sábado, 28 de novembro de 2009

LUÍSA E VOLK


1. Quem ama se expõe, revela o amor existente e o amor existente pode ser identificado, qualificado. É um amor roxo e é um amor belo, não é amor cinza e nem é amor feio. Identificado e qualificado, o amor não é mistério mais, é o que é. Se o amado esperava mais, se esperava uma revelação de um amor amarelo ou vermelho, decepcionarar-se-á.


2. O amor revelado, exposto, torna-se um amor vulnerável. O amor não é exatamente revelação? Ou haveria vários tipos e graus de revelação? Haveria, por exemplo, a revelação tipo desastrada em que uma pessoa declara um amor que, mantido discreto, teria vida longa, revelado esgota-se, inviabiliza-se, como os amores clandestinos, o amor de uma pessoa impedida de amar, por questões religiosas e/ou legais, que amando ou sendo amada, a revelação torna-se não uma revelação mas outra coisa: uma imprudência, no mínimo ou uma arma, que se disparará contra a relação.


3. O amor é revelação, é declarar-se, expor-se, ser sem depender. Revelação com conhecimento, cautela, balanço, avaliação, segurança. Declarar-se (e há mil maneiras de declarar-se além das palavras e da linguagem corriqueira) pode ser o grande momento, não que o outro não esperasse, talvez já soubesse mais, até mesmo, do que será revelado, declarado, confirmado - como pode ser o contrário, conforme item anterior. Expor-se quando se considera o desnudar-se, o ser inteiro, percebido, compreendido, eu amo e sou isso, meu amor é isto e não aquilo. Ser sem depender tornar mais complexo o entendimento, pois a dependência é uma relação complexa quando se trata de sentimentos, pois a palavra é fraca para revelar esta estranha ligação que não faz (embora faça) um ser dependente (escravo) de outro. É um ser sendo outro e se pode ser, em assim sendo, livre, é a emoção em ponto de efusão total, ser e ser o outro e ser livre.


4. É o caso de Luísa-Volk. É a declaração clara, nítida, apaixonada do amor imenso, de mais de 200 anos. É a revelação agressiva da paixão dominadora e que a domina, ela é vítima da paixão, é a escrava, é a mulher doméstica, domesticada, aberta a largar tudo, ser a mulher dentro de casa ( - Eu durmo feliz e acordo feliz, - Vol é bom de cama, mas não é só cama, depois ele é só estupidez, grosseria e desrespeito). Ela faz questão de alardear esta imensa felicidade de poder deitar e levantar, como mulher, sendo feliz (Vol não seria feliz). Ela faz questão de questionar o depois e o sexo como etapa, de dividir-se como mulher e como pessoa, de buscar as rédeas perdidas, nunca em sua mão. Fala sem parar, fala tudo o que lhe vem a cabeça e revela-se, totalmente, por inteiro, trazendo em si uma capacidade criadora, abortada, uma capacidade de amar, abortada. É um ser sem ser, que sabe das possibilidades, é uma artista sem expressão, amordaçada, inviabilzada e que tornou-se prisioneira da grande paixão por um homem animal, desconfiado e inseguro. A insegurança de Vol não seria alimentada por Lu?


5. O amor seria a vitória das emoções e há que esgotá-las para a possibilidade do desapego, do afastar-se (teatralmente) para o pleno entendimento (ou próximo disso).É a busca incessante do equilíbrio e do afastamento é uma arte e onde o representar (a la Stravinski) é o forte na busca do entendimento, sem ser a busca do domínio, embora haja domínio por se tratar de conhecimento. Conhecer é conter, ter, deter informações, análises, conclusões e possibilidades. É libertar-se.

TEORIA DO BRASILEIRO


Teoria do Brasil

e/ou a

Teoria do Brasileiro

(A partir de Darcy Ribeiro)



Introdução


1. O Brasil não existe. Hoje, a denominada população brasileira é estrangeira em sua própria terra, não fala a mesma língua dos dirigentes do Estado, não tem autonomia e nem soberania. Não fala a mesma língua dos donos das fábricas e nem mesmo fala a mesma língua da escola, nem compreende a linguagem da mídia. A população denominada brasileira, que vive no hemisfério Sul, é, em sua absoluta maioria, uma população miserável, insignificante, inexpressiva e paupérrima.

2. Miserável pela tirania do regime de controle das riquezas nas mãos de poucos. Insignificante, pois posto e mantido sob o domínio dos titulares da mídia que gestam e sustentam os que poderão significar alguma coisa. Inexpressiva diante do poder do Estado, que tudo pode, que imobiliza a população com os controles dos shows e das eleições. Inexpressiva em seu sentido lato, é nada, quase nada. Paupérrima, jamais conseguirá sair da pobreza dependente de esmolas e favores políticos.


3. Os brasileiros não são os brasileiros. Não são mais do que uma ficção, um povo limitado à ficção.


4. Miserável em sua condição de vida; insignificante pelos controles que lhe são impostos pelos dominadores; inexpressiva porque lhe são retirados todos os meios de expressão e massacrados com uma língua, palavras e idéias prontas para destruir, amordaçar e desqualificar o homem que queira resistir, pensar, dizer o que pensa e fazer sua independência. Paupérrima porque toda a riqueza que ele produz jamais será dele, jamais a ela este homem-nem-cidadão jamais, jamais terá acesso.

5. Os brasileiros não são os brasileiros.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

NO TANQUE


A exata localização da mente



Para Bá, Barrela




No tanque, ao lavar uma cueca, um par de meia e um lençol, tantos são os pensamentos que já imagino uma outra localização para a mente, que não o cérebro, pelas constatações e confirmações da ciência (assim, são taxativos: a mente está localizada no cérebro).

A mente também não se localizaria nos pés. Constatação do filosofar dos aristotélicos peripatéticos, em suas longas e consistentes caminhadas pelas ruas e estradas de Atenas. Caminhar e pensar. Pensar e caminhar. Caminhar e filosofar.

Aqui, agora, na beira do tanque, a localização exata do lugar do cérebro no corpo humano: sim, o nosso cérebro localiza-se nas mãos das lavadeiras, que na fama de falar muito esquecem o quanto se pensa antes de falar, pelo menos para uns tantos.

Sim, nas mãos pode estar localizado o cérebro, a mente, a imaginação. Não é com as mãos que nasceram e nascem os instrumentos, as grandes invenções, a escrita, não é nas mãos que também se localiza uma das fontes de prazer, não é com as mãos que se perpetuam os grandes feitos e os crimes, não é com as mãos que eu digito e percorro o mundo e me comunico?

Pois bem, as mãos detém nosso pensar, nosso expressar, nosso escrever. É a mão sede do cérebro e primeiro instrumento do fazer, sendo o tato a expressão mais consistente e deliciosa do prazer.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

O VINGADOR


Para Zequinha, o saxofonista da penitenciária



Quando os pais matam os próprios

filhos






A história começa em 1934, na Colônia, pertencente a Carlos Chagas, no Vale do Mucuri, em Minas Gerais. O lugar era chamado de Colônia de Ourucu, Urucu é nome indígena, deve ser de urucum. Hoje, a colônia tem o nome de Epaminondas Otoni e é um distrito de Carlos Chagas.

O que significa Urucu? Não sei. Urucum (1) eu conheço, sei que também é um nome indígena. Quem foi Epaminondas Otoni (2)? Não sei.

Seria bom que eu começasse a história no dia em que nasci. É preciso que eu nasça para que comecemos a história. É ou não é?

No dia em que eu nasci meu pai deu seis tiros para cima. Seis tiros pausados. Bem pausados. Pausas longas. Um tiro, um bom tempo. Aí, o outro tiro, o segundo. Todos os outros quatro tiros disparados muito devagar até completar os seis tiros. Um costume da época. Meu pai estava feliz e anunciava que nasceu um filho. Quando nascia uma mulher, davam dois tiros. Homem, três tiros. Homem valente seis tiros bem pausados.


Meu pai sabia quem nascia naquela hora.



Não foi preciso que eu chorasse para que soubessem que eu estava vivo. Nasci sem chorar. Era o primeiro filho naquela casa. Os tiros eram dados na hora do nascimento da criança, eu não havia ainda terminado de encher os pulmões e já fora saudado por meu pai com seis tiros no ar.

Era o dia 1o de abril de 1934, pois é! Primeiro de abril de mil novecentos e trinta e quatro. Dia consagrado à mentira, Dia da Mentira. No Dia da Mentiras nascera um Homem de Verdade. Pode escrever homem com h maiúsculo e a palavra verdade também. É para não esquecer.

O Comércio (comércio é a palavra que se usava, então para definir um lugar com uma atividade econômica) da Colônia, naquela época, tinha umas trezentas casas. Esse lugar quem criou foi Teófilo Otoni. A colônia era o lugar mais adiantado da região. Na Colônia havia batalhão, contingente militar e ficava entre Ataléia e Carlos Chagas, dentro de uma região de pedras semi-preciosas, de crimes e de muitas histórias.



Minha história vai demorar, porque é uma história e é a história de uma vida. E a vida é longa. Ainda tenho que lembrar o primeiro baile. Vou falar também do meio para diante de uma outra parte da minha vida bem mais movimentada. Primeiro, vamos ficar na infância. De algumas passagens da minha vida, eu guardei uma fotografia. Tenho que falar de meu pai, de minha mãe.

De calça curta vou passar para a calça comprida.

Tenho que falar de meu pai. Meu pai era um homem baixo, moreno. Minha mãe era clara, bastante branca, descendente de austríacos, seus cabelos eram louros, minha mãe conhecia a vida, ela era filha de um próspero comerciante e fazendeiro de Bias Fortes, Crispim Jaques.

Meu pai era um aventureiro e começou do nada. Ele possuía a maior virtude que eu acho que possa existir em um homem: a coragem, a coragem para tudo. Pois, para mim, eu creio que até para a covardia e o mal é preciso coragem, até muito mais coragem. Quando eu tinha seis anos de idade...


De Bias Forte à Colônia são quatro léguas e meia. Naquele tempo viajávamos a cavalo e até esta idade de seis anos eu fui criado por minha avó materna. Eu era muito fraquinho e doente. Meus cabelos eram louros e quando menino usava-os longos e anelados. Tenho uma fotografia desta época, um dia vou mostrá-la a você. Eu de sapato branco e preto, os cabelos correndo em anéis sobre os ombros. Na ocasião da foto, eu já era um garoto robusto.

Aos seis anos, saí para estudar, larguei a casa de meus avós. Mandaram-me para Teófilo Otoni, no Vale do Mucuri. Iria estudar e morar na casa de minha tia. Ela lecionava no Grupo Escolar Teófilo Otoni. Foi professora dos maiores vultos da cidade, ensinou Petrônio, Barachim, Antônio Lins e outras gentes do Vale do Mucuri e do Jequitinhonha.

Dona Celuta Silva era a minha tia. Sua casa hoje é um lugar onde as pessoas mais respeitáveis se reúnem para jogar um buraco e falar. O quê? Ora o que se fala entre uma canastra e outra, durante a canastra...

Meu Pai era da família Dantas, tinha Dantas também no nome, um dia talvez por nada, talvez por fortes razões de moral, ele rasgou este sobrenome.


- Rasguei o Dantas, nossa família deixa de ser da família Dantas.
Assim rompemos um laço ou uma ramificação familiar. Em meu nome restou o Pereira da Silva.




*



Na hora em que o trem partiu de Bias Fortes para me levar a Teófilo Otoni, vi meu avô entrar na sua casa de comércio. Era perto da estação.

Aquilo foi uma dor que eu nunca havia sentido.

Acontece algo interessante...

Eu volto atrás em minha vida.
Espere um pouco.
Tenho uma passagem muito interessante.
Muito bonita.
Eu lembro assim.
Uma passagem assim.
Eu era menino,
na casa do meu avô,

(voltando atrás na historia)

eu estava no balcão, em um dia de movimento.
Minha avó para me meter medo
apontou para um homem mau encarado,
um homem sério, boca fechada.

- Esse homem aí meu filho é um criminoso. Ele matou um outro homem.

Olhei para o homem.

E durante muitos dias admirei aquela imagem de homem perigoso.


*

Cheguei a Teófilo Otoni na época da guerra, anos 40, uma guerra que chamaram, então, de segunda grande guerra. Matricularam-me no primeiro ano primário. Nós, os meninos, daquela época, divertíamo-nos com tanques de guerra de brinquedo, fazendo guerra. Nossa área militar era o Cine Vitória; seus arredores; nossas trincheiras eram os adultos, qualquer coisa parada. Pelos brinquedos, eles nos queriam ensinar a filosofia da guerra, por essa época mais ou menos ouvi falar em um homem chamado Lenine e ouvi falar na luta dos homens humildes.



Minha primeira professora foi justamente a minha tia Celuta que era casada com Mário Moreira, um jogador profissional, jogava todos os jogos de cartas, era o homem que se vestia melhor em Teófilo Otoni, pertencia a alta sociedade, era querido nesta roda, dançava tango muito bem, um homem para qualquer parada. Ele morreu com várias balas no corpo. Em sua vida teve muitas disputas fora da mesa de jogo. Era um homem elegante, o homem mais pintoso que as mulheres já viram em Teófilo Otoni. Era assim com o Dr. Lourenço e com o Dr. Glicério Pinto. Esse meu tio de quem eu estou falando era um homem que as mulheres mijavam atrás dele, era um aloirado de olhos verdes. Era meu padrinho e eu adorava-o.

*


Eu assisti à primeira missa celebrada no local onde hoje é o Colégio São José. Era um morro. Só o morro. A missa foi celebrada por D José Arns, bispo de Araçuaí. Poucas as pessoas presentes, não mais de cinqüenta, se não me falha a memória. Coloque aí: “se não me falha a memória”, é uma expressão bonita. Eu estava acompanhado de minha tia, uma mulher elegante. Tia Celuta vivia muito bem com o meu tio. Ela não tinha ciúmes, um compreendia o outro. Eu achava que ela compreendia muito mais ele do que ele a ela. Nunca vi uma briga entre os dois, sei que você não acredita nisto, sei que isto parece impossível, mas eu confesso, vivi muito tempo com os dois e nunca os vi de cara fechada.



Na época da guerra, os estudantes do ginásio mineiro depedraram a Igreja dos Alemães, arrebentaram aquilo tudo e o caralho. Vi quando foram destruir e vi a destruição da casa de Chico Esperança, um outro alemão.



Um domingo, um avião colidiu com a torre, um pouco abaixo da cruz, da Igreja Matriz. Acompanhei todos os movimentos das pessoas em torno do acidente. Vi os homens carbonizados, o fogo em pequenas faíscas, consumindo o pouco do que ainda restava. No chão não havia sangue, havia lama, muita lama. Quando aconteceu tudo isto naquela cidade eu era uma criança. “Chô vê” o que tem mais de Teófilo Otoni? Desta época para cá, estudei no Ginásio São José, o ginásio acabou de ser construído, fui um dos seus primeiros alunos, do terceiro ano primário em diante, até o fim do colégio interno. No ginásio, eu gostava de jogar bola, futebol, jogo de botão, bolinha de gude. Neste momento me lembro da música de Ataulfo Alves, Tempo de Criança. Veja o que é ser poeta...


Jogo de botão pela calçada.


Eu era feliz e não sabia


Passava as férias na fazenda de meu pai na Colônia, montado em animal, atrás de boi, de meninas e do diabo. Minha mãe tinha uma sanfona de oito baixos, ela tocava valsas e seu compasso era perfeito. Treinei sanfona, Isto com oito anos.


Chegamos no momento em que surgiu o meu primeiro amor. Eu, garoto de calça curta, hem! Fui a um baile no Comércio, na casa de Neneca. O pessoal grande dançava na sala e os meninos num quarto. Tirei uma menina para dançar e passei a amar esta menina desde este dia, foi a minha primeira namorada. Com essa menina vamos ter muita encrenca. Veja, meu amigo, eu gosto desta menina até hoje. Os pais dela eram inimigos de meu pai. Meu pai não deixava por menos em questão de amizade e de inimizade. Ele sabia o instante exato de apertar o gatilho.


Aí entramos nos pontos delicados, delicados por isso, embora nossos pais fossem inimigos inesquecíveis, de longa data, por aí a fora, os filhos não tinham nada a ver com isso, os filhos destas famílias selvagens de honra se encontravam e até amavam, muitas vezes acabando tudo com a ignorância da violência, outras vezes piorando as coisas. Naquele tempo era o tempo de intrigas. Acho que isto nunca acaba, sempre foi o tempo real.



Sou mais conhecido em Teófilo Otoni do que cachaça, por causa do meu gênio, eu sou o Lampião da cidade. Vou falar da família... Opa! Cara, isto é um livro... Hesito, sou muito conhecido. Põe lá, põe lá, a menina se chamava Ivenita Tomich. Ela não se casou até hoje. Nós namorávamos de longe e de vez em quando encontrávamos na casa de uma costureira muito amiga das duas famílias. Em casa de Joaninha de Adailo. Era um tipo de moça velha, encontradiça naquela região, como pedra. Mesmo na casa de Joaninha os papos eram silenciosos e a nossa aproximação imperfeita. Tudo de longe. Por que não nos aproximávamos?



*



Eu montava bem a cavalo, vaquejava bem. De Teófilo Otoni, sai para estudar no sul de Minas, em Passa Quatro. Fomos, eu e meu irmão, internados no Colégio São Miguel. Colégio reservado para filhos de fazendeiros e de pessoas com condições. Ali estudei no primeiro ano ginasial, lá estávamos eu, meu irmão e o filho de um fazendeiro amigo de meu pai, este nosso companheiro era filho de José Barbosa Lima. Eu jogava futebol de ponta esquerda. Houve vários campeonatos. Padre Raul, argentino, que dirigia o esporte, jogava bola de batina, e, até hoje, eu ainda não vi, em um campo, jogador que tivesse o domínio de bola como ele, sem ser profissional. Ele era professor de línguas. Missa de manhã e missa de noite. Toda hora rezando, todo dia, missa na hora em que levantávamos, missa na hora em que íamos deitar. Eu chegava no dormitório quase morto de sono.


Como é esse negócio de ginásio, um gostava de fazer discurso, outro de brincadeiras e todas as brincadeiras fazíamos no pátio. Outros gostavam de escrever no quadro negro. Fazíamos um mural sobre o esporte, cada um assinava um nome tipo o Aranha Negra, o Sombra. Eu assinava o Vingador. Bom, mas você tem que por o nome do filho do fazendeiro, amigo de meu pai, amicíssimo, ele se chamava Firmino. Era eu, Firmino Barbosa Lima e meu irmão, os três de Teófilo Otoni, unidos no colégio de Passa Quatro. Naquele tempo o colégio era tão fino que expulsava por qualquer coisa. Excursionávamos na Serra da Mantiqueira, visitávamos os locais onde ocorreram as batalhas entre mineiro e paulistas. Por aí estou com 15/16 anos.
*


Onde paramos?

- Você estava com 15/16 anos, montava bem a cavalo.


Certo. Tem que dizer que eu não saía da sela. Montar bem todo mundo monta, o que é difícil é não sair da sela quando o cavalo joga, negaceia ou quando é um cavalo novo, inesperado. Entre os vaqueiros destemidos que eu conheci posso citar três, na verdade eles foram muitos, fiquemos em três, eram muitos, foram muitos os homens que eu conheci. O vaqueiro Cecílio foi um deles, quando eu tiver este livro pronto, quero mandar imprimir uns quarenta volumes, um pouco por causa do Cecílio, neste livro eu falo de muita gente. Um momento, tenho que ter cuidado no que falo. Essa gente toda tem filhos, netos, muitos parentes, mas entre os homens valentes, mas valentes como homens, posso colocar o Cecílio, João Freitas e chô ver quem mais, uns três ou quatro homens, Lucas Neto e Ramito, ah muitos outros! Ramito é uma história, é um conto, eu quero lembrar algumas histórias dele, Ramito era um vaqueiro sistemático, ele tinha seus animais escolhidos de montar. Dentre os animais de Ramito, havia um burro, chamado Prateado, um burro sistemático como seu vaqueiro. Ramito conhecia o sistema do burro, compreende? O homem e o burro. O burro tinha um sistema assim, todas as vezes em que Ramito ia montar, ele amarrava o burro no mourão e depois de arriado o burro começava a trotar em volta, aí Ramito gritava o nome do burro e montava. Depois disso, a viagem tinha tudo pra correr tranqüila, ninguém tinha mais velocidade e esperteza e inteligência do que os dois cavaleiro e cavalo, burro.
E o burro pulava, saltava é melhor, pular é uma coisa, saltar é outra. Ele tacava a espora e uns berros, o animal caminhava normal. Nesta hora podia sair qualquer gado na frente que o burro pegava, nesta hora o burro tinha carreira de cavalo, pegava qualquer tipo de rês. Era um animal treinado no campo, faltava falar. Um animal diferente dos outros animais. Essa é a vida do campo
Descanso no serviço
a notícia da lavra,
pedir ao meu pais para consentir
(ia a história envolvendo sonhos).
Em menino tinha uma agilidade como poucos, gato puro, duma esperteza fora do comum, não era matador profissional, nem usava revólver ou punhal,
No lavrado
O homem corrido das outras turmas
- esta é uma história, um conto, de Ramito
que se passou na minha frente - era o homem apavorado que chegava em nosso acampamento o homem pedia socorro.
Ramito perguntou e escutou
O homem corrido disse que quatro homens o perseguiam
O homem vinha cansado, quase mudo, sem fala
havia em tudo muito cansaço
nas coisas, no ar, na pele
no suor que corria
Ramiro conversou,
falou
O homem veio para a minha barraca
Ramiro comandava tudo
A lei era
O homem que veio é de paz
e se ele está aqui é porque não quer briga
não é de briga
e está sob a minha proteção
disse o Ramiro
Está na minha barraca e é de lei
Que ninguém devia querer brigar
Os quatro homens escutaram
Mas eles eram destemidos e entraram.
O que aconteceu?
Ramiro é homem que de quatro metros de distância,
ele armado de punhal
e o outro com arma de fogo,
tem que se saber que espécie de homem é,
porque senão não dá outra coisa
que não Ramito.
Os quatro entraram armados,
Ramito juntou os quatro de ferro, punhal
Um ele anulou logo,
Foi nessa luta que ele caiu dentro da cata,
(só esta parte da luta entrou para a lenda)
quando caiu dentro da cata Ramito tinha o braço ferido
a cata era profunda,
ele escalou a parede com o punhal
de raiva, ele feria a terra
- contam que a terra sangrava -
e de um pulo voltou.
Restava, em segundo, um homem de pé
Uma punhalada eliminou o que restava.
Três morreram na hora,
O outro soubemos depois
Morreu com trinta e poucos dias.

Ramito apareceu cedo, junto com a névoa se dissipando
Trazia vários ferimentos para a sede da fazenda
O braço ferido, quebrado, e a bala no peito.
Pergunto pelo velho dono.
Ele contou toda a história. Eu confirmei.
Ramito ainda está naquelas bandas.

*


Ganhei maior confiança de meu pai/ deixei de estudar para trabalhar. Fiz o exército e classifiquei-me entre os primeiros atiradores.
Depois do Exército, voltei para a fazenda

Quero falar do linchamento do Haroldo

Quero contar que o mesmo povo que linchou

Foi o mesmo povo que fez o Santo Haroldo.

Estava no Tiro de Guerra
Ajudei a procurar o Haroldo
Este fato podemos chamar de um fato pitoresco, não é mesmo?
Pitoresco, não. Como é que chama? É um fato
Pertence à história contemporânea da cidade
O Tiro de Guerra estava ali perto
Atrás do Colégio Mineiro
Eu tirava serviço no morro
Quem vai subindo para o Pau Velho
Vira a esquerda
Uma casa velha
Tinha guarda no morro
Não tinha nada para guardar
Ou para proteger
Tudo estava bem protegido
Só havia conversa
destas de botequim
Vigiar o quê?
O Clarim era comigo
Clarinetista do Tiro
A gente entra nos fatos pitorescos estes fatos entram na vida da gente
Testemunha ocular da história, uai?!
Contando o caso de Haroldo
o empregado do cinema
linchado em via pública
pelo bem público.
Eu assisti ao linchamento
Via a chegada dele
Preso em Itambacuri/ não põe Itambacuri nisto não/
Itambacuri não tinha nada a ver com a história/
Preso na Rio-Bahia, fica até melhor


Era noite de chuva
Esqueci o nome da moça
Vai ver que merecia morrer
Vai ver que merecia morrer.
De Haroldo ninguém esquece.
Põe que era moça,
de tradicional família mineira,
destas que mito falam de honra,
que sabem muito bem o que é ultraje,
vergonha, decência e o que é a falta de tudo isto.
O crime foi de noite
No outro dia de manhã
a rádio de TO Z Y X – 7,
cagueto até o nome da rádio, aquilo foi um absurdo,
a rádio anuncia que Haroldo fora preso
perto...
não na Rio-Bahia,
que chegaria naquele momento,
que estava a caminho,
que tinha que ser eliminado,
a rádio pertencia também a esta tradicional
família proprietária mineira
que muito entende das palavras ultrajes
de honra e desonra
De pudor e de impudor
Que fala de amor e de desamor
os únicos que sentem
e falam o que sentem
Sempre fui do lado dos humildes
Na praça ninguém falava a favor de Haroldo
ou a favor de um julgamento sensato
ou pela justiça
Era a justiça dos covardes e dos irracionais
e pior para a minha história - eu estava do lado dos
covarde e dos irracionais
Tenho nojo disto - é uma mancha ruim
Estranho fenômeno de covardia coletiva
Ninguém falava contra a voz geral e todos eram contra a voz geral.
Acho que tem uns momentos no comportamento coletivo em que todos se contaminam no desejo de ver correr o sangue.

O que acontece com o nosso povo?
O que acontece?

As mãos da gente parecem temer, os pés da gente parecem se apoiarem apenas no medo. O que é isso?
Naquela época, naquele momento, se em mim indicassem um carrasco, Haroldo teria que se lidar comigo feito carrasco
eu executaria sem vacilar,
pobre de mim depois.
Ouvi a mãe da moça falar
(estava na casa da mãe da moça
assassinada por tara,
põe tara, não põe amor)
que prendessem Haroldo, mas não o matassem.
O povo invadiu o carro da polícia
Duas mil pessoas, diziam, eu não acredito nesta conta
Exagerada! Sim.
Haroldo foi tomado das mãos da polícia
Antes: entregue pelas mãos da polícia à população sedenta
Houve várias detonações
Haroldo correu, gritos, agarra, agarra, fugiu, agarra
E o povo gritava: Mata! Mata! Mata!

*


Quando falar da morte de Clemente Borges, vou falar de Tim Garrucha, ele é meu amigo. Ele é comunista! Se é mesmo não sei. Talvez um homem do povo da nossa cidade com todas as dificuldades da nossa gente e as suas hesitações.

- O homem morreu?

- Quem? Anh! Não. O povo tá gruda, não gruda, você vai matar? Mata! Aí o povo matou. Trucidou Haroldo. Não vou encompridar a história. Mata logo aí no livro também. Tem muita gente envolvida nisto e eles estão vivos, todos aqueles que ficaram orgulhosos com a fama de valente que ganharam em outras cidades por causa de uma reportagem da revista “O Cruzeiro”.

O que eu quero dizer é isto
O que eu quero dizer é que não tenho superstição comigo
É que este povo que concorreu (concorreu fica muito feio)
que matou (é mais direto) que matou Haroldo
Imagine só!
Andam dizendo agora que Haroldo faz milagres. O mesmo povo fez de sua vítima um santo, Santo Haroldo. Parece que descobriram que mataram um inocente. Ou que descobriram suas mãos sujas de sangue.

Santo Haroldo!

Eu digo isto porque eu não tenho superstição e não acredito nestas coisas.
Pode por isto aí.
*



Só vou contar o caso de Clemente Borges para sair fora de Teófilo Otoni. O mesmo caso aconteceu com Clemente Borges. Deram a fama a ele de ser o maior pistoleiro de lá. Criam o perigoso, criam o perigo para fabricar o herói. Era um próspero fazendeiro, homem honesto como todos os honestos do Mucuri. Clemente Borges era um trabalhador e que a própria justiça fez um bandido. Isto ele falou, eu o ouvi dentro de minha casa. Que o Clemente matou o Gouveia, o curandeiro Gouveia, lá daquele lado seu, da zona de Belo Horizonte, matou. Matou o Gouveia e um camarada Bigode, porque Gouveia abusou da família de Clemente Borges, invadiu-lhe a residência, atirou nos retratos da família de Clemente que não estava em casa, humilhou todos os que estavam lá, o que fizeram, em que consistiu esta humilhação, ninguém sabe. Nunca Clemente nem ninguém falou. Foi coisa muito séria. Conheci Clemente de perto, fiz negócios com ele e fiz negócios para ele no Espírito Santo. Clemente, depois do que aconteceu, da invasão de sua casa pelo Gouveia e Bigode, tornou-se um homem desesperado. Ele era inteligente e um homem inteligente assim se mostra mesmo no desespero, em volta de um homem desesperado apareceu uns urubus diferentes dos que nós conhecemos, são os invejosos, os ambiciosos da fortuna fácil, todos esses indivíduos-aves, geralmente parentes, precipitam sobre o homem desesperado porque sabem que ele é mais da metade de um cadáver. Todos queriam tomar o que Clemente possuía, inclusive gente que eu poderia dizer aqui... Dizem que ele foi morto mandado, que os assassinos de Clemente ganharam para fazer o trabalho. Aqui na cadeia chamam o crime que produz lucro de trabalho ou de serviço. Mataram o Clemente na entrada da cidade. Tim que nascia como homem público foi quem deu sepultura para Clemente. Põe aí: foi inveja, muita inveja, que matou o Clemente Borges. Medo e inveja. E usura. Usura mesmo, estavam doidos para matar Clemente, queriam tomar o que ele tinha. E tomaram.

Gouveia ficou rico como curandeiro, o povo ajoelhava nos pés dele em devoção igual a Cristo, Clemente matou-o na estrada de peito aberto, homem a homem, sem tocaia, na frente, a uma distância regular, na frente de Clemente tombou um covarde.

Gouveia era desses curandeiros safados que andam por aí.
Depois disto
aqui começam os meus crimes.
Aqui começam umas confusões doidas, nem eu entendo.

(pausa)

Não vou contar os meus crimes, tenho que pensar primeiro, vamos parar por aqui, vou pensar, depois a gente continua.


*




Conte como se fosse um outro, não dê seu nome, conta como se fosse a história de uma outra pessoa, como é sua história poderá tratar o personagem que é e não é você com toda a liberdade de crítica e de construção, sendo, o que é mais importante, honesto.

(pausa)


Naquele tempo a gente usava muito a estrada de ferro Bahia-Minas (baiminas). A maior fumaça, era um gozo, nunca chegava na hora, quando dava um sopro queimava o povo com a brasa e a fumaça quente. O povo usava aqueles chapéus bacanas de cowboy e tinha que tirar logo para não estragar, aí as pessoas sem proteção queimavam o rosto. No fim da viagem havia muito cabelo queimado. Os maquinistas paravam para pescar. Todos os maquinistas que conheci viajavam bêbados. Era difícil passar nesta estrada de ferro uma pessoa que no final da vigem não chegasse queimado e empoeirado. Certa vez, de repente, começou uma gritaria, a máquina partiu sozinha com o maquinista bêbado e deixou os vagões, o povo gritou até perder o fôlego: Volta, vem buscar a gente. A máquina se afastava tranqüila e foi embora. Põe assim, a estrada de ferro, na verdade, trouxe progresso à região, um progresso fabuloso, a gente tem que brincar e elogiar também. Falar a verdade. Na economia da nossa região a estrada de ferro fez muito.



*




Tia Zélia era agente, tia agente, trabalhava no correio, ela e o marido dela, tio Júlio Pereira. Ela era muito correta como todas as mulheres muito corretas, dessas que gostam de fazer tudo direitinho, muito certo, embora o serviço do correio estivesse sempre atrasado ela gostava do serviço certo, qualquer hora os habitantes do lugar podiam solicitar os serviços da agente dos correios, ela era admirada em Bias Fortes.



*



De que outra coisa eu lembro? A corrida do centenário. O carro dez venceu a corrida na rota SP-GB-TO. Era um acontecimento. À noite os rádios estavam ligados no Repórter Esso e ouvimos Heron Domingues noticiar a corrida. Sete horas do Rio e TO em estrada de barro, é muito fôlego. Até 50 as máquinas eram alinhadas, você olhava assim e pareciam que tivessem saído da fábrica.

*

Tango bolero valsa era um tempo bom, o cabaré do Rachid, cabaré do Filhinho.filhinho foi o homem que mais carregou transporte para aquela região de TO, Rio-TO, TO-Rio.

- Ia para mexer com transporte e pra mexer com mulheres
- Maria Bom Jardim...



*



Tenho que contar o caso de minha irmã, essa Celma, essa que está lá pra casa do caralho. Ela um dia me disse que todos os homens são canalhas, eu não me esqueci disso, não me lembro de ter dado uma resposta a ela, hoje eu tenho uma resposta.
Tenho vontade de ter podido dizê-la.
- De fato, aqui no Ocidente, onde estão os países capitalistas, estão todos os homens que são canalhas. Os homens do ocidente são uns canalhas. De fato é mesmo. E ela tem razão.


Era uma época em que se a gente fosse a uma delegacia dar parte de outro, a gente se sentia humilhado, era uma época em que os homens tinham vergonha, pelo menos é assim lá pelo nosso lado. Era uma época em que os homens tinham vergonha e pudor, hoje as meninas nascem putas.


E conforme falou o almirante B Halsy:

Não há grandes homens, há apenas grandes desafios que os homens comuns são forçados pelas circunstâncias a aceitar.

- Quem falou isso?

Um almirante, Almirante... não põe o nome desse filha da puta, é americano, ele não presta.

Não sei como um homem pode falar com poucas palavras uma coisa tão certa. Eis o que disse outro grande filho da puta, Konrad Adenauer sobre a história: A história é a soma total das coisas que poderiam ter sido evitadas.


- Os homens que merecem monumentos não precisam deles.
- Quem disse isso?
- Também não vou dizer para você deixar de ser burro e porque também este filho da Puta pode ser outro envolvido com os americanos, eles pagam alguém para escrever qualquer coisa nos discursos deles.



*




Falar de meus crimes eu não vou falar. Esse último crime eu falo. O crime pelo qual fui condenado. Minha irmã, essa irmã que está longe, escreveu pra mim dizendo que eu tinha matado um amigo, que eu não tinha coração. Eu fui um bruto, muito bruto.

Eu disse que antes eu mataria um amigo meu do que um desconhecido, matando um amigo eu sei quem eu estou matando. Quando se mata um amigo é porque o erro é grave.

- Os nosso piores inimigos são muitas vezes os amigos a quem um dia falamos como só a um amigo se pode falar.

Aqui de dentro da cadeia a gente tem tempo para analisar o mundo.Compreender a podridão do mundo. Não existe honestidade nos homens. Todos são uns canalhas. Todos, eu digo, a maioria. Há uma minoria, eu me incluo nesta minoria, por enquanto, mas muitas vezes fui canalha.

Eu sei que “a civilização é apenas um lento processo de aprender a ser bom”.

Até quando estaremos tomando lições?
Até quando necessitamos aprender a ser bons?
Quantos anos, quantos séculos? Até que eternidade?
Enquanto existir o dinheiro, como a mola mestra de tudo, do capital, enquanto existir esta praga seremos maus, nunca seremos bons.
Mas na verdade eu tenho cá as minhas dúvidas.
Acho que mesmo depois ainda estaremos aprendendo a ser bons.


IV

Queria poder cantar alto minha música. Sem molestar ninguém com a minha voz amusical. Cantar alto. Só quem quisesse poderia escutar o meu canto. Ninguém mais. Ou só eu escutar. Todo mundo passar ninguém me ver. E dizer que o canto é belo, a música não presta. Só eu no mundo igual. Gritar para saber estar de acordo comigo mesmo onde entendo que vivo. Os outros passam. Em cada encontro, em todos me vejo. Sou herói e sou bandido, sou ladrão, roubo e mato. Sorrir e chorar, também sei. Aprendi, rápido e repetidas vezes por isso agora meu talento veio à tona. No meu mundo tudo existe. O louco e o sábio. Tem uma estrela, um sol, tem eu, eu e mais eu. Tudo fica mais fácil em mim, eu me compreendo. Quando erro, quando acerto. Quem quer que seja que acerte são todas as pessoas menos eu, e faço questão de errar. Agora perdido em mim mesmo grande busquei-me nos outros onde me degradei, assim volto a mim e sei que o regresso foi falso. Onde encontrar-me? Minha música é assim muda, sem sons, perdida. Vou cantá-la. Entendê-la é o de menos. Canto com toda a voz a essência do querer.



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(1) Urucu (do tupi transliterado uru-ku = "vermelho") ou urucum pode referir-se a qualquer uma das seguintes áreas ou assuntos:
Urucu (condimento): condimento preparado à base de sementes dessecadas e trituradas de urucu (planta), comumente misturado com outros grãos (principalmente milho) também dessecados e triturados, em teores variáveis.
Urucu (planta): gênero de plantas da família das bixáceas (Bixaceae), com usos vários em culinária, em estética e em medicina.
Urucu (tribo indígena): indivíduo dos urucus, tribo brasilíndia extinta, da família lingüística botocudo, que habitava o leste de Minas Gerais, na divisa com Espírito Santo, ambos Unidades federativas do Brasil
http://pt.wikipedia.org/wiki/Urucu




(2) Epaminondas Ottoni virou nome de rua e de distrito no Estado de Minas Gerais. Antes, Epaminondas Esteves Ottoni (1862-1918) foi político, engenheiro e fazendeiro. Fiscal da estrada de ferro Bahia-Minas. Foi vereador, deputado estadual, senador estadual e deputado federal. Pertenceu ao PRM, Partido Republicano Mineiro.


Registro


1. Zequinha, José Dantas Pereira da Silva, José Pereira da Silva, cumpriu pena a que foi condenado pelo assassinato de um amigo. Tempos depois, ele foi assassinado a mando dos próprios pais, também condenados pelo crime, mas que não cumpriram a pena pela idade avançada.

2. Conheci Zequinha na Penitenciária Agrícola de Neves, em Ribeirão das Neves, Minas Gerais. Durante algum tempo, conversamos nos intervalos das aulas de música. Ele um saxofonista, dono do próprio sax, que o acompanhava pelas galerias, e eu um aprendiz de clarineta (jamais atravessei esta etapa do aprendizado, meu interesse era ouvir as histórias do Zequinha e do Mucuri).

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

MANUEAL DO E

Para Manoel de Oliveira Pinto



Erga-te e vista o agasalho
Não aqui, bem distante, ali
onde um frio medonho
prendeu os cavalos na neve

onde

homens estão sepultados no frio






Assim como as areias das dunas
Assim como as neves dos montes



Escreva a palavra data
Escreva o nome dito
Escreva o complemento dado




Fale de modo que o corpo insista
Vou enviar-lhe um abraço afetuoso
Escreva na parede o segredo
Descreva no livro ou no conto
A noite em que os grilos, os insetos obscuros,
as cigarras, o silêncio e até o vento
bolem com os sons


E apagam as estrelas

CANTO PARA UMA CELA

Para Riba, Ribamar, que imaginava uma poesia de frutas da sua terra


Cela que agasalha
e amesquinha


Cela-célula
Cela-libélula
Cela-pérgula


Cela que equaciona
e destrincha


Cela-tempo
Cela-seqüência
Cela-fim


Cela que amedronta
e embrutece


Cela-cárcere
Cela-base
Cela-grades

Cela que explode
e foge


Cela-mapa
Cela-caminho
Cela-rastro


Cela que se refaz
e sucumbe


Cela-pensamento
Cela-lamento
Cela-sofrimento


Cela que prende
e larga



Cela-ideal
Cela-política
Cela-cíclica


Cela que desfaz
e emerge


Cela-um
Cela-força
Cela-coragem

sábado, 21 de novembro de 2009

OS ROLOS


Cena da capital mineira

Para Assis, José Maria Machado



Rua Joaquim Murtinho, 19h, sexta-feira, 4 de julho. Do carro, num engarrafamento no trecho do quarteirão anterior à avenida Prudente de Morais, ouço o diálogo de um casal.

Mesa na calçada, algumas pessoas, poucas, dentro do bar, luzes amarelas e fortes. O casal está sentado em uma mesa na calçada. Os dois bebem. Há uma garrafa de cerveja na mesa.

Ele com o copo na mão, um pouco curvado sobre a cadeira, corpo solto. Ela, empertigada, cabelos enrolados, cara fechada. A conversa é dura.

Ouço, nitidamente, do carro, o diálogo.


- Ah! Margô... (a crioula nem vira o rosto, ele também não tira o olho do corpo)... não esquenta, não. Os rolos meu é tudo antigo. Nem tem nada novo não.


- Eu sou a última mulher ... (ela fala quase afirmativamente, ela não se atreve a perguntar) ... eu sou a última mulher... a entrar na sua vida...né?


- É. Os rolos é (sic) tudo antigo.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

VÓ E FÉ

Para dona Beza


Onde estão os santos?
Onde estão as imagens?
Hem, vó?

Onde está a imagem de nossa senhora?
Onde está a serpente esmagada debaixo dos pés?

Onde está a imagem
de gesso?
Onde está a imagem
de gelo?
Saiu da moda
A decoração é outra

Vó, os tempos mudaram
Não se usa mais santinhos
Hem, vó!


O que aconteceu?
Mataram deus?
Coitadinho dele.
Jesus morreu para nos salvar.
Morreu para nos salvar.
Para nos alavar.
Nos salvar.
Salvar
Salvar de quê, vó?!

Onde estão os santos?
Onde estão as imagens?
Hem, vó?!

Saiu da moda;
Ou mataram deus?

As imagens já não choram
tanto como antes
Os milagres acabaram
eram tantos antes.


- Reza, menino
Rezar o quê?
Vó, eu não acredito
em nada disso.

- Tenha fé.
Vó, eu não tenho
fé em nada.

A fé embota
- Santifica, menino.
A fé é estupidez
- É santidade, menino
A fé engana
- É coisa santa, menino
- A fé morreu
É coisa pura, menino






Onde estão as imagens?
Onde estão os santos?
Hem, vó!

Os santos... morreram
- É hora do terço, menino
Vó, eu não vou rezar mais
- É o demônio.
O demônio onde anda?


- Cadê aquele menino?
- Cadê aquele demônio?

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

O HOMEM, A FORMIGA E O CANAVIAL





O céu da manhã é o colosso. Na estrada, a terra amarela espera que o vento pequeno e vagaroso chegue e revolva-a. Na estrada, um homem claudicando transporta a solidão pesada, gregária, cansativa. Aproximou-se do canavial. Parou para descansar tanta solidão. Apesar da fome, não teve forças para entrar no canavial. Primeiro, descansar. Dormir. Duas formigas passavam e estranharam a indiferença do homem faminto e só. A formiga filosofou, trata-se de um poeta e não se alimenta senão da poesia. Depois, então, procurará o canavial. Tentou despertar o homem, pois ela sabia que homem morre de inanição e de solidão. Nada, o homem dormia seu sono de séculos. A formiga, que filosofa e come folhas e recolhe folhas, e sua companheira continuaram seu caminho. O sol alteou, foi lá no alto e desceu. Afastava-se e tornava-se menor do que a sombra e o escuro. O sol dobrou a outra fronteira. Entraram naquele espaço apenas as estrelas. A formiga que filosofava, terminado o seu trabalho, ficou ali à espera do despertar do homem, ela queria se entender com o homem. O homem levantou, viu a formiga, chutou a terra. A formiga, esperta, tentou escapar. O homem pisou na formiga. Ele entrou no canavial, escolheu as mais fáceis de cortar. Chupou a doce cana caiana. E o homem e a sua solidão voltaram para a estrada.






quarta-feira, 18 de novembro de 2009

PATRIMÔNIO

Para o vaqueiro Nagib, pai de Rivaldáver



O céu escurece. Escuro de breu. Fim de mundo. Céu sem lua, sem estrelas, céu bravo. Céu gigante. Era um céu assim.


O vento tornara-se cuidadoso. As respirações escapavam, iam e vinham. Nenhum ouvido ouvia. As folhas, tingidas pelo imenso escuro, dependuradas na mata, na estrada, no Patrimônio.


Era o Patrimônio um aglomerado de casas, dois quilômetros para o sul de São Mateus, (você, ainda ouvirá falar deste lugar). Muitos chamavam o lugar de Patrimônio dos Martins. Pode ser.


Lá vivia o velho negro, o pião Mata-tudo, caçador, dono de cães mateiros, os melhores num raio conhecido e vivido de cinqüenta quilômetros.




Nestas noites sem graça, noites dos infernos, se alguém tivesse coragem de caminhar, esse alguém era o velho Mata-tudo, homem de coragem, coragem de gente calma e brava. Mata-tudo nunca matou em sua vida de caçador utilizando arma de fogo. Sua especialidade, seu destemor, sua mão certeira surpreendia o animal na armadilha, na fuga, no pulo, no susto. Quantas semanas não andou percorrendo matas fechadas, o desejo de vingança atrás de uma sucuri-bico-de-jaca, atrás do animal compunha o jogo. Quem dava as regras era ele, quem jogava com o tempo era ele. O jogo da provocação, da fuga, da perseguição, da emboscada. Não surpreendia o animal para uma luta desesperada, persuadia-o a fugir, tomava-lhe os alimentos. Sua melhor arma era a observação, corria o dia inteiro recolhendo detalhes, o conhecimento daquela luta de todos os tempos.





Nessa noite escura, o Mata-tudo estava sentado no início da mata, como um dono daquilo ali, olhando a estrada dos homens.


Um carro do Patrimônio saiu da estrada e parou. Uma voz de mulher rompe a escuridão. Os faróis ficam acessos. Dona Lurdes, mulher de Aníbal Martins, vinha de São Mateus com o cunhado, Antenor. Dona Lurdes não tinha nada de mulher formosa. Era feia, magra e tinha o nariz feito um gancho de mão de pirata. Da mulher, tinha a mocidade. Gente criada com luxo, ela tinha mania de grandeza. Aníbal, seu marido, era um homem bom, homem trabalhador que cansou daquelas minhocas na cabeça da mulher e decidiu se separar. Aníbal a apoiou em sua vida sozinha. Dona Lurdes voltava sempre na casa de Aníbal, que era homem calmo, que nunca brigou com ela, que nunca a desrespeitou. Para humilhar aquele homem, Lurdes passou a viver de qualquer jeito, fazendo questão de que os amigos de Aníbal soubessem do que se passava. Aníbal sorria. Lurdes tornou-se amante do cunhado, passou a se encontrar com Antenor.





Um vulto que não era o vulto do velho Mata-tudo aproximou-se do carro. Havia mais alguém nas proximidades. Seis punhaladas certeiras vararam o homem e a mulher. O assassino saiu apressado.


A arma caiu. Não perderia tempo. No entanto, meia hora depois voltou. Vasculhou tudo nas imediações do carro. Fez uma busca cautelosa, utilizou de uma lâmpada e foi preciso. Todo o terreno, palmo a palmo, nada. No outro dia, o Patrimônio comentava o crime. Um amante apaixonado de Lurdes foi preso, Aníbal depôs. Nenhum suspeito ficou detido. A polícia que chegou, imponente, voltou para a Comarca sem nada.


No Patrimônio, assim como na sede da Comarca, a opinião da população absolveria qualquer criminoso que tivesse sido apontado pela polícia como autor do duplo homicídio.

O velho Mata-tudo, tempos depois, abordou Aníbal.



- Doutor, este punhal é seu. O senhor deixou cair.


- Onde o encontrou?

- Dois metros de minha armadilha. A gente não deve misturar amor e ódio. O senhor teve ódio, por isso deixou cair a arma.

- Dê-me este punhal, Mata-tudo.

- Eu esqueci de limpar o sangue do seu irmão.


Aníbal não se contenta em conversar, avança furioso. E se denunciasse o velho Mata-tudo como o assassino?! Assim, Aníbal dá o alarme e grita pelos seus empregados.


- Assassino!


Grita para o velho, que entende a gritaria e a manobra de Aníbal.

A resposta do velho Mata-tudo é direta, imediata.


- Eu? O assassino? Sim, sim! Sei, exato! Sou. Serei!.


O punhal entra certeiro no peito de Aníbal cujo peso toma a arma da mão do velho Mata-tudo.


- Sinto muito doutor que o sangue do seu irmão tenha se misturado com o seu.

UM DEPÓSITO DE GENTE

A partir deste momento, a história será diferente. A história é outra
Os personagens desta noite são muitos. Eles vieram de vários lugares - desceram os morros, saíram de dentro de oficinas, de uma rua estreita e mal cheirosa, de lugares mal afamados. Eles saíram de bares, dos lugares da cidade onde a gente bem, os homens de bem são desconhecidos. Cirilo é um destes personagem. Os outros são Lourenço, um nortista cujo desastre era não ter a cabeça chata, o Louco e o Garçom Ribamar, o ladrão, Baiano, o Assaltante e Tarcísio, o Traficante. Existem outros, muitos outros. O cenário onde se desenrola quase toda a ação descrita é a cela três do Depósito de Presos da Lagoinha, em Belo Horizonte, Estado de Minas Gerais. Se acaso a gente não se fixar, por exemplo, nos personagens que ficam do lado de fora, isto não exclui da história ou desabona, sequer lhes tira as responsabilidades que com certeza possuem. Feita esta ressalva, para que a noite não se prolongue por demais, damos aqui o tempo de duração: esta noite começa às 23 horas e somente acabará às 11 horas da manhã – terá exatamente a duração de 12 horas. Primeira cena: O Ritual da Revista. As duas mocinhas, uma grávida. A fila é longa. Quinze homens e mulheres aguardam a vez de passarem pelas mãos dos prontidões, para dar o nome e os demais dados de identificação. Em seguida tiram toda a roupa. Nus, um de cada vez, eles são encostados em uma parede, primeiro de frente para os policiais, depois de costas, depois abaixavam, abriam as pernas, os braços e a boca. Apesar de toda esta vigilância e do rigor das revistas, a maconha era comercializada dentro do Depósito, com fartura para os fumante de jereré. “Tranqüilizamos os presos e a cadeia vai sem dor”. Em sua frente estava o preto da Escola de Samba Unidos do Seu Arthur, em homenagem ao próprio seu Arthur lá do morro, um português velho e besta, que sempre que podia deixava a turma do futebol, que era a mesma da Escola, beber sem pagar, isto quando o portuga também estava em fase: a turma escutava, o portuga falava dos seus sonhos, dos seus romances, das suas entradas noturnas em casas de senhoras respeitáveis, dos seus medos, de assombrações, dos seus passados que não se repetiam e, para finalizar, contava a história do grande desfile da Escola de Samba que levaria sempre o seu nome para as ruas. Logo atrás entra um moço pequeno e magro. Seus movimentos rápidos e secos davam o rítmo para as suas explicações. De uma forma ou de outra procurava convencer os policiais, todo mundo, se possível enganar a todos, para se safar dali. Ele tinha medo de cadeia. Tinha medo do ambiente da cadeia e do que a cadeia podia lhe fazer. Este pequeno moço é inquieto, tinha entradas avantajadas, cabelos lisos e untados de vaselina. Havia em seu rosto medo e pavor. Em seu rosto o pavor se desenhava com traços mais nítidos do que o pavor inocente das crianças famintas, o pavor das crianças famintas não está em seus rostos, mas na consciência que temos da inanição e do perigo para a vida de uma criança a falta de alimentos. O moço magro trazia em sua mão uma receita e no braço um curativo. Em seu corpo havia rastro de sangue e metiolate.
Ele estende a receita para o prontidão. - Tenho que tomar este remédio. É contra tétano. Anti-tetânico. Briguei com seis, não apanhei, não entreguei ninguém e quem acaba preso? Eu. Toda a briga foi descrita para o policial de plantão. Este enquanto tomava as anotações do plantão, assistia a um jogo de futebol transmitido pela televisão diretamente do Rio. O pequeno, sujo de sangue e metiolate, falando para o policial, tentava, inutilmente, atrair a atenção das outras pessoas por perto. Nem os presos e nem os policiais que saíam de suas repartições par ver o jogo conseguiam se interessar ou ouvir o que dizia o pequeno. Policiais passavam com as mãos cansadas e com alguns apetrechos de tortura, máquinas, as chamadas maquininhas, pedaços de fios, paus, latas e pedaços de borrachas. Nesta época o choque elétrico e a palmatória, assim como o pau de arara e o afogamento eram as torturas mais comuns. Encerrado o ritual da revista, todos os presos registrados pelo plantão são remetidos para a cela três. O policial iria fazer agora a ficha de uma das mocinhas. - Qual o seu nome? Perguntou o policial, enquanto comentava o lance do jogo que ocasionara um gol. Na opinião do policial de plantão e responsável pela televisão ligada, opinião que todos os outros escutaram com aprovação, o atacante nunca mais repetiria a atuação da copa de 70. O policial levantou a cabeça para a moça. - Maria Lúcia Cardoso - Maria Lúcia de Souza, repetiu o policial. Tem documentos? Depois de um instante, voltou a olhar novamente a menina, conferenciou com outro policial que tomava café quente, pelando de quente, numa xícara de alumínio e que, por isso mesmo, passava a xícara de uma mão para outra. Nos disseram que ele tinha mania de tomar café daquela maneira. - Olha, senhorita Maria Lúcia Cardoso, presta bastante atenção na chamada. Tem outra Maria Lúcia Cardoso lá dentro. A partir de agora seu nome será outro. Você se chamará Maria Lúcia Cardoso Segunda. O policial acendeu o cigarro contra a mesa e disse para a menina que, logo, logo, ela conheceria a outra Maria Lúcia.
Na cela três

Quando chegamos na cela Três, 14 pessoas estavam estendidas no chão. Fazia frio, eram mais de meia noite. Os quatro que entraram agora reuniram-se para conversar. Ninguém estava interessado em saber o nome de ninguém, todos queriam saber o que cada um havia feito para estar ali. Um senhor de cabelos brancos, magro, bêbado, como um maluco pede e procura por um cigarro. Um cigarro? Pede. Um cigarro, quem tem um cigarro? Bagana? Qualquer coisa? Pó, poeira. - Por favor, você tem um cigarro? Nenhum dos quatro recém-chegados responde. Olham silenciosos para o bêbado e fumante. Ninguém entendia o desespero daquele homem, estranhavam que a única preocupação daquele homem fosse o cigarro. O homem girou por toda a cela, passou por cima de todos e voltou. - Eu sou da polícia, eles não sabem com quem estão mexendo. Amanhã eles verão. Eu sou eu. Estes documentos mostram quem eu sou. Sou um funcionário público, alto funcionário, trabalho no Estado a muito tempo que até já esqueci da minha mulher, esqueci que eu tinha uma mulher e que eu tinha filhos. Perdi tudo, perdi a vergonha. Agora estes bundas sujas fazem isto comigo. Eles me pagam. Você tem um cigarro? Por favor. Agora aparece o carcereiro que bate na porta. - Silêncio, o meu, senão tem pau. Não se ouvia nenhum som. O policial ainda fez hora na porta, olhou paras as grades da janela e saiu. Novamente o bêbado quebrou o silêncio numa tentativa de ironizar a situação. - Tem pau? Pau? Ah! Ah! Ah! KKKKK. Nem mole, nem duro, de jeito nenhum. O rapaz da escola de samba mostrou um cigarro e uma bagana para o funcionário. E os fósforos? Ninguém tinha. Todos mal vestidos, homens pobres e alguns com a própria roupa do trabalho, como aquele menino cuja roupa, no trabalho, como ajudante de pedreiro, era apenas um calção. O homem de cabelos brancos, o funcionário público, olhava para o cigarro e murmurava frases desconexas para dizer que ele aceitava que não tivesse cigarro, mas ter o cigarro e não ter fósforos era demais. O cúmulo! Meu Deus, era o cúmulo! Dava para estourar qualquer um. Fósforos? Ninguém tinha. Ninguém. Ele não agüentou, desesperou, gritou. - Preciso só de fósforos, o cigarro já arranjei. Isto não vai ficar assim, não pode continuar assim. E isto ele dizia gritando. Os passos no corredor que sempre anunciavam a presença do carcereiro ganhavam intensidade. Ele pisa pesado. O funcionário calou, o silêncio voltou dentro da cela. Os passos cada vez mais firmes e na direção da cela. O funcionário olhou para os quatro sentados em seu canto. Olhou para o moço da Escola de Samba, como se o quisesse culpar por ter lhe dado o cigarro. Os passos que vinham do corredor acabaram ali na porta e iriam recomeçar até sumir na portaria. O pedreiro falou com voz firme e pausada. - Fique em paz, companheiro. Sente aqui conosco. E indicou um lugar para o funcionário. - Vejo que o senhor é um sujeito sério, sangue bom, gente boa. O senhor acaso tem cigarro? Tem fósforos? Fós-fo-ros? O bêbado tentou murmurar estas palavras para não ser ouvido pelos outros três. - Eu não tenho nem cigarros, nem fósforos. Não fumo. O bêbado não acreditou. De repente, tornou-se falador, loquaz. - Qual foi a maior invenção do mundo? Qual foi a maior invenção do mundo? Hem? Foi a dos índios. Você sabe qual foi? Foi o fogo. A maior invenção do mundo foi o fogo. Sabe qual foi a primeira cidade do Brasil? Bahia e não São Salvador, não São Vicente. Salvador é o lugar das macumbas e o lugar onde as macumbas dão certo. Lá tem os santos, o diabo, as pimentas e as frutas. Gente boa. Ahahahahahahah! Alguns presos acreditam que é melhor estar na cela correcional porque tem chances de sair e, de alguma forma, de fato esta possibilidade existe. Alguns imaginam o que inventar para sair da enrascada. Acreditam que com um pouco de imaginação e de malandragem conseguiram se safar. A verdade é que os que ainda estão na correcional são tensos. Vários são os fatores que mantêm esta tensão e um deles é o desconhecimento de quem são as outras quinze, vinte, pessoas ali na cela, o perigo de existir ali um louco, a incerteza sobre a sua situação, será ou não será mantido preso, isto sem considerar o que este sumiço poderá ocasionar no trabalho, na família e nos negócios. Na cela ninguém tem cobertor. Nada que pudesse servir para forrar o chão de marmorite. - O homem que vem parar aqui tem que ser castigado. Ele deve alguma coisa. Aqui tem que ser o inferno. Cidadão? Lei? Cidadão é o homem e se o homem é criminoso, ou suspeito, deixa de ser homem, deixa de ser cidadão e entra no pau porque não pertence à raça humana. Agora, pode anotar e um dia você escreve, a lei foi feita para barbarizar, a lei foi feita para punir. E o que é punir? É bater, quebrar a pessoa. Suspeito, isto não existe para nós. Ou é ou não é. Quem não é? A gente boa, os ricos. Quando entra se for apenas suspeito, passará a ser menos homem. O policial parou, fez-se silêncio, indicou a flanela com gasolina e perguntou com ameaça e ironia. - Você está agora em nosso arquivos. Sabe lá o que é isso? Chega um novo preso. Ele está apavorado. Diz que trabalhou hoje como um desgraçado. Encostou o carro em casa. Passou na padaria e comprou pão. Quando esperava a carona de um amigo para ir à casa de um galho, a polícia o prendeu. O que ele fizera? Era mecânico. O carro na porta de sua casa era do vizinho para quem mandara a chave. O carro seria roubado? Não. Por que o prenderam? Sua roupa estava suja de óleo, as mãos estavam inchadas e untadas de graxa. Enquanto falava suas mãos surgiam de repente, inchadas e doloridas, inchadas e sujas. Tirou as sandálias e ficou descalço. - Eu disse para eles que eles podiam me matar, porque eu não vou falar nada. O que eu não fiz, não dá, não falo. Eu não vou dizer o que eu não sou. Nunca roubei em minha vida. Nunca fui ladrão. Outra coisa, se eu tivesse roubado, também não falaria, isto entre nós, porque eu não sou nenhum trouxa. Somente na hora da chamada soubemos que o seu nome era Tarcísio. Fora preso com a carteira do trabalho e continua com ela no bolso. Era um tempo em que a Carteira de Trabalho era orgulho do trabalhador. O moço da escola de samba do seu Arthur avisou-lhe que não era bom falarem naquele tom. Tarcísio ficou apavorado quando lhe contaram o caso do homem de cabelos brancos. - Mas isto é covardia! Perguntou ao cara à sua esquerda porque ele estava preso, se ele chegou hoje mesmo e se havia muito tempo que estava na prisão. O cara sabia que Tarcísio não entenderia se ele, por acaso, lhe dissesse a verdade, que estava preso há mais de 10 anos, que não havia processo e que não havia nada, que ele vinha passando de uma cadeia para outra. Considerando que poderia ser aceito como verdade por Tarcísio ele disse que estava preso a um ano e que estava ali de passagem. - Um ano! Tarcísio não acreditou. Era muito. É muito tempo. - E o seu pessoal? E a sua família? A porta da cela abre. O carcereiro olha para os que estão acordados e depois olha para o menino como se olhasse para uma moça, fecha a porta de grades e, entre os ferros, seus dentes brancos deixam escapar uma gargalhada recortada pela respiração de asmático. O menino aproxima-se e fala de uma briga que aconteceu no bar da sua rua. Ele levou uma garrafada na cabeça. - Fiquei tonto e não pude correr, por isso os homens me ganharam. Quando eu sair daqui, vocês vão ver uma coisa, aquele filha da puta do dono do boteco ficará sabendo o que é uma briga. Se antes a briga era com outras pessoas, desta vez será comigo. O menino fala. Quer ser o melhor e o mais forte. Então, ele diz que os seus companheiros se acovardaram na hora do bafafá. Que ele agüentou o pau sozinho. Fala, assume a valentia e se torna valente dentro da cela. Ele entrara na cela com a calça molhada na mão. De raiva e como prova de coragem, ele que era valente, vestiu a calça. Estranhou o silêncio dos outros presos e quase tomou isto como prova de sua coragem e da covardia dos outros. Falou, então, que a vida não lhe interessava. Mudara a tática de defesa. Ele iria tentar mostrar que era um homem desapegado da vida, portanto capaz de tudo. “Ah! Ele irá por para foder”. Todos o escutavam calados. Ele falava e andava de um lado para outro agitado. No emprego, fala, vou encarar o meu patrão, acabarei com aquele peste, cabeça baixa desgraçada de um figa. Rodou e voltou falar em suicídio. - Quem tem uma gilete aí? O trabalhador, vestido com um calção, acordou e não compreendeu porque o menino queria suicidar. - Para que você quer uma gilete? - Vou morrer. Vou me acabar, morrer, cansei. Saco cheio. Entendeu? Ninguém tinha gilete, sem a lâmina, o menino deitou-se num canto. O trabalhador de calção ficou olhando-o e depois foi dormir também. O trabalhador fora preso por causa de uma briga com a mulher enciumada. Chega mais um menino. O primeiro acorda e os dois se põem a contar valentias. O negro da escola pergunta se amanhã, com todos acordados, eles conseguirão manter esse tipo de papo sem se complicarem. É difícil saber dentre os que estão dormindo os que desafiarão os meninos. Chega outro preso. Gordo e alto. É um dos três que tem paletó. O gordo tem os dentes para fora e um sorriso fácil. Lembra o Zé Adão, que, segundo o Milton, por causa dos dentes para fora, o que é duro ao Zé Adão é não rir. Não rir é impossível, o gordo não consegue fechar a boca. O gordo fala baixinho e ininteligível. Pedimos para que ele fale mais alto. Ele é dono, sócio de um bar e trabalha a noite. - Dou tudo para a mulher. Trabalho de noite e ela me fez uma safadeza. Eu a encontrei, flagrei os dois. Aí eu perguntei ao sujeito, poxa cara por que você fez isto comigo? Ele respondeu qualquer coisa, quis matá-lo, pensei, mas me contive e apenas o empurrei para que sumisse da minha frente. O sujeito caiu, os óculos e o rote quebraram. A coisa ficou preta pra mim. A cana me disse que aquilo que fiz, o empurrão, foi uma agressão. O gordo encolheu as pernas, passou as mão no rosto, a pele das suas mãos estavam cheias de hematomas, como se ele tivesse esmurrado para valer uma parede. - Eu sustento a mulher e o outro vai lá, folgado, tranqüilo, aproveitar a sopa, nadar na sopa, isto não. Ela é nova, flor da idade. Eles vão me pagar. Eu mato e fujo. Esta é a primeira e última vez que eu vou preso. Que mulher louca! Por que ela fez isso? Será por dinheiro? Ela pensa que a juventude não acaba. Ironia, não é? Fomos presos os três, eu, ele e ela. A polícia trouxe todo mundo. No final das contas, eu fiquei. Os dois foram embora. Veja só, os dois, ele e ela anh!? Eu fiquei atrás das grades. Eu sou o agressor. Os dois foram embora juntos. Que merda, não é? Hem?! O gordo continuou no canto com as sua imagens de amor traído e de ódio, a preparar sua vingança.
*
A melhor opção era ficar acordado e dormir, no dia seguinte, enquanto todos estivessem acordados, na manhã seguinte, em algum lugar que batesse sol ou deitar no chão frio. Duas pessoas apenas se mantinham acordadas em pé. O moço, que estava sentado na extrema esquerda da cela, passou a caminhar. Esperava as badaladas de meia em meia hora. Cinco, seis, tossiam, vez ou outra conversavam o Gordo, Ernesto e Tarcísio. Os presos depois de terem dormido, no máximo um quarto de hora - Ernesto controlava pelo relógio da Igreja da Lagoinha - acordavam, como se tivessem combinado o momento exato. Dois, três levantavam, faziam um círculo e conversavam ou continuavam a conversa anterior. Era mais um papo de cinco, dez minutos e depois dormiam novamente. Sono versus frio. Subitamente, do meio daqueles corpos mal arrumados, uma pessoa erguia-se sonâmbulo para cair em outro lugar. Outros mudavam de posição como se procurassem um lugar macio ou quente no marmorite. Protegidos da luz que vinha do pátio e garagem, nove dormiam debaixo do janelão de grades que ocupava toda a metade superior da parede fronteira ao pátio. O vento praticamente não incomodava os privilegiados que conseguiam um lugar debaixo da janela. A porta abriu novamente, Ernesto era o único que estava de pé. Entrou um preso sem camisa e descalço, trazendo um blusão nos braços. O carcereiro falou para o preso - Agora você vai tomar banho, ouviu? Em seguida, o carcereiro fechou a porta acordando um bocado de gente. Afastando-se, o carcereiro repetiu a ordem. - Vá tomar banho, tem uma torneira aí. O carcereiro dissera isto como mofa, a gozação. É uma característica da autoridade ser irônica no uso do poder. Tanto que ninguém esperava o que o rapaz fez. Ele tirou a roupa, ficou nu, e procurou a torneira. Tomou banho. Os meninos riam. O gordo ria. Tarcísio ria. Também no rosto deste rapaz, que tomava banho, havia o medo e o pavor. Medo de que? Pavor de que? Quem podia causar-lhe tanto medo? Os policiais? Os outros presos? Aquela noite? Ou o que ele tivesse feito? Depois do banho, ele veio deitar-se no chão. E disse que o carcereiro prometera conseguir-lhe uma cama se ele tomasse banho. - Tomei banho, cadê a cama? Um dos meninos, o da calça molhada, bateu a mão no chão. - Olha aqui a cama, veja como ela é macia. Veja, como a minha mão pula. Isto é um big colchão de mola. - Colchão de Ortobom, bom para as costas. - Este aqui é ótimo para a canga, no outro dia a cangalha cai direitinho. O rapaz que tomou banho não conseguiu dormir o resto da madrugada. Ficou o tempo todo perto da porta, murmurava coisas desencontradas. - Minha tia está aí - e procurava uma melhor posição para colocar o ouvido - Ela veio me tirar. Minha mãe não merece isto que eu fiz. Tentaram me matar. Ele apontou a arma para mim. Eu avancei, não acreditei e fiz uma loucura. Parti o cara. Foi fácil, não sei como, eu tomei a arma dele e... não sei mais... não sei, minha tia. Ouvindo passos no corredor chamava por André. - André? Em seu rosto jovem e calmo, magro, nenhum sinal de perturbação muscular, apenas os olhos que eram incrivelmente tranqüilos e otimistas, raramente apavorados. Chamava por André, não obtinha resposta e mais uma vez procurava captar os sons do corredor. O dia começou a clarear. As luzes da cadeia ainda estavam acesas. Chegou um outro, este trazia uma nota de culpa, auto de flagrante. Processado no artigo 115 do Código Penal. Negro, maltrapilho, um enorme sapato de bico fino, blusa e camisa verde, jeito de velho, olhar manso e calmo. Parecia com uma pessoa conhecida. O negro meio corcunda era um rapaz ainda novo, entre vinte e vinte e dois anos, calado e humilde. Veio para a cadeia, preso em flagrante, por ter esfaqueado um. - Como ficou o sujeito? - A polícia diz que o cabra está fecha não fecha. Deve ser mentira. - Eles querem te apavorar, certamente. O negro de sapato de bico fino mostrava a nota de culpa e enquanto os outros liam, ele observava as contrações faciais daqueles que liam. Era uma pessoa importante e estava documentado. - Este negro me lembra um amigo, disse Ernesto. Lembra-me o Elson, um velho amigo, que ficou perdido no Norte, um pouco acima do rio Amazonas, numa daquelas bacias secundárias. Esse negro do artigo 115 não sabe ler, mas percebe muitas coisas, percebe muito mais do que a leitura poderia lhe proporcionar. Ele lê no comportamento dos outros, nas reações, ele lê através do entendimento dos outros. Será impossível enganá-lo se o Gordo quiser mentir ou diminuir o significado de uma nota de culpa da prisão em flagrante. A manhã se completava, os sons chegavam e se multiplicavam. Apagaram as luzes. * Durante a noite, um moço alto, forte, com fisionomia agastada, traços harmoniosos, levantou-se uma porção de vezes para ir ao banheiro. Antes da chamada, quando todos os presos estavam de pé, dispostos conforme as exigências dos carcereiros, perguntei-lhe o que houve. Seu nome é Lourenço, cearense, garçom em São Paulo. Veio a Minas para a inauguração de um restaurante. - Eu não queria vir, mas sou um curioso, um xereta, e queria aproveitar a oportunidade de conhecer Belo Horizonte ganhando também algum. O dono do restaurante quando esteve em São Paulo me contratou sob palavra. Era só eu chegar e teria trabalho para mim. Seu azar foi que ao deixar sua pasta James Bond em um canto do restaurante, ao esperar pelo proprietário, roubaram-lhe todos os documentos e mais 250 cruzeiros. Contrariado pelo barulho que Lourenço aprontava, o dono do restaurante chamou a polícia. Em suas investigações a polícia desconfiou de Lourenço. E tudo começou com uma gozação. Eis uma espécime rara de cearense! Um cearense sem cabeça chata! Dissera um investigador. Daí para a dúvida quanto a naturalidade e quanto a honestidade de Lourenço. Um cearense que não tem cabeça chata, que não é pequeno, que é desaforado- assim raciocinava a polícia mineira. As premissas e os indícios que sempre acompanham o raciocínio da polícia nem sempre são iguais a estes. Seria uma estultícia. Neste caso foi. Lourenço tornou-se um suspeito. Em pouco tempo já o consideravam um ladrão. Pela suspeita o penderam. Era ladrão e, se não fosse ladrão, não seria cearense. Havia alguma coisa atrás daquela identidade oculta, pois para a polícia já era pacífico que Lourenço não era cearense. - Tem lingüiça nesse angu – dissera o investigador ao dono do restaurante para justificar porque eles levavam Lourenço. Lourenço tinha pescoço e um polícia chegou a se referir a um exemplar de cearense citando um presidente militar do país. Outro policial se referiu à maneira como o presidente dava nó na gravata todas as manhãs. Levaram Lourenço para a Furtos, antes de chegar a resposta pelo telex sobre a identidade de Lourenço o pau já havia começado. Veio a resposta, os policiais ficaram embasbacados, Lourenço era de fato cearense e do sertão. E agora? Se é cearense passará a ser ladrão e assim começaram os interrogatórios infalíveis. Um policial se adiantou para Lourenço. - Você vai explicar tudinho para a gente, como conseguiu aquelas mala de roupa. - Onde você roubou aquelas roupas? Gritou outro policial. - O que você está fazendo que ainda não tirou a roupa. Fique nu. Daqui a pouco nosso papo vai esquentar. Lourenço não entendia nada daquilo. Esses homens ficaram loucos. - Tire a roupa logo. - Olhem só o tamanho do pintinho dele. - Coitadinho. - Isto não faz mal a ninguém. - Agora nunca mais ele vai poder tirar uma, nós vamos esbagaçar isto. - Anda filho da puta, vai dizendo onde você roubou. - Roubei o que? - Você é um ladrão refinado. - Não vai querer falar, hem? - Cearense em São Paulo só se dá bem por isso: roubam. Aproximou um policial e propôs um acordo com Lourenço. Ele falava, não haveria processo, as coisas seriam distribuídas com a turma, tudo ficaria limpo, quem sabe se ele não iria poder ficar aqui em Belo Horizonte. O campo era promissor para gente inteligente como ele. Lourenço falou que ele poderia até roubar mas que de fato não havia roubado até então. O policial se afastou, apanhou uma borracha de pneu de caminhão. Lourenço acordou na cela. Não podia virar o corpo. Tentou tirar a mão que estava presa dormente sob o corpo e não conseguiu. Todos os seus movimentos eram dolorosos. Estava nu. Quantos chutes levou na cabeça? Não se lembra. E se os chutes o deixassem maluco? Pensando, ele estava. Que sujeito covarde aquele! O pinta segurava a cabeça de Lourenço e enchia de tapas. Quantos eram? Contara cinco, mas deviam ser mais, vinham mão, perna, braço e pé de tudo quanto era lado, perna, pé, chute, soco, urina, água, chute. Não havia dúvida: aquilo era muita covardia, aquilo era só covardia. Se ele saísse, se ficasse inútil, iria atrás de um por um, pegar um por um e fazer as sacanagens mais violentas possíveis, seria cruel, mataria todos depois de muita monstruosidade. Ele teria coragem para isso? Não sei. Mas como a polícia tem? Lourenço não sentia o pênis, seu ânus parecia ter sido queimado por cigarros. Abriram a porta, Lourenço viu entrar o carcereiro que falava com voz branda, dizia que ele, como homem e como polícia, condenava o comportamento dos policiais daquele plantão e o que fizeram com Lourenço, pobre cearense. O carcereiro aplicou-lhe uma injeção e deixou dois analgésicos para Lourenço. Dois dias depois de estar parcialmente recuperado, mandaram-no embora. Lourenço pediu sua mala. - Mala?! - O carcereiro olhou para Lourenço não acreditando no que ouvia. - Exatamente, a mala, a minha mala, as minhas roupas. Eu quero as minhas roupas. O policial passou as mãos no cabelo. Inacreditável! O moço ganhando uma boca daquelas de escapar sem processo, ao invés de ir embora, estava procurando complicações com a polícia. Lourenço viu chegar dois policiais, um deles vestido com uma camisa sua. - Senhor, aquela mala me pertence, eu quero a minha mala, vou falar com o delegado. - O delegado não está, só chega mais tarde e, mais ainda, não sabemos a hora em que ele chega. Principalmente quando acontece como agora que ele saiu para uma diligência. O carcereiro ficou calado, depois voltou-se para Lourenço. - Rapaz, eu quero ser seu amigo, sou um policial velho, que está aqui neste posto porque não quer se envolver com histórias sujas, e elas há, dez-vinte por dia. Tenho mais de vinte anos vendo covardias... É um conselho que eu te dou, vá embora. Não há para quem apelar. As outras autoridades são piores do que estas, são mais sutis. Esqueça a mala, esqueça as roupas. Você é um moço trabalhador, conseguirá outras. - Até logo. - Isto meu rapaz, vá embora, vá com Deus. Na Secretaria do Estado, Lourenço contou toda a sua história, pediu que fizessem nele um exame de corpo delito no Instituto Médico Legal. O delegado, fumando um cigarro atrás de outro, ouviu toda a historia de Lourenço. Os únicos movimentos que fazia eram em torno de cigarro e para jogar as cinzas em qualquer lugar, para acender o cigarro, para soprar um jato de fumaça para o alto, para apertar a bagana no cinzeiro. Garantiu a Lourenço que suas coisas seriam recuperadas, falou dos propósitos de moralização e do sentido de colaboração que aquele depoimento trazia. Lourenço receberia peça por peça. Era uma quarta-feira. De manhã fora solto pela Furtos. Saiu da Secretaria e entrou no bar mais próximo. Não tinha nada no bolso, nem dinheiro, nem documentos, pensou o que deveria fazer, voltar ao restaurante nunca, ir para São Paulo, como? A garçonete colocou uma xícara de café diante dele. - Não quero nada não, moça. Muito obrigado. - Se não quer nada, faça o favor de se retirar. Aqui não é lugar de descanso. Saindo da Secretaria, Lourenço lembra dos gestos de fumante do delegado. Não dava para confiar. Com fome, tentou inutilmente se concentrar para ter uma idéia de como conseguir comida e tomou uma decisão, sair imediatamente desta cidade, de qualquer jeito, de carona, a pé, enfim sair. Uma rádio-patrulha encostou. - Os documentos, por favor! Os policiais o cercaram. Ele não esboçou nenhuma explicação, sorriu e conformou-se com a sorte. Veio a imagem da fumaceira no gabinete do delegado na Secretaria de Segurança e repetiu, dentro do camburão, as palavras calculadas do homem cigarro, do homem fumaça. - Inegavelmente, inegavelmente, tais fatos são absurdos. A corrupção da nossa polícia nos entristece. E a imagem vinha forte, clara: o delegado amassava a bagana, apertava o cigarro contra o cinzeiro, esmagava, torturava. Direto ao Departamento de Investigações foi colocado à disposição da Delegacia de Vadiagem. Não tinha Carteira de Trabalho. Não tinha nenhum documento. Passou a ser mais um desesperado, embora calmo, não ameaçando revide, falando pouco, não se referindo aos policiais com intenções assassinas, apenas ganhara agora aquele riso até a metade. - Não vou matar ninguém, não vou tornar-me um criminoso, que esta seja a última vez, a primeira e a última. Juro que nunca mais volto a Belo Horizonte, foi tudo um grande azar. Todos estamos sujeitos a isso, todos nós que deixamos os nossos familiares e viemos para a cidade grande, todos nós que somos pobres, todos nós que lutamos e trabalhamos duro. Lourenço apontava os outros companheiros de cela. - Aqui, sim, entra tudo quanto é espécie de pessoas, somos ladrões e bêbados, vagabundos, assassinos, tarados, maconheiros, inocentes, estúpidos, loucos e os que estão enlouquecendo. Aquelas pessoas sujas causavam repugnância a Lourenço, que se afastava de todo mundo. Ele não escondia isso para ninguém. Um sujeito veio conversar com Lourenço, falava alto sobre a sua prisão, quando o sujeito topou com o riso de desinteresse de Lourenço. Metade de uma palavra o cara engoliu e saiu sem muita conversa. Este corte rápido da palavra encerrando a conversa, foi presenciado por todos, todos olhavam para os dois esperando para ver o que ia dar. O sujeito teve medo, afastou-se de Lourenço sem virar. Sempre de frente para Lourenço, procurou um lugar para sentar, batendo com as costas na parede e deixando a perna sobre as coxas de um rapaz. O rapaz passou as mãos na perna do sujeito e disse. - Moço, suas pernas são macias. - Todos trazem doenças, continuava Lourenço, sujeiras e parasitas, muquiranas, chato. Isto em que estamos é uma pocilga abandonada. Lourenço enfiou as mãos no bolso e ficou caminhando para lá e para cá, indiferente ao homem que humilhara. * O gordo queria saber quantos dias de prisão dava o artigo 115, prisão em flagrante. Ninguém sabia. O gordo mesmo respondeu. - O artigo 115 deve dar 115 dias de cadeia. Artigo 115, 115 dias. Mas se alguém fizer alguma coisa, a gente pode sair antes. Ninguém sabe da minha prisão, ninguém da minha família. Amanhã, aliás, hoje mesmo, meu sócio fica sabendo e vem para cá. Ele me tira da prisão. Os cigarros que apareciam eram distribuídos igualmente entre todos os fumantes. Nunca acendiam dois cigarros ao mesmo tempo. Era sempre um e este rodava por toda a cela. As baganas rolavam de boca em boca, pela boca de umas vinte pessoas, que a fumavam até queimarem os dedos e os lábios. * Um nordestino queixava-se da possibilidade de ter que passar o natal na cadeia. Seu nome era Ribamar, usava uma japona, dizia-se descendente de índios, tinha o rosto marcado por bexigas e talhes de navalha. Sua voz era forte. Era do Maranhão, deu o nome de sua cidade e dos seus avós índios. O rádio de uma casa comercial da Lagoinha, ligado a todo volume, tocava um samba de Martinho da Vila. - Martinho da Vila é malandro, ele sabe viver – disse Ribamar. Ernesto e o descendente dos índios conversam na porta da cela. Ernesto vivera em Cerrito, em Montevidéu, e Ribamar já roubara em Pocito. - Qual foi o seu caso? perguntou Ribamar. - Morte. - Empreitada? - Também mato por empreitada, este agora foi vingança. - Por quê? - Os caras queriam abusar de minha mulher, numa casa de mulheres. - Sua mulher é bonita? - Não. - Estou numa fria, disse Ribamar, a Polinter mandou que me segurassem, agora nem que o diabo nasça estes desgraçados me soltam. Ouvi um zumzum, parece que é qualquer coisa lá fora. Em Buenos Aires, andei metendo a mão demais por lá, fiz limpeza adoidado. Interessante é que não deixei rabo, fiz tudo na limpeza e me surge esta. Acho que tudo não passa de uma sugesta, se colar eu me perco e caio de cabeça nesta fria. A coisa é um jogo. Vai ver os caras pescaram o vôo e querem pegar a fruta de qualquer jeito. Eles estão enganados, conheço as manhas. O negócio é não bolinar as idéias, aceitar o natal na cadeia, sem mulheres, roer sonhos. Manjo este povo. O carcereiro chegou até a porta do xadrez, bateu com uma vara de ferro contra as grades. - Atenção, todos encostem na parede. Vai começar a chamada. Somos todos homens
(Na fila, de volta ao início da noite)
A menina grávida apertava, angustiada, a mão da outra menina. Ela via lá na frente homens e mulheres sendo despidos. Homens e mulheres obedecendo às ordens de quatro policiais: tirem a roupa, levantem os braços, abram a boca, abram as pernas, virem (esse já está acostumado, diz um policial com as mão nas nádegas do preso), abaixem, pulem como sapo, pulem como sapo, como sapo. A menina tremia, suas lágrimas não tinham controle. Nem as lágrimas e o pavor de um outro preso, um rapazinho miudinho, que não conseguiu controlar a tremedeira também. Ele rodava na fila. Falava, falava baixinho, falava alto, explicava, não era um igual, não era um bandido e estava ali, vexame, algo terrível, meu Deus, o que ia acontecer. Ninguém parecia ouvi-lo. Ele espichava os olhos para a porta de aço que havia jogado-o ali no corredor e na fila. Lá atrás estaria a sua última esperança, um detetive igual a ele, mirrado e de carranca, mas um homem que ele acreditava que conhecia e que não podia, não conseguia, localizar nem na rua e nem na cabeça. Agora era o corredor e a fila. O corredor servindo de acesso direto dos camburões aos xadrezes e de saída estratégica, muitas vezes, para a polícia. Na fila, a espera do ritual da revista. O som de fundo era um jogo da nossa seleção em busca da glória do mundo. A fila obedece ao ritmo inverso ao do jogo de futebol, anda quando o jogo pára. Por causa, talvez, do jogo, há um pouco de descontração entre os policiais. Assim na revista de uma mulher, as brincadeiras não acabam. Levantam os seios para ver se não havia nada escondido, simulam um relacionamento, simulam uma curra. - Vejam como ela é lisa, pena é esse talho de navalha na barriga. Vejam como é liso. O cassetete percorre os braços dela e fica firme em cima do talho. A televisão chama todo mundo. Há uma grande chance de gol. O rapazinho miúdo quer se explicar. Tem na mão um remédio e uma receita. - Gente, eu tenho que tomar este remédio. É uma injeção contra tétano. Anti-tetânica. Eu não briguei. Eu não bati em ninguém. Vejam, eu até apanhei. Ele consegue se aproximar de um policial. Já é o primeiro da fila. - Cheguei no bar para beber. Faço isso todos os dias. É a verdade. Dentro do bar, começou a briga. Não consegui sair e procurei me defender. - Só? Ele calou. Certamente porque não acreditava no que ouvia. Escutaram o que ele falou. Pior ainda, responderam. Pior, duvidaram da sua verdade. Só? - Só? Repetiu a pergunta do policial e respondeu : - É. - Seu filho da puta, fale de uma vez, sem piscar, nome, endereço, onde foi preso e porque. Desembucha e rápido. - Não sei porque fui preso. Eu desmaiei. Foi porque eu desmaiei. Isto, isto mesmo, foi porque eu desmaiei e me levaram para o hospital. Foi porque me levaram para o hospital, porque eu não tinha dinheiro para pagar a anti-tetânica. - Nome, endereço, local do evento... - Caralho! Tire a roupa. - Levante os braços. - Encoste na parede. - Abra as pernas - ordenou. - Abra as pernas - gritou. - Ande, filho da puta, abra as pernas – gritou um policial velho e franzino. O Dia Anterior Este texto serviria apenas como escudo de outro, como memória de outro. Outros fatos aconteceram até a chegada de Maron Andrade ao Depósito de Presos da Lagoinha. O registro detalhado daquela noite e daquela manhã serviria apenas para lembrá-lo do dia anterior. Sobre o dia anterior ele somente poderia escrever quando tivesse total segurança. Algumas décadas depois, Maron escreverá sobre O Dia Anterior.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

A MEMÓRIA ANTERIOR

O lago, cansado de ficar no mesmo lugar,
deixou suas águas partirem sem rumo para o alto.
Era triste e eu triste contemplo o que ficou do lago:
o espaço aberto, vazio e seco.

Fiz amizade com o vazio do lago. No seu fundo, agora terra,
piso entre ramas de uma moita que antes vivia mergulhada em águas coloridas ou que nasceu depois que as águas se foram.

Isto a moita esconde, um segredo que livros de botânica decifram.

Despreocupo-me com o lago, e,
cansado do mesmo lugar, deixo minhas águas
partirem sem rumo,
não deixo o largo vazio que o lago deixou.

Nenhuma moita cresce no vazio que abandono.

MANTA ACUMULADA

Para Dante e Jean Paul, pensadores em nosso tempo



Sou um homem trancado na cela de uma prisão policial. Lugar preparado para guardar homens que devem permanecer incomunicáveis. Nada mudaria em trinta anos ou em sete anos? Raramente aparece uma pessoa. Estas paredes, frias e sujas tornaram-se páginas de homens desesperados, há um apelo trágico, a denúncia de um crime, anotada bem próximo ao chão, talvez por uma pessoa agonizando. Está escrito o relato do assassinato de Cub. Quem é Cub? Ou Cub abrevia algo. O que significam estas letras? Qual era a esperança do homem que agonizando escreveu aquele relato? Marcas de sangue na parede. Aqui é o décimo círculo do inferno, um círculo onde os horrores não podem ser descritos. Um círculo em que todos se mancham com o sangue de todos e com tudo o que há de podre e de apodrecedor. A manta que me cobre está encharcada com muitos suores e lágrimas. Tem partes duras. A manta acumula quantas tragédias e dores?! Muitas vezes acordo e, com olhos cruéis, eu vejo escapar de minhas mãos os meus sonhos de cidadão. Em frente às grades, um muro caiado. Antes, ele era branco. Os círculos são marcas, cicatrizes, de fugas ou de tentativas, marcas de que a dignidade não nos escapa de todo. Quando acaba a incomunicabilidade, todos aqueles homens carregam o peso da solidão, de sangue e de lágrimas solitárias, sem identificação, sem sentido, sem visibilidade. Quando se sai da solitária, sobreviver já é outro castigo e, então, começa a peregrinação pelas celas das grandes cidades. Quando a prisão acaba, outro gosto amargo irá indicar em cada espaço uma nova prisão. A mais cruel das prisões, a vida. É este o homem condenado à liberdade, porque ele se percebe, vê e se revela em suas limitações e em suas prisões, mas que arrebenta sempre as paredes, vence as solitárias e que escapa todos os dias, em todos os grandes momentos da vida. O aprendizado da liberdade se faz ao despertar na prisão ou não, na solitária ou não, no mar ou não, na praça ou não. O aprendizado da liberdade é o ato, a própria liberdade e ela é a vida.