personagem duplo é palavra, tem raízes, tem sedução, tem explicação e ele (s) é o próprio romance de Minas, do homem, e é, sem frases construídas, síntese de nossa história como homem-cidadão. É, enfim, dia dor in, rio baldo - um estranho caminho, que nos leva até o fundo de um rio inútil, rio baldo, um rio perdido. E o novo caminho é este rio.




5. Assim é o sentido da luta cotidiana que nos traz a explosão das águas e das palavras de Guimarães Rosa, poeta, filósofo, revolucionário. Sonho inútil, a arte poética é arte política. Há que se entender, então, a alma deste homem e buscar na política, na vida, o caminho da revolta.



6. O romance Grande Sertão Veredas começa com a antropofagia, o homem deve devorar o homem, mesmo que isto o inquiete. Como Guimarães Rosa, começa seu Grande Sertão? Começa com uma cena de canibalismo. Um engano? Os sertanejos pensaram que avistaram um macaco correndo no campo. Abateram o macaco visto. Destrincharam o macaco imaginado, capturado, morto. Comeram o macaco saboroso. Tudo vencido, a fome aplacada, descobriram o engano(?): haviam comido um homem, um ser humano, uma criança.




7. A antropofagia está no relato dos sobreviventes do desastre aéreo da década de setenta nos Andes, está a antropofagia no relato de Cabeza de Vaca, Alvar Nuñez.


“do último fizemos charque...” (1)



8. A caminhada que durou dez anos, da Flórida à Cidade do México, continuou, depois da fartas e saborosas refeições, e Alvar Nunez Cabeza de Vaca venceu, sobreviveu comendo os que não sobreviveram.



9. A antropofagia, mais que realidade, é símbolo. Hoje, o homem devora o homem, permanentemente. A estatística e a história recente nos permitirão, em breve, ter um cálculo de quantos são devorados por segundo com a nova escravidão, com os novos recursos da culinária antropomórfica.



10. Como se devora um homem? Rosa trabalha com pesquisa de campo e com a construção a partir das palavras, com sons recuperados, com um gravador a tiracolo e com seus conhecimentos etimológicos e filosóficos, um hegeliano sem opiniões, carregado de verdades do seu povo, razão radical de seu existir. Estamos frente a frente com o escultor pigmaleônico. Vide Manuelzão. Ele está ai. Está solto, fala e tem opinião. Vota. (*)



11. Seria o personagem que escapou do autor? Depois do autor, qual a trajetória do personagem senão a vida? O que faz Manuelzão é isto. Ele pulou das linhas do livro, como de um trampolim, para a vida. É o inverso e é a grandeza de Guimarães Rosa. Ele não limita o homem, ele não perpetua o ritual antropomórfico. Ele não consome. Ele não confunde. Ele possibilita a vida. Faz nascer. É o inverso, mas não é a verdade única. Haverá um momento em que o trampolim deixará de existir e em que as páginas do livro se fecharão sem reservas sobre o personagem, onde ele ficará, mais uma vez, limitado a pontos e vírgulas, num diálogo de imagens e sons com os novos homens.



12. Como Guimarães Rosa, o poeta político devora homens e a cerimônia, sem o rito religioso, é simples. Disto, o melhor exemplo, por símbolo, é o escritor Autran Dourado (in A serviço del-Rei) e o seu outro: Juscelino Kubitschek. A obra é a dor e a mágoa. O escritor quis ser escultor, criador, dono. O personagem sempre escapa, sempre é maior, cresce muito, mas deixa inumeráveis e inúteis complicadores. A relação do político com o intelectual é, deles, o mais significativo complicador. Os limites das responsabilidades políticas dos dois cidadãos se confundem e há apenas um em linha de risco.



13. O outro será sempre o escriba, como lembra Régis Debray (2). O escriba, um braço. Parte do corpo. Do outro lado, o outro braço, o arquiteto, o braço esquerdo. O escriba e o arquiteto complementam a ação imagística do líder político. O canibal é um único. O conteúdo da ação política fica por conta do discurso. A forma de ação política por conta dos Colossos (3) necessários. O Colosso, uma obra sempre grande, majestática, imponente, cuja matéria prima será sempre a pedra.



14. Hoje, para o cidadão é importante saber identificar na produção literária, na poesia, radicalmente, os caminhos da liberdade, tão grave e importante quanto o caminho da dúvida, das verdades axiomáticas e das belezas estabelecidas pelas formas e pelas sugestões. Às vezes tudo se resumirá num múltiplo caminho holístico que, inegavelmente, pode nos levar a um rio inútil – ao Urucuia. Mas sempre será um novo caminho, uma nova interrogação, um novo superar, um novo vencer, um nascer de desafios, com a imperiosa imposição da aventura radical. Ser radical como essencial à vida, ao homem, o procurar permanentemente, como nas revoluções, a procura da raiz, do homem, da nossa natureza essencial. O ser. A integralidade do ser. O estar aí também. Dassein.



15. No filme Revolution (4) que conta a história da revolução americana, a epopéia do cidadão e do seu filho – criança se tornando adulto vivendo símbolos, empunhando bandeira, se arriscando para a vida e para a morte – é a epopéia de todas as lutas e de todos os romances. É o sempre indagar da nossa farta loucura, onde a razão, louca razão, onde o possível. Tudo é possível, tudo é história e história é romance, é luta, é poesia. Termina o filme e a luta não acaba. O narrador não é dono da verdade, da vida. Democraticamente, ele tem opiniões. Não há como registrar final feliz, não há final, nem mesmo quando se acaba o filme e nem mesmo quando se acaba uma revolução – uma revolução que se preza não se limita em cursos e em fins políticos.



Revolution termina com uma nova luta começando em um ringue, com uma luta de boxe, onde se defrontam selvagens um branco e um preto. A revolução americana vencera. O personagem fizera um empréstimo à revolução, cedera seu patrimônio - fé é cessão de algo, agora aquela revolução acabara. No acerto das contas, o pagamento do barco requisitado pelo exército rebelde, agora exército da nova nação, valia metade. A terra, prometida do alistamento, não mais existia. Aí nasce a profunda irritação e indignação do cidadão da nação nascente. A sociedade começava por uma revolução (?) terminal. Começava mal. Em meio à festa, à alegria do fim da luta, no ringue explodia o racismo. Os homens, companheiros de luta pela liberdade da pátria (que pátria?) agora se dividiam em pretos e brancos, em superiores e inferiores, em poderosos e fracos, em aqueles que sabiam ler e os que não sabiam ler.



16. É a frustração da luta revolucionária? É uma nova etapa de uma luta que traz a humanidade em guerra permanente, séculos por séculos? É a vitória do certo revelando, ainda no instante mesmo da vitória, corpo suado, mãos inchadas e doloridas, pés pesados, que o certo guarda – não muito bem escondido - muitos erros, muitos desacertos. É uma nova etapa, superior, da luta que revela o novo certo e o novo errado, tornando a luta mais trágica e cansando os heróis, desesperando os comandantes?



17. Por que Che Guevara deixou Cuba e subiu as montanhas da Bolívia? Qual foi a grande interrogação do homem rebelde, revoltado e revolucionário?



18. Por que a necessidade de continuar a luta? O sonho político tem o seu despertar. A luta política, a vitória. O desafio do poder está na capacidade do homem de exercê-lo. Todos sonham. Todos lutam pelo poder, sendo que o vencedor, a idéia vencedora, o partido vencedor, o grupo vencedor, desperta, venceu. Os vencedores foram vencidos, acabam-se, evaporam-se, metamorfoseiam-se. Novos sonhos se apresentam, chegam crianças; novos inimigos se apresentam, nus. Sem inimigos concretos à vista, como exercer o poder? O exercício do poder não é o exercido da força? Contra quem?


- A favor da sociedade.



19. A sociedade são muitos. Quem luta por direitos, conquista-os e não vê razão em quem concede, não dispõe da visão do outro lado, não fala em magnanimidade e nem aceita mais a submissão.



20. É a luta que mobiliza a sociedade. Quem está no poder corre o risco de perdê-lo. O risco é permanente para qualquer um, numa visão maniqueísta do poder ou dialética. Tendo o poder, pode-se perdê-lo. Perde-se o poder até mesmo no seu exercício, na omissão, no abuso. Quem está no poder pode ser afastado do poder. Há que mantê-lo. Há que exercê-lo. Nem mesmo o príncipe sabe como, jamais aprenderá.


domingo, 13 de dezembro de 2009

PRIMEIRA PARTE


A arte de se fazer amar


pela própria mulher


(A história do romance)


W.W. Bley





“Que coisa triste, meu bom compadre,
sentir inveja de um animal.”
(Arraial, Renato Teixeira)







“A arte é antes de tudo, um esforço para


dominar os outros.

Há, evidentemente, várias maneiras

de dominar ou procurar dominar

os outros; a arte é uma delas”.

(Fernando Pessoa)


I
Introdução
Quem faz a provocação é La Bruyère, em Os caracteres, ao perguntar se “não se poderia descobrir a arte de se fazer amar por sua própria mulher?” Já se passaram mais de 311 anos, três séculos, e como ninguém se atreveu a produzir tal arte, descobri-la e revelá-la, eu me dispus a encarar a tarefa. Depois de uma longa, demorada e ampla consulta entre historiadores, sociólogos, psicólogos e amigos, começamos a aventura. Não há como não ser uma aventura coletiva. Uma aventura não tanto da inteligência e muito menos da erudição, talvez daí o fato dos mais sábios terem deixado tema tão banal de lado. O arrepio é que não se pode considerar tão banal a própria vida (talvez parte mais substancial dela e que diz respeito à felicidade em sua quase totalidade). Valeria um esforço, uma tentativa, até mesmo pela anti-erudição e pela anti-inteligência: enfim, quantos não tentaram o impossível e hoje os homens atravessam os céus, circulando os continentes e oceanos. Os mares intergaláticos ainda serão navegados, com toda certeza.


Imaginava uma aventura e logo revelou-se que, ao contrário de ser uma aventura no deserto, seria uma aventura na multidão. Não seria também uma aventura na selva, nem no mundo do gelo ou em escaladas himalaicas. Nada disso, bem plano, terra a terra, sem mosquitos, perigos silenciosos ou riscos permanentes. Nada disso, mas seria uma aventura.
Porque ninguém se atreveu a produzir tal arte? Seria por que nenhum ser humano normal e equilibrado, em sã consciência, jamais perderia tempo com uma estupidez tamanha? Para que se fazer amar por uma mulher, depois de 20, 30 anos de vida em comum? O melhor não seria se fazer amar por uma outra mulher?


A arte de se fazer amar pela próxima mulher seria mais convidativo e teria mais apelo? A experiência acumulada jamais será fator desagregador e inibidor para um novo relacionamento.

Enfim, a arte de se fazer amar pela própria mulher seria, antes de mais nada, pura perda de tempo.

Ou melhor, não seria perda de tempo por ser esta arte inviável?

Ou será por que jamais homem algum em qualquer época, em qualquer idade, em qualquer lugar obteve um único resultado positivo?

Efetivamente, não há registros.

Ninguém teria conseguido realizar este feito e amar a sua própria mulher? Quantos feitos mais engenhosos e mais complicados não foi capaz o ser humano, o homem, e com que coragem, destemor e com quantos sacrifícios e mortes? Atravessou o Bojador, conquistou o cume do Himalaia, alcançou os espaços siderais, pousou na Lua, chegou em Marte, bota os olhos em galáxias jamais imaginadas, mas não conseguiu dobrar a própria mulher, trepar em seus mais altos cumes, jamais chegou a lugar nenhum com a sua própria mulher.
Efetivamente, não há registros.

Ou melhor, não seria por que uma mulher amadurecida, experiente, jamais se deixaria, em tempo algum, ser conquistada por um homem cujos macetes, trejeitos, mentiras, verdades, hipocrisias, santidades, ela conhece de trás para a frente e da frente para trás?

Veja, bom amigo, a questão gera controvérsias, dúvidas e muitas indagações. Outras, você mesmo deve ter feito. Algumas respostas cada um têm. Para se construir uma arte, entretanto torna-se necessária alguma ciência, que delimite o objeto de estudo, os experimentos e as análises. Assim, antes da arte, primeiramente, vamos construir a ciência da conquista da sua própria mulher.
II
Maquiavel e Frieiro
“...o casamento é o fojo (*) de apanhar onças
que a sociedade arma aos homens”.

Sinistrose conjugal, in O Elmo de Mambrino,
Eduardo Freiro, pg 203, Imprensa Oficial, 1971, BH

Três séculos depois, o desafio de Jean de La Bruyère continua. Entre os inúmeros relatos de experiências nesta arte, destacam-se os deixados por Nicolau Maquiavel, um século antes, que tão bem tratou da arte do príncipe que o tornou criador da ciência política.

Em “O Príncipe”, talvez a mais indicada para a composição da arte e da ciência de se fazer amar pela própria mulher, ele trata da conquista e manutenção do poder pelo príncipe, o como conquistar e como manter este poder.

Seu relato sobre a triste sina do arquidiabo Belfagor busca respostas para as crises do matrimônio com o arqui-diabo como investigador. O detetive Belfagor sai do seu conforto no Inferno e vem para a terra com uma missão: encontrar as razões para tantos desentendimentos no casamento e que levam o homem a preferir o inferno a viver com a sua mulher. Experiência que os registros do Inferno jamais deletaram. É infernal.

Importantes e recentes são as contribuições do escritor e pensador mineiro Eduardo Frieiro. A questão subsiste, mesmo depois do breve desvio da psicanálise e agora explode como uma exigência, uma necessidade de sobrevivência.

Ensaísta e resenhador, Frieiro registra em O Elmo do Mambrino, livro que reúne artigos publicados em jornais, a tragédia do escritor francês Marcel Jouhandeau: o casamento.

Diz Frieiro: “A felicidade de Jouhandeau como autor começou com a sua infelicidade conjugal”. Todos os livros, mais de 40 volumes, falam da sua vida conjugal. Em 1938, Marcel Jouhandeau ganha o “Prêmio Lasserre” pelo conjunto da obra, época em que publica Chroniques maritales.

“Esta obra é uma espécie de confissão pública de um marido exasperado que desnuda a intimidade do casamento, registrando diariamente, como num aparelho de rigorosa perfeição, as ações e reações conjugais de sua companheira – sua inimiga”.

“Godeau, personagem de Jouhandeau, nas Chroniques, era grande e forte, mas na sua fortaleza, até então inexpugnável, penetrou insidiosamente a mulher, e o propugnáculo irredutível para logo se transformou numa cidade aberta, ocupada pelo inimigo”.
“Não encontrei em Eliza nem socorro material, nem amizade, nem aliança, nem sombra de reconhecimento, nem ao menos piedade, mas encargos, cuidados, rivalidades, hostilidades, dureza de coração”. (Chroniques)

“Eu nunca tive, não tenho e certamente jamais terei mais imortal inimigo do que ela, a tal ponto que, se eu me sentisse doente, pediria antes de nada que me subtraíssem a sua guarda e cuidados.” (Chroniques)

Estes depoimentos, experiências, análises, aqui recolhidos permitem, hoje, propor a sistematização da arte de se fazer amar pela própria mulher.

(*) Fojo sm 1. Cova funda, cuja abertura se tapa ou disfarça com ramos a fim de que nela caiam animais ferozes. 2. Sorvedouro de águas, de lama etc. 3.Lugar muito fundo num rio. 4. Caverna, gruta, furna. 5. Brás N NE Armadilha para apanhar ratos ou caça miúda. (Aurélio)
III
Maquiavel e o seu Príncipe do Inferno
Maquiavel cumpria rigorosamente um ritual. Passava as tarde com seus amigos em um bar, na vila, bebendo, jogando e ouvindo histórias. À noite quando, em casa, preparava-se para o seu encontro com os clássicos. Vestia sua mais fina roupa. O ambiente era preservado. Não podia haver intrusos e nada poderia incomodá-lo. Era o seu respeito aos pensadores antigos. Mas foi das discussões com os seus companheiros de bar que surgiram as suas indagações sobre as relações do homem e da mulher, ouvindo histórias, observações e análises dos homens do seu tempo. Um dos resultados deste trabalho, colhido no século XVI, foi a pequena grande obra “Belfagor, o Arquidiabo, a fábula do diabo que casou”. Livro de cabeceira de Sigmund Freud, esta obra relata e resgata o verdadeiro sentido do amor entre um homem e uma mulher numa das cidades mais românticas da Europa, Florença (?).


Não podemos nos esquecer que por causa de uma Lucrécia, Maquiavel foi condenado à morte. O crime: sodomia. Desta condenação ele escapou, não da tortura, teve o corpo esticado até admitir que comeu o que comeu, como também não escapou nem do processo
IV

Como em “A Guerra dos Roses”, o filme
Segundo La Bruyére, existem casais que “passam meses inteiros numa mesma casa sem o menor perigo de se encontrarem”. Ainda hoje há registros de casais que, entrincheirados em suas casas, dividem espaços, áreas de ações militares, como se viver juntos fosse uma guerra permanente, um eterno conflito de ordem militar, onde se faz prisioneiros, se tortura, elimina-se, expropria-se, violenta-se, onde não se pode confiar na sombra.

São casais que desenvolvem uma guerra violenta em um espaço reduzido, a própria casa. Alguns reduzem este espaço de conflito ao próprio quarto. Outros, à própria cama. Na miniatura desta guerra estabelecem áreas para o conflito, em todos os níveis, com setores preservados para negociações. Há, por exemplo, o Quarto das Decisões Não Cumpridas, Dos Acordos Desfeitos, a Trincheira das Negociações na Cama. Na área de Tensão Extrema os riscos são totais e fatais, devido aos constantes bombardeios de tomates e lançamentos de todo tipo de objetos, desde travesseiros até objetos de metal e de vidro.
V

A arte de amar-se


“O amor é a unidade conjunta criada
pela alternância do envolvimento
passional e da indiferença criativa”.
Tao, extraído do livro


A arte da separação, de Igor Caruso

A proposta da arte tem uma primeira parte que se dedica apenas ao essencial que é a arte de se fazer amar propriamente dita. Não se poderia olvidar o essencial. Ninguém conseguiria se fazer amar por quem quer que seja, ainda mais pela própria mulher, se não se amasse, se não tiver em relação a si mesmo um conhecimento de suas boas qualidades e de algumas de suas possibilidades. É o amor essencial. Não se trata aqui de um simples, “primeiro eu”, de um egoísmo doentio, de uma vocação à masturbação de um grande e ignominioso ego.

Elementar, se você nem mesmo se conhece pode não saber o que está perdendo. Investigue-se, procure os detalhes da sua vida, mas vá com cuidado para não queimar-se e nem se perder em detalhes, “como são lindos os meus olhos”. Não se apaixone pela sua identidade constante de nome, filiação, nascimento, localidade. O reducionismo não leva nada a não ser atender a interesses policialescos de uma estrutura em fase de eliminação.

Como, então, amar-se a si mesmo? Atravessada a fase do desafio do Templo de Delfos, conheça-se a si mesmo, o que você conheceu, ame. É feio, ame sua feiúra. É torto, ame sua deformidade. Nada impede o amor que uma pessoa pode e deve ter pelas suas características. E o belo? O desafio é o mesmo do feio. É belo, ame sua beleza. Tanto o belo quanto o feio são atraídos a também resumirem suas identidades nestes detalhes. É uma face do reducionismo na identidade, agora já atingindo o prazer estético.

Para amar a mulher ou para se separar de uma mulher, o homem deve considerar estas duas etapas e considerá-las apenas como preliminares do grande jogo de sua vida. A preliminar mais substantiva é a que considera o “amar-se a si mesmo” diferenciando-o do amor próprio em si, do amor próprio puro, que se resume em atitudes de defesa e de agressividade de pessoas cuja base de personalidade radica-se no orgulho.

Propomos a conquista da própria mulher. Agora, vamos ao avesso para que possamos, vendo do outro lado, identificar este ponto que é único tanto para manter como para desfazer um relacionamento: o amor a si mesmo.

Quando procurei o livro “A arte da separação”, de Igor Caruso, Cortez Editora/Diadorim, queria lê-lo ao contrário como a arte de não se separar. A leitura de uma obra com esta característica considera, aprioristicamente, resolvida a questão da decisão tomada.

Decidido a se separar, aí se parte para a fundamentação do “como” se separar, o que, por sua vez, leva à consideração dos caminhos disponíveis, das decisões complementares. Como se separar? Preparando-se. A base da preparação é o amar-se.

O autor de Arte da Separação considera a construção deste sentimento de amor por si mesmo como tão importante que passa no capítulo 4 denominado “Futuro próximo” uma série de informações para que se consiga este prodígio de amar-se a si mesmo e indica os caminhos para o “desenvolvimento criativo do próprio potencial” e também as veredas para se “viver plenamente”.

Diz ele que “existem alguns fundamentos existenciais dos quais ninguém pode abrir mão se quiser sentir-se razoavelmente satisfeito com a própria vida:

1. saber aceitar-se tal como é, sem ficar eternamente buscando um “ter que ser” diferente;

2. dar a prioridade devida aos próprios interesses e aos próprio desejos”.

... “Saber amar-se é, para muitas pessoas, uma arte muito difícil, implicitamente relacionada com a capacidade real de amar os outros; e saber alegrar-se significa também tornar-se capaz de ser fonte de alegria. Eis que o primeiro sinal verdadeiro de um crescimento positivo da pessoa chega quando ela organiza e vive criativamente o próprio presente, com a atenção voltada para seus verdadeiros e profundos desejos”.

Em seguida, ele indica algumas sugestões com indicações “que podem ajudar a desenvolver criativa e harmonicamente a própria personalidade:

1. Antes de mais nada, é essencial aprender a distinguir os sentimentos e as necessidades que nos animam daqueles que, apesar de identificados como nossos, na realidade nos são estranhos, impostos por papéis culturais e sociais preestabelecidos;

2. É importante saber correr os riscos que se apresentam, concedendo-se, sem muitas ansiedades, a permissão de errar. O medo de errar muitas vezes paralisa qualquer ação, mantendo a pessoa na imobilidade. Uma vida sem erros é uma vida sem crescimento pessoal;

3. É útil impor-se objetivos realistas, isto é, ao alcance das próprias possibilidades e capacidades, e fixar novas metas somente depois de ter alcançado as primeiras, evitando dessa maneira o acúmulo de coisas para fazer. É exatamente isso que muitas vezes inibe qualquer resultado;

4. Observar de vez em quando os próprios progressos e tomar consciência deles (por exemplo, diminuição dos comportamentos auto-destrutivos ou dos sentimentos de derrota) só pode fazer bem, encorajando a continuar a nova vida;

5. A situação na qual se vive deve ser considerada como consequência pura e simples das próprias opções de vida, e não uma realidade inevitável que nos atingiu de fora, independentemente da nossa vontade;

6. Ser afirmativo e determinado é a base essencial para tornar-se uma pessoa autônoma e responsável. Sem uma vontade exercitada no sentido de afirmar-se (em qualquer âmbito) não é possível mover-se de maneira autônoma;

7. .......

8. Ter medo do incerto, do inesperado e, em geral, do que não se conhece constitui uma reação natural nos momentos de transtorno da própria vida. É preciso entender, porém, que se trata de um temor da vida enquanto tal, e não de um medo fundado e determinado pela situação real”.
VI

Cornologia dos conflitos
ou a cronologia dos conflitos
A) - O primeiro conflito surge, exatamente, no momento do conhecimento. Quem sou eu? Quem sou eu para você? Como você irá me conhecer? Como eu irei me abrir para você? Revelarei de mim as partes positivas e negativas? Revelarei o anjo que sou? E o bandido? Revelarei também? Quem é você?
Este é um momento onde se construirá a infraestrutura do conhecimento de duas vidas.

Respondidas, mal respondidas, respondidas pela metade, estas questões estarão sempre de volta. Quantas vezes você não ouviu alguém dizer: Você não era assim. Você não gostava de futebol quando eu te conheci. Você é outro, nem parece aquele homem que eu conheci na praia. Você me enganou. Você não é aquela pessoa que eu conheci. Você não é quem eu imaginei.
Sobre a conquista
A condição da conquista muitas vezes impõe um jogo de mentiras, em que de alguma forma há um comprometimento mútuo. É o “me engana que eu gosto”.
Com a rapidez em que se dão as relações, hoje, fica difícil a exigência de um maior conhecimento além do visual, onde sempre o mais belo e/ou o mais rico se destacam, tornam-se as únicas informações a considerar tanto pelo homem quanto pela mulher. Muitas vezes é a bela presença, a bela conversa, o belo relacionar-se que predominam na conquista, que nada têm com o conviver, com o dia a dia, com o construir uma vida comum.

A hipótese do viver junto, a vida em comum, se revela relegada a um plano secundário ao se considerar as obrigações que irão limitar e nortear o relacionamento. Ainda não estamos considerando a hipótese do casamento como a instituição do viver junto. Uma forma artificial de vida, mas com características de coerção e de submissão lastreadas na base da sociedade estatal.

A
Teoria do Engano, formulada no século II dC, pelo filósofo árabe Saber El-al Ali Naas, da Catalunha, afirma que o jogo do engano é sempre duplo. Para que haja engano há a necessidade de se ter pelo menos duas pessoas. Um pode ter utilizado de mais recursos e até da mentira. Na teoria, o equilíbrio é permanente e nas relações institucionais formadas pelo homem e pela mulher prevalecem (1) a certeza de que o destino jamais está escrito e (2) a certeza de que a solidão é possível a dois.

A Teoria do Engano pressupõe duas situações

a) o engano pode enganar o próprio engano, isto é, quando o jogo é plenamente consciente, tanto A quanto B sabem que estão sendo enganados e aprofundam, ampliam e redimensionam o engano,

b) um único está sendo enganado, sabe que está sendo enganado, aceita o engano e favorece/facilita todas as situações criadas pelo enganador.

B) - O segundo conflito entre um homem e uma mulher surge nas primeiras horas da vida em comum.

O pássaro pintado ou a teoria da destruição da personalidade

Quem fará o que?

Divididas as tarefas, alguém será lesado e mudo iniciará a revanche. Nesta fase são inúmeras e imperdíveis as oportunidades de brigas e de atritos violentos. Aparece a obsessão do controle e é o início do mais cruel episódio do relacionamento. Trata-se da “destruição da personalidade”. É cruel porque não se trata de uma simples guerra conjugal, uma guerra entre sexos, mas da destruição sistemática do indivíduo enquanto sujeito e porque envolve o aprimoramento do esquema de auto-conhecimento, do conhecimento do outro, da moldagem (escultural) da outra personalidade e, enfim, da sua destruição.

Teoria do Autor de Teatro. Chega-se, muitas vezes, a um nível de sofisticação em que A cria sobre B uma personalidade C, com aspectos particulares, com atitudes, com palavras que jamais B teria ou diria, mas aspectos, atitudes, palavras que B acaba se convencendo de que são suas, de que é ele a figura caricata criada a partir de atitudes e palavras.

B se torna C e como C é destruído.

Como se trata de uma montagem sofisticada de uma peça de teatro, que jamais será representada em outro palco, esta construção de uma personalidade denomina-se Teoria do Autor de Teatro em que se supõe a possibilidade de, no dia a dia, de duas pessoas, uma criar como um autor uma peça de teatro, cujos textos são ensaiados no sentido de se criar para a personalidade B uma personagem C, que B acaba assimilando-se como ator, sem saber, muitas vezes, que está sendo criado, dirigido e programado pelo autor A.

- B vive lendo (B nunca lê).

- B vive na tv (B raramente vê tv)

- B é permissivo, extremamente permissivo (ele nem mesmo sabe o que é ser permissivo)

- B não estabelece limites (B sequer questionou-se sobre limites)

- B é fronteiriço - aí ele se esbalda, gosta do termo, embora não concorde muito com o sentido dado, aceita o termo imaginando-se um homem que ultrapasse fronteiras.

Assim, B é tornado C, um outro que não é ele e é sumariamente pulverizado, pois ele é, exatamente, o personagem a ser destruído.

C) - O terceiro conflito constitue-se na formação familiar, propriamente dita, quando surge a figura do filho. O novo indivíduo que entra em cena traz uma marca complexa para o grupo: sua individualidade.
É filho, mas é indivíduo.
É criança, mas é indivíduo.
É um ser a ser protegido, mas é indivíduo.
Esta presença nem sempre é considerada, além da trepada. Não é fruto de amor. É fruto da porra. O respeito ao indivíduo é negado, antes mesmo de sua concepção, sempre durante a gestação, permanentemente durante a formação da individualidade e sua edificação. Sempre e permanentemente, esta negação do outro (o filho) é feita em nome do amor. Um amor sempre egoísta, sempre destruidor, sempre castrador, sempre “protetor”.

Família é conflito, um conflito essencial. Na aparência um eficiente recurso institucional de controle social desde o monoteísmo-monogamismo-fim-da-“sociedade matriarcal”. Não houve fim da sociedade matriarcal, nem predomínio da sociedade patriarcal. Houve, sim, uma manobra secular de propagação de controles, onde a mulher, submetida a um aparente papel submisso, se torna pivô da grande crise de caráter da humanidade. O amor não é amor, a família não é família, a sociedade não é sociedade. Pior do que uma invasão de seres extra-terrenos que destroem cérebros e personalidades, a constituição da “sociedade” é feita contra não apenas a própria sociedade, mas na destruição permamente, diária, do homem e da mulher.

D) - O quarto conflito - que abrigará todo um capítulo propugnador da necessidade da arte de se fazer amar pela própria mulher - trata da relação sexual do casal, do homem, da mulher e é base fundamental para estas análises as observações coletadas por W. Reich.

E) - O quinto conflito ou episódio é o relato do conflito nas separações. Muitas vezes, a separação começa no primeiro dia de conhecimento, mas homem e mulher têm uma tendência para a idiotia e, a grande maioria, resolve “ir tentando”. Esta tentativa de sobrevivência dos dois pode durar décadas e ao fim de cem anos de vida em comum, chega-se à conclusão de que não valeu a pena tentar sobreviver: a vida inutilizou-se.

Outras vezes, a separação explode no momento mais belo e amoroso da vida. Nestes momentos, a separação explode mesmo, embora nem sempre os apaixonados percebam o tamanho da explosão e nem os seus efeitos danosos. Alguns coçamos ouvidos incomodados, mas se recusam a ouvir.

Outras, no total esgarçamento das relações, de repente as pessoas se encontram tão distantes que nem mesmo há a necessidade de se separar. São dois trapos, dois pedaços dispersos de gente, que se perdem e se embaralham como afirma o compositor: “meu paletó enlaça o seu vestido” (Chico Buarque).

“ Haverá mulher que aniquile ou enterre o marido a ponto de não se fazer mais menção alguma sobre ele: vive ainda, não vive mais? Duvida-se. Na própria família só serve para dar exemplo de tímido silêncio e de perfeita submissão. Não lhe são devidos nem dotes nem respeito; mas, fora isto, e o fato de não dar à luz, ele é a esposa e ela, o marido. Passam meses inteiros numa mesma casa sem o menor risco de se encontrarem: na verdade, são apenas vizinhos. Ele paga o açougueiro e o cozinheiro e foi sempre nos aposentos dela que se ceou. Às vezes nada têm de comum, nem a cama, nem a mesa, nem mesmo o nome: vivem à romana ou à grega; cada qual tem o seu; e só com o tempo, e após estar-se iniciado no diz-que-diz-que da cidade, é que se chega a saber que o Sr. B... é publicamente, há vinte anos, o marido da sra. L...”

Os Caracteres, 76 - La Bruyère

“Há poucas mulheres bastante perfeitas para impedir que o marido se arrependa, ao menos uma vez por dia, de ter uma esposa, ou de considerar feliz quem não a tenha”
Os Caracteres, 78 - La Bruyère

sábado, 12 de dezembro de 2009

CONTABILIDADE



Cálculo macabro

Ode à resistência

Para Olegário Pacheco em sua "voadeira" cruzando as águas amazônicas






Estranhos momentos de homens

De braços que não são braços

Mãos que se deslocam do corpo

Atravessam pântanos,

Longe dos corpos

Olhos que vêem e não sentem, não sabem

Não são dos homens e são olhos

Homens

Homens?

Completados por equipamentos

Máscaras e que abraçam frios metais

E que não sentem o cheiro de corpos

Fuzilados, explodidos

Mãos que lavam meias e cuecas

Exibindo

Estranha coragem

Mítico poder

Os mais fortes

São os mais fracos

Eles sequer se suportam

A vergonha é aquela gosma

Presa, incômoda, colada em seus

Estômagos, em suas cabeças

E que bloqueiam tudo

Menos a glória

Menos a quase glória

A suposta glória

Jamais serão os vencedores

Pois não encontram os vencidos

Não encontram os derrotados

Ágeis saqueadores

De passados que não têm

De riquezas que gritam possuir

Ladrões, homens sujos com sangue nas mãos

Cospem em suas próprias caras

E se lambuzam de merda e de dólares

Sujos e porcos, podres e mentirosos

Eles sabem quem são

E temem a si próprios

Sabem que lhes roubaram também

Medíocres e parvos,

Sabem apenas o que calçam

E o que ouvem

Sabem apenas chorar suas lágrimas

Para dentro

Eles têm vergonha também

São homens também

- O mundo precisa, com urgência, acreditar –

É verdade

É verdade

Estes merdas são homens

Peidam em suas próprias bocas

Mas são homens

Quase homens

Imitação

Eles parecem homens

E são sujos e porcos

Não vivem suas vidas

Não vivem suas histórias

Estão por aí espalhados em invadir, pisar, destruir, roubar, pilhar e são sujos.

São eles e custam, cada um, aos cofres do povo,

um milhão de dólares por ano.

Pior, valem o que custam

O retorno por cadáver é de bilhões




quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

SEM TRILHA SONORA


Um poeminha



Para Rosa, não volta




Rosa escutava uma canção de amor

Passou: igual à vida aquela canção

Vida e música misturam-se em seus ouvidos

Tristes: não foi musicada a vida de Rosa

NA ESTRADA DE PASSAGEM


Um único mergulho




Para seu Adelino Correia, dono do Igarapé dos Poços



Antes do sol, há o silêncio. Silêncio, só. O silêncio e um lúgubre e volátil pirilampo. Um silêncio exatamente do tamanho daquela planície. Nada se move na pequena vila. Antes de tudo, um som. Antes, antes, primeiro, o movimento. O som: um rádio fala do segredo das casas comerciais de uma cidade maior e distante. Depois soa a voz escalada e escaldada do locutor, eram as horas. Tantas e tantos.



Depois do silêncio, outros movimentos harmoniosos compõem a paisagem. Uma mulher desce a encosta. Estes pequenos morros caindo na água são as costas largas, curtas, sujas e limpas dos pequenos comércios da ribanceira.



A mulher que desce chama-se Ada Laura. Por que Ada? Por que Laura? Ela vai ao rio, vai ao seu banheiro e à sua pia. Displicente, ela escova os dentes. Habituada a andar e a fazer as coisas, ao mesmo tempo com a exatidão de longos exercícios, ela não troca os passos nem as escovadas. Para Ada Laura, o tempo deve ser aproveitado duplamente; se for possível, que se faça três, quatro coisas ao mesmo tempo. Depois do rádio, depois dos passos de Ada Laura no caminho do igarapé, outros sons e outros movimentos surgiram.



Na mesma direção do rio segue João das Puças. Do lado esquerdo do Porto das Barcas, há um desvio para o açaizal do Seu Miguel, ali Ada Laura se banha. Ela escutou passos sobre o capim molhado. Ao contrário do que sempre fazia, dar o sinal de ocupado com um grito, Ada Laura saiu da água, juntou suas peças de roupa e se escondeu.



João anunciou sua chegada. Perguntou se tinha gente. Não. Ninguém respondeu. Não tinha gente. João aproximou-se, desceu até a água, lavou o rosto, a boca, tirou o calção e mergulhou. Nadou dois metros e depois desapareceu num mergulho. Neste instante, o tempo para Ada Laura não mais seria contado segundo por segundo. Ada esperou que João voltasse à tona. Nada. E o tempo passava no tempo marcado por Ada Laura. João mergulhou no infinito. Desaparecia. Sumia. Ela lembrou do que falaram no nascimento de João e do seu nome esquisito. João das Puças! Puças? Puças? Irritada com a demora, Ada vacilava - sair ou não sair do seu lugar, gritar ou não gritar por socorro. Certamente, João sofrera um ataque, tivera câimbra ou um ataque convulsivo como os de Nestor.



Preocupada, Ada Laura levantou-se.





Foi o seu erro, um azar, um descuido, um azar ou o início daquilo tudo. Neste exato momento, João das Puças erguia-se do fundo da água.


Ada nascia do meio do mato, João do meio da água.





O susto conjugado impediu qualquer gesto capaz de enrubescer a nudez dos dois. Ada Laura lembra que viu o dia sair da noite, que ouviu a corrida singela de um coelho. Lembra que disse não. E que sua voz não saiu. E que o não, não saiu. Não houve não. Ada Laura, no desvio do Porto das Barcas, junto ao açaizal do velho Guidoval, depois de ter lavado o seu corpo, depois de ter escovado os dentes voltou para casa.


Ada Laura amanheceu disposta. E alegre.


*


Isto foi em outros tempos, aqui nesse mesmo dia, nesse mesmo rio, nessa mesma margem, nessas costas pálidas do rio, caminhando pelo Porto das Barcas, o açaizal varrido pelo asfalto, encontrei-me com Ada Laura.


Agora, Ada, a Louca. Trazia rugas no rosto. Ela contou-me essa história.


Ada Laura me apontou um lugar. Ada Louca Laura riu e eu também ri. Ela me pediu para mandar fazer uma fotografia. No sorriso dela só tristeza. Tristeza e silêncio. Só.



Um riso estrangulado explode. Não sei de quem era o riso. Havia muita amizade. Sim, muita amizade. A amizade que todo homem tem pelos loucos e marginais.




Ada Laura e Louca ainda falou-me do que era uma mulher como ela, tida por louca, só, e que, unicamente, gostava de percorrer com os seus passos pelos cantos que lhe lembravam João das Puças, que, em outro mergulho, no infinito ficara.




Gostava apenas de estar naquela margem que lhe trazia de volta a maneira água, terra, mato, silêncio, força, dúvidas, cheiros e alegria de ser João.


Esta era a sua loucura, a sua única loucura. Ser, na margem, também João das Puças. Puças?



Ada, Laura, Louca, nunca me disse o porquê “das Puças”. Seria João dos Poços, poço que virou puça.


KKKKKKKKKKKKKKKK



Ela ria e seu sorriso vestia de novo seu rosto de menina e mulher. Ela guardava muito bem seu segredo: o nome.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

A GUERRA DO CERRITO


As paredes da casa de Baunilhas

Do depoimento de Edilson Fuentes





Ligou o projetor. Depois do incêndio, devolveram-lhe o que sobrou. Uma foto, um pedaço de filme, Dirce Maria, lá atrás a praia e Maria brincando como uma criança. O segundo plano, em que Maria e a criança estavam, mal dava para identificar seus traços. Apenas sabia que eram elas. Como poderia ter acontecido aquilo? Certo que Trejussaras seja uma praia de brinquedos e popular...as duas numa mesma foto, Dirce Maria e Maria? Incrível!







Dirce Maria possuía um corpo forte de menina. A conheci quando estávamos no inferno. A luta para sobreviver se era difícil para muitos para outros um novo dia era um milagre. Naquela época, os dois se voltaram um para o outro ao mesmo tempo. Era a sobrevivência. A união. A solidariedade entre lutadores, um imperativo.





Ninguém escapava da solidariedade.





Depois dali, muita coisa acontecera. Depois daquele instante, Dirce Maria conhecera diversos homens e os amara como amam as mulheres. Um ser. Era o que imaginara. Não souberam a hora da separação. A guerra os unira.

Apenas, a guerra, nada mais.

Acompanhava, agora, os olhares dela, acompanhava seus pensamentos, talvez se estivesse perto teria dado-lhe um murro na cara e pronto. Nunca mais quereria ver aquela geringonça em sua frente. Aquilo do murro era impossível. Havia as grades, havia algo diferente. Era outra a espécie de sentimentos que ele experimentava por aquela mulher que lhe escrevia versos e que escrevia versos também para todos os outros presos.


Talvez ele se tornara um malandro, um gigolô do sentir.
Não entendia nem a sua e nem a mutação ou... constância dela.
Não queria a compreensão: para quê?



Não entendia nada. Para que? Entender o comportamento de uma mulher. Entender uma mulher! Uma ex-mulher? Entender que era um outro! Nada disso, foda-se. Não faria o papel do marido-psiquiatra, como o marido de Maria Augusta, que amontoou vários livros sobre a infidelidade, volumes espalhados por todo o quarto, em cima do guarda-roupa, debaixo da cama.




Quando Maria Augusta deixou o marido e mudou, com toda a sua infidelidade para o apartamento na avenida Amazonas, ela levou o guarda-roupa e deixou os livros.


Seria aquilo agora, entre ele e Dirce Maria, um castigo dos céus, obra do destino, Resultado de algumas pragas! Ele, justamente ele que vivera com tantas mulheres, com tantas donas casadas ... ah! Bah! Não dava mesmo para entender. Superstição é bobagem. Possivelmente, o destino de todo bom garanhão, classe qualquer, nesta sociedade seja cornear até os trinta e ser corneado dos trinta em diante. Conformar-se com o destino, partir para o celibato, casar com uma freira, semi-emparedar a mulher, em paredes reais, virtuais ou em fantasias, ou seguir os conselhos de Sérvulo e pedir à mulher para não deixarem estragar a bocetinha.


- Vai, dizia Sérvulo Norton, vai, minha filhas, mas não deixem que maltratem a distinta.


Como segurar uma mulher hoje? Dirce Maria tinha seus amigos, tinha suas opiniões, ela dizia eles são meus amigos. E agora Blumenau? Como é que fica? Mãos no bolso e auscultar mapas turísticos. Em Salamanca, existe a batalha entre a mulher e o ideal de mulher?

Seria razoável chegar para Dirce Maria parar na frente dela, ou sentar com ela na hora da visita e dizer de uma vez por todas topo a gigolagem; ou então percorrer os caminhos da parapsiricologia e dizer, Dirce Maria, minha cara dona Dirce Maria, eu entendo tudo isto, eu sou o entendedor, tudo isto se trata de insegurança, é insegurança, um drama pirandeliano depois de Pirandello, você é uma mulher insegura, por isso se arregaça toda a todas as investidas de quem quer que seja, por isso aceitou as investidas de Augusto, do Nestor e depois do..., como é que chama mesmo o outro camarada?


Aquele filho da puta, esqueceu? Então, vamos chamá-lo de Personagem Barbudo, P&B, tanto um quanto o outro estiveram alongando seu caminho de insegurança. Você fez um bolo com os três, inclusive eu, e sei que só a mim você traiu. Para todos eles, eu sou o único Bobo da Corte da história. Posso até ter orgulho disso, sabia? Segundo todos os rastros e todos os indicadores você me pertencia, e era unicamente a mim que você se sentia atada, e era unicamente esses laços que você sujava. A sua insegurança é uma verdade bruta. Você vacila como mulher, o que há? Daí porque, logo, logo depois, o Carlos de Gravata e aquele carioca, que você me apresentou como se fosse um anjo. Nem sua beleza explica, onde e por que isto, em você, que é bela?





Nem a sua beleza explica, onde e por que isto, em você, que é bela? Seriam estes pelos crescendo como erva daninha e se espalhando. Seria esta pele mudando de cor e se enchendo de sombras? Seria uma fase mal ultrapassada do eterno incesto?







Seria como uma muleta, uma fuga, uma aceitação do destino... nunca, jamais sai com qualquer um na primeira vez, na primeira noite, nem antes do segundo almoço... tu te lembras deste argumento? Sim, jamais deixara passar, também, a terceira noite e nem que a paciência do cortejador acabasse. E assim, uma penca? Seriam estes pelos da mente, seu esforço em raspá-los o mais espaçadamente, e os pelos crescendo como erva daninha. Seria uma fase mal ultrapassada?





Até hoje, você se dirige ao homem da venda e pede um cu’ei’o da bala e o homem da venda morre de rir e pede que você repita, um cu’ei’o (*) de balas. Em que momento tudo se desgovernou? Aposto que foi depois que a bomba ti-bum. Uma explosão fora, na sua frente, detonou outra grande explosão, dentro de você.

Em que momento você tornou-se outra pessoa?
Não pense que eu
queira depois de te amar, te matar.
Nada disso, quero que eu
e você possamos ser pessoas normais,
isto é, que possamos viver.



Acabara aquela mulher que enfrentava as brigas com Gustavo, que enfrentava os inimigos com desprezo, que ria na cara do dono do jornal, que ria na cara do medo. Era outra a mulher e estava sozinha e com medo, medo, destes medos que todos nós sentimos naquele anos valentes do passado.


Cara, eu te falo isto muito por experiência em que a minha linguagem é pura experiência, acumulada desde quando deixei a casa dos Peredos, em Baunilhas, em Montevidéu. Eu também me sentia outro ser, onde a casa dos Peredos era a única que poderia abrigar-me daquele momento de todos os perigos.


Corri para lá, três cobrindo a fuga de três. Fui o último a entrar. O tiroteio ainda não alcançara aquela casa, uma construção de outro século, paredes da grossura das paredes do Colégio Dom Bosco, em Cachoeira do Campo, naquele lugar, entre aquelas paredes, Tiradentes, Joaquim José da Silva Xavier, esteve preso, em 1789 (?). Esteve?



Escondi-me atrás da parede, daquelas paredes grossas, de mais de meio metro de largura e sentia segurança. Total segurança. Na minha frente, uma menina deitada no chão. Seu medo teria dez anos Ela deve ter falado alguma coisa, mas eu só ouvia o gargantear das balas. Ela levantou a cabeça, chorava e falava... pai, papai... (Falava? Balbuciava...) Não escutei o resto do que ela disse, escutava apenas o que diziam as balas, que atravessavam a grossa parede. Segurança nenhuma. Ela me puxou pela mão, fez-me deitar ao lado dela. Do lado de fora na calçada, outras pessoas trocavam tiros com os homens de chapéus-escuros, os nossos inimigos. As balas passaram. Milhares de tiros, em poucos minutos. Depois de alcançar alto volume em torno de nós, os sons tornaram-se cada vez mais isolados e distantes. Os tiros voltaram várias vezes. As paredes estavam rasgadas, aquelas paredes volumosas, aquelas paredes históricas foram perfuradas pelos tiros das Faus.



Quatro pessoas morreram na calçada em frente da casa. Seus corpos arrebentados, destroçados, quase que formavam uma só poça de sangue. As balas que vararam a parede foram disparadas pelos fuzis automáticos dos chapéus pretos. Em poucos minutos, o estranho diálogo das balas afastou-se.
Levantei atordoado com o esforço para identificar todos os barulhos. As paredes estavam rasgadas como os corpos daqueles homens na calçada. Aquelas paredes volumosas, aquelas paredes históricas foram perfuradas de ponta a ponta. O lugar onde eu estivera antes de deitar-me no chão fora estourado por cinco buracos.





O tio Peredo arrastou a menina. Ela abraçou-se ao meu pescoço e foi embora. A altura das balas atingiriam minha cintura, todo o tronco, todo o tronco. Os tiros continuavam. Lá fora estavam caídos dois meninos e dois chapéus-escuros. Quando deixei aquele país me sentia diferente, o sorvete de coco já não tinha o mesmo sabor, por isso andei até o açaí. Aquela mulher, Dirce Maria, não mais me pertencia. Nem eu me pertencia. Depois de cinco meses e de três meses da minha morte divulgada, voltei a Montevidéu, uma semana antes dela casar com Geraldo.





O tio Paredo levantou a menina e a mandou sair, ela abraçou-me, apertou o meu pescoço e eu a apertei com carinho. Aquela criança era o nosso anjo de plantão. Repetindo, repetindo: Quando deixei o país da casa de Baunilhas me sentia outro homem. O sorvete de coco já não tinha o mesmo sabor, por isso andei até o açaí e a mulher não mais me pertencia. Depois de três meses desta morte evitada, no confronto dito como a Guerra do Cerrito, voltei uma semana antes dela casar com o Geraldo. Ela quis fugir comigo, mas ela não era gitana e eu desejava outras bodas de amor. Eu também não mais amava o amor.



Seus olhos inchados, enormes, muito pretos, passaram a me perseguir pela vida afora. E vinte anos se passaram. Não iríamos fugir. Eu já não mais amava, assim ia vivendo, fui vivendo.


Uma ou outra e está tudo muito bom.



Assim vim caminhando, achando tudo muito bom, feliz com todas aqueles que foram minhas amigas. Por que, então, você? Aquela menina, me repetindo, quer que eu te convença a abrigar-se contra os tiros?



João Bico Doce dizia do alto de sua Almenara que eu devia estar ao seu lado de qualquer maneira. Afinal, com a minha presença em sua vida, eu havia provocado sua expulsão, quem sabe o desespero de Gustavo, quem sabe a sua desintegração. Tentei simplificar as coisas, acredito em você.


Isto não basta, dizia o Bico Doce, para ele, eu devia estar bem perto de você e cobrir seu corpo com o meu, cobrir os seus lábios quentes, senti-los de repente tornarem-se frios como a morte e secos, antes de voltarem à temperatura normal, sei lá. Eu te abandonei porque não queria ser esculachado, ridicularizado, todos riam de mim. Cansei do esculacho e das risadas das piadas do pátio.



Augusto, à medida que suas cartas chegavam, lia-as para o Peri, eram as suas histórias de traição.


Os dois passavam por mim, pra lá e pra cá, no pátio do meio. Eu, sentado na porta do depósito de roupas, perseguindo o vôo dos pombos. Cada contração de um e de outro indicava o calor da aventura.




Os guardas negligenciavam com a vigilância e me entregavam suas cartas que a mim não eram endereçadas. Olha, chegou uma carta da senhora Dirce Maria. Eles sabiam que não era eu o destinatário. O guarda deixava a carta na cela e sumia. Na manhã seguinte, eu devolvia a carta sem ler, eu te respeito, respeito sua intimidade.
“Não era para você?” O guarda percebia que eu não havia lido. Dizia para quem era. Isto já satisfazia sua zorra para cima de mim. Eles liam todas as cartas dos presos. Era obrigação deles.




Um dia, eu olhava a chuva na janela do fundo do refeitório da D. Um velho me pergunta se eu estou com dor de corno, ele queria dizer dor de cotovelo, afinal embaraçou-se, pois ele sabia que eu era um ser de calma exemplar. Pedro, ao meu lado, sorri. O velho preso compreende a estupidez que dissera e para se desculpar coça o cotovelo, e eu?


Coço os cabelos.


Lembro de quando seu namorado chegou à sua terra, aquele rapaz do conjunto, ainda eras mocinha. Como fazer para continuar sua história onde a parastes?


Não queria te ver nunca mais. Eu continuaria nossa conversa no alfabeto dos mudo.



A carta que me chegou do Uruguai diz que a menina de Baunilhas morreu de gripe. Tomaram tudo do velho Peredo. Disseram que ele era um traidor. Quando a menina adoeceu... muito tarde... muito tarde mesmo... era madrugada, o velho alcançara a cidade, fizera oito léguas a pé, a menina morrendo nos seus braços. Ninguém quis ajudar o velho, ninguém gosta de traidores.


A menina, ele deixou-a dependurada na parede de nossas abreviaturas, abreviaturas feitas de cobre e amarradas com um cordão branco.






(*) cu’ei’o = cruzeiro