quinta-feira, 22 de abril de 2010

DE VOLTA AOS AYMARAS

No topo do mundo








O homem das alturas







Quando o conheci, vestia calças largas,
naquele mundo frio do alto do céu,
nas terras dos bolivianos AYMARAS,
vestia tantas roupas
 que calculava o peso a mais que carregava,
talvez por isso ficava mais parado,
quase estacionado.

Era um homem veículo de transporte de roupa.
Aquilo agregava um cheiro forte, que caso
fosse apanhado, inteiro, como estava, dali
e transportado para o centro de um desfile de
escola de samba, no Rio, não ficaria um cristão
por perto, solto em um salão de baile funk,
muita gente desmaiaria.

Era um cheiro fundamental em um lugar
bem perto do teto do céu.


Eles o chamavam de “o pensador”, enfim,
era um homem solitário, de frases curtas.

Aproximava-se dos ambientes quentes e ouvia,
ouvia, se seus olhos fossem encontrados,
neste momento percebia-se
que ele até mesmo podia sorrir.







Tudo muito rápido, pois nestas ocasiões,
ele saia como uma estrela que se apaga no céu,
naquela altura muitas estrelas se apagavam.
Ele desaparecia mais rápido do que estas estrelas.

Era este o homem.

Depois que ele saía, a diversão das pessoas
acotoveladas na pensão,
no bar, no armazém, no puteiro,
hospital, cabeleireiro, consultório odontológico,
escola,
surgiam as histórias.





Quem era aquele homem?

Todos o conheciam e tinham alguma coisa a falar sobre ele,

casos, diálogos, memórias.





Mas era apenas um homem do topo do mundo.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

TODA A ALMA

Dante, Virgílio







Virgílio, Horácio






















A poesia te salva,


Ela é forte, é guardiã,


ela combate teu estresse.






Ela alivia tuas dores,


ela faz pensar


mais profundo


e ritmado






Não te deixa esquecer


o amor que acabou






(Todos devem esquecer


o amor que já acabou)






A poesia é remédio


Para tuas dores






Ela é salvação


quando perdes no claro


quando te encontras no escuro










Ela se desenvolve


sem pedir


sem exigir






 



Vem quando calado


falo ao teu coração


de medos,


de coragens






Quando falas da violência


em que tu te encontras


perdido e das flores


em tuas mãos






Surpreende-te e rigorosa


exige medida


impõe sons


troca palavras


exige rigor










Outras vezes, deslavada


é a mais doce das putas










Drica, Drica, Drica










Outras vezes dengosa


espraia-se em todo o corpo


e é perdida, doida, fugaz














Outras vezes,


como uma santa,


imita Cecília


Confunde teus olhos


teus ouvidos














Como um orvalho que cai em agosto


ela diz poemas e sonhos


e transforma um ser estupefato


na embriaguês da compreensão.










Delirante,


ela é tudo para ti


desde o desembarque


na cela da Marechal Âncora


em versos difíceis,


eruditos, instigantes


nos mesmos infernos


de todos os tempos.










Era só poesia










Um momento de crescer


amar e viver.


De sempre,


sobreviver.










E conseguistes.


Conseguistes, sim,


e eu acredito














terça-feira, 20 de abril de 2010

O SEGREDO DELA

COMO DECORAR





 

O segredo daquela mulher é a sua poesia, poucos a conhecem e todos a conhecem. A poesia daquela mulher, seu segredo, está em seu corpo. Todos sabem disto. Seu corpo é um poema monumental. Ela é um monumento. Poucos são os versos conhecidos. Ninguém a diz em rimas e do seu ritmo só se conhece os sons do seu caminhar lento, marcado, ou do seu caminhar rápido e picante. Ela é alegre. Não existe monumento mulher triste. Ela guarda-se e expõe-se. Guarda-se em pequeninos detalhes. Ela não é minha. Ela expõe-se por toda a cidade e está em todos os sonhos de amor. Ela navega neste imenso interior, distante das areias marítimas. Ela tem da poesia a frase precisa, o verso sem defeitos, o ritmo fácil, límpido, claro. Ela é pura poesia, mulher milimetricamente metrificada. A pureza fica na poesia que em segredo ela espalha. Eu navego em meus sonhos seu amor nestas montanhas ferruginosas, neste insondáveis dizeres do ser só pura poesia, poesia dita, explícita, visível, palpável, saboreável. Eu a trago na ponta da minha língua. Sei-a de cor, salteado, de trás para a frente, de todos os jeitos em qualquer um dos cantos, em meio a qualquer um dos versos. Dê o mote, devolvo a chave e não há enigma em nenhuma poesia. Ela é segredo, é poesia, ser conhecido, é mulher, ser ignorado, surpreendente: tudo pode acontecer.

Até o amor



















O QUE NÃO SE PODE ESQUECER





O rio




 

O rapaz esqueceu o boné

Voltou



O rapaz esqueceu o canivete

Voltou



O rapaz esqueceu a chave

Voltou



O rapaz esqueceu o sonho







A INVENÇÃO

A festa











A festa que eu não quero


é a festa que desfila


que não mostra


nada senão cores


que enganam


só pedem alegria






A festa que eu quero


é a do pão que alimenta


a festa de homens


verdadeiramente felizes






Vou inventar uma festa


uma festa de todos os dias


que principia com o sol


na música de todos os sons


do carro no asfalto


do menino ao lado


da bola na parede


do avião no céu


indo para onde eu sei


que mora meu amigo


onde está a imagem


do mais sábio de todos os sábios


o passarinho azul


que voa no azulão


pulando de árvores brancas


em árvores brancas


sobre elefantes voadores.














Quero a festa de todos os dias


do menino


da menina


Eu sei, eles estão todos os dias


ao meu lado, à minha espreita


é o menino que eu sou


em minha cidade caliente


em minha cidade vibrante


onde o sol se põe apenas em nossos corações











segunda-feira, 19 de abril de 2010

DOIS HOMENS




Florença no tempo de Savonarola/Maquiavel

Uma mulher chamada Florença



A Lição do Prior







Parte do diálogo travado durante o curto estio da manhã do dia 23 de maio de 1496 (1), na Piazza della Signoria, entre o prior Dominicano Girolano Savonarola, então com 44 anos, e Nicoló Machiavelli, 27 anos, dois anos antes da execução de Savonarola e da nomeação de Machiavelli como secretário dos Dieci della Guerra. Neste cargo, Machiavelli permaneceu 14 anos (2).




















































Maquiavel - Prior, por que o senhor insiste em permanecer, aqui, em Florença, sabendo dos perigos que corre? A cada palavra, a cada sermão cresce o perigo?





Savonarola - O papa também me quer fora de Florença e, de preferência, em Roma, preso, pronto para ser executado, assassinado ou queimado numa fogueira, depois de formalmente julgado e condenado. Ou o que mais quer agora: imediatamente eliminado. Os riscos são maiores fora de Florença.





M - Uma cidade não é uma trincheira.





S - Florença, no final do século XV, governa o mundo por intermédio de seus bancos. A força da cidade é a sua maior trincheira, o grande escudo protetor dos cidadãos.





M - A sua força é a palavra. Em qualquer lugar encontrarás bons amigos. Saindo de Florença jamais será isolado, limitado e surpreendido.





S - Fico pela própria cidade. Aqui, com os amigos no poder, com a república, eu me sinto mais seguro, em condições de falar e com as garantias que só Florença, hoje, dá a um cidadão. É uma característica permanente da nossa cidade. É única. É uma bela cidade e, na primavera que começa em meio a toda esta chuva, a beleza de Florença explode em cores nas suas flores, nas suas casas, nos seus barcos, explode em cheiros nos perfumes de suas rosas.





M - Com o chão ainda molhado e com as nossas roupas úmidas, eu me pergunto prior, da grandeza de nossa Florença; por que tudo isto em meio à agitação do mundo? Que cidade temos para viver? É uma bela cidade, sim. Um belo rio, sim. O Arno corre sempre tranqüilo.





S - Uma bela história! Um belo povo! Alguns nem tanto.





M - Quais são os caminhos dos nossos banqueiros e dos nossos mercadores? São os caminhos do mundo, prior!





S - Não seriam os caminhos de Deus?





M - Os caminhos do mundo são incomensuráveis e Florença se repartirá em outras cidades e vilas pelos continentes. Certamente, ela se multiplicará pelos novos mundos.





S - Florença traduz a força das formas que traz o mármore. Florença tem todas as máscaras que o homem ousou imaginar. A minha, por exemplo. Onde me forjei senão nas ruas de Florença? Quais são as máscaras do orador? Não é a erudição pura, não é a eloqüência do jogo moral?





M - Prior Girolano Savonarola, o senhor é um profeta desarmado. Um cidadão na linha de risco. A qualquer momento, o poder lhe escapará e será a sua perdição. Hoje, podemos conversar, aqui, neste praça, protegido do chuva nesta curta estiagem. Eu, apenas um cidadão, e Savonarola, o grande orador e o líder de um novo concílio.





S - Amanhã, também, poderemos conversar. A conversa talvez não terá você diante de mim. Certamente, eu estarei em silêncio e distante. Você poderá me observar aqui nesta praça. Reproduzir todas as nossas palavras, me avaliar, me julgar. Eu serei a ação. Quem sabe a vocação desta cidade de banqueiros, comerciantes será também abrigar profetas?





M - Banqueiros jamais serão profetas, jamais permitirão a existência de profetas entre suas fileiras, a não ser os profetas dos azares e do jogo da vida mal construída, daqueles que acreditam e que acreditarão sempre, com ou sem profeta, no livre curso do destino e no jogo da multiplicação do dinheiro que jamais existirá.





S - É a vocação de toda cidade tornar-se ou buscar ser o abrigo da riqueza, do poder e dos sonhos e esta é a vocação de Florença em especial. Por que? Porque Florença é feminina. É uma cidade mulher e a sua beleza não está nas suas praças e ruas, apenas. Não está no adorno. Assim, como bela é a mulher feliz, a mulher cheia de vida, Florença é, essencialmente, uma cidade feliz. Ela seduz até pelo vento e seus sons, pelo clima de fé, de crença na vida e no homem.





M - As ruas cortam, rasgam o corpo desta mulher e a expõem...





S - O diálogo, a certeza da convicção.





M - Certo, Florença pode ser esta mulher. Uma cidade feminina, como você diz. Mas como dominá-la (3)?





S - A mulher só se deixa vencer pelos que ousam e não pelos que agem friamente. A mulher, por esta razão, é sempre amiga dos jovens - eles são mais bravos, menos cuidadosos, prontos a dominá-la com maior audácia.





M - O domínio de uma cidade, antes do saque, está na sua abordagem, no domínio de todos os seus esconderijos e de todos os seus contornos.





S - Maquiavel, você compreenderá melhor sua cidade percebendo seu ar feminino (4).





M - Concordo, Florença é mulher, uma cidade feminina, assim como a sorte é mulher. É e será, por isso mesmo, sempre muito bela, muito bela. Conquistável?









Outros trechos deste diálogo estão sendo compilados pelos pesquisadores que trabalham sobre os livros da biblioteca de Florença, em meio aos quais foram encontradas as anotações feitas por Machiavelli.


Primeiro, a fogueira






O Mármore, uma homenagem?





Cinco observações



(1) Choveu quase diariamente durante 11 meses, em 1496, o que arruinou as colheitas - e as possibilidades de vitória de Savonarola.



No dia 23 de maio de 1496, primavera no hemisfério norte, Savonarora tinha 44 anos e Maquiavel 27.





(2) Em 1498, aos 29 anos, Maquiavel foi nomeado secretário dos Dieci della Guerra, cargo ocupou por 14 anos, até os 43 anos, quando começa seu exílio e ostracismo.





(3) Trecho de onde se extraiu esta parte do diálogo: “Conclui-se, portanto, que como a sorte varia e os homens permanecem fiéis a seus caminhos, só conseguem ter êxito na medida em que tais caminhos se ajustam às circunstâncias; quando se opõem a elas, o resultado é infeliz. Acredito seguramente que é melhor ser impetuoso do que cauteloso, pois a sorte é uma mulher, sendo necessário para dominá-la, empregar a força; pode-se ver que ela se deixa vencer pelos que ousam, e não pelos que agem friamente. Como mulher, é sempre amiga dos jovens - mais bravos, menos cuidadosos, prontos a dominá-la com maior audácia”.





(4) A grandeza de Savonarola estava em seu esforço por conseguir uma revolução moral, tornando os homens honestos, bons e justos.







(5) Na Florença de Maquiavel, o monge Savonarola fazia sua luta com discursos violentos contra Roma e seus descalabros.

Savonarola, o monge, comandou uma das mais impressionantes resistência aos papas.

Era um fiscal das leis cristãs, um promotor duro e com discurso direto, denunciava em seus sermões, a vida desregrada dos bispos de Roma, denunciava a imoralidade dominante, a corrupção desenfreada.

Maquiavel tudo observava e foi um dos florentinos que assistiu à execução de Savonarola
na praça dos Doge.

Mais tarde, refletindo sobre aquele episódio, Maquiavel resumiu a situação a que são, dramaticamente condenados todos aqueles que têm apenas o poder da palavra e da lei:  são profetas desarmados.








sexta-feira, 16 de abril de 2010

TIVI





Tudo muda



Para Darcy Ribeiro,
o Homem que Virou Prêmio


Era homem e hoje é tigre






Era uma bela raposa e hoje é dona Dora






Falam com palavras


agora grunhem


O latido guiava os bois


Seu grito é de socorro






O homem vira bicho


O bicho vira homem


O homem ganha pelos e garras


come sua caça e anda sorrateiro


em galhos finos e balouçantes






Não há equilíbrio precário






O gato ganha botas e vôa em jatos


veste-se de roupas de frio


vive sem pelos e pisa no chão da nave


seu peso que não vale nada






“a monjinha se vê no que é:

da cintura pra cima é uma pantera de duas patas

O pelame prateado,

olhos verdes cintilantes, negros lunares,

e aquela elástica, sedutora presença,

que paralisa, encantado,

todo bicho, toda gente.

Encanta e mata.

Da cintura para baixo é cobra boiúna,

escamada, serpenteante.

...Aí vieram as metamorfoses de Tivi e Calibã,

um olhando pro outro

e se vendo mutuamente.

Ele e ela,

sucessivamente sendo

e deixando de ser

todos os entes que contêm”.

















Darcy agora é da terra


onde transforma-se em terra


em coisa de cheiro e seres


que correm muitos






Darcys, mil Darcys


anárquicos, verdadeiros


poetas, belos,


raça forte, todos têm a sua cara


seu olhar amigo e debochado,


solidário e feroz,


depois será onça também


jacaré também










Calibã, Darcy-Calibã


apaixonado pela Tivi


transformador da Tivi


vivendo em ser Tivi também










Ali, Darcy te vi forte, melhor


mais palavroso, mais criador


carinhoso com seus mil Darcys






Prudente com seu sonhar desenfreado


Prudente, prudente, o homem que aventura ser


A aventura de ver






PRAÇA MARECHAL ÂNCORA

Teoria da fuga






“...está sempre em véspera de coisa nenhuma...”



O burrinho pedrês,

de João Guimarães Rosa









Deitado com a mulher de novos seios, agora seios duros, você continua a falar da teoria da fuga e lembra do período em que não fugiu.

(Por que eu não fugi naquela época?). 

Preso nas celas da Polícia Federal, no Rio de Janeiro, na carceragem da rua Santa Luzia, na Praça Marechal Âncora, uma pequena praça ao lado da Praça 15. Condenado a 33 anos de prisão, ali permaneceu naquela cadeia para ser interrogado pelo órgão da inteligência da Marinha, Cenimar.




(Por que chamam os profissionais da tortura e do assassinato de “inteligência da...”?)



Os interrogatórios, em um ano e dois meses naquela prisão, ocorriam ocasionalmente. Da parte dos militares, havia mais interesse em uma punição extra. Ele já fora condenado à revelia e, no meio da guerra de rua, guerra pesada, não tinham muito tempo para se preocupar com um caso encerrado, um homem condenado, fugitivo capturado e encarcerado.






A não transferência para as celas do Cenimar e as dificuldades opostas a um interrogatório mais violento eram parte da estratégia do advogado Antônio Evaristo de Morais Filho. Todos os dias, na parte da manhã, estando no Rio de Janeiro, o doutor Evaristo passava pela prisão e quando não podia enviava um estagiário do seu escritório - filho de um almirante, uma autoridade para os carcereiros e para os delegados de carreira, além disso alta patente militar, sempre citada na apresentação, intimidava. Era o “filho do almirante Caminha”.


Os interrogatórios, aparentemente, não eram planejados. A punição definida depois de cada visita ou interrogatório relacionava-se com as condições da cela, mantida a maior parte do tempo sem nada dentro, sem colchão, cobertas, toalhas, sem água.







Água era uma vez por dia, no máximo duas vezes, e de uma torneira que ficava fora da cela. O acesso à água da torneira se dava com a intervenção do carcereiro. Por que este destaque à água? Basta você pensar em Rio de Janeiro. Pensar em calor, verão, o cara dentro de uma cela de cimento puro e terá uma ideia do que é dormir e acordar em um caldeirão natural. Isto quando o caldeirão não estava superlotado.


Se o carcereiro não aparecia significava que houvera uma proibição (a punição). A cama e o cobertor, quando permitiam, eram improvisados e feitos de jornais, assim como a madeira para as fogueiras nas noites de inverno – madeira feita de jornais enrolados. Agora, pense o inverno dentro de uma cela que originalmente era uma geladeira para cadáveres enviados à perícia do Instituto de Medicina Legal.


Os jornais enrolados transformavam-se em lenha e a lenha devia ser economizada. A transformação do jornal em lenha era uma arte e um passatempo. Depois de enrolados os pirulitos de jornais eram dobrados, para que permanecessem enrolados. A dobra era a arte em que surgiam figuras geométricas a partir de triângulos. Agora a lenha tinha uma ponta que permitiria movimentá-la dentro do fogo.








1. Este período de prisão na Praça Marechal Âncora durou um ano e dois meses, de janeiro/fevereiro de l970 a março/abril de 1971.











2. O muro em frente à cela número 2 dava para a rua Santa Luzia. Eram três celas, a número 1 era a perna mais curta do L. As outras duas celas ficavam na perna mais longa do L. Na quina do L ficava o tanque, a única fonte de água para as celas.









3. O que era aquela prisão? Antigas geladeiras do IML, Instituto Médico Legal do Estado do Rio de Janeiro, depósito de cadáveres. As geladeiras foram desativadas e adaptadas para uma prisão de três celas.





quarta-feira, 14 de abril de 2010

QUADRINHAS


sem intenções









1.


Sonho sonhos da cor dos sonhos


Sonho sonhos com ela


Busco nela a cor do mar


Busco nela um sabiá














2.


Só de pensar nela


Vem a idéia da parelha


Cuido de ter duas


por medo de perder a tua














3.


Caminho como quem voa


Cruzo oceanos, planetas


voo em percurso fechado


de canaletas em canaletas














4.


Posso dizer aos meus filhos


Vivi vidas mil vidas vivi


viverei outras 300 mil


em seus sonhos realizados


















5.


Tive uma mulher presente


em todas elas, uma mulher


parente igual sangue forte


ali, permanente, face a face


















6.


Meu pai não é um homem velho


Das histórias de Poté e do Mucuri


Descubro-me mais velho


- Como é jovem este bom bacuri!


















7.


Ouço tuas histórias mulher


Teu percurso sempre inverso


Um desfazer o feito perverso


Recontando feridas em versos


















8.


Ele corre velozes caminhos


carregando gentes e vazios


corta curvas, corta rios


Insensato menino vizinho


















9.


Conheci o super-homem


E ele se chama André


Todos os dias grita Sazam!


E transforma todos nós!






(Para André Carvalho)


















10.


Sei que não é assim feita de saber


A verdade nua e crua de Ilinóia


Finjo que é assim só para poder


Amá-la todos os dias e não afogar.


(Salvo pela bóia).














11.


Menino, corria descalço


pelo chão de fogo e fumaça


Quetava apenas quente


nos braços negros de Durvalina














12.


Aprendi a amar pelo cheiro


Falar palavras respirando


Apalpar corpos pelo nariz


Ouvindo seu cheiro derramar.


















13.


Quem me quis, quis mudar-me


- Será assim diferente e assado!


Vi tudo se transformar


Nunca imaginara-me um monstro!


















14.


- Serei melhor do que Milton.


Melhor do que Petrarca, Dante.


- Estás certo. Ninguém mais tem


tempo para ler páginas de antes!


















15.


Faço poesias e respiro.


Existo e agasalho-me


com histórias e poemas.


E capturo-me um palhaço!


















16.


Quadra dupla






“Não sei se é fita ou se é fato


só sei que ela me fita,


me fita mesmo de fato”.


Seus olhares foram olhares


perdidos em um tempo de falares


Não consegui prender nos meus


os olhares e falares que nela


morreram de fato.


















17.


A água jorra da mina na serra


Minhas lágrimas caem na terra


O rio vira mar, eu viro teu chão


Do mar vida, do chão frutos!


















18.


Galicho e Teófilo

Para Thiago e Teófilo









Era um cavalinho veloz,


o mais veloz da fazenda.


Era meu aquele cavalinho,


Galicho, indomável e feroz!


















Corria certeiro rumo ao futuro


Era meu o futuro e dele o rumo


Corria veloz extraindo de mim


rumo diverso que nos distanciaria.


















Galicho sobrevivi veloz


letra por letra, ainda corre


mas seus rumos estão em mim


Dentro de um futuro que sou eu.














Meninos, muitos meninos


sonham com seus cavalinhos ágeis


Seus Galichos ficarão para trás!


Galicho em mim, mais que sonho, sou eu.














O homem e um animal


são capazes de mais amor!


Um fazer, refazer-se


Ser, mais que ser, essência.














Galicho correu em meu peito


tão veloz que meu coração


atropelado, perdeu-se sem freio


No vôo da trilha descobri ser feliz!


















Arrancaram-no de mim


E quase de mim eu mesmo!


Perdido descobri Galicho


Correndo em meu peito.