sábado, 24 de setembro de 2011

O OUTRO LADO






DA BELA E DO SUSTO


De Jara Torres, em 68, em Nagoya, no Japão












De dentro dela


surgiu


o disfarce


de princesa


e a alegria


e a beleza






De dentro dela


surgiu


uma história bonita


de deliciosas donzelas






De dentro dela


surgiu


gigantes - homens bons


e os mais gostosos bombons






De dentro dela, surgiu


o olhar feroz e o fogo


A boca imensa e o fogo.





quarta-feira, 21 de setembro de 2011

NINGUÉM PROÍBE O AMOR


Amantes (Nicoletta Tomas)



Um tiro na mulher

só porque era amada




"Não é uma acção que vence uma paixão.
É uma paixão mais forte que vence outra mais fraca."
Espinosa







O amor hoje vira cego

e é veloz como um raio

Tudo tão rápido

que nem a gota que cai da pétala

e da pétala sai



O amor muda hoje em tudo

tudo tão rápido

que Valéria amanheceu

para tombar na calçada



O amor hoje guarda tantos mistérios

tantos mistérios em tudo

Toma da mão de outra

o tiro que tira Valéria da vida



O amor não é amor amor beleza

tantas surpresas ele reparte

Valéria jamais imaginaria

alvo de um tiro em frente ao seu portão

(ela que amava tanto)



O amor é canhestro, não foi de amor

a morte de Valéria, foi de terceiras,

quartas, quintas pessoas, que sabiam

que Valéria tinha um amor proibido!







(Republicada com as alterações de Amílcar Cabral
Valente, de Mihaí Bravu, na Romênia)






























































TERRA.COM






Cabra da peste


         Para Cláudia e Maristela, de Cascavel, no Paraná





Atravesso uma senhora maré


derrotado na justiça


(porca justiça)






sem ter onde dormir


(e a cama que me oferece,


humilha)






sem ter onde comer


(e a comida que me chega,


humilha)












sem ter os meus filhos


(alguns contra mim)






sem ter sono


(sobrevivo com poucos sonhos)






sem ter o que comer


(e o que como é olhado,


como se fosse furto)






sem ter uma cama


(bem perto dos que


vivem na rua)






estou sem saber nem mesmo


o porquê vivo


(sem razão de viver)






Percorro, todos os dias,


o mesmo caminho


(nem mesmo consigo


cansar)






Sigo, sigo, sigo

Vou seguindo


(nem sei se vou,


se volto)






Procuro meus papéis


(agora espalhados,

um tanto aqui,


outro tanto lá)






Por que cheguei a este ponto


(e somos milhares


de milhões)






Homens, mulheres e crianças


sem a comida

só sem o que comer

sem o que comer mesmo


(bem perto de perder a vida)




Na identificação desta foto, a quase certeza:
são sobreviventes de uma enchente






 


segunda-feira, 19 de setembro de 2011

UM DEFEITO






UMA VIRTUDE







- Você é mulherengo.






Ela afirmou, mãos ao volante, rindo, ensaia um riso debochado, investigativo, aguardando a confissão, afastando o rosto para, sentada ao lado, olhar de cima, cabelos curtos, penteados agora mesmo, diante de um espelho em que se viu naquela cena, muito bem ensaiada, afirmativa, do alto.






- Você é mulherengo e só eu não sabia, todo mundo sabia, até o Alberto Nunes cansou de me avisar, “Não é possível, então, só você não sabe”.






- Não é nada disso, eu não sou...






- Você é mulherengo e o seu amigo, como é mesmo o nome dele?, Abelardo, Abelardo disse que o seu apelido é “Largo da Carioca”, “Rua da Carioca”, porque só tem pensão, tantos são os filhos que você tem.






- Não é nada disso.






No texto ensaiado, na fala dela, não há espaço de diálogo e o monólogo continuava, afirmativas categóricas, ritmadas, sem possibilidade de ser uma questio disputate, sem objeções.






- Você é um mulherengo.






Esta frase como ritmo, com sua acentuação forte inicial e o som final fraco, fez-me vaguear no mais vagabundo dos andarilhos do pensamento.






Como explicá-la o ser mulherengo, a relação com os amigos em que eu era mais espelho, mais um ouvido, do que o ser afirmativo das suas imaginações, ninguém mais mulherengo neste sentido que ela dá do que ele e ele contou a história comendo na feirinha com duas mulheres, uma ele cantava, uma ele comeria, mulherengamente.






Um amigo que conhece-me tão pouco e no pouco de convivência existido mais revelou-se do que compartilhou. Pouco sabe de mim e eu muito sei dele também por uma característica da solidariedade às aflições e ao desespero de quem engasga se não vomitar suas experiências, vidas e loucuras.






Só facilito e encaminho o entendimento e ele ao se descobrir com aquelas características (sempre aprovadoras) vê no outro não ele e nem no outro o seu espelho, mas vê no outro as qualidades negativas que aquele (positivo, aprovador) contém.






O negativo sou eu, no final da confissão catedrática.






A realidade é que na relação, hoje, homem mulher, o homem é um ser frágil, vulnerável e mutável. Frágil não como oposição ao masculino, não por identidade com o feminino. O homem constitui um ser múltiplo cuja característica de fragilidade se liga mais a caráter, comportamento, insensibilidade e desamor próprio.






A fragilidade do masculino é detonadora, muito maior em grau do que a fragilidade feminina. São duas as fragilidades entre os sexos e uma não tem qualquer relação com a outra e não se trata de fragilidade ligada a força.






A vulnerabilidade do ser masculino está ligada à sua tendência às ampliações exageradas e não verdadeiras do ser masculino. Ele é o que não é, constrói-se, sonha-se e surpreende-se, com muito mais constância, em sua não realidade.






Há o choque e há o estar do outro lado, sem volta ou perdido ou perdendo, em queda. A sua mutabilidade liga-se à consciência do ser masculino de que é possível não olhar para trás e seguir em frente, com suas novas vidas, roupas e pessoas, seus novos talheres, pratos, garfos e suas novas comidas, antes uma bela carne de sol, agora um prato novo de Curvelo, banana feita como se faz xuxu.










Flagra a dispersão e ela freia.






- Como podemos conversar desta maneira? Você não consegue me ouvir.




- Então, desligue o rádio.






Entra a música. Os dois ouvem em silêncio.

Ele sai e ela arranca o carro. Em silêncio também.













http://letras.terra.com.br/caetano-veloso/72788/





sábado, 10 de setembro de 2011

NO QUARTEL DA PE NO CENTRO HISTÓRICO DE PORTO ALEGRE

Com Ulysses e o capitão Lamarca


Para o companheiro que em Cruzeiro do Sul, no Acre, nos acompanha silencioso









1.
Elton, 19 anos, estava preso há poucos dias. Do Chuí, na fronteira, para Santa Maria e depois para o quartel da Polícia do Exército, no centro histórico de Porto Alegre, nas proximidades da escola de engenharia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.


Situação delicada. Desde algum tempo, era uma prisão atrás da outra. A última foi no Quartel do Regimento de Obuses, no bairro de Benfica, em Juiz de Fora.


Elton chegou ao quartel em Porto Alegre à noite. O mesmo quartel de onde fugira o coronel Alfredo Daudt (*), em fuga tida como sensacional porque escapara pelo teto. Pelo teto? Ao entrar, uma construção histórica, hoje já demolida, olhei para o teto e o seu forro de madeira. Por ali, teria escapado o coronel, que conhecera em Montevidéu. Fácil? Provavelmente, sim. Com ajuda? Com toda a certeza.


2. Não posso dizer que nada dera certo na jornada de fuga do meu amigo Elton. Ele conseguira escapar de Belo Horizonte, onde era vigiado. Escapara para São Paulo e a fuga fora de ônibus. Até Porto Alegre, a jornada teve poucos momentos de tensão e tudo dera certo. Ia com minhas duas malas, uma cheia de livros, entre eles o Ulysses, de James Joyce.


Folheava o grosso volume entre uma parada e outra. O livro fora editado pela Civilização Brasileira, em tradução de Antônio Houais, que a partir de tantas palavras se tornou um dicionarista – acredito. De qualquer forma sempre se exaltou o mérito do tradutor.


Quando colocaram as suas malas diante dele – as duas apreendidas na rodoviária de Porto Alegre – o general provocou, pois permitiria que ele fosse para a cela com um único livro.


Escolheu o Ulysses.


- Vocês são uns loucos – e ele era louco na seu desejo de vingança contra Brizola e tudo o que pudesse ter relação, mesmo de conflito, com o líder exilado e, no exílio, condenado a viver em Atlântida, uma cidade distante da capital uruguaia.


A loucura que ele apontava em Elton correspondia à escolha do livro. Depois ironizou, “e vocês nos denunciam por torturá-los”.


Talvez, talvez, ele tivesse razão. Não foi assim – um destes talvez corresponderia a uma tendência masoquista de todo leitor, aqueles que deixam de viver para mergulhar em um mundo aberto pela imaginação das palavras. O general poderia, por aí, ter razão.


3.

A cela vazia era dividida em outras duas pequenas celas, estas não tinham nem água e nem privada. Eram as celas de castigo. Caso houvesse outros presos na cela maior, nenhuma comunicação física haveria entre os prisioneiros. A cela grande isolava as duas pequenas celas de dois metros por um metro cada. Celas dentro da cela maior.


Não tinha nenhum preso. Soube pelo general que não havia nenhuma acusação contra ele, Elton Domicano, e que, mesmo assim, fora decretada a prisão provisória por 30 dias, que poderiam ser prorrogada por mais 15 dias. Viria de São Paulo por um oficial para interrogá-lo. O oficial chegaria no dia seguinte.


O que eles queriam saber, eles já sabiam. Elton fugira de BH, depois de ser libertado da prisão em Juiz de Fora. Sabiam que ele tentara despistá-los em Minas, mas que teria, eles suspeitavam, uma missão no Uruguai para onde voltaria, com a desculpa de rever a noiva, também exilada com toda a sua família.


Suspeitavam que o professor Bayard Demarie Boiteaux , que fora secretário nacional do PSB e era apontado como líder do MNR (Movimento Nacionalista Revolucionário), ou o engenheiro Moysés Kupermann, o teriam incumbido de levar uma mensagem que, eles sabiam, que se existisse, seria uma mensagem codificada e poderia estar em alguns daqueles volumes.


“Mandarei o livro de Joyce para você depois dele ter sido examinado pelos nossos peritos”.


Recebi o livro dias depois e o general tinha, mais uma vez, a certeza de que eu seria “torturado”. (Seria a conclusão dos peritos?)

Ele riu. Um homem pequeno e enfezado, mas com humor.


“Pode rasgá-lo depois. Será a sua vingança”.



(*) Duas notas sobre este militar

Descanse em paz, Coronel Daudt


Morreu Alfredo Daudt, o capitão da Legalidade

O líder do PDT, deputado Miro Teixeira(RJ) registrou nesta quarta-feira(14),no plenário da Câmara, o falecimento do Coronel-Brigadeiro da Aeronáutica, Alfredo Daudt. O coronel faleceu hoje(14), aos 85 anos, em Porto Alegre. Como capitão, impediu o bombardeamento de Porto Alegre, durante a rebelião cívico-militar, a Campanha da Legalidade, liderada por Leonel Brizola, para assegurar a posse do Vice-Presidente constitucional João Goulart, em 1961. O Capitão Daudt soube da ordem partida do gabinete do Ministério da Guerra (Exército), assinada pelo então chefe de gabinete general Orlando Geisel ( o Ministro era o marechal Odylo Denys) e organizou um movimento com seus companheiros oficiais e sargentos para esvaziar os pneus dos aviões da Base Aérea de Canoas (próximo a Porto Alegre), de onde partiria a escotilha para promover o que poderia redundar numa carnificina. Na época,o país estava sobressaltado devido ao veto militar à posse de João Goulart, Vice-Presidente da República eleito pelo voto popular, em decorrência da renúncia inesperada do Presidente Jânio Quadros, sete meses depois de assumir o cargo. Leonel Brizola, que era governador do Rio Grande do Sul, liderou a rebelião que contou com a participação de todos os setores da sociedade, incluindo o comandante do III Exército. Alfredo Ribeiro Daudt foi o grande herói da Legalidade, mas pagou um preço alto pela ousadia. Quando ocorreu o golpe militar de 1964, o capitão foi preso e torturado e depois obrigado a exilar-se no Uruguai, onde também se exilara Brizola. Com a anistia, ele foi reintegrado na Aeronáutica, no posto de Coronel-Brigadeiro, mas sua indenização não foi paga até hoje. Ele era casado com Doris Daudt, cuja filha Nereida Daudt casou com José Vicente, filho de Leonel Brizola, de cujo matrimônio nasceu o atual deputado federal Brizola Neto (PDT-RJ).









Pompeo presta homenagem ao Coronel Alfredo Daudt

15/03/2007 ” O deputado Pompeo de Mattos registrou hoje em sessão plenária o pesar pelo falecimentodo do Coronel-Brigadeiro da Aeronáutica, Alfredo Daudt, que entrou para história do Rio Grande do Sul por impedir o bombardeio de Porto Alegre, durante a Campanha da Legalidade, liderada por Leonel Brizola.

Pompeo ressaltou em seu discurso a essencial intervenção do Coronel Daudt para assegurar a posse do Vice-Presidente constitucional João Goulart, em 1961. “O, na época, Capitão Daudt soube da ordem partida do gabinete do Ministério da Guerra (Exército), assinada pelo então chefe de gabinete general Orlando Geisel (o Ministro era o marechal Odylo Denys) e organizou um movimento com seus companheiros oficiais e sargentos para esvaziar os pneus dos aviões da Base Aérea de Canoas (próximo a Porto Alegre), de onde partiria a escotilha para promover o que poderia redundar numa carnificina.”

“Com o golpe militar de 1964, a ousadia do Corone Daudt acabou custando caro, foi obrigado a exilar-se no Uruguai juntamente com Leonel Brizola, e mais tarde com a anistia, foi reintegrado na Aeronáutica, no posto de Coronel-Brigadeiro”, relatou Pompeo.

Mais informações sobre Daudt

http://sul21.com.br/jornal/2011/08/movimento-dos-sargentos-da-fab-foi-reforcado-pela-figura-de-um-capitao/







































sexta-feira, 9 de setembro de 2011

OUTRA VISÃO



Set de filmagem de "Você vai conhecer
o homem dos seus sonhos"


A charlatã




História de Amilcar Cabral Feitosa, de Cabo Verde



1.

Vida, 38, ainda enxuta e inteirona, nesta época, descobriu que Trisne não enxergava o óbvio, o que estava, ali, bem ali, diante do seu nariz. A grande descoberta: ela descobriu, imediatamente, que podia ver por ele. Fez o teste. Caminharam pela praça, atravessaram um lago, falavam do Teorema de Pasolini. Ele discorria sobre o roteiro, sobre o cineasta, sobre o cinema italiano. Fora do parque, ela perguntou “por que os gansos tinham as asas abertas se não havia sol?”. Não vi os gansos. Eles estavam...? “Eles estavam na pequena ilha no centro do lago”.

- Que lago?

Trisne deixou claro para Vida que ela poderia enxergar pelos outros os que os outros decididamente não via, não enxergava, não percebia, não registrava.

Trisne, um rapaz com uma mãe dominadora e uma namorada infeliz, vivia no mundo da tela e perigosamente deixava Pasolini bagunçar suas fantasias.

Vida relatou o episódio do passeio para ele. Jogou claro, uma mestra – ela se tornaria então uma mestre doutora – e Trisne concordou, ela via tudo e não enxergava nada.




2.


Bom, depois da descoberta, o caminho aberto, ela sabia que jamais enganaria ninguém. Ela enxergaria para quem não queria ver e que, questões pessoais de lado, optaria para ter ao lado alguém (lógico, ela, Vida) que apontaria os obstáculos, desde um degrau a um passado, um futuro ou até mesmo “almas do outro mundo”. Como estas ninguém vê mesmo, ela jogaria suas fichas por aí. Um gancho, um senhor gancho, diria, para captar cliente para o seu consultório sentimental.



“Um palmo na frente do nariz é tudo ou é nada”



Ela anotou a frase que martelou do motel até sua casa no Santa Lúcia. Tirou da bolsa as camisinhas que sobraram – Trisne só usou uma – os shampoos, os condicionadores, sabonetes, pentes, tocas de banho. Iriam para seu estoque e depois para a prateleira do chuveiro, onde iriam se juntar à sua coleção.

Trisne foi o primeiro no seu teste e a “descoberta”.






3.




O segundo foi o próprio capitão de Mar e Guerra, Tony Cabreiron, valoroso marinheiro das batalhas em mares e campos uruguaios ao lado de Garibaldi, seu comandante na Itália, contra os italianos pela unificação da Itália, na França, ao lado dos franceses contra os franceses, e na Suíça, de onde voltou maneta. “O único troféu que arrancaram de mim”.

Vida buscou o seu velho no aeroporto internacional de Confins – mais velho 20 anos, ele era, então, um garanhão inquieto, incontrolável na perseguição de uma bela peça de arte. Um colecionador com a máquina fotográfica sempre pronta para fotos detalhistas.



Ela deixara para trás muitas raízes, algumas profundas e grossas, outras finas e superficiais. Algumas destas raízes o Homem do Mar conhecera.


4.

Vida colocou seu uísque na mesinha e contou para o Homem do Mar o que filão que descobrira.



Enxergar para os outros. Enxergar o que os outros não vêem ou que não querem ver por preguiça, distração (lembra do Trisne no parque?) ou por simples displicência ou até mesmo por seleção.



- Mais fácil do que a batalha de Roma em que tombou o meu compadre Jurandir Feitosa!



Fecharam o negócio. Ninguém mais precisava ver, ela iria ver por todos.



“Neste negócio, basta que as pessoas acreditem que eu possa ver por elas”.



- Em caso de dúvida?

Era o Homem do Mar cauteloso com a calmaria.



Vida mostra o banquinho ali na frente; caso contrário o Homem do Mar tropeçaria e quebraria a perna.



Ele para antes do choque.



- Ainda bem que me avisou!

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

O QUE É A POESIA









A FARRA DA VIDA

Para o jovem Stefan, de Calarai, na Romania





1. Não discuto a minha poesia. Não explico a minha poesia. Discuto e explico a poesia. Deve-se discutir e explicar a poesia. Tem fundamentos, tem estruturas, tem vocabulários, sintaxes, superficialidades e profundidades. Poemas são grandes lagos ou grandes oceanos ou pântanos. É onde a linguagem tem seiva. Onde nasce na linguagem, nasce o entendimento.






2. A palavra poesia, assim como para os religiosos, para algumas igrejas e seitas, em função de rituais e de cautelas, palavras são símbolos e objetos de cuidados. A palavra poesia pela sua singularidade e significação, entre os homens, entre todos os homens, deveria ser cercada de alguns cuidados. Algo como um mandamento, não dizer este nome, tão santo, tão puro, tão essencial, tão fundamental, em vão. Não dizer poesia em vão e dizê-lo sempre, pois a fazemos todo o tempo. É a vida. E a vida é a pura poesia.





3. A poesia não é só o fazer, não é só o ritual. Existe um tema, uma abordagem, um problema. A questão poesia, a questão poética, a questão poeta chamaríamos, nesta ponderação, para efeito de análise, embora a soubéssemos diversa, múltipla, de “a questão vital”.








4. A questão é que a poesia é o ser do homem, enquanto vida, natureza. Expressa-se no olhar de uma criança, em um vegetal, numa flor, em uma árvore, chega pela beleza, pela alegria e pela dor, chega ao amanhecer e na noite alta, em dia claro, com a chuva, a poesia está em tudo e está em todos, está aqui, agora e está eternamente. Chega na voz cantada e é enorme alegria.








5. A natureza humana por ser poética é bela e é o seu contrário, é maravilhosa e é o seu contrário. Simples e complexa, com palavras e sem palavras, com imagens e sem imagens. Está aí. Dificilmente não será percebida pelos sentidos, por todos. Poesia tem cheiro e sabor. Poesia tem tato. Todos os sentidos e todos os outros sentidos.








6. Fique claro, então, não é que não queira falar de poesia. Abstraindo a questão, mergulhamos neste oceano e ele nos envolve e dá vida, nele não se afoga, embora muitos optem por encerrar sua vida em suas profundidades.








7. Se sou claro, sou poeta.






8. Quero falar do corpo. O que traz um corpo? O que revela um corpo? O que se destaca em um corpo e o que é a sociedade em função desta observação ou do destaque que se dá a partes do corpo ou a sua totalidade? Corpo é poesia. Pura poesia. E o detalhe também. O corpo tudo dignifica.








9. Na China, os pés pequenos das mulheres e tornados pequenos por recursos tecnológicos. Os cabelos das mulheres gregas. As gordas italianas de Torriceli. As bundas das africanas. Os peitos fartos das européias. Os olhos das atrizes. As bocas grandes e os lábios carnudos. A pele morena das mulheres tropicais. As pernas magras das mulheres dos trópicos. E tudo começa com o pau do homem e o símbolo fálico como sinal de fartura, de colheita e de fertilidade.






10. Na tela, o que surge e com detalhes, com ângulos criativos? A mais bela e a mais exuberante e estarrecedora poesia: a Vida.