sexta-feira, 30 de outubro de 2009

INVENTE UMA HISTÓRIA


Invente uma história e sobreviva

Para Luís Carlos Eiras


1971 - Trinta anos depois, em fevereiro de 2001, no dia 14 de fevereiro, no gabinete da vice-governadoria, ao lado de Eiras, que acessava a internet, trabalhando a montagem da página do vice, o celular toca.

Desenrola-se uma conversa que, até agora, quase 24 horas depois, ainda me deixa aturdido, sem um entendimento perfeito dos fatos e da história vivida, recuperando dados da memória e recompondo momentos, locais e personagens.

- Bom amigo, você sabe quem fala? É o Hélio Garcia.

A voz parecia com a do Guinaldo Nikolaievsk, um dos maiores nomes da fotografia jornalística de Minas. Idêntica aquela voz. Por que se chamar de Hélio Garcia, por que adotou o nome do ex-governador de Minas?

- Tem um detalhe, sou Hélio Ramirez Garcia. Acrescentei o Ramirez de puro deboche, porque só me apresentava como Hélio Garcia. Na época, em 1971, eu era o José de Almeida Lima e você me salvou a vida. Você não se lembra, mas você me disse uma frase que eu jamais esqueci e que me salvou a vida.

“Inventa uma história”, foi o que você disse.

“Inventa uma história... e você escapa, inventa uma história... e você se salva, inventa uma história...engana os caras e desaparece”.

“Eu inventei uma história, sai da prisão e agora depois do 6o. nome, da sexta identidade, depois que o reverendo Weik afirmou que José de Almeida Lima está descartado, desaparecido, de ser mais do que um morto vivo, descartado foi a expressão dele, do reverendo, decidi voltar e estou escrevendo, a pedido do Cabide um texto sobre aquele tempo e o que aconteceu comigo.

“Eu estava naquele IPM (1) de 66, que pegou o pessoal que voltou da China; o Marcelão (2) quase acaba comigo e ele que gastava a fama de que com ele todo mundo abria. Eu o enganei e ele me soltou...

“Marcelão me maltratou um pouquinho, mas eu agüentei, não sei, não conheço e sobrevivi e fizemos valer a minha identidade da época, José de Almeida Lima. Quando cheguei na cela 1, no DOPS, todo quebrado, mal agüentava levantar a cabeça, meio quebrado, ali, no chão, deitado, foi que tivemos a nossa conversa e você me disse, “inventa uma história”.

“Isto, bom amigo, foi em 71 e na cela 1 estavam o Jésus, Marco Aurélio, Osvaldo, Milton. Cheguei na cela 1 e disse para você, amigo, estou preso com um nome frio, isto já não mais agüentando, desesperado, querendo entregar os pontos e você me disse:

“Zé, inventa um cara, inventa uma história. Sustente a história mais um pouco” Minha cabeça funcionou a mil e eu me salvei, como eles mataram todos os meus companheiros, eu caí nesta clandestinidade que já dura 30 anos, como um japonês sobrevivente da segunda guerra.

“Em 71, sai de Belo Horizonte e de Minas para nunca mais voltar por estas bandas, medo, puro medo, todos os meus companheiros foram assassinados, sai para nunca mais voltar. Bem mais tarde, alguns anos atrás tive que chegar até Minas, mas foi tudo muito rápido, entrei e sai correndo.

“Fui para São Paulo e, em 73, já no final do Araguaia vim para o Espírito Santo, cheguei em Colatina, em 1975, com toda a documentação montada: seria a partir daí Hélio Ramirez Garcia. Fui bancário e estudante de economia, tornei-me dono de um boteco, tenho três filhos, um homem e duas moças. O meu filho, hoje com quase 30 anos não quis estudar e é um craque em informática, as minhas filhas estudam, uma direito e a outra economia.


(1) IPM – Inquérito Policial Militar – uma investigação policial da ação política. Nome da peça que os militares davam aos processos políticos realizados dentro dos quartéis contra os inimigos do regime militar.

(2) Tenente Marcelo Araújo, do Exército, e que comandava sessões de torturas no DOPS, Delegacia de Ordem Política e Social, em Minas Gerais

A MULHER DO ALMIRANTE


"Aquela mulher sentara na varanda da sua casa ao lado de uma cadeira vazia. Era a cadeira do seu marido que fora dormir depois do almoço. Aquela era a rotina.

Ela deixava-o dormindo e sempre ia para a varanda. Tinham muitos filhos, mais de dez. Muitos filhos estavam por ali, outros espalhados pelo Brasil e outros pelo mundo. Eram muitos filhos e muito amor. Ela agora era uma mulher segura de tudo. Muito segura.

Naquela tarde apareceram dois rapazes tão bonitos e tão fortes quanto os seus filhos. Ela os viu aproximar e, embora não os tenha confundido com nenhum dos seus filhos, identificou mais de duas semelhanças entre eles - era como um jogo de sete erros, em que tudo é igual em dois desenhos, mas tem sete erros para descobrir.

Ela ria quando eles pararam na sua porta e perguntaram se aquela era a casa do almirante. Naqueles dias, não havia mais preocupações com os matadores pagos. Ela disse que sim, convidou-os a entrar, mandou trazer um café e eles sentaram na varanda, a cadeira do almirante, ao lado dela, continuava vazia. O que eles queriam e quem eram eles.

- Nós somos filhos do almirante e viemos aqui para conhecer o nosso pai.

Ela perguntou se eles não o conheciam, por que foram abandonados pelo pai tão novos, por que somente agora apareciam.

Ouviu atentamente os dois rapazes e a conversa entre eles foi amável e longa. Ela perguntou e eles responderam. Não havia mentira naquele diálogo.

Ela algumas vezes ria das observações dos rapazes. Deu para eles o endereço de um advogado, explicou quais eram os seus direitos como filhos do almirante.

Os rapazes souberam, então, que aquele não seria um dia bom para que encontrarem e conhecerem o pai. Eles nem tinham desaparecido na rua comprida e larga, com árvores frondosas – todas plantadas pelo almirante. Ela observa o caminhar deles “igualzinho ao caminhar do almirante”.

O almirante chegou na varanda, sentou na cadeira ao lado dela. Carinhoso, apertou a mão dela, apanhou a xícara de café, ainda quente, muito quente, como ele gostava, e perguntou.

- Ouvi vozes aqui na varanda, quem esteve aqui?

- Dois dos seus filhos, dois dos seus mais belos filhos.

O almirante tomou o café quente devagar, levando a xícara devagar aos lábios, acendeu seu cigarro de palha e soltou uma baforada forte.

“Todos os nossos filhos são muito bonitos, são fortes e são saudáveis” ele pensou, beijou a mulher e saiu para a rua.

Ela sorria rememorando o diálogo com os dois rapazes e agora o final de sua conversa com o almirante.

Surreal.

Esta foi a palavra que a bela Augusta encontrou para definir este diálogo travado por sua mãe e tudo o que aconteceu naquela tarde na varanda da casa da rua dos Tinocos, em Parati.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

EM TODAS AS MARGENS



Caminho entre o chão e o céu
na manhã de frio
Ao meu lado
muitos caminham
caminham com roupas velhas e sujas
mas caminham
Caminha o casal gordo e velho
a moça nova
de peitos novos
bunda na frente

Caminha o imenso de peruca
brinco e tatuagem
enorme barriga
saudável viadagem
Caminha ao meu lado a moça capenga
seu sonho de menina
sou eu

Ao meu lado, nas margens do Arrudas
caminha as duas amigas
cara fechada,
uma voz forte, corpo belo
ideias malucas de roupas
vaidosas

Caminha apressado o senhor doutor
já quase sem cabelo
mas cabelos pintados

Caminha a mulher cheia de roupas
toda maquiada, loura, grandes cabelos
ladeada por dois distintos senhores
sua maquiagem total

Caminha a preta enorme
maior do que o rio e tímida
caminha pedindo perdão
ao cantinho que ela conseguiu
na margem
Cantinho que a destaca e a faz maior

Vejo que se aproxima a criança
e o seu veículo indomável
ingovernável e veloz F1

Caminha distante de mim
a velhinha alérgica
protegendo o lenço
temendo o vento

Os corredores são bailarinos
seus corpos são peças
circulando, rodando, correndo

De quem são estas pernas?
São do maratonista,
daqui a pouco ele chega.

De quem é este óculos?
É do doutor advogado,
Os advogados, amigo, enxergam
muito pouco

Ele corre também, corre
perdido em papéis, sites,
coleciona assim
suas pequenas loucuras

Como aquela velocista amarela
que corre na faixa azul.

Vou caminhar nas margens
vou procurar detalhes
traços e embaraços
Nas margens de mim.

INCONTROLÁVEL, FEROZ E TERNO


Apolo Y Nário

Há um animal solto em meu coração

Feroz, sanguinário, venenoso

Incapaz de conter-se

Incontrolável

Inacessível ao amor

Corre solto, devorador

Escapa-se pelos longes

Retorna-se esperto

Dentro de si é o animal

o próprio ser, como uma solidão

que se corroi e que se expele

ao mesmo tempo ser e parte do ser

Às vezes, eu

Às vezes, tu

13/07/99

A MAIS BELA DAS MULHERES FEDIA

Talvez a mais bonita comparada com a mulher do cinema e dos cartazes, apontada como referência do mais belo. Ela era muito mais bonita, somava ao falar, o som do carinho. Caminhando arrancava a terra de sob os pés das pernas trêmulas. Era mais bonita e vivia em nossa rua. Com ela, o dia era mais bonito do que os dias dos cartazes dos lugares mais distantes do mundo. Tinha mais cor e nossos olhos iluminavam-se pelo reflexo dos olhares dela. Ela cheirava, a moça do cartaz não. Ela erguia os braços e ninguém entendia como era possível seres tão finos sustentarem tantas estrelas ali no nosso deserto de solidões. Sempre ali, sempre ali, a mais bela de todas as mulheres que todos nós jamais conheceramos. Sempre ali e ela era a felicidade. Seus lábios tinham 1. um sorriso; 2. uma colméia; 3. carne; 4. calor; 5. força; 6. suavidade; 7. meiguice; 8. mãos; 9. pernas; 10. boca; 11. volume; 12. elasticidade; 13. profundidade; 14. meiguice; 15. paixão; 16. meiguice; 17. ardor... complete... há quem saiba muito mais do que eu. Seus lábios devoravam leões e crocódilos. Ela era a mulher mais bonita do meu mundo e de toda a minha vida. Ela fedia também.

O HOMEM DO TERMINAL

Todos os aparelhos ligados na decisão da eurocopa de futebol.

Instantes finais, Milan de Kaká e Dida quase campeões.

Observava uma repórter, gravador, prancheta e máquina fotográfica, entrevistando um senhor magra, de cabelos brancos, espichado na cadeira como se fosse uma cama.

Observava o cantor sujo, velho e que fedia, cuja voz era forte e bonita. As letras, românticas; ritmo perfeito, firme, feito com os dedos sobre o banco do ônibus, que nos transportou até a rodoviária.

Agora, o cantor velho era também pequeno e de longe não fedia. No ônibus, estávamos perto.

Ali, no terminal, ele teimava, cantarola e caminha, firme, passos firmes, alegre, sujo, roupas sujas.
Uma passageira o cumprimentou, "um artista", disse ela.

Do olhar para o cantor, do cantor para a repórter, que agora filmava para uma tv, meus olhos pararam naquele outro homem.

De imediato não pude dizer se seria um velho ou apenas um homem mais velho. Terno, gravata, muito bem vestido, ereto e dobrando-se para entregar um papel. Nos separavam duas fileiras de cadeiras, quatro aparelhos de tv, presos no alto.

Olhou para mim e continuou tirando com cuidado cada papel, selecionando, antes de entregar a cada pessoa. Educado, tinha uma palavra a dizer. Não o ouvia, percebi que entre alguns gestos, ele me olhava.


Eu o observava como observei a repórter, que agora sorriu como se despedisse.

Milan é campeão.

O jogo é em Atenas e, aqui, no nosso sertão, num terminal rodoviário, as pessoas assistem aquela festa do futebol, lá também tem homens de terno e homens de uniforme.

A repórter sumiu e com que bunda. Maravilhosa!

Ele está na minha frente, sorri, pede licença e, já com o papel selecionado, me entrega. É um impresso com palavras de proselitismo cristão “Ele veio, ele voltará”.

Um tempo depois, ele volta. O homem, lógico.

Assim como da primeira vez em que ele se aproximou de mim, só me dou conta da sua presença quando está na minha frente. Atribuo só notar sua presença quanto ele está diante de mim à minha constante distração; confesso, sou um distraído empedernido e também por vocação.

Nasci para ser um distraído.

- Três para noventa. Faltam três anos para noventa anos. Tenho 87 anos.

Mesmo assim, ainda não sei se o chamaria de velho. Não parece um velho. Teria talvez mais de 50 anos. Ele não tem nada de velho, a pele do seu rosto não tem rugas e o seu sorriso é de um homem tranqüilo, feliz e alegre.

Há alegria ao seu redor.

Ele começava aquele diálogo como respondendo à minha primeira observação quando o vi, como se já estivéssemos dialogando há algum tempo. Pura telepatia?

- O senhor não parece ter esta idade. É um homem conservado.

- Conhece Coronel Fabriciano, no Vale do Aço? Fui caminhoneiro, transportei muito para a Belgo.

Pelo menos não era um homem misterioso, tinha referências de trabalho e de profissão.

“Um homem não pode ser escravo de outro homem”.

Ele aponta para a cabeça.

- Nenhum homem deve se prender a outro homem. Nenhum homem é mais sábio do que outro. Nenhum homem deve seguir outro homem. Quem é Platão? Um homem. Quem é Wittigenstein? Um homem.

Mudei de posição na cadeira. Platão? Tudo bem, mas...

- Sou jovem na aparência. Sou um curioso, sempre quis saber mais, mergulhar naqueles que sabem um pouco mais para ser menos ignorante das coisas nossas mesmas, as nossas inquietações, curiosidades, sabedorias. Gosto de saber um pouco mais e de perguntar. Sou apenas um perguntador e acho que isto é que me faz jovem. Na aparência. É aparência, por isso você não sabe me dizer se sou um velho, um velho jovem ou dizer com precisão a minha idade. A idade de um homem não importa para a vida. Não deveria importar nem para você e nem para a vida de todos os homens.

Olhos firmes em mim, ele afirma, “você não tem religião”.

- Eu também não.

Fala de Confúcio, de Buda, de religiões organizadas, “religião é prisão, é cadeia, é escravidão”.

Aí ele apontou para o meu peito

- Dentro de ti, dentro do teu peito, em ti, há um santuário e aí mora o que é eterno.

Não mais percebo a agitação do terminal de passageiros, procuro religar-me na tv e no relógio, precisava estar atento à chamada para o embarque. Não me preocupo mais. Tenho ainda duas chamadas de embarque na minha frente.

Entre ouvi-lo, retornar àquele espaço do terminal e voltar a me posicionar, frente a ele, para ouvi-lo, pareceu-me que jogava com o tempo e que ali tinha uma experiência da eternidade. Percebi isto, quando fixei-me de novo em seus olhos e em seu rosto manso, tranqüilo, terno e com um sorriso leve, paciente. Haveria ali uma eternidade. Uma fugaz eternidade. Uma experiência mística. Aquilo que fazem aqueles que saem de uma formação religiosa completa e, sem dinheiro, com um rumo em que se traça apenas o ponto de saída e o ponto de chegada, com milhares de quilômetros de distância, entre a chegada e a partida para completar seu destino e ter a oportunidade de consolidar uma vocação. “Eles saem daqui para entre os homens encontrarem deus”. “Deus existe?”. “Eles saem e irão caminhar entre os homens, se encontrarem deus, continuarão seu caminho, definirão sua vocação e conhecerão seus limites e sua integridade”.

De volta ao terminal, ele me recebe como se o tempo não tivesse passado e como se aquela minha conexão com o terminal, a hora, a hora do embarque, fosse um passeio, uma distração, uma brincadeira. Ele um pai compreensivo, apenas ri de mais esta dispersão, de mais esta travessura.

A idade de um homem não importa para o tempo. Não ser escravo de outro homem. Isto, importa, sim, e muito. Sou um templo, trago em mim um santuário.

Repasso suas palavras. Lições? Não se prender pelo cérebro de outro homem, não ser escravo. À prática.

Ele ri.

De novo, a conversa dispensa palavras. Ele levanta.

- Quantos anos você tem?

Hesito em respondê-lo. O que importa a minha idade? Para quê? Não vivi nada ainda, vivi apenas expectativas. A expectativa até mesmo de ser um homem bom não se concretiza. Percebo que ele sacará uma nova lição sobre a bondade e o antecipo.

- Tenho sessenta anos.

- Meia zero.

- Meia zero, confirmo. Meia zero.

- Você ainda terá mais 27.

- Anh!

Penso em meu pai que morreu com 92 anos e em meu avô que morreu com 102 anos. Por que não mais que 87? Bom, mais 27 está bom demais. “E com muita saúde” ele acrescenta.

- Terás mais, muito mais, terás a eternidade.

Depois que ele se afastou, apanhei os papéis que ele deixara. Deixou mais, além do primeiro. Em um deles tinha o seu nome, “sou um pastor, sem igreja”, Amaro, “Amaro de onde?” “De Eugenópolis, Muriaé, da Zona da Mata?” Ele respondeu, disse o nome da cidade, não guardei. Havia ali um número de telefone. “Pode me ligar a cobrar”. Ele sorri, “sou um homem de posse” e tira do bolso a chave de um carro, “você tem carro?”.

A viagem dura o triplo do tempo, noite de chuva e de desastres na estrada. Não vejo nada, durmo e a noite e a chuva impedem os passageiros do ônibus de ver o que se passa do outro lado do vidro, na estrada. À noite, de madrugada, em casa, leio um de seus papéis.

No outro dia, ligo e peço para que me ajudem a localizar aquele homem. À tarde tenho o retorno.

- Meu velho e bom amigo, se este cara tomou dinheiro emprestado, você tomou um cano. Este homem não existe.


Quando pensava naqueles homens que entre os homens procuram deus, quis contestar a questão dos “limites” e, sem que ele dissesse uma palavra, palavra por palavra, naquela maneira estranha de nos comunicar, pensei com o pensamento dele: “Um homem precisa conhecer seus limites apenas para não se limitar”.

Lembro-me ainda que ao se despedir, já distante, ouvia sua voz perfeita, como se continuasse ali ao meu lado.

“Você é meu filho”.

Bem, ainda bem, que ele se identificou como meu pai, meu pai foi um homem bom. Em minha memória, procuro traços do seu rosto para tentar sua identidade com o meu pai. Talvez, o sorriso. Talvez, a alegria. A tranqüilidade, talvez. Não consegui fazer a ligação entre os dois. Então, agora tenho dois pais. Um ganhei na sala de embarque da rodoviária de Curvelo.


24/05/07


Houve um momento em que suspeitei de sua intenção. Enfim, aquela conversa de religião, deus, ele com um evangelho e papéis sobre a volta de Cristo. Não o questionei por isso. Apenas, olhei em seu olhos com as minhas suspeitas e dúvidas. Como ocorria várias vezes, eu não precisei falar com palavras e nem dizer com a boca. Ele também riu, com aquelas bobagens nas mãos, “os homens precisam do diálogo, eu trago a isca e dou a partida, as pessoas só pensam e só falam o que querem ou o que pensam que pensam que querem falar e pensar”.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

MANI


O outro selvagem

Mani sentava-se no chão seguindo seu ritual. Ajoelhava-se e suas coxas cresciam, Não era possível dizer se Mani ia adorar ou deixar o sol aconchegar-se no mesmo tapete desenhado por seus dedos ágeis na terra e o céu. O calcanhar encostava-se nas nádegas.

Eu deitado na rede e Mani, ali, bem próxima, sentada e ajoelhada, olhava-me. Vigilante no meu descanso e pronta em descobrir e adivinhar os desejos de um ser estranho, quaisquer desejos, manifestados pelo olhar, pelas mãos, pelo sorriso do ser estranho e sem palavras iguais.

E ela adivinhava sempre. Mani cuidava de tudo, apanhava a roupa, arrumava a cabana. Apressava-se quando eu era obrigado a pedir exercitando-me nas palavras novas de um povo quase silencioso. Dormia depois de mim e acordava antes. Corria aos meus braços, deitava-se como uma pluma, mergulhava nas águas para se lavar, desenhava em toda parte muitas flores e frutos. Seus quadros tinham a vida da folha, da areia e do barro nas margens.

*
Mani é hoje um nome que em meu pensamento eu dou a todas as coisas que gosto.

*
A atitude de Mani seria uma atitude de servidão? Não. Eu fazia o impossível para não abusar. Pode acreditar. Para ela, aquele era o melhor relacionamento entre o homem e a mulher. A mulher devia cuidar do homem. Não era obrigação. Era parte integral, essência mesma do prazer e do ser mulher.

Eu e Mani vivemos três meses na selva, na fronteira da Colômbia com o Peru. Mani era da nação dos Putumayos.

*
Despedimos, eu anunciara aquela viagem. Não pedi que preparassem os sucos da volta.

Nunca voltei. Nem pensei em voltar. Eu era viciado em caminhadas nas ruas da minha cidade, em bares e em violão; para mim a mata, o futuro na mata, o acordar na mata era tortura pura.

Fugi da mata e também eu, eu, eu este louco, eu fugi de Mani. Não podia trazê-la comigo ou mesmo sequer impor-lhe esta civilização.

Os tempos passaram em mais de vinte, duzentas, duas mil enchentes. Muita farinha, muita farinha saíra do casebre amarelo. Muitos assuãs correram pelos regos mortais armadilhas. Depois de todos estes tempos passados, desembarquei, nas margens onde prometera não mais voltar.

Coletaria dados para uma pesquisa sobre a estrada da mata.

Mani agora é um nome que deram a uma menina, filha de Mani. Ela não sabia quem eu era. Não havia um amigo que me reconhecesse. Mani contou-me a vida de sua mãe e sobre o pai contou histórias fabulosas. Era ele um homem grande, forte, belo. Mani morreu de tristeza depois de ter sido por muito tempo a mulher ofertada pela tribo aos viajantes. A menina disse-me que Mani, a sua mãe, morrera de tristeza. E esta menina se orgulhava do pai porque ele dera um grande amor da vida da sua mãe. Perguntei se ela não tinha raiva do pai que fugira, que partira sem levar os sucos da volta.

Não, ela não tinha nenhuma raiva. O destino do pai não era permanecer. Seu pai era belo por isso mesmo. Soubera amar enquanto estivera com Mani e depois soubera ir quando foi preciso.

Eu quis contar-lhe a minha história.

Respeitei a língua silenciosa daquela minha gente.

E eu não falei nada. Não podia mais mentir.

A LIÇÃO DA BELEZA


- Eu não sabia exatamente qual a diferença que existe entre um colibri e um beija-flor. Um era pequeno e o outro era grande. Para mim, o grande era o beija-flor. Não era. O colibri era o pássaro maior.

Naquela manhã de sol, aspersor ligado, as gotas cobrem quase todo o jardim. Manhã linda, céu azul, tudo muito limpo, puro azul, as gotas de água subiam fortes e percebia-se os jatos de água se repartindo e dividia suas gotas com o reflexo dos raios do sol.

Aquilo tudo era muito bonito e imaginava uma fotografia daquele momento, algo que fixasse aquela beleza, quando surgiu o colibri. Tudo já era tão bonito. Precisava de se ter uma fotografia daquele momento. É possível fazer.

As bromélias estavam sendo molhadas. Entre as bromélias e as gotas d’água, o colibri decidiu banhar-se. Foram cinco banhos. Eu os contei e toda aquela cena de pura beleza me levava o tempo todo a me indagar se não poderia captar toda aquela beleza em uma fotografia, pensava num filme, algo que fixasse a beleza do dia, da manhã, do sol, das cores, da bromélia, do colibri, do banho do colibri.

A mulher de pouco mais de 50 anos, magra, passos apressados, caminhava ao lado do homem, um senhor de mais de 70 anos, passos também rápidos.

Ele fala sobre o colibri.

Ela, costas e o pescoço tatuados de pequenas estrelas, lembrava de toda a preparação, de todas as brincadeiras com Antunes, seu parceiro da última semana.

“Um dia você verá muitas estrelas ao gozar nas minhas costas”.

Ele viu.

Ela voltou-se para o marido, o velho Martins, quando ele descrevia as gotas e o banho do Colibri.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

ARROZ, BATATA E VINHO

Fazer o arroz, cortar a cebola, o alho, fazer a própria comida, estar ali, ao lado do fogão por umas duas horas, tempo suficiente para pensar, atento aos alimentos, na vida que correu acelerada algumas vezes, outras lenta, mas que te deixou diante do essencial, fazer o próprio alimento, escolher temperos, ouvir o fogo e o cozinhar, o barulho da água que esquenta, pensar em como é farta a vida pouca, tirar do alho o tempero e da cebola o doce, da água a cálida temperatura e o frio ou o quente necessário, lembrar da roça e das mulheres cozinheiras, de seus talentos e de seus amores, da comida farta e de histórias maravilhosas de tempos bons ou até de tempos crueis e difíceis, com suas lições, seus temperos, com suas regras ou seus pratos.

Faça a comida, só, imagine quem chamar para partilhar este alimento, em que há quase nada, o arroz, seus temperos, um ovo, uma batata e, mais uma vez, o vinho, cada vez mais amigo, mais tinto, mais presente, mais verdadeiro, de uvas plantadas e colhidas nos Alpes.

A VIDA & O GESTO SEGUINTE


Para o Gringo

Não antecipe o próximo gesto
Imagine-o
Deixe-o acontecido
Não o antecipe
Você sabe que estenderá a mão
Você sabe com exatidão
O próximo gesto
O próximo sonho
Não o antecipe
Nem se entenda depois dele
Não o realize
Considere, considere, a possibilidade
De tudo imaginar
Não feche nada
Deixe tudo em aberto e jamais antecipe o gesto
ou o sonho

Exercite e a tudo considere realizado
Faça como os chineses que produzem o nanquim
Este azul será para o céu, será para o mar
Será para as montanhas distantes, será o azul cobrindo tua pele,
pingos de água e de azul em tua barba em pele moça

Não antecipe nada, nada,
Nem mesmo tua imensa fortuna.

6.5.5

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

POCO È TUTTO


O sentimento poético

Para Quequel, Quequeleta


Sentir e fazer poesia seria uma só coisa se não fosse você,
se não fosse esse negócio de existir,
se não houvesse a música,
se não houvesse uma estrela
e junto com a estrela sua imaginação,
coisas que você colocaria em qualquer lugar
e até no meio das palavras, junto das frases,
espalhadas no papel ou na tela.

Como entender o verso que chega solto da boca do descobridor e que é tudo,

“Il mondo è poco”?

Colombo, navegador, revelava mundos e o que era o seu fazer?
Poesia pura. Sentimento puro. Audácia. Destemor. Coragem. Poesia.

Um único verso e um enorme poema,
um continente, uma nova história,
um novo mundo.

Il mondo è poco,
quando os homens acreditavam
que dominavam a arte de navegar e a arte de viver:
tudo na mais segura precisão.

Sentimento é poesia, sentimento é ser, é existir, é tudo,
sentimento é pouco.

O PEIXINHO VERMELHO


Para Darci Ribeiro

No fundo, no fundo do mar em um lugar onde os raios do sol ainda chegam....
....No fundo? Fundo do mar é lá dentro, é lá dentrão, como é no fundo da bacia, no fundo da piscina...

No fundo do mar para os peixes pode ser na superfície da água. Onde a água começa para nós é onde a água termina para os peixes..

Continuando esta nossa historinha, lá onde moram os peixinhos coloridos, lá tem dia e tem noite. É lá que mora uma montoeira muito grande de peixinhos, todos eles pequenininhos.

A grota deles é longe de todos os lugares. É um lugar abandonado para onde se dirigiram, muitas águas antes, os peixinhos mais velhos que procuravam segurança e um lugar bom e gostoso, com muita fartura de comida e que nenhum outro peixe maior os ameaçasse.

Para lá, eles foram e lá ficaram.

Ali, vivia o Peixinho Vermelho.

Do pouco que diziam do peixinho vermelho era que ele era curioso. Gostava de perguntar. Queria saber de tudo. Era a idade, diziam os mais velhos. Como se velho também não fosse o melhor perguntador.

O peixinho vermelho não se contentava só com o que era respondido. E com o que os outros peixes mostravam abrindo e lendo nos livros. Ele queria saber das coisas direito e sem tantas dúvidas. Mas as dúvidas sempre ficavam e, um dia, ele foi chamado a atenção.

Havia desaparecido. Ele voltava de longe.

- Onde estiveste?
- Em outros lugares – respondia.

Os outros fecharam um bicão.

O peixinho ria. No outro dia, ele, mais uma vez, ensaiava um pulo fora água. Lá onde ele já sabia que a água acabava e encontrava o ar.

Há muito tempo, desde que ele era menor do que ainda era, que queria saber o que havia depois da água, lá em baixo, nas profundezas daquela luz muito forte. O fundo para ele era a fronteira entre a água e o ar. O fundo para o peixinho era aqui em cima na superfície da água. Que idiota!

- Do lado de lá não existe vida – diziam os peixes mais velhos.
- Como é possível existir vida fora da água? – perguntavam os peixes cientistas abrindo os livros e lendo histórias enormes e alguns relatos de antigos peixes viajantes.
- Como os outros peixes vão respirar fora da água?
- Como é possível respirar fora da água!
- Como as plantas vão viver?
- Como é possível um ser viver sem água? De onde tirar oxigênio?

O peixinho vermelho escutava tudo, tudo guardava. Ele também não tinha respostas.
Era só teimoso.

- Mas eu vou lá fora – resmungava.

Ao amanhecer, quem acordasse cedo, encontraria o peixinho fazendo exercício, ensaiando um pulo fora d’água.

Quanto tempo, ele agüentaria mergulhando no ar? Interrogava-se e fechava as guelras.

Um dia, ele pulou.

Para baixo de si, viu só um mundo feito de água. Viu, no alto, o ar pintado de azul e manchado de branco. Viu a água que crescia, saia da água, e caia com raiva. Não viu mais nada.

Ele desmaiou. Ficou boiando, quase morto, apanhando da água, levado de um lado para o outro.

Ele se salvou, tinha se preparado muito, tinha feito muitos exercícios e era um peixinho forte e bem alimentado.

Recuperado do desmaio, conseguiu forças para voltar. Voltou certo da maior vitória da sua vida de peixe. Queria gritar para todos o que viu e como era lindo do lado de fora da água.

O ar era azul.

Ninguém acreditaria. Ele iria assim mesmo contar para todos a sua experiência.
Se ninguém o ouvisse, escreveria um livro. Mais tarde o leriam e o entenderiam. Nadava veloz pelo mar, rumo à grota, por todos aqueles caminhos solitários que ele conhecia como as escamas do seu corpo.

Lá na grota, todos assustaram. Ele estava de volta. Aconteceu o que ele pensara. Todos riram. Ninguém teve paciência para ouvir as suas descrições do ar e do mar. Eram dois mundos ele dizia, o Mundo do Ar e o Mundo do Mar.

- Peixe nenhum vive fora d’água – diziam e riam dele.

O Peixinho Vermelho teve medo de ser internado como doido e foi escrever as suas experiências.
Ficou escrevendo e passeando pelos lugares seus conhecidos fora da gruta, onde encontrava um pouco de quietude.

Um ou outro peixe o escutava, principalmente os peixinhos amarelos com pintas azuis. Alguns, acreditavam e admitiam que tinham dúvidas. Outros peixes, principalmente os peixinhos azulões temiam que o Peixinho Vermelho se transformasse num criador de idéias que poderiam destruir a juventude, caso outros peixinhos se arriscassem a ultrapassar o limite, a fronteira do mar com o ar.


Um dia, dormindo à tarde, depois de ter comido bastante, foi sacudido violentamente. As águas tinham se revoltado, era como se tivesse ocorrido um terremoto, nada ficou no lugar.
Daquele dia da revolta do mar, o peixinho se lembraria sempre, com uma pontada no coração. Muitos peixinhos morreram. O mar destruiu tudo. Eles eram lançados violentamente contra as rochas.

Depois, com a passagem daquele furacão, iniciaram a reconstrução. Não havia mais comida. Tinham que enterrar (não seria, en – mar - rar? Isto é, deixar bem dentro do mar?) e, sem chorar, os peixinhos mortos. Todos trabalhavam. Todos ajudavam.
O peixinho se multiplicou por três e trabalhava, como os outros, dia e noite. A comida acabava. O peixinho vermelho avisou que sabia onde tinha comida com fartura, quilômetros de plantas. O Peixinho Padre, Preto e Vermelho, irritado, chateado, o Peixinho Vermelho não sabia de nada - pensava o bom padre.

- Estava inventando – insistia o padre, agora mais vermelho de raiva do que preto. A religião dos Peixes dizia que só havia comida naquele lugar e que dali eles não podiam sair, sob pena de sofrerem muito.

Com uns cinco companheiros, o Peixinho Vermelho saiu e voltou com comida para todos. Famintos, eles se fartaram.
Mesmo assim, eles continuaram acreditando, quase-todos, no Peixinho Padre, agora mais preto de vergonha do que vermelho.
Por causa disto, o Peixinho Vermelho e seus cinco companheiros foram presos e julgados. O julgamento foi longo e dividiu os peixes. Terminou com os peixes que saíram para buscar comida condenados.

A fome continuou, os alimentos acabaram mais uma vez.
O Peixinho Vermelho e seus companheiros presos ficaram calados. Não podiam fazer nada. Iriam morrer com seus amigos, suas famílias. Era a fome.

Um peixinho mais velho, do grupo dos amarelinhos, que acompanhava toda a história do Peixinho Vermelho, conseguiu que dessem uma oportunidade àqueles que antes trouxeram a comida, agora escassa e já no fim.

Mais uma vez, eles teriam que demonstrar que conheciam o lugar onde obter comida.
Foram libertados.
Caso não encontrassem comida, seriam expulsos para sempre da grota. Não precisavam nem voltar.
Os peixinhos voltaram cedo, antes do dia clarear, arrastavam muitas ramagens. Foi uma festa.
Neste mesmo dia, todos eles saíram, organizados, para investigar o mundo da água além da grota.

Examinaram canto por canto. Os peixinhos encarregados da proteção garantiram que todos podiam até mesmo mudar da grota para o lugar onde havia comida. Mas, cautelosos, preferiram se orientarem com segurança, sem precipitação.

Organizaram em seguida, muitos, muitos peixes, para voltarem ao lugar da comida. Cada um dos cinco companheiros do Peixinho Vermelho ensinaria o caminho para outros dez, depois os outros ensinariam para outros dez e assim todos ficariam sabendo onde ir e sem riscos.

Aquele outro lugar era um lugar tão seguro como na grota.
O tempo passou, todos passaram a morar ali e já ali moravam há Muitas Águas.
O Peixinho mais Velho estava morrendo, mandou chamar o Peixinho Vermelho.
- Eu vou embora para o lugar mais profundo do mar e eu quero me despedir de você. E dizer que eu não sei para onde eu vou.

O Peixinho Vermelho ficou um pouquinho mais vermelho de vergonha.
O que fazer? O amigo morria e estava, também, sem saber de nada. Ele não podia dizer nada e não podia ficar calado.

- O que existe lá depois da profundeza do mar, depois que o mar encontrava seu limite?

Ele também pouco sabia. Poucos foram os seus mergulhos no ar. Também nada sabia sobre o lugar para onde iam os peixinhos depois que morriam.

Olhou nos olhos do Peixinho Velho e controlou para não chorar.

- Eu sei que você também não sabe. Não se preocupe e nem precisa querer me enganar. Chamei porque eu gosto de você e sei que não me enganaria e nem iria rir de mim.

O Peixinho Velho respirou fundo e suas guelras tremiam com a respiração difícil.
- Vivi e procurei ser justo. Fiz sempre o que achei que um peixe bom faria. Estou contente. O que eu fiz é que foi importante, o resto, o que virá, eu calo.


O Peixinho Vermelho afastou-se, subiu na água para um lugar bem longe, muito escuro, onde suas lágrimas não fossem vistas e não mudassem o gosto salgado da água do mar.

E chorou a morte de um amigo, que morrera sem saber o que havia nas profundezas da água do mar e sem ter visto sequer o que ele vira lá longe no fundo do mar: muita luz e aquele imenso azul do ar.

domingo, 25 de outubro de 2009

A COMPOSIÇÃO SEM FIM


Uma história do Mucuri

Os cabelos brancos da índia velha pareciam um capacete fixo em sua cabeça. Muito cabelo como engomados e presos à cabeça, envolvem a cabeça e realçam a face da mulher determinada, obcecada, determinada na sobrevivência e obcecada pelo bem feito, pelo perfeito em seu mundo.

Era uma mulher enorme e eu estou no alto do morro, observando-a. Ela caminha lá embaixo, depois da cerca. Ela me viu e não se importa com a minha presença. Segue. Para onde? Seu andar não era lento, mas firme, num ritmo constante, enganava os olhos. Ela transmitia a idéia de que era uma pessoa que nunca parava. Não tinha uma idade definida. Dizia 50 anos, 60. Dizia 70. Como ela poderia dizer 40.

Seu envelhecer era o envelhecer daquelas mulheres do mato, que perdem os dentes muito cedo e a pele, queimada e curtida pelo sol, seca, enruga no rosto, nas mãos.

Vi a velha índia, pela primeira vez, carregando lenha, na margem da estrada, perto da cerca de arame farpado. Ela olhou-me. Depois, dentro da casa o que chama a atenção é a limpeza. Casa? Era uma casa. Uma casa digna, limpa, organizada como poucas nesta trajetória de caminhante no fundo do Brasil. Era uma caverna e não era. Não era escavada, um buraco, na montanha.

Era uma caverna vegetal, em que a parede principal era o tronco de mais de cinco metros de diâmetro de uma árvore secular, como as outras ao seu lado. No fundo, uma passagem estreita, mantida fechada por uma porta improvisada de paus e ramos, mas firme e que só ela sabia como abrir. Era toda a sua casa um corredor estreito. Seu ponto mais largo não teria um metro e meio. De comprimento teria mais de dez metros. O telhado era formado pela cobertura vegetal. No tronco da árvore caverna principal, ela fizera o armário e nas reentrâncias, limpas, ela guardava diversos alimentos secos, como vários tipos de castanhas e de raízes. Sua casa era limpa e farta.

Vivia com ela uma neta de 9 anos, uma menina bonita, esperta, que ajudava na limpeza, plantava e cuidava da água. Buscava-a em uma fonte a 10 metros. A casa ficava em um lugar de difícil acesso para pessoas e animais, os caminhos eram complicados e muitos acessos tinham interrupções bruscas, cuja saída estava em passagens por cortinas verdes ou por contorno de matas de bambu.

Um dia, quando voltávamos do riacho, ela chegava com duas bananas da terra. A velha índia achara que, naquele dia, eu não voltaria.

“Tem mais na mata, vamos buscar”.

Nosso caminho nos aproximávamos dos sítios e eu já concluíra que ela buscava muitas coisas naqueles sítios, quase sempre abandonados durante a semana. No sítio das bananeiras, na casa já estavam algumas pessoas. Ela apontou a bananeira dentro do quintal e disse que podíamos pegar a banana.

Expliquei porque não podíamos, aquelas árvores pertenciam àquelas pessoas da casa. Ela olhou-me assustada.

“Não podíamos”.

Ela entendeu que era porque tinha pessoas na casa. Assustei-me quando me vi, escondido debaixo do assoalho da casa, com uma banana da terra na mão, ouvindo a conversa de três homens, na varanda, um deles com uma menina no colo.

“Papai está na cidade, ele chega mais tarde. Agora que compramos o sítio para ele, o sítio que ele sempre quis, ele vive mais na cidade”.

Um gato apareceu na minha cara e começou a brincar comigo. Afastando-me, o gato salvou-me esclarecendo para eles a origem do barulho debaixo da casa. Afastei-me sem estar muito convicto de ter me tornado invisível pela mágica da índia.

Tomava cuidado ao me afastar da casa, por isso desviei-me da atenção de uma menina que brincava no cômodo separado da casa e que chegou a olhar em minha direção. Assim como tive o cuidado de não ser visto pela mulher que trabalhava na cozinha. Ganhei de novo o quintal e fugi.

Não entendia como consegui passar pelo cachorro sonolento sem ser notado. Notei também que os irmãos passaram a conversar sobre o movimento suspeito no quintal.

“São uns restos de índios botocudos que roubam frutas, alguns são perigosos, temos que comprar uma arma, uma espingarda cartucheira, para pai”.

No dia em que a velha índia chegou suja de sangue, apertando o peito, fiquei triste porque a mágica falhara. Fora baleada e, naquela noite, morreu, sorrindo para nós.

Ficamos, eu e a menina, que calou, parou e fixou seu olhar no vazio.

JANELA FECHADA


O incenso do palácio

Janela fechada
chuva e incenso

lá fora, a água e o barulho da água

sutil, a fumaça é fragrância,
é perfume, é calor
aquece e afaga

toda a roupa ganha
do perfume

os corpos também
do perfume
ganham

essência de prazer

não é festim

é penumbra e não é silêncio

porque lá fora
há o cheiro da água e do chão,
da folha e da árvore

porque da madeira da água
em queima lenta
sutileza e suavidade ocupam
corpos e espaços

não há mais vazios
eu e você e o ar
lá fora, o som, a umidade e o frio

a chuva também.

sábado, 24 de outubro de 2009

ONDE ESTÁ GUIDO ROCHA?


Para Álvaro Lemos, Cacau, Gabriel e Arthur


Um coração frágil. Tudo em Guido era frágil. Ele pode quebrar, tão magro. Como seu corpo pequeno, franzino, esquálido, “pele (?) e osso simplesmente, quase sem recheio”, sustenta aquela fera? É que a fera estava no olhar. Na barbicha? Nas palavras?

Guido explode em suas esculturas e seus Cristos revelam o sofrimento e a tortura verdadeiras do homem moderno. O mundo olha Guido através dos calvinistas suiços, Guido larga tudo para trás. É no seu Brasil que ele compõe e esculpe sua saga de ser cidadão.

Aqui, é aqui.

Guido precisa sobreviver, sobrevivi pelos cantos. Guido precisa fazer valer direitos, Guido fará, “é assim”, ele quer ensinar. Guido atravessa os monstros.

Todos tínhamos medo de que Guido não aguentasse as torturas e as pressões, Guido sobrevive. E o coração de Guido? Aguentou. Até a alegria era demais. Olha, no final de semana, todos nós voando a 250 km/h no Ômega de Álvaro com destino à vida. Tudo e todos para salvar Guido.

Ele não agüentará a alegria, comeu tudo, bebeu tudo, cantou tudo, brincou, riu, gostou do dia e de todos e brincou com os meninos, virou um menino, mas Guido é um menino, ali no canto tão magro, tão pequeno como o Gabriel, mais gente do que Guido, Gabriel tem carne e osso, é forte, um baita menino.

Guido corre risco, Guido explode, voando pelo chão, no hospital, Guido na maca, respiração difícil; todos por Guido e todos de olho na bunda da médica jeitosa, um primor de mulher, uma qualidade de bunda, todos atentos porque Guido, mais uma vez, vencerá seu dia.

Tempos depois: Onde está Guido? Passou mal, quase morreu e uma irmã que mora em Chicago o internou lá, mas já está bem e pronto para voltar, já mandou notícias. Guido já esculpe? Nunca deixou de esculpir sua luta e a sua alegria.

Vejo Guido passando algemado no corredor do Dops, uma delegacia que se diz de ordem política e social, não entendo, mas vamos em frente, talvez sobra do tempo que começou positivista. Guido depois irá explicar-me. Ninguém se preocupa com as palavras, as palavras têm que ter forma, esculpe-as, faça das palavras uma arma, você é poeta, um senhor poeta, todos rimos, Guido fica nervoso, por que?

É ele tem razão, qual o mal se traçarmos as palavras antes, se prepararmos as palavras antes, se tratarmos de cada uma delas, amaciá-las, dar-lhes forma e colocá-las exatamente no tamanho exato da palavra que queremos dizer.

Nunca fui bom de ouvido, nem bom de canto. Nunca entendi direito as pinturas. Vivo rodeado de cantos, músicas e pinturas. Quando não as tenho sinto falta de ar. Guido diz que só a vida faz falta.

Ele é doutor em vida e em sensibilidade de sobreviver todos os dias, carregando um coração que o tempo todo ameaça pregar-lhe uma peça cansado daquele corpo pouco.

Julian Beck, do Living Theatre, nosso companheiro de cela, ganhará a liberdade no dia seguinte, ele pede a Guido que desenhe a nossa cela. Guido é um exímio desenhista. Julian Beck está entusiasmado, a cela é revelada em detalhes, Julian passeia em volta de Guido que permanece concentrado.

O trabalho fica pronto. No dia seguinte, no dia da libertação de Julian Beck, de Judith Malina e de todos os atores. Guido entrega-lhe o desenho e deita no seu canto.

- Cadê a janela? Grita, Julian.

Guido volta-se, olha.

Lá está a janela na parede, grande, enorme.

- Não tem janela nenhuma!

Guido volta-se para o seu canto.

- Olha, a janela, Guidô.

Julian está impaciente.

Guido levanta, apanha o desenho, olha para a janela, olha para o desenho.

A discussão acira-se.

Aquele norte-americano imenso, correndo teatralmente pela cela, gritando, misturando línguas, la fenêtre, ela sabia que Guido havia vivido na Suíça, repetia, la fenêtre, the windows, a janela, olha lá, mire, aqui, quedá, here, here, Julian estava atônito.

Guido, já nervoso, apanhou o papel, tomou-o da mão de Julian, sentou-se com a sua prancheta improvisada, o americana estatelado ao seu lado, Guido riscou, riscou e devolveu o papel.

“Aqui tem uma janela, segundo Julian”.

Não desenhou, só escreveu.

Julian mudou de cor. Seus gritos chamara a atenção das outras áreas da prisão e havia um silêncio fora, nas outras celas, como dentro da nossa. Um silêncio véspera de uma grande explosão.

A lição

- Julian, meu querido Julian Beck, só você vê esta janela ali, não existe nenhuma janela ali.
Guido era professoral, tranquilo.

Uma lágrima desce pelos olhos do homem imenso que é Julian Beck, careca, de cabelos compridos atrás na nuca. Aquele homem imenso torna-se um menino abalado.

Está nos olhando, era o grande olhar da solidariedade e da amizade. Guido lhe dera aquela lição e utilizou os próprios métodos do teatro de Julian Beck, living, fez a vida vivendo, encenando, fazendo, revolucionando, provocando, criando e introduzindo novos atores na cena da vida.

Era a grande cena de Julian Beck e de Guido Rocha.

Julian Beck com o papel, olha-o, olha para a janela, olha de novo para o desenho e para, abraça afetuosamente Guido.

- Guido, não existe nenhuma janela ali. Não existe nenhuma janela para o nosso mundo.

Julian está eufórico e abraça todos, despede, está alegre.

- Eu vou abrir uma janela, eu farei uma janela para o mundo.

Ele está entusiasmado, era mais uma lição do seu Living Theatre. Guido aprendera. Guido ensinara.

Muitos anos depois, sempre contando esta mesma história. Ali, na casa do Roberto Gontijo, meia noite, provocado pelo Lot a história saia de novo. Na minha frente, as lágrimas saem dos olhos de Ângelo, eu faço de contas que não vejo. Há ali um silêncio também. Um outro living, estamos continuando.

A lição de Guido mudara a postura de Julian. Ele saia alegre, feliz, profundamente triste, sensível. Vejo os dois, Julian e Judith conversando no corredor. Ela abraça-o, eles são os verdadeiros Romeu e Julieta. Eles se afastam.

- Janela, a janela.

É um grito que vem da rua, depois um coro, eram os atores, três, quatro, dez, todos gritando, cantando em todos os idiomas que eles conheciam

- A janela,

- A janela,

- Le fenêtre,

- Le fe ne tre,

- The windows,

- The windows,

- La fecha,

- La fecha,

- A janela.

Depois, um grito e silêncio.

- A janela.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

UM MERGULHO NAS ESTRELAS



A. Arcanjo

Para Matozinhos de Castro



O lugar onde eu nasci não existe mais.
São José das Tronqueiras está mergulhada debaixo das águas da usina.
Volto lá de barco. Eu navego sobre a minha infância.

Minha terra, o meu berço, o lugar onde eu nasci, a pequena loja de meu pai, tudo agora está debaixo da água.

No comércio de pai, ele vendia de tudo um pouco, tecidos, panelas, remédios, balas, cadernos, macarrão, farinha, lápis, bala, tudo e a regra era simples e direta: se ele vendia, ele também deveria comprar. E ele também comprava de tudo: frango, galinha, porco, caça, frutas. Chegou até a ser um respeitado comprador de café.

A lojinha de paredes brancas, portas e janelas vermelhas, também está lá embaixo e eu acredito que navego em cima da rua da sua loja.

Sozinho, no meio desta mundo de água, desligo o barco.

Não sei quantos meninos como eu tiveram suas casas inundadas, colocadas debaixo da água para sempre. A verdade é que somos muitos com as nossas infâncias dentro de verdadeiros aquários.

Parado na imensa represa da Usina de Tronqueiras, trago de volta o meu pai. Figura fantástica.

Naqueles rincões do Vale do rio São Mateus, ele enfrentou um ditador que fechou as escolas primárias da zona rural. E toda aquela história acontecera ali. Estava ali, agora, debaixo de mim. E meu pai, meu herói, meu orgulho, não usou nenhuma arma nesta briga e nem foi violento. Foi inteligente. Jamais falou mal de ninguém, muito menos do ditador e dos amigos do ditador nas Tronqueiras. Calado, ele enfrentou o perigo. Sem medo. Existem homens que ensinam falando, são os mestres. Meu pai ensinava, em silêncio, ensinava com o que fazia.

Era um homem

Vargas, o ditador, não fechou escolas nas cidades grandes porque os ditadores também têm medo e porque haveria muita briga, muita confusão.

Nos grotões, ele fechou não só as escolas. Fechou também os pequenos engenhos que abastecia de açúcar toda a região dos vales. Naquela época, não havia açúcar suficiente para todos. O açúcar não chegava no grande interior. Era do nosso engenho da roça que saia a rapadura para o café e até mesmo para adoçar o mingau das crianças.

Getúlio mandou lacrar estes engenhos com um selo semelhante a estes selos dos carros e ai daquele pequeno que violasse o lacre. Não chegava o açúcar para nós, mas a polícia especial de Getúlio andava por todos os lugares, prendia, batia, espancava mesmo e fazia tudo o mais. Nós tínhamos medo.

Quando se fala de analfabetismo no Brasil, você pode estar certo que o grande índice de analfabetos está na minha idade, em torno dos 60 anos. A criança da minha geração se viu sem escola.

O ditador mandara fechar as nossas escolas. Meu pai contratou uma professora formada, lá de Virginópolis, dona Sebastiana Campos de Almeida, dona Tianinha. Não fez alarde. Nem gritou contra a decisão do ditador. Trouxe a professora. Montou dentro de casa um cômodo que ele chamou de “lugar de estudo”. Não podia chamar de escola, muito menos de sala de aula.

Dona Tianinha - a gente não esquece o nome dessas pessoas. Elas são muito importantes nas nossas vidas, preenchem todo o nosso tempo e a nossa imaginação. As crianças tinham um carinho todo especial por aquela mestra.

Depois, meu pai contratou um outro professor. O professor Astor Alves Pinto, primo do doutor Ricardo Alves Pinto, um advogado famoso de Teófilo Otoni. Gostava de tocar violão e dizia que era mais fácil aprender com música. Nas festas, lá estava a bandinha, um violão e o resto da orquestra era improvisado, lata d’água, caixa de fósforo, pá de pedreiro, pedaços de pau, bambu e tudo o que desse som.

Por que o segundo professor? Porque os pais, que não podiam contratar um professor, procuraram o meu pai e os quartos foram enchendo de meninos. Chegavam mais crianças. Meu pai autorizava. Era menino já na cozinha, no terreiro e até no depósito. Os dois professores dobraram turno e foram contratados mais outros dois. Mesmo assim, os quatro professores tiveram que dobrar turno para que a criançada fosse alfabetizada.

A cada criança que chegava, papai observava que estávamos vencendo. No dia em que chegaram os filhos dos “amigos do ditador” e do pessoal da polícia, tivemos certeza de que tudo daria certo. Eles também precisavam estudar.

Foi a grande vitória do meu grande herói. Assim, todos nós venceríamos o ditador.

Era a nossa luta e que meu pai, os professores e a cidade transformaram numa grande batalha silenciosa mas cheia de brincadeiras e alegrias. A região era muito populosa. Não tinha diversão nenhuma comparada com as de agora. Cinema? Nem imaginávamos. Nem rádio tínhamos. A maior diversão dos adultos eram as conversas sem fim, naqueles fins de tarde, ora na porta de casa ora na porta da venda, ora na porteira. Para os meninos, todo o tempo e todos os lugares: o rio e as matas.

Os fregueses do meu pai que mais mandavam meninos para o Lugar de Estudos eram o seu Joaquim Pereira e a dona Maria, dois mulatos, dois cablocões, cruzamento de preto com índio. Eu os conheci já envelhecidos.

Ele, de cabelo seco, barbicha branca, muito simpático. Todas as vezes que vejo uma foto ou um desenho de um de um preto velho, escravo antigo, agachado ou sentado, fumando seu cachimbo, lá vejo de novo o seu Joaquim.

Dona Maria, depois de 48 filhos, com 32 sobreviventes, ainda era uma fortaleza de mulher.

Os 32 filhos criados, que casaram, constituíram família. Moças e rapazes a perder de vista, a esquecer a identidade e a confundir a idade. Todos criados lá nas Tronqueiras. Depois destes 48 filhos, dona Maria e seu Joaquim ajudaram na criação dos netos. Os berços andavam sempre ocupados. Uma vez por mês, num domingo, quando o padre de Coroaci ia celebrar a missa, eles transformavam sua caminhada até a igreja em uma grande aventura.

Eles percorriam a pé uma distância de 18 quilômetros. Todos eles, com a dona Maria à frente, caminhavam, ocupando sempre um lado do caminho. Era a disciplina de todos que seguiam a caminhada firme de dona Maria, com a sua saia rodada, parecendo saia de espanhola ou de cigana. Aquele grupo, cheio de cores, impressiona, ainda hoje, estes olhos de menino pela sua pujança, pela pujança da força dela e pela beleza da sua gente, no sol de logo depois do amanhecer.

Ela caminhava sempre na frente. Ela vinha, vinha se aproximando. Seus passos até hoje chegam firmes aos meus olhos. A poucos metros, corria para o alto de uma cerca e ficava observando-os passarem. Lá ia Izaltino, menino treiteiro, Bagão, ponta esquerda, Zé Leôncio, Cleiton, Rivaldaver, Nagib, Leonídio, Flora, Teca, meus colegas de matemática. Muitos outros.

Confesso que, mesmo aqui sozinho no meio deste mar de água da represa, tenho vontade de chorar, de chorar de felicidade em ter conhecido todos eles.

Dona Maria, comandava aquela caminhada, verdadeira procissão. Eram quase cem pessoas. Toda a sua família seguindo os seus passos, seguindo os passos firmes de dona Maria, passos que, naquela terra fofa, não levantavam poeira, como se fossem conduzidos pela leveza de uma santa.

Em seguida, vestidos com suas melhores roupas, vinham as filhas, os filhos com suas calças de um tecido de brim caqui, calças e camisas bem passadas. Netos, genros e noras, uma multidão de pessoas que era a mais bela obra daquela vida.

Lá atrás, fechando a procissão, vinha o velhinho. Ele já não mais caminhava um percurso daquele tamanho. Seu Joaquim montava um cavalo baio, de pouca crina, crina ruim, preta. Um cavalo baio de pouca cauda. Devagar, passo a passo. Sem pausa e sem pressa. Ele a cavalo era o último e levantava poeira.

Todo aquele povo vinha para a missa. Na minha cabeça de menino, aquela era a mais longa de todas as missas, pois era uma missa que começava mesmo era na estrada.

Depois da comunhão, com deus dentro de si, eles voltavam a pé. Era como se aquela missa não acabasse nunca. Continuaria na estrada.

Na igreja, na fila da comunhão, olhos fechados, eles esperavam aquele grande momento em que teriam Cristo, através da hóstia, dentro de si. Grande era a fé e grande era a força destas pessoas. Todos de olhos fechados. Eu acreditava, piamente, que na comunhão eles recebiam deus e que deus jamais seria um só, deus se multiplicava e era tantos deuses quantos eles eram. Na caminhada até o altar, firmes, eles pareciam voar.

Olhos fechados, o padre estendendo a hóstia consagrada, boca aberta, contritos, eles recebiam deus. O pão e o vinho, o corpo de deus, a hóstia consagrada e deus. Ao voltar para seus lugares, ajoelhados, cabeças baixas, eu tinha certeza, cada um deles era agora um homem e era também um deus.

Três das filhas de dona Maria e de seu Joaquim casaram numa família de pessoas muito bravas, muito valentes. Eu me lembro dos nomes deles: Geraldo Catarino, Sebastião Catarino e um outro Catarino. Três irmãos casaram com três irmãs.

Esse Geraldo e Zé Catarino, isto mesmo, eram Geraldo, José e Sebastião Catarino. Como o José e o Geraldo nunca se viu gente mais valente do que esses cabras. Eles eram produtores de café e também fregueses do meu pai. Vendiam café para o meu pai. Assim eram as relações, meu pai comprava e vendia, eles produziam e também compravam e vendiam. Assim também o velho Joaquim. Eram todos fregueses.

Seu Joaquim e dona Maria, combinados com o meu pai, me levaram para as terras deles.

Chegaram para entregar o café e eu acompanharia a tropa.

Era a minha maior felicidade: conduzir uma tropa. Meu sonho, tudo o que eu queria ser era condutor de tropa. “O nosso principezinho tem que ir”. Eles me tratavam com carinho, gostavam do meu pai e, como eu os recebia quando vinham à loja, eles me tratavam como um igual e me chamavam sempre e a toda hora de “meu principezinho”.

“Ô meu principezinho como vai?”

Dona Maria, como as filhas, as filhas casadas e os genros me tratavam como um ser privilegiado pelo amor deles. Eu era o príncipe deles e, neste dia, me chamaram para acompanhá-los, introduzindo-me como condição para o fechamento do negócio.

Os dois me proporcionariam a realização do meu grande sonho de menino. Ainda na frente da lojinha, assumi o comando da tropa. Um príncipe e um tropeiro, um condutor de tropa.

Fui para a frente da tropa, ocupei meu lugar e dei o grito de largada. Puxei a tropa. Eu, na frente.
Eu tinha nove anos, tínhamos poucos livros. Assim como com as pessoas grandes, a conversa, ouvir as pessoas era a nossa grande aventura.

Naquela viagem, eu conduzindo a tropa, caminhávamos ouvindo dona Maria. Ela advertia. Não devíamos andar devagar, pois tínhamos que atravessar o cemitério ainda de dia. Não era medo. Ela não gostava. As lembranças eram muito tristes. Era por tristeza, não por medo. O medo sempre acaba, a tristeza nunca.

Eu conhecia aquele cemitério. Estava, lá, perdido na montanha, de um lado da montanha com umas poucas cruzes e no meio de muito mato.

Não podia ficar mais atento ao ritmo da tropa. Jamais iria desagradar dona Maria. Ela já falava sobre as estrelas e que aquela noite, sem lua, seria uma noite muito clara porque haveria um céu cheio de estrelas.

“As estrelas são como as gentes”

Soou limpa a voz suave daquela mulher.

Ouvi que ela falava como se estivesse conversando com cada um de nós. Era como se ela estivesse ali ao meu lado, conduzindo os jumentos, os cavalos e os carros de bois comigo.

Naquelas imensidões, se ela falasse mais baixo, seria ouvida do mesmo jeito.

Sua voz era suave e forte.

“As estrelas e os homens são iguais”.

“Você consegue imaginar uma estrela e um homem como iguais?”

(Ninguém disse nada e ela continuou).

O padre Miguel não aceita. Ele é novo, mas o padre Antônio, que já morreu, sabe.

Aqui, morou um menino. Ali, bem ao lado da nascente do Tronqueiras. Eu não sei o nome dele. Nem sei se ele chegou a ter nome. Caburé! A gente o chamava de Caburé.

Seus pais o abandonaram muito pequeno. Ou ele foi o único sobrevivente. Seus pais podiam ter morrido. Isto, Caburé jamais revelaria. Era seu trunfo, sua segurança.

Ninguém sabe como, ele permaneceu na casa, sobreviveu e quem chegava na casa se espantava com a limpeza e com os cuidados de Caburé em deixar sempre frutas novas e um pouco de comida na casa.

Ele acreditava que seus pais um dia voltariam e que, caso ele não estivesse na hora, encontrariam o que se alimentar.

Menino ainda, Caburé sempre andava pelas terras e sempre arranjava um serviço, algo para fazer. Todos tinham alguma coisa para ele fazer. Seu Nestor da Andirana emprestou-lhe um cavalo e todas as manhãs, bem antes do dia clarear, os animais de pastoreio do seu Nestor já estavam presos no curral. Caburé não era menino de pouca conversa.

- Alegre, sempre muito alegre, mas sempre sozinho – seu Joaquim ajuntou.

Aos poucos, o menino com o que ganhava já tinha em seu cercado alguns porcos, depois uma vaca. Um dia comprou uma mula que ele mesmo amansou. Era uma mula vermelha. Muito bonita.

Na nossa fazenda, Caburé sempre ajudou na colheita do café. Nos dias em que ele passou na nossa casa, Caburé contou que seus pais estavam viajando e que a viagem deles era uma viagem muito longa.

- Você era muito pequeno quando seus pais foram embora.
- Eles me disseram que iam viajar e que depois voltariam. Eu deveria olhar sempre para o céu, quando tivesse muitas estrelas, pois eles chegariam de um lugar distante.

O tempo passou e Caburé, em todas as noites estreladas, dormia no terreiro da casa.

Um dia, ele percebeu que uma estrela lhe fazia sinais. Eram duas estrelas. O sono fora tão forte que ele não entendera direito aqueles sinais.

Nas outras noites cheias de estrelas, Caburé não conseguia mais encontrar aquelas duas estrelas, até que uma noite, as duas aproximaram-se dele. A quantidade de luz era tão forte, que ele custou a dominar seus olhos e mantê-los abertos. Foi numa noite em que parecia dia de tanta luz que vinha das estrelas. Ele não teve medo. Eram os seus pais. Eles riram e se abraçaram tanto que, mais uma vez, o sono o dominou. Ao acordar, estava deitado em sua cama e não no terreiro. Estava coberto e a casa toda fechada. Dormira na cama e não lá fora.

Tudo teria sido um sonho para ele

Na cozinha, a surpresa, as frutas e a farinha com carne seca foram comidas. Comeram tudo e as cascas das frutas estavam do lado de fora da casa, dentro da vasilha da lavagem dos porcos.

Seu Nestor da Andirana contou a história para o padre Antônio. O padre Antônio falou na missa que todos nós devíamos estar junto com Caburé neste momento.

Quem foi primeiro visitá-lo, seu Armindo, o sapateiro, voltou com toda a história da limpeza e da beleza da organização da casa.

“Os jardins estão cheio de flores e cada flor mais bonita do que a outra”.

- Um menino! Um menino sozinho?

Ninguém conseguia entender e quem tinha suas casas sujas e desarrumadas, seus jardins mal cuidados ficaram com vergonha e se desdobraram. Nunca, em Tronqueiras, se teve tantas flores nos jardins. O pequeno Caburé nos dera uma lição e sua primeira lição fora o de que era capaz uma pessoa sozinha.

Padre Antônio passou a visitar mais nosso povo. Ele que vinha rezar a nossa missa de quarenta em quarenta e cinco dias, ficou semanas inteiras em Tronqueiras e tivemos missas todos os sábados e todos os domingos.

Caburé nos ensina que quem não é preguiçoso faz florir um jardim. Mas por que fazer florir um jardim, por que aguar uma planta, por que cuidar da limpeza dos canteiros? Porque é a vida e ela deverá sempre estar pronta para florir. Caburé acredita que seus pais um dia voltariam e eles encontrariam um lugar feliz. Assim como cuidamos das plantas, devemos cuidar de nosso corpo e da nossa casa. A felicidade começa na entrada da nossa casa.

Todos os dias em que esteve conversando com Caburé, o padre voltava para um sermão que enchia toda a igreja e as pessoas vinham de lugares cada vez mais distantes para ouvi-lo.

O último sermão do padre foi sobre as estrelas e os homens. Foi ele que nos ensinou como as estrelas se tornam homens e como os homens se tornam estrelas.

O padre dizia que aquilo era um exercício sobre o amor dos homens e que somente os homens que eram capazes de amor seriam capazes de entender, de compreender e de ouvir estrelas.

Contou para nós que realmente os pais de Caburé se tornaram aquelas estrelas maravilhosas e cheias de luzes. E ele leu para nós uma poesia que falava de um poeta que conseguia também ouvir as estrelas.

Um dia, Caburé voltava para casa com a sua mula, Vermelha. Era tardinha de um dia que prometia uma noite estrelada, quando, ali, na porteira do seu Quincas, um Tamanduá Bandeira atravessou na frente deles. Normalmente, o Tamanduá fugiria da mula e do menino. Eles ficaram, sem saída, frente a frente, e o Tamanduá bateu forte na barriga da mula que caiu no chão. Na luta, Caburé conseguiu matar o Tamanduá, mas também morreu. No outro dia, os três foram encontrados ao lado da porteira. Caburé abraçado com o Tamanduá, com quem lutara, tentando salvar a mula.

Caburé está lá naquele cemitério.

Dona Maria parou sua história quando nos aproximávamos do cemitério. Muitas estrelas no céu e não era totalmente noite. Ou já era noite? Vi que havia uma estrela diferente e que ela nos ouvia. Pensei, se nós podemos ouvir as estrelas, as estrelas também nos ouviam. Assim, como na missa, quando caminhávamos em silêncio para a comunhão, fizemos todo aquele trajeto ouvindo nossos passos, o ranger das cordas e dos couros.

Cansados, dormimos. Chegamos, dormimos.

No outro dia, um dos primeiros a acordar, tomei um susto quando olhei para o chão. O chão era de um branco tão branco que parecia não ter fim, pois continuava nas paredes. Nem o chão tinha fim e nem as paredes tinham fim. Aquela cor branca e forte assustou-me. Onde estava?

Era a casa mais limpa que eu havia visto até então.

Seu Joaquim me diz que posso pisar no chão. Paciente, ele me explica como se constróem aquelas casas.

Não tem alicerce. É de pau a pique. Não é de tijolo. Finca-se quatro esteios. Na divisão põe-se uma madeira mais forte. No meio joga-se o adobe. O adobe é feito de barro e não é queimado. É seco, no tempo. Essa é a chamada casa de enchimento, porque faz-se as placas de barro, pega na mão e joga. Põe, primeiro, o pau a pique, abre o bambu ou taquara ou cipó e vai passando, deixando os intervalos, onde se joga o barro. O barro pegará naquele espaço. Com o barro, cobre a parede e fica até fazer o reboco, aparece a taquara, aparece o pau a pique, que usou como escoramento.

Vi fazer tantas destas casas na região. São muitas as casas deste tipo. A base da casa fica quase nivelada ao chão. Os mais caprichosos com um aterro controlam a umidade e jogam uma terra mais dura. Nivelam aquilo de uma forma que se pode meter o nível e não se encontrará nenhuma diferença.

Como naquele tempo era difícil encontrar o cal, nem tinha tampouco as tintas de caiar casas, como nas grandes cidades, então usava-se um barro que na roça dá-se o nome de tabatinga. Esse barro branco é que dá essa cor que deixa as pessoas impressionadas.

A gente tira o barro tabatinga bruto lá no brejo, mistura e põe numa lata, mistura com água, mexe-se, vai mexendo até aquilo ficar com um caldo parecendo leite. Com a mão e um pano vai passando na parede e no piso da casa. Tabatinga no piso não é comum. Habitualmente, passa-se a tinta branca, feita com tabatinga, só nas paredes.

- Era uma pena pisar numa coisa tão limpa, quando deparávamos com os pisos pintados de branco da tabatinga.

No almoço, outra surpresa. Nunca vi tanta comida e nem tanta variedade. Carnes, mais de dez tipos. A farinha parecia feita para ter o sabor de alguma coisa inexplicável. Aquelas pessoas chegavam aos poucos, rezavam sempre sob o comando de dona Maria. Com os pratos se retiravam para os seus lugares e eu tive o meu ao lado do seu Joaquim. Depois do almoço e dos doces de goiaba, de coco, de manga, de banana, de laranja, de leite, de melancia, dona Maria mandou que uma de suas filhas lesse para nós a poesia que fala de um homem que ouvia as estrelas e do amor.

“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto....


Quando caminhávamos, em silêncio, pelo cemitério, ouvíamos nossos passos, ouvíamos o ranger das cordas e dos couros, a respiração dos animais e também a respiração daqueles mais próximos. Eu caminhava sozinho na frente e tinha medo. Olhei para o céu....

Direis agora: “Tresloucado, amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?”


...no céu, uma estrela brincava. Ou eram muitas? Ou eram todas? Uma correria de estrelas em todas as direções. Na roça, em lugares assim, mais altos, dizem, que o céu e as estrelas parecem cair sobre a terra.

E eu vos direi: “Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas”.


Vi lágrimas nos olhos da menina que leu aqueles versos de Olavo Bilac, vi lágrimas nos olhos de seu Joaquim.

Ela repetiu os últimos versos

E eu vos direi: “Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas”.


Fim

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

NA CONTRA-MÃO



(Para onde vão os filhos)

Ao sair da avenida Brasil e entrar na rua Padre Marinho, logo depois do posto, o carro na fila dupla e na minha mão impedia a passagem. O motorista na fila dupla brigava com uma mulher que saiu do carro.

A opção era a contra mão. Esperei um pouco e quando o movimento na contra-mão reduziu, entrei. Neste momento, o cara que brigava com a mulher arrancou e quase batemos.

Eram 17h30. Tempo mais para escuro, mais para o anoitecer que chegava.
Algumas pessoas gritam e alertam para o choque que não aconteceu. Buzinei. Parei mais na frente.

Quem gritou foi o Taquinho.
- Cara, você ia bater!
- Se tivesse batido, o errado seria eu. Devia ter esperado a briga, o casal se desentender de vez ou se entender.
- Se batesse na contra-mão, o erro seria seu mesmo
- Se ele batesse em mim, o erro seria meu também.

Taquinho fala que mudou a oficina para a garagem ao lado da sapataria para onde voltava, hora marcada, para buscar os sapatos e salto de Bela e Quel.

Taquinho tinha uma oficina especializada em rádio para carro e a sua oficina era na rua Manaus, três quarteirões dali. Estranhei ele estar ali.

- Mudei

Pediram o ponto. Antes dele, o sapateiro Seu João fechara seu ponto de mais de 50 anos.

- Pediram o ponto, devem demolir a área.

Taquinho me mostrou a sua nova loja, uma garagem ampla e coberta.

Na outra loja, havia também uma garagem, necessária para a sua oficina, estacionamento e serviços, sempre rápidos, consertar rádios, instalá-los. Nos testes, o som sempre alto.

Naquela tarde, antes, quando levei os sapatos, um senhor, com um livro surrado na mão, permitiu que eu estacionasse na frente da sua garagem. De outras vezes, ele me autorizara certo de que minha passagem era sempre rápida. Seria o dono da garagem? Não era. Disse que podia ir tranqüilo que avisaria ao pessoal da garagem onde eu estava. Me chamaria.

Jogo rápido. Deixei os sapatos. Voltaria às 17h30m para buscá-los.

O livro nas mãos do senhor Velho era de filosofia.

- O senhor gosta de filosofia?

- Gosto. É a minha vida. Tenho uma biblioteca selecionada. Não estudei filosofia na escola. São importantes estes cursos de quatro anos. Sei que são. Você aprende filosofia e depois ensina. A filosofia que sei e que quero é para mim e eu sei os meus caminhos. Lia filosofia aprendendo língua. Francês, por exemplo. Aí pergunto.

- O que é filosofia?

- O que é filosofia? O que é ser filósofo?

Mais baixo, ele se colocou na minha frente. Seguro, confiante, cheio de disposição disse que iria me responder nas palavras de um filósofo francês.

- Para este francês, a filosofia é a arte de reaprender a ver o mundo.

Devo ter feito uma cara de interrogação. Algo como não entendi. Ou... e aí?

Ele foi pronto, rápido.

- Imagine que uma filha, filha única, que more com o Velho Pai. Uma vida toda de grande e profunda amizade e admiração entre os dois. Um dia, esta filha comunica que iria morar numa república de estudantes com outras três colega. Em outro tempo, um pai se julgaria abandonado, julgaria a filha como uma devassa, uma mulher atrás da orgia e disposta a jogar sua juventude onde o prazer lhe viesse farto, diário, sem compromissos. Outro pai, outro tempo, pensaria que a filha se prostituiria ou, melhor hipótese, seria iludida por amores fúteis e fugazes. Outro, mataria a própria filha certo de que evitaria para ela tantos sofrimentos inimagináveis. Outro pensaria no abandono, na ingratidão, uma filha que abandona o pai para viver uma vida... incerta.

....

Fizemos silêncio. Ele se refez.

- Filosofia é isto, filosofia é reaprender a ver o mundo. O mundo é dinâmico. Eu vejo o mundo. Você vê o mundo. Um matemático também é capaz de ver e calcular o mundo. E o mundo é um aprendizado, é um descobrir-se. Todos os dias o mundo pode nos surpreender e nos fazer melhores, mais compreensíveis, mais magnânimos, mais ambiciosos e mais sábios, inteligentes, capazes de deslumbrar-se.

Ele se preparou para concluir.

- E quem é o filósofo? O filósofo é aquele que desperta e fala.

- Quem é o francês?

- Merleau-Ponty.

Disse que pegaria papel e caneta.

- Vou anotar estas duas definições. Como é o nome do filósofo?

- Merleau-Ponty. Mer... ele, depois as vogais a, e e u.

- X?

- X não. E o Ponty é com y. A pronúncia é diferente de Ponti com i, o y fecha.

Ele pegou o papel.

- Vou escrever. Quem me introduziu na filosofia de Merleau-Ponty foi minha professora de francês. Sei da bobagem da exigência da pronúncia perfeita. Vale o pensar. A melodia do som das palavras francesas soa bem em nossos ouvidos portugueses. Isso foi o nosso vício, fez nossa intelectualidade, a beleza de alguns idiomas está em sua sonoridade, francês, italiano, o grego. O grego soa como o nosso português. Uma língua que nos surpreende e nos captura, nos engana.

Este encontro com o amigo de Merleau-Ponty foi duas horas antes do encontro com Taquinho.

A garagem e a nova oficina de Taquinho parecia mais espaçosa e aquele início da rua, quase esquina com a avenida Brasil, dará uma nova dinâmica para o trabalho e o negócio de Taquinho.

- A outra oficina, o apartamento era em cima. Você morava onde trabalhava. E agora?

Mudara para o apartamento dos irmãos.

- É o apartamento dos meus pais e hoje moramos lá quatro irmãos. Todos solteiros. O mais novo tem 45 anos e todos trabalham.

Conto a história deste Velho para um amigo que me liga. Envolvido com seu escritório de advocacia, ele quer ser objetivo e ir direto na informação que me passará para que eu divulgue. Uma informação exclusiva. Negociata do governador na construção da nova sede, preço alterado nas instalações elétricas.

Conto a história para a Mulher Alta. Ela está mais interessada em saber notícias do Taquinho e seu novo endereço. Precisa consertar o rádio do carro.

Começo a contar a história para a Mulher Magra. Ela entala.

Na tv, aparece um homem e um lugar. O homem é apresentado como um Plantador de Árvores. Milhares de árvores. O lugar é Hortolândia, em São Paulo. Lugar de muitas árvores e muitas flores.

A câmara mostra o quintal, inúmeras árvores, seriam milhares, todas plantadas por ele. Quintal limpo. O Homem Triste fala devagar.

- Sempre sonhei em conhecer este lugar, Hortolândia....- diz a Mulher Engasgada.

Ela repete algumas informações e conceitos ambientalistas e fala da beleza de vida daquele homem.

Olho de novo o rosto triste do Homem Triste.

- Ele plantou cada árvore, ele cuida de tudo. Viu a beleza e a limpeza do lugar?

A Mulher Magra hoje está sozinha, os filhos casaram e vivem em lugares diferentes e distantes. Os encontros são sempre felizes, em ocasiões festivas, programados, caros e rápidos. As histórias são “fantásticas”.

- Ela também é uma Mulher Triste.

Ainda passa pela fase de muito sexo e muitas descobertas. Volto à história do Filósofo da rua Padre Marinho. Desta vez, centro na história que serviu de exemplo para o conceito de filosofar, reaprender a ver o mundo.

- Reaprender? – ela quer voltar a tocar violão e terá que reaprender.

- Aquele Plantador de Árvores planta, planta e sabe muito sobre a arte de plantar árvores, mas você observou que ele é um Homem Triste?

Ela se surpreende com a minha observação, confirma que aquele homem, que poderia ser um Homem Feliz, era na verdade um homem de rosto profundamente triste.

- Todos os filhos dele moram no exterior.

Ele cala. Ela conhecia a história do Homem Triste.

- Não plantou filhos

- Filhos não se planta, não se fixa, não se prende, filho não é vegetal, não é árvore.

- Não cultivou filhos

Ela para sua caminhada em direção à cozinha.

- Ninguém cria filhos para si, filho é para o mundo.

- Suas árvores não dão a ele a alegria e nem fazem dele um Homem Alegre Filho, gente, pessoa é que faz a pessoa, gente, pai, filho, felizes. Por que os filhos foram embora? Por que os filhos fugiram das sombras das árvores? Por que os filhos correram para longe, para tão distante, que a hipótese da presença é acidental e improvável.

- Você está sempre atrasado, está sempre correndo para algum lugar. (Ela está na cozinha)

Repito a última definição do Velho Filósofo da rua Padre Marinho:

- O filósofo é aquele que desperta e fala.

DEUS É INSENSATO


A mais longa tarde de Werner Spaniol, o padre

Depois das palmas calorosas de todos, Werner Spaniol, nosso professor de Lógica, com uma obra sobre a filosofia de Wittigenstein, desceu cofiando sua barba branca. Parou na passagem, fora do prédio e, de costas para uma árvore frondosa, com cinco estudantes em volta, contou-nos a seguinte historinha como despedida:

- Dois filósofos estavam em um jardim, como este, e um deles apontou para uma árvore (Werner aponta para o vazio e eu olho; a árvore mais próxima é a que está atrás dele, para onde ele aponta não existe uma árvore tão próxima; mais distante vejo as copas de uma árvore sobre os telhados) . “Isto é uma árvore”, afirmou um dos filósofos, continua Werner contando a história. Ele, um dos filósofos, analisava uma proposição e o seu significado de verdade.
- “Isto é uma árvore”, afirmava, apontando para o vazio, quando por eles passa o jardineiro que olha assustado para os dois. Um filósofo chama o jardineiro e esclarece.
- Não se preocupe, nós estamos apenas filosofando.

Agora, a discussão

Era o segundo dia do Colóquio Filosófico, organizado pelos alunos do Centro de Estudos Superiores da Faculdade de Filosofia da Companhia de Jesus, em Belo Horizonte. Durante quatro dias seria discutida a seguinte questão: “É possível fazer afirmações verdadeiras sobre a realidade, ainda que sua validez não possa ser testada empiricamente?” Ainda segundo a proposta, se faria “uma abordagem tomando como caminho as respostas de Platão a Apel, passando por Wittigenstein, e considerando suas respectivas críticas”. O professor Werner Spaniol havia terminado a primeira parte da exposição em que pontuou sua observação de que se faria uma análise do uso predicativo dos conceitos de verdade e de verdadeiro, considerando as possibilidades de “...se é possível fazer afirmações...” Ele repassa a questão da possibilidade de conhecer a verdade, acentuada a partir de Descartes, coloca o problema epistemológico sobre “o que se entende por verdade” e lembra que é recente a questão da possibilidade de enunciar afirmações que possam ser verdadeiras ou falsas. A abordagem lógica e conceptual deságua nas teorias da verdade, que formulam, por sua vez, diferentes concepções do conceito de verdade. “A maioria dos pensadores concordam em que a verdade consiste na sua concordância com a realidade, através da relação existente entre a afirmação, o juízo e a sentença com a realidade. A diferença entre as diversas teorias sobre a verdade concentra-se no explicar o “como”.
Werner relaciona as principais teorias da verdade:
1. A Teoria da Abstração, em que os conceitos abstratos (mesa e flor, por exemplo, que estão ali na nossa frente) produzem afirmações como:
- A flor está sobre a mesa
A conexão dos conceitos foi produzida pelo intelecto, que captou a essência da mesa e a essência da flor para fazer a afirmação.
2. A Teoria Empirista considera que não existem os conceitos abstratos, mas a possibilidade de formar imagens, é a imagem da mesa e a imagem da flor que permitirão se produzir a observação contida na afirmação.
3. A Teoria do Atomismo Lógico gestada por Wittgenstein elimina esta ponte, só há a conexão entre a realidade e os átomos, os fatos. A mente capta os átomos mesa e flor que não são considerados nomes próprios. A mente faz o trabalho (estabelece) a conexão da palavra (nível da linguagem) e o objeto (atômico). O objeto lógico é simbolizado pelos nomes próprios existentes na língua (linguagem).
Aqui um primeiro questionamento:
- Não é com a linguagem que a gente pensa?
Werner Spaniol responde:
- O objeto está aqui (ele aponta para a mesa e a flor). Ele não está na minha cabeça. Ele não está na palavra. Só que você deixou de falar outras coisas, você escondeu e não falou.
O sorriso de Werner e a contundência tranqüila:
- A flor está sobre a mesa.
Ele afirma e observa, apontando para fora da sala de aula, para o lado de fora, para depois da porta fechada:
- Está lá fora a frase.
É a distância entre a realidade e a linguagem.
Ele agora entra na questão da verdade e a realidade. A primeira dificuldade é apontada pelo grupo empirista, o Grupo de Viena, que relaciona os Fatos e os Enunciados colocando-os em paralelo. Os fatos constituem a realidade do mundo e os enunciados a realidade linguística, a realidade dos conceitos.
Pode-se fazer um paralelo entre a cor da flor e a flor da mesa, entre o tamanho da porta e o tamanho da janela. Existe algum sentido. Como comparar, entretanto, o tamanho da janela com a cor da flor?
Outras dificuldades surgiram e, entre elas, o questionamento da correspondência.
- Se a verdade consiste na correspondência entre afirmação e realidade.
É verdadeira quando concorda com a realidade.
- Com que realidade.
Há, então, a fuga da idéia de correspondência. Se o problema está na correspondência busca-se a coerência, daí a Teoria da Coerência em que se busca uma harmonia entre o pensar e a realidade.
De onde se extrai o fato?
Da língua - está na linguagem.
Quem diz é a própria afirmação. Um círculo vicioso que pode ser figurado na história do telefonema quando uma pessoa liga para outra e pergunta:
- De onde fala?
E a outra pessoa responde:
- Do número que você ligou.

Não é a realidade que falo - é a minha afirmação que me diz.
De Wittigenstein, ele cita
“A harmonia entre pensamento e realidade...”
O conceito é de G. Hallett, um norte-americano que deu aulas na Gregoriana e que agora voltou para os EUA. A questão é de Wittigenstein.
A verdade repousa numa correspondência que coloca em paralelo as palavras e a realidade, os conceitos e a realidade, os juízos e a realidade, as palavras, os conceitos e os juízos, de um lado, e os fatos do mundo, as coisas do mundo, a realidade, de outro lado.

- A palavra vermelha como é usada, normalmente, pelos falantes da língua? Como ela é usada?
Pergunta Werner.
- Qual o significado da palavra vermelha?
- O que é ser vermelho? É não ser azul?
- Como ela, a palavra vermelha, é ensinada?
- Não há como ver - afirma Werner.
- No aprendizado da palavra vermelha, a cor está presente (o vermelho) pela ausência (não é azul).
Afirma Werner.

Um passo a frente, agora

- O uso da língua é que faz o ensinamento e a verdade consiste na correspondência do uso na ocasião e do uso estabelecido na língua e o fato atomizado.
Olhar para a língua e ver um fenômeno que é comum na língua.
- Os significados não são atômicos.
A palavra mesa não é uma significação para o objeto, basta levar a mesa para uma tribo primitiva que jamais usou, fez ou conhece uma mesa.

É neste sentido que as palavras são atômicas e que a palavra mesa não terá significação para o objeto.
Uma palavra se sustenta muitas vezes quando está amparada por outras palavras (ou pela palavra rival)

Deus é sábio e Deus é estúpido
Deus é sábio e Deus é insensato
(pode ser a mesma coisa)

Aí a senha para a grande discussão da tarde e para o final apoteótico que vimos no início

Isto será verdadeiro se o emprego da palavra mais se aproximar do uso do que de palavras rivais (sábio/estúpido, sábio/insensato, sábio/estulto).
A frase toma um sentido mais preciso na sentença trans-empírica.

Pausa para reflexão dentro da palestra, durante a palestra:

Um parêntese

Dobro sobre a mesa e chamo a atenção do Paulo Roberto para a sacralização da sentença política mineira que garante que o que vale não é o fato, mas a versão do fato.

Isto é política pura.

(Da minha cabeça não sai a obra de Espinosa sobre a função da gramática judaica - obra que não li senão por aproximações).

O importante não é a verdade, mas a versão que damos da realidade
A linguagem limita
impede
destrói
a verdade

ou constrói uma verdade (uma versão da realidade)
ou...a verdade não é singular, é plural, são muitas as verdades possíveis diante dos fatos da realidade, onde ganha força a questão da versão no pensamento político e nas análises sociológicas das pesquisas do dia a dia da realidade e da vida virtual,
a verdade impede a categórica afirmativa
ou pelo menos não a impõe.

Fechando o parêntese e voltando à sala de aula

Agora, de volta ao uso estabelecido (que se dá na língua) e o uso na ocasião.
- A caneta é vermelha.
Qual o critério, como vai se chegar a definir a verdade a partir de se saber como se dá, qual o critério, para a definição do uso estabelecido, para se saber o uso na ocasião?
A pergunta é do seminarista africano, no fundo da sala.
Werner é categórico.
- Conhecendo a língua, o uso é o uso da língua, conhecendo as palavras da língua e seus significados. Qual é o código que se está usando?
Do fundo da sala, volta a insistente afirmação de como se codifica e decodifica o vemelho em outras línguas, vermelho, red, rouge são significados para o mesmo vermelho.

Questão ainda colocada de lado. Ela voltará.

Na frente da sala, bem debaixo de Werner, um outro africano observa:
- Não é possível, então, com a língua fazer metafísica?
E Werner sorri, leva as duas mãos ao rosto - é a sua resposta.
- Não é possível a metafísica?
Do fundo volta.
- Nas várias línguas vermelho, red, vermelho e red - o que é vermelho?
Língua é gramática, sintaxe, palavra e realidade, traduzir a palavra basta na língua, em um nível mais básico tudo é comum para o ser humano.
(O que é comum?
Dor
Fome
Sexo. O básico)

Não é possível elaborar uma metafísica com a linguagem.
O que nos referimos quando tratamos do trans-empírico?
Trans-empírica --------------- metafísica

Lá vem a questão de um aluno à esquerda:

- A realidade está dentro da linguagem...
(lembro-me de Marx, das teses sobre Feuerbach)
-... a linguagem está dentro da realidade????

A voz clara e pausada vem do fundo mais uma vez:
- O que é vermelho? Red, vermelho, rouge... Nem sempre qualquer termo da linguagem pode ser aplicado a deus, ao deus cristão, só o positivo, nunca o negativo, deus é sábio, no conceito positivo pode-se ser mais ou menos sábio. Não se pode abordar o deus cristão com qualquer exposição negativa. Não se pode usar o negativo para se analisar e tratar da questão deus. Ao contrário se chegou ao tirar os limites, mas também não se pode conceber o infinito, não há infinito, há limites.
Werner ouve e há em seu rosto seu eterno sorriso. É um filósofo alegre. “Estamos apenas filosofando”, disse o filósofo ao jardineiro. Não somos loucos, somos mais que isto.
- Uma é mais precisa
se tem uma idéia mais clara
(Tirar os limites. Deus é sábio..........................................................................................espicha, espicha............................................................... Deus é insensato................)

A voz forte, clara, é a voz da autoridade. Ela volta:

- Não se pode usar o insensato.

Silêncio. Em Werner o sorriso é Werner.

- Não é válido dizer de deus, um deus cristão, uma afirmativa negativa.
Um aluno observa que o pressuposto é o sentido trans-empírico e que a afirmativa pode ser extraída da negação, aí serão duas as negações, nem sábio e nem insensato, extrai-se toda a antropomorfização, extrai-se a linguagem, extrai-se tudo. O critério do rival é válido, mas insuficiente, sem a extensão.

Como explicar a extensão, como entender o limite e como entender o infinito, seria a explicação pelo oposto, pelo termo rival, total abertura linguística, não há expressão pura, senão aproximações, pela linguagem).

Silêncio na sala do segundo andar, 16h33, 26 de abril, quarta-feira.

As palmas explodem, Werner sorri, as palmas continuam, Werner, magrelo, barba branca, cofiando a barba caminha em direção à porta, as palmas continuam, são mais forte, não se interrompem, Werner caminha, Werner sorri. De quê o Werner sorri? Fecho os meus cadernos e vou me despedir e cumprimentar o Werner. Eu sei de quê Werner sorri. Werner sorri da nossa sã ignorância. Do nosso louco filosofar.

- Estamos apenas filosofando, disse o filósofo para o jardineiro.
Imagino o que se passa na cabeça do jardineiro, certamente uma afirmativa verdadeira e categórica.

- São uns malucos, uns loucos... A árvore...